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quarta-feira, 6 de junho de 2018

Firmes na Verdade e na Graça de Deus

“E o próprio nosso Senhor Jesus Cristo, e nosso Deus e Pai, que nos amou e em graça nos deu uma eterna consolação e boa esperança” 2Ts 2.16


“Paulo sabia que os tessalonicenses iriam enfrentar pressões das perseguições, dos falsos pregadores ou ensinadores, do materialismo, e da apatia. Eles se sentiriam tentados a se afastar da verdade e até mesmo a deixar a fé. Com tudo isto em mente, Paulo insistiu para que eles estivessem firmes e retivessem as tradições que lhes tinham sido ensinadas por ele e por seus cooperadores. Os tessalonicenses tinham recebido muito ensino pessoalmente, e tinham também as cartas de Paulo. Eles precisariam se agarrar à verdade que lhes tinha sido ensinada.

Por intermédio da sua graça. Deus e Cristo deram aos crentes uma eterna consolação e boa esperança. O cristianismo não é uma crença de perguntas e preocupações, nem uma crença na qual os crentes precisem esperar até o final para ver se conseguirão alcançar o objetivo maior. Na verdade, os crentes recebem esperança e incentivo com a certeza das promessas de Deus. Entretanto, orar pelos crentes de todas as partes é algo que sempre será útil, especialmente por aqueles que enfrentam perseguições por causa da sua fé, para que Deus os console e lhes dê conforto para que continuem fazendo a boa obra” (Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Volume 2. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2010. p.468).

Em tempos de crise a melhor mensagem que pode ser anunciada a uma comunidade é a de consolação.

Texto Bíblico - 2 Tessalonicenses 2.13-17

INTRODUÇÃO

A parte final do segundo capítulo de 2 Tessalonicenses trata a respeito do destino que Deus tem para os santos, em comparação com o que vinha sendo tratado anteriormente a respeito do estado final dos desobedientes (2Ts 2.10-12). Os santos serão alcançados pelo amor eterno do Pai. Paulo discorre por que os santos devem permanecer em paz e tranquilidade. Nesse esforço de fundamentar o consolo sempiterno de Deus para o justo, o apóstolo constrói uma magnífica referência à Trindade. Nos versículos 13 e 14, Paulo demonstra que o penhor da salvação é constituído por meio de uma obra realizada pelas três pessoas da trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

I. A AÇÃO DA TRINDADE NA VIDA DO SALVO

1. Eleitos pelo Pai (v.13)
A obra da salvação não é uma realização desprovida de sentido, como se fosse uma saída de improviso realizada por um Deus que teria sido pego de surpresa diante do pecado do primeiro casal. O Pai em sua bondade nos elegeu por meio de seu Filho Unigênito Jesus Cristo desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4). O fato de o Cordeiro ter sido morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8), nos mostra o propósito eterno de Deus em prover salvação à humanidade. Somos eleitos pelo sacrifício do Filho e não há outro caminho para nós. Nunca possuiríamos méritos suficientes para fazermo-nos dignos da salvação, pois esta é uma obra exclusiva de Deus. Portanto, uma vez conscientes disso, devemos operosamente desenvolver nossa salvação (Fp 2.12). Não desprezemos a obra de Cristo por nós e já manifesta em nós, antes; vivamos como filhos da luz, nascidos do alto, restaurados em Cristo.

2. Santificados pelo Espírito (v.13b)
Uma vez chamados à salvação pelo Pai, é o Espírito Santo, que numa obra de transformação contínua, faz Cristo manifesto em nós (Cl 1.27,28). Como prometido por Jesus, não estamos órfãos neste mundo, temos a presença acalentadora do Santo Espírito que, numa relação simultânea de consolação e orientação, guia nossa trajetória no curso de nossa jornada ao céu (Jo 14.18; 16.7-11). Nossa luta cotidiana contra as astutas ciladas do inimigo somente pode ser superada por meio da ação do Espírito em favor de nós, o qual constantemente aperfeiçoa-nos o caráter de modo a tornarmo-nos, progressivamente, imitadores de Deus manifestando cada vez mais nossa condição de filiação (Ef 5.1). A ação do Espírito é incessante em nossa vida, pois enquanto estivermos no caminho para o céu temos muito o que nos aperfeiçoar (2Co 7.1).

3. Vocacionado para a glória do Filho.
A promessa feita por Jesus a nós é que onde Ele estiver (na eternidade) nós estaremos com Ele (Jo 14.3). A oração do Mestre ao Pai em nosso favor era para que nós fôssemos participantes da glória que Ele vivenciara antes da fundação do mundo (Jo 17.24). Não possuímos uma vocação para uma vida imortal aqui na terra; ao contrário, somos convidados a abandonar todas as coisas que aqui são perecíveis e passageiras em nome de uma chamada para aquilo que é eterno. O ponto áureo da salvação não é a isenção de sofrimentos terrenos ou a promessa de galardões celestiais; o ápice da redenção é a certeza de que experimentaremos uma eternidade na presença de Jesus, em comunhão com Ele. Nosso maior bem é o Senhor, e todas as demais coisas, na presença dEle, constituem-se em nada.

II. A FIRMEZA DO CRISTÃO

1. Persistência no ensino dos apóstolos.
Diante de um quadro de falsas profecias no seio da igreja local e charlatões da fé, é necessário fixar um ponto de segurança. Tal ponto, sem dúvida alguma, é a Bíblia Sagrada. Essa foi uma exortação paulina à Igreja em Tessalônica (vv.15,17). Para evitar a propagação de heresias e falsos ensinos, Paulo recomendou àquela comunidade que persistisse no modelo de cristianismo que havia recebido, tanto por meio do testemunho vivo dos pregadores do genuíno Evangelho, como por meio das orientações escritas que já circulavam pelas igrejas. Nossa fé, para ser madura, precisa ter alicerces sólidos, e a Palavra é o melhor e mais confiável de todos (Lc 6.46-49).

2. Convicção nas tradições.
Para além da doutrina — infalível, imutável e fundamentada exclusivamente nas Escrituras — cada igreja local possui uma série de costumes e tradições que garante o bem-estar dos relacionamentos locais. A orientação do apóstolo é que os tessalonicenses também se mantenham firmes nessas práticas (v.15). Há em nossa geração um “culto ao novo”, de tal maneira que alguns líderes de jovens procuram incessantemente a fórmula para o culto perfeito. Nesta busca desenfreada o culto virou “balada” e muitos jovens estão se perdendo. Precisamos de novidade de vida (Rm 6.4), e não apenas de coisas novas. Não devemos ter vergonha de nossas tradições, pois foram elas que nos trouxeram até onde estamos. Não precisamos de novos costumes, basta nos revestirmos de significado para este tempo.

3. Confirmados em boas obras.
A salvação de Deus em nossa vida produz um impulso positivo para a prática de boas obras (Ef 2.10). A fé dos tessalonicenses seria comprovada por meio da adoção de um estilo de vida que espelhasse o testemunho de Cristo. Para usar uma metáfora paulina podemos dizer que demonstrar nossa comunhão com Jesus na sociedade atual é similar a exalar uma excelente fragrância (2Co 2.15). O mundo ao nosso redor não conhece a Cristo e de muitos modos rejeita sua Palavra, cabe-nos então, por meio de uma vida piedosa e edificante, pregar o Evangelho sempre, inclusive quando estivermos em silêncio. Não se pode esconder uma cidade construída sobre uma montanha, os sinais de sua existência manifestam-se de modo natural (Mt 5.14). Assim, aquilo que somos espontaneamente se revela em nosso falar e proceder.

III. O CONSOLO DE DEUS AOS SANTOS

1. Confortados em amor e graça.
Tendo refletido anteriormente a respeito do final dos injustos (2Ts 2.10-12) e sobre a bênção eterna da salvação, Paulo fala a respeito do consolo dos cristãos. A fonte do conforto anunciado pelo apóstolo não são as circunstâncias humanas favoráveis ou os bens materiais que aqueles irmãos poderiam possuir, mas a maravilhosa graça e o grande amor de Deus.

2. Eternamente consolados.
Deus deseja construir algo de eterno em nós. Por isso, o Espírito que nos consola é eterno (Hb 9.14). O Reino para onde somos chamados é eterno (2Pe 1.11), o propósito dEle para conosco é eterno (Ef 3.11). Mas não apenas isso, o consolo que o Senhor oferece-nos é sem fim (2Ts 2.16). Por isso, não devemos nos angustiar se, por alguma circunstância aleatória, as coisas não estão conforme nossos planos. Devemos crer que o amanhã que nos está preparado é sem lágrimas, desesperos ou medos (Rm 8.18). Se é para a eternidade que somos vocacionados, não devemos nos iludir com os efêmeros encantos que este mundo pode nos oferecer.

3. Intimamente aliviado.
O alívio que Paulo anuncia a Igreja em Tessalônica é algo profundo, manifesto no interior dos irmãos; é consolo para o coração (2Ts 2.17). Vivemos em tempos difíceis. De uma maneira geral, as pessoas teatralizam suas vidas: fingem ser felizes, mascaram seus medos, fazem de suas vidas uma patética representação. Não foi para exterioridades que o Senhor nos vocacionou. Deus nos chamou para uma restauração interior. Chega de superficialidade! O Evangelho é algo mais profundo. Está diretamente relacionado com o nosso ser, nosso interior, nosso coração.

CONCLUSÃO

As palavras de Paulo àquela comunidade tinham como objetivo o desenvolvimento sadio dos crentes. Eles nem deveriam angustiar-se quanto às coisas futuras, muito menos estarem aflitos com relação ao seu estado eterno. Consolo é a palavra-chave para entender este momento da escrita apostólica aos irmãos em Tessalônica. Que a certeza de consolo para aqueles irmãos fortaleça também nossos corações.

SUBSÍDIO
“Algumas pessoas questionam a conclusão de que Tomás de Aquino considerava a Bíblia como única revelação de Deus à Igreja apelando para o seu comentário sobre 2 Tessalonicenses 2.15, no qual ele diz que ‘muita coisa não foi escrita pelos apóstolos e que, portanto, também devem ser observadas’. Entretanto, esta interpretação despreza o contexto e o restante da sua citação (de 1Co 11.34), na qual Paulo diz: ‘Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for ter convosco’. No contexto dos apóstolos vivos, sim, havia ainda autoridade apostólica não-escrita. Entretanto, depois da morte deles, Tomás de Aquino jamais parece se referir a qualquer tipo de autoridade apostólica ou revelatória que excedesse a Bíblia. A sua única referência isolada (em Jó) à queda do Diabo como sendo parte da ‘tradição da igreja’ pode facilmente ser compreendida como ‘ensino’ da igreja baseado nas Sagradas Escrituras. Afinal de contas, Tomás de Aquino cria que muitas passagens bíblicas claramente ensinam a queda de Satanás tanto antes (cf. Gn 3) quanto depois de Jó (cf. Ap 12), e ele próprio as cita” (GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Volume 1. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2010. p.272).

Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 2º Trimestre de 2018 - Título: A Igreja do Arrebatamento — O padrão dos Tessalonicenses para estes últimos dias - Comentarista: Thiago Brazil


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

A identidade do Espírito Santo

Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” 1Co 3.16

A identidade do Espírito Santo

A concepção milagrosa de Jesus de Nazaré é uma demonstração maravilhosa da divindade do Espírito Santo: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35). Conforme afirma o Credo Niceno-Constantinopolitano, o “Espírito Santo é Senhor, doador da vida, procedente do Pai. O qual com o Pai e o Filho juntamente é adorado e glorificado, o qual falou pelos profetas”. Logo, não se trata de uma energia, ou emanação de alguma força ativa, mas de uma pessoa divina que age de maneira maravilhosa na vida do ser humano: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça, e do juízo: do pecado, porque não creem em mim; da justiça, porque vou para meu Pai, e não me vereis mais; e do juízo, porque já o príncipe deste mundo está julgado” (Jo 16.8-11). O Espírito Santo é uma pessoa que confronta o ser humano a fim de convencê-lo a crer em Jesus; que atua no sentido de gerar nele uma disposição para a retidão, integridade e santidade; e traz a consciência de que todas as pessoas prestarão contas a Deus de todos os atos que praticaram no mundo.

O Espírito promove santidade
Não por acaso a expressão “Espírito Santo” consta nas Escrituras. Ora, a palavra “santo” significa “puro”, “limpo”. Tudo o que é santo significa que foi separado por Deus para fazer a Sua vontade, pois se torna propriedade exclusiva de Deus. Nesse sentido, o Espírito é chamado “Santo” porque Ele é mencionado também nas Escrituras como o Espírito de Deus, o Espírito do Senhor, o Espírito de santificação (Rm 1.4) para direcionar e guiar a nossa vida. Assim, pelo Espírito Santo, somos conduzidos a vivermos uma vida de santidade e pureza. Nele não há mentira, pois revela a verdade sobre Jesus (Jo 16.14) e sobre nós mesmos (Sl 51.16). Não podemos mentir ao Santo Espírito, Ele conhece tudo em nossa vida e discerne o desejo do nosso coração (At 5.1-6). Ele é Santo e Verdadeiro!

Atuação do Espírito em nossa consciência
Quão imensuráveis são as maldades humanas?! Sem o auxílio divino, é impossível que a pessoa retroceda em suas maldades. Mas o Espírito Santo não descansa em trabalhar em nossa consciência, procurando que ela não se cauterize, isto é, fique indiferente aos seus apelos (1Tm 4.1-3). O Santo Espírito age para nos purificar e, assim, experimentarmos o maravilhoso perdão de Deus, fruto do seu amor por nós. Revista Ensinador Cristão nº71

Cremos que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, Senhor e Vivificador, que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo, regenera o pecador, e que falou por meio dos profetas.

Leitura Bíblica: João 14.15 - 18,26

As Escrituras Sagradas revelam a identidade do Espírito Santo, sua deidade absoluta e sua personalidade, sua consubstancialidade com o Pai e o Filho como Terceira Pessoa da Trindade e suas obras no contexto histórico-salvífico. Todos esses dados da revelação só foram definidos depois do Concílio de Niceia. A formulação da doutrina pneumatológica aconteceu tardiamente na história da Igreja, na segunda metade do século IV. A presente lição pretende explicar e mostrar como tudo isso aconteceu a partir da Bíblia.

Cremos que o Espírito Santo é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

“O Antigo Testamento manifestou claramente o Pai e, obscuramente, o Filho. O Novo manifestou o Filho e, obscuramente, indicou a divindade do Espírito Santo. Hoje, o Espírito habita entre nós e se dá mais claramente a conhecer” (Gregório de Nazianzo). Embora o Credo Niceno termine com as seguintes palavras: “Cremos também em um só Espírito Santo”, não há informações sobre a identidade do Espírito Santo. Segundo Gregório de Nazianzo, a revelação das três Pessoas da Trindade foi gradual. Uma vez definida a cristologia em Niceia, faltava agora definir a doutrina da terceira Pessoa da Trindade. Esse tema só foi concluído depois da segunda metade do século IV.

Segundo Stanley M. Horton, a doutrina do Espírito Santo nunca havia recebido um tratamento justo nos tratados de teologia antes do Avivamento da Rua Azusa: “Os antigos compêndios de teologia sistemática, em sua maioria, não possuem nenhum capítulo sobre pneumatologia” (HORTON, 2001, p. 9). Eruditos, durante e depois do Avivamento da Rua Azusa, empreenderam vários estudos sobre o Espírito Santo, sobre o batismo no Espírito Santo, sobre a glossolalia e sobre os dons do Espírito Santo. Obtiveram avanços significativos. A erudição não anula o fervor espiritual da fé cristã pentecostal.

É o Senhor Jesus o centro da mensagem pregada pelas Assembleias de Deus. Ainda há entre os evangélicos quem diga que a ênfase é o Espírito Santo acima de Jesus. O Pr. George Wood, presidente da Convenção Americana das Assembleias de Deus, numa entrevista à revista Christianity Today, edição de 29 de junho de 2015, fala em quatro grandes erros a respeito das Assembleias de Deus: 1) a crença no Cânon aberto, 2) a ênfase do Espírito Santo acima de Jesus, 3) a prática espiritual elitista e 4) a teologia da prosperidade. Ele rebate cada ponto explicando a fé assembleiana.

O ESPÍRITO SANTO NAS ESCRITURAS SAGRADAS

Sua divindade
O Espírito Santo é chamado de Senhor nas Escrituras Sagradas: “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Co 3.17 – ARA). Os nomes Deus e Espírito Santo aparecem alternadamente na Bíblia: “Porque encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, e retivesses parte do preço da herdade? ... Não mentiste aos homens, mas a Deus” (At 5.3, 4). Veja que Deus e o Espírito Santo aqui são uma mesma divindade. Primeiro o apóstolo Pedro diz que Ananias mentiu ao Espírito Santo, e depois o mesmo Espírito é chamado de Deus. O apóstolo Paulo também emprega esse tipo de linguagem: “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Co 3.16). Isso vem desde o Antigo Testamento: “O Espírito do SENHOR falou por mim, e a sua palavra esteve em minha boca. Disse o Deus de Israel, a Rocha de Israel a mim me falou” (2 Sm 23.2, 3). Da mesma forma o Espírito Santo é chamado de “Javé” ou “SENHOR” nas nossas versões de Almeida. Compare ainda Juízes 15.14; 16.20 e Números 12.6; 2 Pedro 1.21.

Jesus prometeu dar aos seus discípulos “outro Consolador” (Jo 14.16). A palavra “outro” aqui corresponde ao original grego allos, que significa “outro”, mas da mesma natureza, da mesma espécie e da mesma qualidade.

Segundo A. T. Robertson, “outro da mesma classe (allon, não héteron)” (ROBERTSON, vol. 5, 1990, p. 279). O termo grego para “Consolador” é paráklētos, que significa “ajudador”, “alguém chamado para auxiliar”, um “advogado”. Essa mesma palavra aparece em 1 João 2.1 com este significado: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis: e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo”. Em outras palavras, Jesus dizia aos seus discípulos que estava voltando para o Pai, mas que continuaria cuidando da Igreja, pelo seu Espírito Santo, seu Paraklētos, um como ele, que teria o mesmo poder para preservar o seu povo.

São inúmeras as obras de Deus efetuadas pelo Espírito Santo. Ele gerou a Jesus Cristo (Lc 1.35), dá a vida eterna (Gl 6.8) e guia o seu povo (Is 63.14; Rm 8.14; Gl 5.18), pois é o Senhor da igreja (At 20.28) e o santificador dos fiéis (1 Pe 1.2). O Espírito habita nos crentes (Jo 14.17), é autor do novo nascimento (Jo 3.5, 6), dá a vida (Ez 37.14; Rm 8.11), regenera (Tt 3.5) e distribui os dons espirituais (1 Co 12.7-11).

A divindade do Espírito Santo é revelada na Bíblia, por meio de seus atributos divinos, como acontece com o Senhor Jesus Cristo. Ele é onipotente (Rm 15.19) e fonte de poder e milagres (Mt 12.28; At 2.4; 1 Co 12.9-11). A onipresença é outro atributo incomunicável de Deus presente na terceira Pessoa da Trindade, o que mostra ser ele onipresente (Sl 139.7-10). Por ser onisciente, Ele conhece todas as coisas, até as profundezas de Deus (1 Co 2.10, 11), o coração do homem (Ez 11.5; Rm 8.26, 27; 1 Co 12.10; At 5.3-9) e o futuro (Lc 2.26; Jo 16.13; At 20.23; 1 Tm 4.1; 1 Pe 1.11). Possui também o atributo da eternidade, pois é chamado de “Espírito eterno” (Hb 9.14). A palavra asseidade advém do latim aseitatis, que vem de dois termos – a se significa “por si” ou “autocausado”, ou seja, diz respeito à existência por si mesmo e serve para designar o atributo divino segundo o qual Deus existe por si próprio. Assim como o Pai e o Filho, o Espírito Santo é autoexistente, ou seja, não depende de nada fora de si para existir. Ele sempre existiu. É o Criador do homem e do mundo (Jó 26.13; 33.4; Sl 104.30) e, também, o Salvador (Ef 1.13; 4.30; Tt 3.4, 5).

A Palavra de Deus apresenta, de igual modo, seus atributos comunicáveis, como a santidade, pois o Espírito Santo é santo (Rm 15.16; 1 Jo 2.20). Essa santidade do Espírito é única e real, absoluta e perfeita; não se trata, pois, de uma santidade cerimonial, mas de algo inerente à sua natureza. Ele é a verdade (1 Jo 5.6), é sábio (Is 11.2; Jo 14.26; Ef 1.17), bom (Ne 9.20; Sl 143.10) e verdadeiro (Jo 14.17; 15.26; 16.13; 1 Jo 5.6).

Sua personalidade
A personalidade do Espírito Santo está presente em toda a Bíblia de maneira abundante e inconfundível e tem sido crença da Igreja desde o princípio. Há nele elementos constitutivos da personalidade, como o intelecto; ele penetra todas as coisas (1 Co 2.10, 11) e é inteligente (Rm 8.27). Ele tem emoção, sensibilidade (Rm 15.30; Ef 4.30) e vontade (At 16.6-11; 1 Co 12.11). As três faculdades – intelecto, emoção e vontade – caracterizam a personalidade.

Os substantivos gregos apresentam três gêneros: masculino, feminino e neutro. O termo grego pneuma, usado amplamente no Novo Testamento para “espírito”, é substantivo neutro. O pronome demonstrativo na frase: “aquele Espírito da verdade” (Jo 15.26; 16.13) e o pessoal, em “Ele me glorificará” (Jo 16.14) estão no masculino. Isso revela a personalidade do Espírito Santo.

Outra prova da personalidade do Espírito Santo é que ele reage a certos atos praticados pelo homem. Pedro obedeceu ao Espírito Santo (At 10.19, 21); Ananias mentiu ao Espírito Santo (At 5.3); Estêvão disse que os judeus sempre resistiram ao Espírito Santo (At 7.51); o apóstolo Paulo nos recomenda não entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30); os fariseus blasfemaram contra o Espírito Santo (Mt 12.29-31); os cristãos são batizados em seu nome (Mt 28.19).

A Bíblia revela os atributos pessoais do Espírito Santo.
Ele ensina (Jo 14.26), fala (Ap 2.7, 11, 17), guia (Rm 8.14; Gl 5.18), clama (Gl 4.6), convence (Jo 16.7, 8), testifica (Jo 15.26; Rm 8.16), escolhe obreiros (At 13.2; 20.28), julga (At 15.28), advoga (Jo 14.16; At 5.32), envia missionários (At 13.2-4), convida (Ap 22.17), intercede (Rm 8.26), impede (At 16.6, 7), se entristece (Ef 4.30) e contende (Gn 6.3).

O Espírito é do Pai (1 Co 2.12; 3.16) e do Filho (At 16.7; Gl 4.6).

Filioque é um termo latino que significa literalmente “e do filho”, usado em teologia para indicar a dupla processão do Espírito Santo, do Pai e do Filho (Jo 15.26; 20.22). A divindade possui uma só essência ou substância indivisível, e Pai, Filho e Espírito Santo são três hipóstases, ou seja, “forma de existir”. Usa-se comumente na teologia o termo “Pessoa” por falta de uma palavra mais precisa na linguagem humana para descrever cada uma dessas identidades conscientes. Quando se fala a respeito do Espírito Santo como terceira Pessoa da Trindade, isso não significa terceiro numa hierarquia, mas porque aparece em terceiro lugar na fórmula batismal: “batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). As três hipóstases ou Pessoas são iguais em poder, glória e majestade, e não há entre elas primeiro e último.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“O divino Consolador tem pleno poder sobre todas as coisas. Ele tem poder próprio. É dEle que flui a vida, em suas dimensões e sentidos bem como o poder de Deus (Sl 104.30; Ef 3.16). Isso é uma evidência da deidade do Espírito Santo. Ele tem autoridade e poder inerentes, como vemos em toda a Bíblia, máxime em o Novo Testamento.
Em 1 Coríntios 2.4, na única referência (no original) em que aparece o termo traduzido por ‘demonstração do Espírito Santo’, designa-se literalmente uma demonstração operacional, prática e imediata na mente e na vida dos ouvintes do evangelho de Cristo. E isso ocorre pela poderosa ação persuasiva e convincente do Espírito, cujo efeitos transformadores foram visíveis e incontestáveis na vida dos ouvintes de então, confirmando o evangelho pregado pelo apóstolo Paulo (1Co 2.4,5)” (GILBERTO, Antonio. Teologia Sistemática Pentecostal. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2008, p.175).

HISTÓRIA DA DOUTRINA PNEUMATOLÓGICA

Período Pré-niceno
O capítulo 3, sobre a Santíssima Trindade, explica por que o tema pneumatológico foi deixado de lado antes do Concílio de Niceia. A discussão era centrada em Jesus e a sua identidade, e a doutrina sobre o Espírito Santo raramente entrava nos debates. São escassas as informações a respeito da identidade e das obras do Espírito Santo nos primeiros pais da Igreja.

As discussões no final do segundo século e no século seguinte giravam em torno da identidade do Logos, e isso envolvia o Espírito Santo como a terceira Pessoa da Trindade. O tema dos grupos adocionistas e modalistas era sobre Deus e o monoteísmo, e nesses debates o Espírito Santo estava presente, mas sem aprofundamento acerca de sua natureza. A cristologia ocupou praticamente os debates dos séculos 3 e 4 e quase não sobrou espaço para a pneumatologia. Não houve discussão a respeito do Espírito Santo em Niceia.

Orígenes, como visto no capítulo anterior, defendia uma Trindade influenciada pelo neoplatonismo: “O Filho é coeterno com o Pai, mas seu poder de ser é pouco inferior ao do Pai. É a mais alta das realidades geradas, mas menor do que o Pai. O mesmo se diz do Espírito Santo que age nas almas dos santos” (TILLICH, 2004, pp. 76, 77). No seu comentário sobre o evangelho de João 1.3, ele afirma que o Espírito Santo é criatura do Logos. Não há muita coisa sobre o Espírito Santo nos séculos 2 e 3, e de tudo o que existe, há problemas e, em Orígenes em especial, mais erros do que acertos.

Depois de Niceia
As controvérsias arianas continuaram. Ário negava a eternidade do Logos, defendia sua existência antes da encarnação, como as atuais testemunhas de Jeová, mas negava que ele fosse eterno com o Pai, insistia na tese de que o Verbo havia sido criado como primeira criatura de Deus. A palavra de ordem dos arianistas era: “Houve tempo em que o Filho não existia”. Ário considerava também o Espírito Santo como criatura, embora esse tema estivesse fora das discussões na época e o os debates se concentrassem no Filho. Alexandre, bispo de Alexandria, se limitava a manter a antiga afirmação de que o Espírito Santo inspirou os profetas e apóstolos. Eusébio de Cesareia emprega a exegese de Orígenes, colocando o Espírito Santo em terceira categoria, como “um terceiro poder” e como uma das coisas que vieram à existência por meio do Verbo, na interpretação origeneana sobre João 1.3 (Preparatio Evangelica, 11.21).

Não existia consenso sobre o Espírito Santo no Oriente nas primeiras décadas depois do Concílio de Niceia. Havia diversas interpretações. Uns diziam que as Escrituras Sagradas eram vagas sobre o assunto e por isso preferiam não se pronunciar; outros achavam que Ele era criatura; outros diziam que era um anjo; e outros, que era um espírito intercessor entre o Senhor Jesus e os anjos. Havia até triteístas entre eles.

Cirilo de Jerusalém apresenta alguns lampejos em favor da ortodoxia. Ele escreveu no ano 348 o seguinte: “O Espírito Santo é um e o mesmo; vivente e subsistente e que sempre está presente com o Pai e o Filho” (Catequese XVII.5). Cirilo diz ainda que o “Espírito Santo que é honrado com o Pai e o Filho e que no momento do santo batismo é simultaneamente incluído na Trindade Santa” (Catequese XVI.4).

Na carta enviada a Serapião, bispo de Tmuis, cidade do Baixo Egito, Atanásio expõe o seu pensamento a respeito do Espírito Santo, afirmando que Ele partilha da mesma substância do Pai e do Filho: “O Espírito Santo é um, as criaturas são muitas e os anjos muitos. Que semelhança há entre o Espírito e as criaturas? Está claro, portanto, que o Espírito não é uma das muitas criaturas, nem tão pouco é um anjo. Mas porque ele é um, e ainda mais por que ele pertence ao Verbo que é um, ele pertence a Deus que é um, e um consubstancial com ele [homooúsion]” (Carta a Serapião I.27.3).

Aqui Atanásio está dando uma resposta aos tropicianos. Ele refuta os arianos, os tropicianos e os pneumatomacianos. É claro e direto ao afirmar que o Espírito Santo é consubstancial com o Pai e com o Filho. “Em 362, entretanto, por ocasião do Concílio de Alexandria, Atanásio conseguiu aceitação para a proposição de que o Espírito não é uma criatura, mas pertence à substância do Pai e do Filho, sendo inseparável dela” (KELLY, 2009, p. 195).

Os pais capadócios
Basílio de Cesareia, nos primeiros anos de sua pesquisa, era amigo e aliado de Eustáquio de Sebaste, líder dos pneumatomacianos. Contudo, depois de um exame mais preciso sobre o assunto, ele se encontrou com Eustáquio em Sebaste no ano de 372 e depois voltou a se encontrar com ele no ano seguinte, mas Eustáquio não concordou com a ideia de Basílio. Essa ruptura aconteceu em 373. Basílio a essa altura defendia a ortodoxia nicena e passou a combater os pneumatomacianos. Ele emprega cerca de 460 passagens bíblicas, sem contar as repetições, em seus escritos. O seu epistolário conta com 366 epístolas. Quem examinou todos os seus escritos afirma que “em lugar algum o Espírito Santo é chamado Deus, nem Sua consubstancialidade é afirmada explicitamente” (KELLY, 2009, pp. 196, 197). Mas, segundo Timothy P. McConnell, em sua obra Illumination in Basil of Caesarea’s Doctrines of the Holy Spirit (2004), Basílio dispensa a filosofia e evita termos filosóficos na teologia, preferindo a linguagem próxima da Bíblia. Basílio defende a divindade do Espírito Santo sem o uso desses termos: “Glorificamos o Espírito com o Pai e o Filho porque cremos que Ele não é estranho à natureza divina” (Epístola 159.2); “Quanto às criaturas, recebem de outrem a santificação, mas para o Espírito a santidade é integrante de sua natureza. Por conseguinte, ele não é santificado, mas santificador... são comuns os nomes dados ao Pai, e ao Filho e ao Espírito, que recebe tais denominações em vista da intimidade entre eles, por natureza” (Tratado sobre o Espírito Santo, 19.48).

O pensamento de Basílio se resume em três pontos: “a) o testemunho das Escrituras acerca da grandeza e da dignidade do Espírito, e do poder e da imensidão de Sua operação; b) sua associação com o Pai e com o Filho em tudo o que Eles realizam, especialmente na obra de santificação e glorificação; c) seu relacionamento pessoal tanto com o Pai quanto com o Filho” (KELLY, 2009, p. 197). A obra Tratado sobre o Espírito Santo foi o último dos seus escritos e apresenta os desenvolvimentos doutrinários mais avançados que abriram o caminho para as definições do Concílio de Constantinopla em 381.

Gregório de Nissa escreveu Sobre a Trindade, continuação da obra Contra Eunômio, da autoria de seu irmão, e Sobre não três Deuses, refutação ao heresiarca Ablábio, que defendia o triteísmo considerando o Pai, o Filho e o Espírito Santo como três Deuses. Ele defendia a unicidade de natureza partilhada pelas três Pessoas da Trindade e usava Salmos 33.6 com um dos fundamentos bíblicos: “Pela palavra do SENHOR foram feitos os céus; e todo o exército deles, pelo espírito da sua boca”.

Gregório de Nazianzo combateu os mesmos opositores de seus companheiros Basílio de Cesareia e Gregório de Nissa: Eunômio e os pneumatomacianos. Ele escreveu com elegância e clareza sobre a Trindade e, especialmente, sobre o Espírito Santo por meio de epístolas, poemas e sermões, sendo as Orações ou Discursos Teológicos cincos sermões, numerados de 27 a 31. Ele foi o mais ousado dos três capadócios. Diz abertamente em alto e bom som que o Espírito Santo é Deus e consubstancial: “Então o quê? O Espírito é Deus? Sim, de fato é Deus. Então ele é consubstancial? Sim, é verdade, pois ele é Deus” (Discurso 31.10). Ele afirma no quinto Discurso Teológico: “Se houve tempo em que Deus não existia, então houve um tempo em que o Filho não existia. Se houve um tempo no qual o Filho não existia, então houve um tempo no qual o Espírito não existia. Se um existiu desde o começo, logo os três também existiram” (Discurso 31.4).

Foram os pais capadócios que definiram de uma vez para sempre a doutrina da Trindade aceita e ensinada pelos principais ramos do cristianismo. Eles completaram a tarefa de Atanásio. A partir deles, ficou esclarecida a verdadeira identidade do Espírito Santo; no entanto, a processão ainda está em aberto. Em Gregório de Nazianzo encontra-se sua extraordinária contribuição para a vitória final da fé nicena. Ele organizou os dados da revelação divina, registrados nas Escrituras, e afirmou categoricamente que o Espírito Santo é Deus. O Concílio de Constantinopla, 381, descreveu o Espírito como Deus e como “o Senhor e provedor da vida, que procede do Pai e é adorado e glorificado com o Pai e com o Filho”.

Está claro nas Escrituras que ele é o Senhor e provedor da vida: “O Senhor é o Espírito” (2 Co 3.17); “Porque a lei do Espírito de vida” (Rm 8.2); “O Espírito é o que vivifica” (Jo 6.63); “e o Espírito vivifica” (2 Co 3.6); que ele procede do Pai (Jo 15.26); “o Espírito que provém de Deus” (1 Co 2.12); e que falou pelos profetas (2 Pe 1.21).

O que parece crucial nessa declaração é o fato de o Espírito Santo ser adorado com o Pai e com o Filho. A frase “adorado e glorificado com o Pai e com o Filho” vem de Atanásio ao afirmar que o Espírito Santo: “está unido ao Filho, como está unido ao Pai, ele que é glorificado com o Pai e o Filho é chamado Deus com o Verbo, e realizando o que o Pai faz mediante o Filho” (Carta a Serapião I.25.2). E Basílio de Cesareia diz: “... e constrói as igrejas que confessam a sã doutrina em que o Filho é reconhecido ser da mesma substância do Pai, e o Espírito Santo é considerado e adorado com a mesma igualdade de honra” (Epístola, 90.2). Há uma única passagem nas Escrituras que fala diretamente sobre a adoração do Espírito Santo: “Porque a circuncisão somos nós, que servimos a Deus no Espírito, e nos gloriamos em Jesus Cristo, e não confiamos na carne” (Fp 3.3). O verbo “servir” aqui é latreuo, e em o sentido de prestar, culto, adorar, serviço sagrado. A construção grega aqui ficou ambígua e Agostinho de Hipona afirma que as gerações de cristãos antes dele adoravam o Espírito Santo com base nessa passagem paulina:

O Espírito Santo não é criatura. Ele, ao qual todos os santos prestam culto, no dizer do apóstolo: Os verdadeiros circuncidados somos nós, que servimos ao Espírito de Deus (Fl 3,3). E em grego estão designados pelo termolatreuontes. Em muitos exemplares de mesmo nos latinos assim se lê: Que servimos ao Espírito de Deus; assim se encontra também na maioria ou quase em todos os códices gregos. Em algumas cópias latinas, porém, o texto não é: Servimos ao Espírito de Deus, mas: Servimos a Deus, no Espírito (A Trindade, Livro I, 13).

A cláusula grega para “somos nós, que servimos a Deus no Espírito”, em grego, hoi pneumati theou latreuontes, é ambígua porque a terminação –ti, no substantivo pneuma, “espírito”, significa tanto “no Espírito” como também “ao Espírito”, ou ainda “pelo Espírito” e também “com o Espírito”. A ausência de uma preposição em pneumati deixa o assunto em aberto naquilo que a gramática grega chama de caso dativo, caso locativo ou caso instrumental. Se é dativo, a frase significa “nós que adoramos/servimos/prestamos culto ao Espírito de Deus”. A. T. Robertson reconhece essa possibilidade: “Caso instrumental, ainda o caso dativo como o objeto de latreuō também tem bom sentido (adorando ao Espírito de Deus)” (ROBERTSON, tomo 4, 1989, p. 600).

Há absoluta igualdade dentro da Trindade e nenhuma das três Pessoas está sujeita à outra, como se houvesse uma hierarquia divina. Existe, sim, uma distinção de serviço, e o Espírito Santo representa os interesses do Pai e do Filho na vida da Igreja na terra (Jo 16.13, 14). O Espírito Santo dá prosseguimento ao plano de salvação idealizado pelo Deus Pai e executado pelo Deus Filho. As três Pessoas estão presentes, atuando cada uma na sua esfera de atuação, em perfeita harmonia e perfeita unidade.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO
O Espírito Santo é Deus
O Espírito Santo não é simplesmente uma influência benéfica ou um poder impessoal. É uma pessoa, assim como Deus e Jesus o são.

O Espírito Santo é chamado Deus e Senhor — (At 5.3,4; 2Co 3.18).
Quando Isaías viu a glória de Deus escreveu: ‘Ouvi a voz do Senhor, ... vai e diz a este povo’ (Is 6.8,9). O apóstolo Paulo citou essa mesma palavra e disse: ‘Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías dizendo: Vai a este povo’ (cf. At 28.25,26). Com isso, Paulo identificou o Espírito Santo com Deus” (BERGSTÉN, Eurico. Introdução à Teologia Sistemática. 1ª Edição. RJ: CPAD, 1999, p.97).

“É difícil sugerir que um dos títulos ou propósitos do Espírito Santo seja mais importante que outro. Tudo o que o Espírito Santo faz é vital para o Reino de Deus. Há, no entanto, um propósito, uma função essencial do Espírito Santo, sem a qual tudo que se tem dito a respeito dEle até agora não passa de palavras vazias: o Espírito Santo é o penhor que garante a nossa futura herança em Cristo: ‘Em quem [Cristo] também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa; o qual é o senhor da nossa herança, para redenção da possessão de Deus, para louvor da sua glória’ (Ef 1.13,14)” (HORTON, Stanley. Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. 1ª Edição. RJ: CPAD, 1996, p.401).


CONCLUSÃO

A frase que se refere ao Espírito Santo como “terceira Pessoa da Trindade” se deve ao fato de seu nome aparecer depois do Pai e do Filho na fórmula batismal. Não se trata, pois, de hierarquia intratrinitariana, porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus que subsiste em três Pessoas distintas.


Fonte: Lições Bíblicas CPAD Adultos - 3º Trimestre de 2017 - Título: A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Livro de Apoio - Comentarista: Esequias Soares
Revista Adultos 3º Trim.2017 - A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Comentarista: Esequias Soares
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domingo, 16 de julho de 2017

A Santíssima Trindade: um Deus em três Pessoas

Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” Mt 28.19

Os maiores equívocos em relação à doutrina da Trindade se dão quando se relativiza a natureza da relação trinitária, pois “as distinções entre os membros da Deidade não se referem à sua essência ou substância, mas ao relacionamento. Noutras palavras: a ordem de existência na Trindade, no tocante ao ser essencial de Deus, está espelhada na Trindade salvífica. ‘São, portanto, três, não na posição, mas no grau; não na substância, mas na forma; não no poder, mas na sua manifestação’” (Teologia Sistemática: Uma Perspectiva Pentecostal. CPAD, p.177). Dessa forma a Santíssima Trindade se manifesta em perfeita comunhão ao longo de todo o plano de salvação provido por Deus.

Uma natureza amorosa
Deus é amor! Devemos destacar que o Pai provou o seu amor pelo mundo quando enviou o seu Filho em nosso lugar (Jo 3.16). O Filho provou o seu amor por nós quando, espontaneamente, obedeceu ao Pai e doou-se para a humanidade, morrendo em nosso lugar para nos redimir, regenerar, justificar e salvar (Rm 8.1-11). O Espírito Santo prova o seu amor por nós quando convenceu-nos do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.7-11). A Santíssima Trindade opera amorosamente em nossa vida.

Uma natureza servidora
Concomitantemente a pessoa do Espírito Santo, é necessário destacar também que a natureza do ministério de Jesus Cristo é servidora: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, a dar vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18,19). O Deus Trino trabalha de maneira servidora em favor das pessoas. Não podemos jamais esquecer esse aspecto de serviço pelo qual aprendemos com a operação das pessoas da trindade em nossa vida.

Uma natureza de comunhão
Logo, a Santíssima Trindade é por natureza comunitária porque as pessoas trinitárias não vivem separadamente, pois são inseparáveis, indivisíveis. O Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem em profunda comunhão. Por isso, somos encorajados a vivermos uma comunhão verdadeira com os nossos irmãos, a ajudar o outro, a chorar com o outro, a cantar com o outro, orar com e pelo outro. Portanto, como parte dessa comunidade de santos, a Igreja de Deus, somos chamados a expressar essa comunhão trinitária e multiforme no mundo. Revista Ensinador Cristão nº71

Cremos em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo iguais em substância, glória, poder e majestade.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE:  1 Coríntios 12.4-6;  2 Coríntios 13.13

Na lição de hoje estudaremos a respeito de uma das mais importantes e cruciais doutrinas do pensamento cristão, a Trindade. Não cremos na existência de três deuses, mas em um só que subsistente em três pessoas distintas, eternas e que criaram todas as coisas. É importante que você procure, no decorrer da lição, enfatizar que embora não conste na Bíblia a palavra Trindade, vamos encontrar tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, evidências desta relevante doutrina. Veremos na lição como o conceito de Trindade foi formulado. Segundo Stanley Horton, “historicamente, a Igreja formulou a doutrina da Trindade em razão do grande debate a respeito do relacionamento entre Jesus de Nazaré e o Pai”.

Que o Deus Trino e Uno abençoe sua aula e seus alunos de modo que eles possam compreender e confessar ao mundo a fé em um só Deus, existente em si mesmo como Pai, Filho e Espírito Santo.

"No princípio criou Deus o céu e a terra." Gênesis 1:1
O nome hebraico Elohim, “Deus”, é plural, e isso vislumbra a Trindade


A Trindade é a união de três Pessoas – o Pai, o Filho e o Espírito Santo – em uma só Divindade, sendo iguais, eternas e da mesma substância, embora distintas, sendo Deus cada uma dessas Pessoas. Essa doutrina é um mistério porque vai além da razão, mas não contra a razão, como disse acertadamente Norman Geisler: “É conhecida apenas pela revelação divina, portanto não é assunto da teologia natural, mas da revelação” (GEISLER, 2001, p. 834). A Bíblia declara textualmente que existe um só Deus verdadeiro e, ao mesmo tempo, afirma com a mesma clareza e de maneira direta que Jesus é Deus, mostrando nele todos os títulos divinos, com seus atributos, funções e obras de Deus. E, com o Espírito Santo não é diferente; a Bíblia revela a sua divindade plena. Houve no passado quem defendesse o triteísmo, mas a Igreja nunca reconheceu tal ensino; antes, refutou e combateu essa ideia. O mistério consiste também no fato de o Deus dos cristãos revelado nas Escrituras ser trino e uno sem comprometer o monoteísmo judaico-cristão.

AS DECLARAÇÕES ESCRITURÍSTICAS

A Trindade é uma doutrina com sólidos fundamentos bíblicos e, mesmo sem conhecer essa terminologia, os cristãos do período apostólico reconheciam essa verdade. Essa doutrina está implícita no Antigo Testamento, pois há declarações que indicam claramente a pluralidade na unidade de Deus (Gn 1.26; 3.22; 11.6, 7; Is 6.8). Apesar da ênfase da doutrina monoteísta como o shemá: “Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4) reafirmada pelo Senhor Jesus (Mc 12.29), o Antigo Testamento mostra que a unidade de Deus não é absoluta. O Novo Testamento revela que essa pluralidade se restringe ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo (Mt 28.19; 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.13; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2).

Há ainda várias passagens tripartidas no Novo Testamento que revelam a Trindade (Lc 24.49; Rm 1.1-4; 5.1-5; 14.17, 18; 15.16, 30; 1 Co 6.11; 2 Co 1.20, 21; Gl 3.11-14; Ef 1.17; 2.18-22; 3.3-7, 14-17; 1 Ts 5.18). Além das declarações bíblicas apresentadas aqui, há outras evidências contundentes que fundamentam essa doutrina. Cada uma dessas Pessoas é chamada individualmente de Deus e Senhor. O Deus do cristianismo é um (Gl 3.20), mas as Escrituras ensinam também que o Pai é Deus, o Filho é Deus e o Espírito Santo é Deus. A Bíblia aplica o nome “Deus” ao Pai sozinho (Fp 2.11), da mesma forma ao Filho (Jo 1.1) e ao Espírito Santo (At 5.3, 4); e, na maioria das vezes, com referência à Trindade (Dt 6.4). Isso também ocorre com o Tetragrama (as quatro consoantes do nome divino YHWH), que se aplica ao Pai sozinho (Sl 110.1), ao Filho (Is 40.3; Mt 3.3) e ao Espírito Santo (Ez 8.1,3). No entanto, aplica-se também à Trindade (Sl 83.18). Salta à vista de qualquer leitor da Bíblia a divindade plena e absoluta de cada uma dessas Pessoas. Foi assim que o Espírito revelou a unidade na Trindade.

As palavras de Jesus sobre a sua própria identidade e as suas ações revelam a sua deidade absoluta. O mesmo pode ser dito sobre as obras e as declarações a respeito do Espírito Santo. O Deus revelado nos evangelhos é trino e uno. A maneira como essa verdade é revelada em Mateus, Marcos, Lucas e João era perfeitamente compreendida pela geração apostólica. Por essa razão, não havia questionamento sobre a triunidade de Deus. Quando o Senhor Jesus apaziguou a tempestade, seus discípulos questionaram: “Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?” (Mc 4.41). Eles sabiam que somente Deus possui esse poder (Sl 65.7; 89.9).

O ensino do Senhor Jesus e de seus apóstolos expressava a fé em um só Deus, mas ao mesmo tempo eles ensinavam a deidade absoluta do Pai, do Filho e do Espírito Santo. A Bíblia revela a triunidade de Deus sem necessitar de definições teológicas, e o destinatário imediato de cada texto bíblico compreendia com clareza meridiana a unidade na Trindade e a Trindade na unidade.

Não havia ainda necessidade na época de uma confissão de fé elaborada, pois essa linguagem era suficiente para a compreensão dos primeiros cristãos. Até mesmo os opositores da fé cristã, às vezes, entendiam esse discurso. Jesus disse certa vez: “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Os judeus incrédulos entenderam essa mensagem e por essa razão procuraram matar a Jesus, porque “dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (Jo 5.18). Esse modo de pensar dos apóstolos era compreensível aos primeiros cristãos e não havia necessidade de explicações adicionais. Não há evidência no Novo Testamento de alguém questionando essa verdade.

A expansão do cristianismo no vasto império romano era geográfica e intelectual (Rm 15.19; Cl 1.6). A pregação do evangelho passou a se defrontar com as diversas tradições gregas e romanas (At 16.21; 17.18-22). Mas a maneira de pensar desses movimentos culturais e intelectuais exigia formulações teológicas precisas e racionais na comunicação da verdade cristã, somando-se a isso o surgimento de seitas e heresias como ebionitas, gnósticos, monarquianistas e arianistas, entre outros. E a simples repetição de passagens bíblicas já não era mais suficiente. Isso exigia da liderança da Igreja definições teológicas racionais.

OS APOLOGISTAS
No que diz respeito à Trindade, os pais da Igreja nos séculos 2 e 3 não tinham uma ideia clara sobre a doutrina, exceto Tertuliano. O conceito trinitariano de Orígenes mostrou-se insatisfatório. Havia muitos conceitos diversificados sobre o Logos,3 e a doutrina do Espírito Santo nem sequer entrou nos debates antes de Niceia.

Os primeiros pais da Igreja que antecederam o Concílio de Niceia sabiam pelos escritos do Novo Testamento e pela experiência das igrejas, a maioria fundada pelos apóstolos ou por alguém vinculado a eles ou mesmo seus sucessores, que os primeiros cristãos cultuavam a Jesus e reconheciam o senhorio de Cristo e do Espírito Santo. Suas explicações não eram muito claras, pois os primeiros escritores cristãos após o período apostólico não tinham uma compreensão mais avançada sobre a essência divina.

Os apologistas e os escritores do século II não discutem a Trindade em seus escritos, embora a fórmula Pai, Filho e Espírito Santo, de forma vaga e imprecisa, apareça com frequência. Justino, o Mártir (100-165), diz que o ministro de culto “louva e glorifica ao Pai do universo através do nome de seu Filho e do Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças” (I Apologia 65.3). Atenágoras de Atenas, numa apologia em favor dos cristãos acusados de ateísmo, dirigida ao imperador Marco Aurélio em 177, apresenta as primeiras articulações teológicas da Trindade: “Quem não se surpreenderá ao ouvir chamar de ateus indivíduos que admitem um Deus Pai, um Deus Filho e um Espírito Santo, que mostram seu poder na unidade e sua distinção na ordem?” (Petição em Favor dos Cristãos, I.10).

Irineu de Lião, falecido no ano 202, foi discípulo de Policarpo de Ismirna, por sua vez discípulo do apóstolo João. A regula fidei, “regra de fé”, o credo usado na Igreja de Lião (uma cidade na atual França) no tempo de Irineu, diz o seguinte: “Com efeito, a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a fé em um só Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para a nossa salvação; e no Espírito Santo” (Contra as heresias, livro I 10.1). Mais adiante, ele declara: “Sua Palavra e sua Sabedoria, seu Filho e seu Espírito, estão sempre junto dele... Sua Sabedoria, isto é, o Espírito, estava com ele antes que o mundo fosse feito” (Contra as heresias, livro IV 20.1, 3). Irineu diz ainda em outra obra: “Sem o Espírito Santo é impossível ver o Verbo de Deus e sem o Filho ninguém pode aproximar-se do Pai, porque o Filho é o conhecimento do Pai e o conhecimento do Filho se obtém por meio do Espírito Santo. Mas o Filho, segundo a vontade do Pai, ministra e dispensa o Espírito a quem quer, conforme, como o Pai quer” (Demonstración de la Predicación Apostólica, 7).

Justino, o Mártir, e Irineu de Lião evitam afirmar de maneira explícita que o Espírito Santo é Deus, mas reconhecem a sua divindade, como se vê nos exemplos citados. Nenhum deles escreveu sobre o Espírito Santo, mas este é mencionado com frequência ao lado do Pai e do Filho. Nessas construções trinitárias, o Espírito Santo aparece no mesmo nível do Pai e do Filho e com qualificações divinas plenas, sem, contudo, afirmar de maneira direta que ele é Deus. O que é comum a todos os pais da Igreja, nesse período, é a crença na triunidade de Deus. Todos eles defendiam uma fé trinitariana, ainda que o conceito desse trinitarianismo não seja satisfatório.

TERTULIANO DE CARTAGO
Tertuliano de Cartago, uma cidade do norte da África (155-224), advogado romano de formação intelectual estoica convertido ao cristianismo, tornou-se conhecido como o “Pai do cristianismo latino”. Ele refutou os monarquianistas modalistas, um grupo que não negava a divindade do Filho nem a do Espírito Santo, mas, sim, a distinção destas Pessoas, de modo diametralmente contrário ao ensino das igrejas desde os dias apostólicos. Seus principais representantes foram Noeto, Práxeas e Sabélio.

Noeto era natural de Esmirna e ensinava que “Cristo era o próprio Pai, e o próprio Pai nasceu, sofreu e morreu”. Cipriano (200-258 d.C.), bispo de Cartago, chamou a heresia de Noeto, num tom jocoso, de “patripassionismo” (Epístola 73), do latim Pater, “Pai”, e passus, de patrior, “sofrer”.

Práxeas foi discípulo de Noeto, e a sua doutrina reacendeu no norte da África em 213, através de um dos discípulos de Práxeas, quando Tertuliano começou a sua refutação em Contra Práxeas, texto contendo capítulos. Tertuliano polemizou com esses monarquianistas, dizendo: “Práxeas fez duas obras do diabo em Roma: expulsou a profecia e introduziu a heresia; afugentou o Paracleto e crucificou o Pai” (Contra Práxeas, I). O bispo Sabélio foi o principal expoente do modalismo; ele ensinava que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não eram três Pessoas distintas, mas apenas três aspectos do Deus único. Nos tempos do Antigo Testamento, o Pai se manifestou como Legislador. Nos tempos do Novo Testamento, este Pai era o mesmo Filho encarnado e também fazia o papel de Espírito Santo como inspirador dos profetas.

Foi no combate ao sabelianismo que Tertuliano trouxe uma formulação trinitária melhor e mais compreensível. É dele o termo “Trindade”, trinitas em latim. Ele “foi responsável pela criação de 509 novos substantivos, 284 novos adjetivos e 161 verbos na língua latina” (McGRATH, 2005, p. 375). Sua explicação sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo em uma só divindade preserva o monoteísmo sem comprometer a deidade absoluta das três Pessoas da Trindade. É a unidade na Trindade e a Trindade na unidade.

Todos são de um, por unidade de substância, embora ainda esteja oculto o mistério da dispensação que distribui a unidade numa Trindade, colocando em sua ordem os três, Pai, Filho e Espírito Santo; três contudo, não em essência, mas em grau; não em substância, mas em forma, não em poder, mas em aparência, pois eles são de uma só substância e de uma só essência e de um poder só, já que é de um só Deus que esses graus e formas e aspectos são reconhecidos com o nome de Pai, Filho e Espírito Santo (Contra Práxeas, II – Grifo é nosso).



Tres autem non statu sed gradu, nec substantia sed forma, nec potestate sed specie, unius autem substabtiae et unius status et unius potestatis, quia unus Deus ex quo et gradus isti et formae et species in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti deputantur (Adversus Praxean, II).

Tertuliano apresenta aqui uma breve interpretação da natureza divina conforme revelada nas Escrituras e no testemunho das igrejas desde a era apostólica. É a primeira fórmula, trinitária que atravessou os séculos. O que ele escreveu aqui vale ainda hoje, apesar das diversas pontas soltas que precisaram ser amarradas posteriormente, mas a sua estrutura da Trindade na unidade e da unidade na Trindade é mantida em Orígenes, Atanásio, nos pais capadócios, em Hilário de Poitiers e em Agostinho de Hipona, entre outros.

O termo mostra o esforço de Tertuliano para provar que a tríplice manifestação revelada na história salvífica é compatível com a unidade substancial de Deus. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são da mesma substância, mas essa essência divina é uma só; a diferença está nas formas, graus e aspectos. Ele emprega o termo latino, unus, ou o seu derivado, unicus, para o verdadeiro Deus do cristianismo. Faz isso na tentativa de afastar a ideia de triteísmo, acusação feita por seus opositores monarquianistas. Ele usa ainda outra palavra, unitas, derivado do verbo unire, que “significa a unidade interna e orgânica da natureza divina...
Unitas, portanto, é o abstrato do termo unus, ou seja, ‘um por natureza’, ‘uniforme’, ‘unificado’, sem necessidade de ser reduzido à unidade aritmética” (MORESCHINI, 2008, pp. 205, 206). Assim, a unidade na Trindade e a Trindade na unidade são uma defesa do monoteísmo judaico-cristão. Essa primeira formulação trinitária foi muito útil, e as igrejas do Ocidente se valeram dela por muito tempo sem alteração do texto, apesar de suas limitações. É inegável a contribuição de Tertuliano para a época, mas muitas perguntas que ficaram sem respostas foram solucionadas no Oriente a partir de Atanásio e dos pais capadócios.

Tertuliano escreveu em latim. A substância, substantia em latim, significa em si “substância, ser, realidade de uma coisa, essência”. Isso quer dizer “coisa subjacente, material ou espiritual, de coisas, aquilo que existe” (MULLER, 1993, p. 290). O seu equivalente grego é hipóstase ou ousía.

Hipóstase é a “forma de existir”; o termo vem de duas palavras gregas: hypo, “sob”, e istathai, “ficar”. E ousía significa “essência, ser”. A essência é a “qualidade do ser, o qual faz o ser precisamente o que ele é. Exemplo: a essência de Pedro, Paulo e João é sua humanidade; a essência de Deus é deidade ou divindade” (MULLER, 1993, pp. 105, 106). Mas a palavra latina usada para “essência” nessa declaração de Tertuliano é status, “condição, qualidade”. Todos esses termos filosóficos aparecem nas controvérsias cristológicas, trinitárias e pneumatológicas, e a grande dificuldade de compreensão está na falta de precisão na definição dessas palavras. O que Tertuliano chama aqui de “graus, formas e aspectos”, ele passa a chamar de persona, “Pessoa”, ou personae, no plural, mais adiante (Contra Práxeas, XII), ao mostrar a unidade na Trindade no relato da Criação (Gn 1.26, 3.22).

Tertuliano foi o primeiro a usar o termo “Pessoa” para os membros da Trindade. Uma substância e três Pessoas. O vocábulo “Pessoa” é inadequado para aplicar às três identidades distintas da Trindade. Os pais capadócios evitaram usar esse termo para identificar o Pai, o Filho e o Espírito Santo na Trindade. Em vez de falar em três Pessoas da Trindade, eles as identificavam como três hipóstases.

ORÍGENES
Orígenes é o principal representante no Oriente, antes de Niceia. Por que não dizer que ele foi o fundador da teologia oriental? Orígenes nasceu em 185, em Alexandria, Egito, e morreu em Tiro, onde foi torturado até a morte em 254, por causa de sua fé em Jesus. Alexandria já era um grande centro cultural mesmo antes do surgimento da Igreja. O cristianismo prosperou nessa cidade, que veio a ser um dos importantes centros cristãos da Antiguidade. A escola de Alexandria foi fortemente influenciada pelo neoplatonismo, escola filosófica fundada por Amônio Saccas (175-242), de quem Orígenes foi discípulo.

Orígenes foi um grande defensor da fé cristã, mas o seu pensamento teológico, sobretudo sobre a Trindade, apresenta forte afinidade com a filosofia neoplatônica defendida por Plotino, principal expoente do neoplatonismo, discípulo de Saccas e colega de classe de Orígenes. O próprio Orígenes admite essa influência quando afirma que a ideia da existência de um Pai e de um Filho de Deus era comum também a muitos pagãos, sendo que o Espírito Santo é exclusividade dos cristãos (Tratado sobre os Princípios, livro I 3.1). O que Tertuliano veio chamar de personae da Trindade, Orígenes chamava de hipóstase. Esse termo foi consagrado posteriormente pelos pais capadócios para identificar o Pai, o Filho e o Espírito Santo individualmente. Como Tertuliano, Orígenes também discordava dos modalistas no fato de confundir as três Pessoas da Trindade.

O que é mais grave no trinitarianismo de Orígenes é a ideia da condição de inferioridade do Filho em relação ao Pai. Ele afirma que “o Filho e o Espírito Santo também são divinos” (Patrologia grega 2.3.20), mas diz em outro lugar que essa divindade é “secundária” (Contra Celso 5.39) e considera o Espírito Santo criatura do Logos: “o mais honorável de todos os seres trazidos à existência pela Palavra, o principal em ordem de importância, dentre todos os seres que tiveram origem no Pai por meio de Cristo” (In Johan 2.10.75 apud KELLY, 2009, p. 95). Segundo os críticos de Orígenes, ele ensinava que “o poder do Pai é maior do que o do Filho e do Espírito Santo, e o poder do Filho é maior do que o do Espírito Santo”. Isto está numa carta endereçada a Mena, patriarca de Constantinopla (536-552). Essa informação aparece numa epístola de Jerônimo a Avito. Orígenes exerceu grande influência no Oriente por mais de 100 anos. Observe-se que o historiador da Igreja, Eusébio de Cesareia foi influenciado pelo pensamento de Orígenes. Ele mesmo fundou uma escola teológica nessa cidade de Cesareia e permaneceu lá durante 20 anos. Eusébio assimilou também essa doutrina subordinacionista de Orígenes, pois escreveu: “Como os oráculos dos hebreus classificam o Espírito Santo em terceiro lugar depois do Pai e do Logos” (Preparatio Evangelica, XI.21.1).

ATANÁSIO
É comum ouvir representantes das seitas antitrinitarianas dizerem que a doutrina da Trindade é de origem pagã e foi imposta por um imperador pagão no Concílio de Niceia em 325. Esses argumentos das organizações contrárias à fé trinitária são falsos. O Concílio de Niceia não tratou da Trindade; a controvérsia foi em torno da identidade Jesus de Nazaré.

Os credos anteriores ao século IV eram de caráter local e estavam relacionados ao batismo na preparação catequética; sua autoridade procedia da igreja local de onde o documento se originou. São os chamados credos sinodais. O Credo Niceno é a primeira fórmula publicada por um concílio ecumênico e a primeira a possuir status de valor universal em sentido legal.

O documento é resultado da chamada controvérsia ariana, que começou no ano 318 em Alexandria, no Egito. O confronto girava em torno da identidade do Senhor Jesus Cristo e a questão era sobre a sua deidade e igualdade com o Pai.

O documento aprovado em Niceia tornou-se ponto de partida, ao invés de ponto de chegada. A controvérsia prosseguiu por duas razões principais: a volta do arianismo e a indefinição sobre a identidade do Espírito Santo. O Concílio de Constantinopla em 381 reconheceu e ampliou o texto da fórmula teológica aprovada em Niceia em 325. O tema do Concílio de Niceia será analisado no capítulo seguinte.

Atanásio (300-373) foi um dos principais defensores da fé nicena nos anos que se seguiram ao Concílio de Niceia. Ele polemizou com os arianos em defesa da divindade do Filho; sua discussão era cristológica em sua obra Contra os arianos; e ele refutou também os tropicianos4 e os pneumatomacianos,5 em defesa da divindade do Espírito Santo, em Epístolas a Serapião sobre o Espírito Santo. A cristologia de Atanásio estava enraizada no homoousianismo, termo grego derivado de homooúsios, que significa ser da “mesma substância”, da “mesma essência”, usado no Credo Niceno ao declarar que o Filho “é consubstancial com o Pai” ou “da mesma substância do Pai”, homooúsion tō patrí, em grego. Na época de Atanásio, o pensamento neoplatônico e origenista estava bem sedimentado no Oriente, de modo que essas ideias aparecem na teologia atanasiana, mas o seu conceito de Trindade era nos termos de consubstancialidade e sem o subordinacionismo de Orígenes (Epístola a Serapião, livro I 14.4, 28.1).

Atanásio foi claro e direto ao afirmar que o Espírito Santo é consubstancial com o Pai e com o Filho. Cirilo de Jerusalém (315-386), contemporâneo de Atanásio, refutava as heresias de sua geração em favor da Trindade (Catequese, XVI.3).

OS PAIS CAPADÓCIOS
A Capadócia aparece no Novo Testamento (1Pe 1.1). Os pais capadócios deram continuidade à defesa da ortodoxia nicena. Eles, como Atanásio, escreveram em grego. São eles Basílio de Cesareia, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo. Eles contribuíram de maneira especial na formulação definitiva da Trindade. E precisaram definir os termos flutuantes ousía e hipóstases na linguagem trinitária. Empregavam o mesmo termo “hipóstase” empregado por Orígenes para designar as Pessoas da Trindade. Em vez de usar “substância divina única”, falavam em “uma ousía em três hipóstases”. A essência da doutrina deles “é que a única Divindade existe simultaneamente em três modos de ser ou hipóstases” (KELLY, 2009, p. 199). Como Atanásio, eles defendiam o homooúsios do Filho e do Espírito Santo. Neles está o clímax do desenvolvimento da doutrina da Trindade.

Basílio de Cesareia (330-379), cidade da Capadócia, hoje na Turquia, combateu os antigos arianos, os neoarianos, os semiarianos e os pneumatomacianos. Escreveu no ano 373 uma refutação aos argumentos do maior expoente do arianismo radical, o arianista anomoeano de nome Eunômio: Contra Eunômio; escreveu também Sobre o Espírito Santo, uma defesa a doxologia: “Glória seja ao Pai, com o Filho, juntamente com o Espírito Santo”. Como Atanásio, Basílio também colocava o Espírito Santo no mesmo nível do Pai e do Filho na fórmula batismal de Mateus 28.19. Evitando termos filosóficos, procurava usar uma linguagem próxima da linguagem bíblica. Ele não emprega o termo homooúsios, mas defende a Trindade em outras palavras: “Como o Pai é um e um é o Filho, assim também é um o Espírito Santo” (Tratado sobre o Espírito Santo, 18.45).

Gregório de Nissa (335-394) era o irmão mais moço de Basílio. Ele escreveu Sobre a Trindade, continuação da obra Contra Eunômio, de autoria de seu irmão. Gregório de Nissa refutou a doutrina triteísta do heresiarca Ablábio na obra Sobre Não Três Deuses. Ablábio considerava o Pai, o Filho e o Espírito Santo três Deuses. Gregório de Nissa, como os seus companheiros, defendia a ideia de “que a unidade da ousía, ou Divindade, procede da unidade da ação divina desvendada na revelação” (KELLY, 2009, p. 201). Do rico epistolário de Basílio, contendo 366 epístolas, na de número 189, Gregório de Nissa, seu irmão, escreve: “Uma atividade individual do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em nenhum aspecto diferente para qualquer que seja a Pessoa, somos obrigados a inferir uma unidade de natureza a partir da identidade de atividade; pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo cooperam na santificação, na vivificação, na consolação, e assim por diante”.

Gregório de Nazianzo (329-389) combateu os mesmos opositores de seus companheiros Basílio e seu irmão Gregório de Nissa: Eunômio e os pneumatomacianos. Escreveu com elegância e clareza sobre a Trindade e, especialmente, sobre o Espírito Santo, por meio de epístolas, poemas e sermões. As Orações Teológicas ou Discursos Teológicos são numerados de 27 a 31, que correspondem respectivamente da primeira à quinta Oração. Para ele, a divindade existe indivisa em Pessoas divididas (Discurso 31.14). Gregório de Nazianzo dizia que o Pai se distingue por não ter sido gerado, agennēsía, “ingênito, não-gerado”; o Filho, por ter sido gerado, e o Espírito Santo por ser enviado, procedente (Discursos, 31.8). Ele defende a doutrina da Trindade com muita propriedade e vigor e ao mesmo tempo responde aos sabelianistas e aos triteístas (Discurso 31.9).

Gregório de Nazianzo defendia a ideia de que as Escrituras aplicavam todos os títulos e atributos pertencentes a Deus Filho e ao Espírito Santo. E não somente isso, mas também chamou a atenção para o fato de que a palavra “santo” aplicada ao Espírito não era resultado de nenhuma fonte externa, mas era algo próprio de sua natureza. Segundo Paul Tillich, foi Gregório de Nazianzo quem criou a fórmula definitiva da doutrina da Trindade (TILLICH, 2004, p. 92). Mas esses teólogos capadócios deixaram ainda uma ponta solta, a questão da filioque, a dupla processão do Espírito Santo.

AGOSTINHO DE HIPONA
Agostinho (354-432) é reconhecido como um dos maiores gênios teológicos de todos os tempos. Hipona era uma cidade do norte da África. J. D. N. Kelly disse que Agostinho “deu à tradição ocidental sua expressão madura final” (KELLY, 2009, p. 205). Ele escreveu entre 399 e 419 De Trinitate, “Sobre a Trindade”, obra contendo 15 capítulos produzidos em 16 anos, 209 sobre o tema no qual meditou a vida inteira. Agostinho respondia às indagações sobre o assunto que as pessoas lhes traziam. No livro I, capítulo 7, de A Trindade, citando alguns exemplos, ele explica o significado das palavras de Jesus: “o Pai é maior do que eu” (Jo 14.28), e no capítulo seguinte, ele esclarece as palavras do apóstolo Paulo sobre a sujeição do Filho ao Pai (1 Co 15.28).

O bispo de Hipona resgata a fórmula básica de Tertuliano sobre a unidade na Trindade e a Trindade na unidade. Nos livros I-IV, ele defende a sua consubstancialidade com base nas Escrituras. A doutrina das relações das Pessoas da Trindade, umas das características peculiaridade de Agostinho aparece nos livros V-VIII. Em seguida, nos livros IX-XIV, ele argumenta que se pode conhecer algo da natureza divina pela compreensão da verdade e pelo conhecimento do sumo bem pelo amor à justiça. O livro XV é a conclusão de seu pensamento.

Agostinho preserva a consubstancialidade do Filho e do Espírito Santo com o Pai e a unidade nas três hipóstases: “O Pai, o Filho e o Espírito Santo perfazem uma unidade divina pela inseparável igualdade de uma única e mesma substância” (Trindade, livro I 4.7). A expressão grega usual nos pais capadócios é mían ousían, treis hypostáseis,6 “uma ousía, três hipóstases”, mas Agostinho não via diferença entre ousía e hipóstase. Assim preferia o uso de uma substância, três Pessoas, mesmo reconhecendo a limitação da linguagem humana para descrever a revelação (Trindade, livro V 9.10b).

Na doutrina de Agostinho o subordinacionismo fica descartado e a unidade da santíssima Trindade em três Pessoas distintas é mantida: “Não são, portanto, três deuses, mas um só Deus, embora o Pai tenha gerado o Filho, e assim, o Filho não é o que é o Pai. O Filho foi gerado pelo Pai, e assim, o Pai não é o que o Filho é. E o Espírito Santo não é o Pai nem o Filho, mas somente o Espírito do Pai e do Filho e pertence à unidade da Trindade” (Trindade, livro I 4.7b). Isso foi estruturado em forma de credo posteriormente, no chamado Credo de Atanásio. Esse credo é agostiniano “de ponta a ponta” (KELLY, 2009, p. 206). Isso se evidencia ainda mais em sua obra (A Doutrina Cristã, I.5).

O trinitatismo de Agostinho apresenta algumas dificuldades como tem acontecido também nos demais pais da Igreja que escreveram antes dele. Alguns desses pontos são comentados por um intelectual russo da igreja Ortodoxa, que analisa também as principais ideias trinitárias e pneumatológicas da patrística. Seu nome é Sergui Bulgákov.7 Ele analisa também o trinitariasmo de Agostinho. O Oriente e o Ocidente sempre tiveram as suas diferenças: “A teologia do Ocidente, no século IV, segue seu próprio caminho, paralelo ao Oriente, ainda que independente deste. Por outro lado, suas relações, a causa de uns conhecimentos linguísticos insuficientes e de razões históricas gerais, foram remotas. Por essa razão não é de estranhar que seus caminhos divirjam justamente a partir do século IV” (BULGÁKOV, 2014, p. 85).

As críticas a Agostinho são várias, entre elas o fato de o bispo de Hipona não proceder a partir da Trindade das hipóstases como os capadócios, senão da unidade da ousía, ou essência. Paul Tillich diz que Agostinho “interessou-se muito mais pela unidade de Deus do que pelas diferentes hipostáseis, pelas três personae, em Deus. Ele é um desses responsáveis pela inclinação contemporânea para aplicar o termo persona a Deus, em vez de aplicá-lo individualmente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo” (TILLICH, 2004, p. 129). Bulgákov afirma que “a unidade da Santíssima Trindade nas três hipóstases está garantida justamente por essa unidade de substância” (2014, p. 85).

A outra crítica é ao fato de Agostinho considerar a Trindade como o amor; trata-se de uma análise que ele faz entre a Trindade e a vida pessoal humana: “Estão as três realidades (amans, quod amatur et amor), ‘aquele que ama, o que é amado e amor’” (Trindade, livro VIII 10.14). Bulgákov diz que essa ideia original de Agostinho é completamente estranha à teologia oriental: “Esta imagem trinitária do amor, aplicada à Santíssima Trindade, a complica mais introduzindo nela o elemento mente, pois em Agostinho a Trindade é análoga à memória, inteligência e vontade” (2014, p. 88). Ele “emprega o conceito da Trindade para descrever Deus analogicamente como Pessoa. Sendo Pessoa, portanto, unidade, todos os atos de Deus para fora (ad extra) são sempre atos da Trindade toda, até mesmo a encarnação” (TILLICH, 2004, p. 129). Essa talvez seja a contribuição mais original de Agostinho.

Sobre o sujeito das teofanias registradas no Antigo Testamento, segundo Agostinho, elas podem ser atribuídas às vezes ao Pai, ora ao Filho e também ao Espírito Santo, ou ainda aos três (Trindade, livro II caps. 14-34). Bulgákov (2014) argumenta que teólogos orientais como Gregório de Nazianzo se negam a aceitar nessas teofanias hipóstases separadas, mas como manifestações do único Deus que está na santíssima Trindade.

Agostinho diz que as diferenças não estão em seu ser, mas nas relações que se expressam nos nomes de cada Pessoa. Bulgákov apresenta nas suas observações a questão da filioque, a qual Agostinho parece ser favorável. O termo vem do latim e significa “e do Filho”, com respeito à processão do Espírito Santo. As igrejas orientais sustentam que esse termo, que aparece no Credo Niceno-Constantinopolitano e no Credo de Atanásio, não é autêntico, mas uma glosa inserida posteriormente no texto que resultou no primeiro Cisma da Igreja, ruptura do Oriente com o Ocidente em 1054.

O CREDO DE ATANÁSIO OU ATANASIANO
O Credo de Atanásio contém 44 artigos de fé, e a sua data é cerca do ano 500. É também conhecido como Quicunque, “quem quer que seja, todo aquele”, expressão latina com a qual o Cedo começa: Quincunque vult salvus esse, “Todo aquele que quer ser salvo”. Os antigos manuscritos e fragmentos que vão do século 7 ao 9, dos quais Kelly enumera 14 (KELLY, 1964, p. 16), apresentam títulos variados e entre eles: Fides sancti Athanasii episcopi Alexandriae, “A fé do santo Atanásio bispo de Alexandria”. O texto foi redigido por um autor anônimo no sul da França por volta do ano 500. O nome de Atanásio está vinculado à obra porque ela expressa o pensamento que Atanásio manifestou durante a sua vida em defesa da fé nicena. Citamos aqui apenas os seis primeiros artigos.

1 Todo aquele que quer ser salvo, antes de tudo, deve professar a fé cristã.8

2 A qual é preciso que cada um guarde perfeita e inviolada ou terá com certeza de perecer para sempre.

3 A fé cristã é esta: que adoremos um Deus em trindade, e trindade em unidade.

4 Não confundimos as Pessoas, nem separamos a substância.

5 Pois existe uma única Pessoa do Pai, outra do Filho, e outra do Espírito Santo.

6 Mas a deidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é toda uma só: glória é igual e a majestade é coeterna.

Os credos ecumênicos são trinitários na sua forma, estrutura e conteúdo, mas o Credo de Atanásio emprega o termo Trindade de maneira direta: “que adoremos um Deus em Trindade, e Trindade em unidade (artigo 3); “nessa Trindade, não existe primeiro nem último” (artigo 25); “tanto a unidade na Trindade como a Trindade na unidade deve ser adorada” (artigo 27); “quem quiser ser salvo, deve pensar assim a respeito da Trindade” (artigo 28).

Esse Credo é o mais longo de todos os credos ecumênicos. A estrutura do texto está dividida em cinco partes: a) introdução (artigos 1, 2); b) definição e exposição da doutrina da Trindade (artigos 3-27); c) afirmação de que todo aquele que quiser ser salvo precisa aceitar a visão de um Deus trino e uno conforme definição do Credo (artigos 28, 29); d) fala sobre a encarnação do Verbo, enfatizando particularmente o ensino da Igreja sobre Jesus como perfeitamente divino e perfeitamente humano (artigos 30-37); e) reafirmação do ensino dos credos anteriores, como o Credo dos Apóstolos e o Credo Niceno-Constantinopolitano dos apóstolos. Em resumo, retoma a linguagem do Credo Niceno-Constantinopolitano sobre a esperança cristã (artigos 30-43) e finaliza reafirmando a introdução: “Esta é a fé universal: a menos que um homem creia fiel e firmemente, não pode ser salvo” (artigo 44).

Os artigos 3-6 parecem uma contradição quando falam em não confundir as Pessoas e ao mesmo tempo defendem essa ideia, concluindo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo possuem uma mesma deidade. Isso é uma resposta aos sabelianistas, que confundem as Pessoas, e aos arianistas, que separam as Pessoas. Na atualidade, a resposta se dirige aos movimentos Voz da Verdade e Tabernáculo da Fé, entre outros, que também confundem as Pessoas; e também às testemunhas de Jeová, que separam a substância.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO
Arianismo
Heresia fermentada por um presbítero do 4º século chamado Ário. Negando a divindade de Cristo, ensinava ele ser Jesus o mais elevado dos seres criados. Todavia, não era Deus. Por este motivo, seria impropriedade referir-se a Cristo como se fora um ente divino.
Para fundamentar seus devaneios doutrinários, buscava desautorizar o Evangelho de João por ser o propósito desta Escritura, justamente, mostrar que Jesus Cristo era, de fato, o Filho de Deus. Os ensinos de Ário foram condenados no Concílio de Niceia em 325 (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 8ª Edição. RJ: CPAD, 1999, p.52).

Concílio de Niceia e de Constantinopla
Primeiro concílio ecumênico da história. Convocado pelo imperador Constantino, em 325, teve como objetivo solucionar os problemas que dividiam a cristandade. Problemas esses causados pelo arianismo. Buscando reafirmar a unidade da Igreja, os participantes do concílio redigiram uma confissão teológica, confirmando a ortodoxia doutrinária do Cristianismo.
Em 381, reuniram-se em Constantinopla 150 bispos, a pedido do imperador Teodócio I, com o objetivo de confirmar a unidade da igreja no Oriente. Terminado os trabalhos, aquele segmento da cristandade livrava-se de mais de meio século de domínio ariano (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 8ª Edição. RJ: CPAD, 1999, pp.88,89).

"Trindade
[Do grego trias; do latim trinitatem, grupo de três pessoas] Doutrina segundo a qual a Divindade, embora uma em sua essência, subsiste nas Pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. As Três Pessoas são iguais nas substâncias e nos atributos absolutos, metafísicos e morais.
Apesar de o termo não se encontrar nas Sagradas Escrituras, as evidências que atestam a doutrina são, tanto no Antigo, como no Novo Testamento, incontestáveis.
A palavra Trindade foi usada pela primeira vez, em sua forma grega, por Teófilo; e , em sua forma latina, por Tertuliano.
O Credo Atanasiano assim se expressa acerca da doutrina da Santíssima Trindade: ‘Adoramos um Deus em trindade, e a trindade em unidade, sem confundir as pessoas, sem separar a substância’” (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 8ª Edição. RJ: CPAD, 1999, p.279).

Cremos em um só Deus, eternamente subsistente em três pessoas.

CONCLUSÃO

Diante do exposto, está claro que a doutrina da Trindade é bíblica e está presente desde o Gênesis até o Apocalipse.


Fonte: Lições Bíblicas CPAD Adultos - 3º Trimestre de 2017 - Título: A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Livro de Apoio - Comentarista: Esequias Soares
Revista Adultos 3º Trim.2017 - A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Comentarista: Esequias Soares

3 O termo grego logos é, em si mesmo, de cunho filosófico e se traduz de diversas maneiras como “palavra, razão, pensamento, expressão”. Heráclito (540-475 a.C.), um dos filósofos pré-socráticos, dizia que o Logos era “um princípio divino que governava o universo e impedia que o mundo, em constante mutação, se tornasse o caos”. O apóstolo João mostra aos gregos que o Logos é Deus e é pessoal, aparecendo em nossas versões da Bíblia como o “Verbo” (Jo 1.1), o Senhor Jesus Cristo (Jo 1.14).
4 Os tropicianos eram uma seita do Egito; o nome vem de tropos, “figura”.
Atanásio assim o denominou por causa da exegese figurada deles. Eles diziam ser o Espírito Santo um anjo e uma criatura.
5 Os pneumatomacianos surgiram depois dos tropicianos. O termo pneumatomachoi, de pneuma, “espírito”, e machomai, “falar mal, contra”, eram os “opositores do Espírito”. O nome foi dado por Atanásio ao grupo religioso liderado por Eustáquio de Sebaste (300-380), que não aceitava a divindade do Espírito Santo.
6 Mi,an ouvsi,an, trei/j u`posta,seij.
7 Sergui Bulgákov (1871-1944), cristão ortodoxo reconhecido como um dos grandes teólogos russos do século 20, além de filósofo e economista. Lecionou em Livny, Rússia, e em Paris e foi autor de diversos livros. Em sua obra sobre o Espírito Santo, escrita originalmente em russo e intitulada The Comforter, em inglês e El Paráclito em espanhol, ele apresenta uma análise histórica da pneumatologia, envolvendo também a doutrina da Trindade.
8 O termo “cristã” em “fé cristã”, fides catholica, em latim (artigos 1, 3, 44) é a versão dada aqui. O vocábulo grego kaqoliko,j (katholikós) “universal, geral”, de onde vem a palavra latina catholica, significa literalmente, “de acordo com o todo”, pois o substantivo é composto de katá e de (holos). A preposição grega, katá, significa também, “conforme, de acordo, segundo”, e a palavra holos, “todo, inteiro, completo”. Foi Inácio, bispo de Antioquia (70–110), que empregou o termo para designar a Igreja com o sentido de “geral, universal”. Mas, o sentido exato do termo perdeu-se com o tempo e hoje tem outro significado. A expressão, fides catholica, não diz respeito à Igreja Católica Romana de hoje.

Leia também:
Aqui eu Aprendi!
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