“O ladrão não vem senão a roubar, a matar e o
destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância” Jo 10.10
O suicídio é um drama no mundo. Muitos casos
são potencializados por causa das crises de depressão profunda. Há um relato de
suicídio muito triste de uma famosa escritora inglesa, Virginia Woolf
(1882-1941). Seu estilo literário é considerado influente sobre a também
conhecida escritora brasileira Clarice Lispector. Obras marcantes de Virgínia
são “Orlando”, “As Ondas”, “Mrs. Dalloway” e uma que este articulista aprecia
muito, “Cenas Londrinas”, dentre outras. Virgínia sofreu muito com períodos de
crises depressivas. Na época, não se tinha fármacos tão eficientes em relação à
doença. No momento de crise, a escritora sentia dores de cabeça alucinantes
indo à exaustão física. Até que um dia, não mais suportando o sofrimento,
Virginia Woolf tirou a própria vida colocando pedras em seu casaco, caminhando
e afogando-se no Rio Ouse, perto de sua residência.
O exemplo mencionado acima pode ser
classificado como “suicídio pessoal”, quando a pessoa individualmente desiste
de viver. São muitos os casos de indivíduos que se encontram nessa situação. De
acordo com o jornalista André Trigueiro, na obra “Viver é a melhor opção — A
prevenção do suicídio no Brasil e no mundo”, foi realizado um mapeamento de
milhares de pessoas de várias partes do mundo, que tinham em comum em seus
óbitos o suicídio. Em 90% dos casos foi constatado que as pessoas que
praticaram o suicídio tinham histórico de alguma patologia mental,
especialmente o transtorno de humor, conhecido como depressão, esquizofrenia,
bipolaridade e outras, que poderiam ser perfeitamente tratadas. É uma
amostragem chocante. Significa que 90% dos casos do suicídio poderiam ser
revertidos. Além do livro, há vários vídeos do jornalista André Trigueiro sobre
o assunto no Youtube. Outra obra que pode ajudar muito a conhecer a implicação
das doenças psíquicas na vida é a clássica “O demônio do meio-dia: uma anatomia
da depressão”, do jornalista Andrew Solomon. É uma descrição realista a cerca
do domínio da depressão sobre a psiquê humana.
Diante desse quadro grave, o suicídio deve ser
tratado com muita seriedade. Por isso, estude bem o assunto. Mencione a questão
médica da depressão e a sua relação com o suicídio. Então, mostre a posição
teológica e ética da Igreja de Cristo. E aproveite a oportunidade para propor
ações de prevenção a favor da vida, junto à classe. Boa aula! – Revista Ensinador
Cristão nº 73
O início e o término de nossa vida são
prerrogativas exclusivas de Deus.
Texto Bíblico - 1 Samuel 31.1-6
Há dados alarmantes a respeito do suicídio.
Está mais do que na hora de considerarmos este assunto de acordo com a
seriedade que ele requer.
Não é de hoje que o suicídio tem sido um fato
que perpassa a realidade de muitas igrejas locais. São membros, que
infelizmente, dão cabo da própria vida. Outros, são pastores experimentados no
ministério, que não suportando o sofrimento, põem fim a própria existência.
Esse problema é um drama que tem ligação direta
com os transtornos de humor, manifestados na depressão, no transtorno de
ansiedade, nas esquizofrenias, dentre outros, como revelou uma pesquisa médica
recente.
O mais dramático é que esses transtornos têm
tratamento adequado por intermédio de medicamentos e de terapias profissionais.
Ore ao Senhor e peça sabedoria do alto para que, se for o caso, oriente as
pessoas que porventura vivem o “calabouço” da depressão a procurarem ajuda
profissional, paralelo à terapia espiritual. Tal orientação pode salvar vidas.
Boa aula!
Deus é quem deve ter a última palavra a
respeito da vida
A expressão suicídio vem do latim sui (“a si
mesmo”) e caedere (“matar”, “cortar”), que significa “matar a si mesmo”, também
conhecido como “morte autoinfligida”. A palavra “suicídio” foi criada em 1651
pelo médico e filósofo inglês Walter Charleton. Ele alegava que “vindicar-se de
uma calamidade extrema e, de outro modo, inevitável por meio do suicídio não é
um crime” (KAISER Jr, 2016, p.181). O sociólogo francês Émile Durkheim
(1858-1917) acatou a seguinte definição:
Chama-se
suicídio todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato, positivo
ou negativo, realizado pela própria vítima e que ela sabia que reproduziria
este resultado. A tentativa é o ato assim definido, mas interrompido antes que
ele resulte a morte. (DURKHEIM, 2000, p.14)
Buscando
descobrir quais condutas sociais causavam o suicídio (nexo casual), Durkheim
classificou os suicídios em egoísta, altruísta, fatalista e anômico. O egoísta
é aquele em que o bem-estar do indivíduo ultrapassa o bem-estar da
coletividade. As relações com a sociedade se deterioram, o suicida se isola em
uma atitude de autocomiseração a ponto de considerar não ter mais sentido em
viver. O altruísta é aquele que se dá por meio do exagero da interação social.
O cidadão sente-se no dever de oferecer a sua vida em favor de uma causa
própria. O fatalista não acredita que as coisas possam melhorar. Ele decreta o
fracasso como única possibilidade e decide tirar a própria vida por sentir-se
inferior em relação às outras pessoas. O anômico acontece em situação de anomia
social, ou seja, a ausência de regras e expectativas, decorrente de alguma
crise social, tais como na área política e na economia, que desregulam as
normas sociais. A prática do suicídio tem sido um mal silencioso e o índice de
pessoas que se matam vem crescendo assustadoramente. Porém, as causas do
suicídio não são apenas de origem sociais; elas possuem fortes elementos de
natureza espiritual.
I. O SUICÍDIO NAS ESCRITURAS E NO MUNDO
As Escrituras registram seis casos de suicídio,
cinco no Antigo e um no Novo Testamento. Entre os judeus ortodoxos, existia um
entendimento extremado do texto de Levítico: “E não profanareis o meu santo
nome, para que eu seja santificado no meio dos filhos de Israel. Eu sou o
Senhor que vos santifico” (Lv 22.32). A doutrina da “Santificação do Nome”
(Kiddush Ha-shem) exigia que o judeu fizesse todo o possível, até mesmo tirar a
própria vida, para glorificar o nome de Deus (KAISER Jr, 2015, p. 183).
1. No Antigo Testamento
Os casos de suicídio relatados no Antigo
Testamento revelam a incapacidade humana em enfrentar a vergonha e a rejeição.
O ser humano tem necessidade de sentir-se aceito, respeitado e amado. Porém,
sabe-se que é impossível viver sem nunca ser rejeitado e, portanto, saber lidar
com a rejeição é uma aprendizagem fundamental para o equilíbrio do ser humano
(MIRANDA, 2005, p. 10). Aqueles que não encontram esse equilíbrio desenvolvem
um forte sentimento de baixa autoestima que os leva a prática do suicídio.
A controversa saga de Sansão
O livro de
juízes estende-se por um período de intervalo entre a morte de Josué e o começo
da monarquia em Israel. Ele narra um tempo conturbado da história dos
israelitas compreendido entre 1200 até 1070 a.C. A narrativa de Juízes conta a
saga de Sansão, o sétimo juiz, cuja tarefa era derrotar os filisteus. Sansão
recebeu atributos para ser um libertador de seu povo (Jz 13.5), mas preferiu
alimentar sua carne e envolveu-se em relacionamentos amorosos condenados pela
lei mosaica (Jz 14.3). Ele casou-se com uma das filhas dos filisteus a quem
amava, mas ainda durante a festa de casamento ela traiu a confiança dele (Jz
14.17). Descontrolado, abandonou a festa e foi para a casa de seu pai. Quando
retornou para reconciliar-se com a esposa, descobriu que a tinham dado para
outro homem (Jz 14.19,20). Irritado, vingou-se dos filisteus por causa dessa
ofensa (Jz 16.5).
Os
filisteus lhe deram o troco, e queimaram a casa e mataram a família e a mulher
que Sansão amava (Jz 15.6). Ele severamente tornou a vingar-se dos filisteus
(Jz 15.8). Então, seus adversários cercaram Judá e pediram sua cabeça, seus
compatriotas o amarraram e o entregaram aos filisteus (Jz 15.913). Sansão
libertou-se das amarras e com a queixada fresca de um jumento matou mil
filisteus (Jz 16.14-16). Depois disso, ele foi até Gaza e deitou-se em casa de
uma prostituta. Os gazitas cercaram a cidade para matá-lo pela manhã. Porém, à
meia-noite, Sansão se levantou e carregou o portão da cidade, com seus umbrais
e tranca (Jz 16.1-3). Não é difícil compreender que as más escolhas de Sansão o
conduziram por um tortuoso e desgovernado caminho. Seus pais não o entenderam,
sua esposa o traiu, seus compatriotas o entregaram, uma nação inteira de filisteus
o odiava e sua vida corria risco de morte. Não obstante, Sansão não procurou
alívio de seu sofrimento no suicídio, ao contrário, ele lutava bravamente para
se manter vivo.
Após
sofrer todos esses revezes, Sansão apaixonou-se por uma mulher chamada Dalila
(Jz 16.4). Tudo indica que estava em busca de companhia, não era apenas desejo
sexual; ele estava solitário e castigado pela rejeição, precisava sentir-se
amado, e então passou a morar em casa de Dalila (Jz 16.5). Destarte, Sansão
experimentaria a maior de todas as suas decepções. Instigada pelos filisteus,
Dalila insistia em descobrir o segredo da sua força (Jz 16.15,16). Após
confidenciar a verdade à mulher que amava, os filisteus arrancaram-lhe os
olhos, aprisionaram-no com duas cadeias de bronze e obrigaram-no a girar um
moinho no cárcere (Jz 16.21). Quando seus cabelos tornaram a crescer, decidido
em cumprir sua missão, na festa a Dagom (um dos deuses do panteão cananeu), ao
se recostar nas colunas de sustentação, derrubou o templo sobre si e seus
inimigos (Jz 16.30).
É
verdade que as Escrituras não apresentam Sansão como modelo de piedade e
santidade. Mas os problemas de Sansão não eram exclusivamente a luxúria, e sim
desobediência espiritual e desajuste emocional. Ele não cumpriu o seu voto de
nazireu, não controlou suas paixões e se deixou manipular. Contudo, a
humilhação que experimentara em poder dos filisteus (a mutilação de seus olhos
e o trabalho escravo na prisão) parece que o fez cônscio de sua missão divina.
Na derradeira oração de sua vida, Sansão demonstra sua fé e acredita que Deus
possa usá-lo uma última vez (Jz 16.28). Deus reunira em um só lugar todos os
líderes filisteus inimigos de Sansão e de Israel (Jz 16.30). Assim, sua tarefa
de iniciar o livramento de seu povo foi cumprida com a sua morte. Essa ação de
Sansão não foi vista como suicídio, e sim como um sacrifício. Seu último ato o
transformou em um herói da fé (Hb 11.32-34).
Os suicídios como fuga pessoal
O primeiro
rei israelita, o benjamita Saul, cometeu vários desatinos e distanciou-se
completamente de Deus. Reinou durante quarenta anos (At 13.21), mas já a partir
do segundo ano trilhou o caminho da desobediência (1 Sm 13.1). Seu primeiro
grande erro foi o de usurpar para si o ofício de sacerdote sobre Israel. Estava
há sete dias no campo de batalha aguardando por Samuel para a oferta do
sacrifício; como o sacerdote demorou, Saul precipitadamente decidiu oferecer o
sacrifício (1 Sm 13.8,9). Ao chegar ao arraial, o sacerdote o repreendeu
severamente: “Agiste nesciamente […] agora, não subsistirá o teu reino” (1 Sm
13.13,14).
Dominado
pela inveja e ciúmes que sentia por Davi, Saul vivia atormentado por um
espírito mau (1 Sm 16.14). Por causa de seus erros e pecados, Deus não falava
mais com ele (1 Sm 28.6). Insensato e inconsequente, rejeitou ao Senhor e
buscou respostas no ocultismo (1 Sm 28.7). Acuado na peleja contra os
filisteus, não podendo suportar a derrota e o fracasso de sua empreitada,
lançou-se sobre a própria espada e seu auxiliar fez o mesmo (1 Sm 31.4,5).
O
suicídio do conselheiro Aitofel é outro caso registrado como fuga para os
problemas. Ele era um gilonita, conselheiro de Davi. Sua reputação era tão alta
que as suas palavras tinham a autoridade de um oráculo divino (2 Sm 16.23.).
Conjectura-se que Aitofel estava zangado com Davi por causa do adultério do rei
com sua neta Bate-Seba e o consequente assassinato de Urias (2 Sm 11.3; 23.34).
Por essa razão, Aitofel teria ficado ao lado de Absalão quando este usurpou o
reino de Davi (2 Sm 15.31). Para mostrar ao povo que o rompimento entre o filho
e o pai era definitivo, Aitofel aconselhou Absalão a possuir as concubinas de
Davi aos olhos do povo (2 Sm 16.21,22). Aitofel também aconselhara escolher
doze mil homens, e perseguir a Davi naquela mesma noite. Porém, o rebelde
Absalão desejou ouvir uma segunda opinião. Chamaram a Husai, o arquita, que
aconselhou esperar, tendo como objetivo alertar a Davi acerca do perigo.
Absalão acatou o conselho de Husai, e quando Aitofel viu que seu conselho fora
rejeitado, desesperou-se, e, sem conseguir lidar com a situação, voltou
frustrado e deprimido para sua casa, colocou as suas coisas em ordem e
enforcou-se (2 Sm 17.1-23).
O
outro registro é o caso do rei Zinri. Ele foi o quinto monarca do Reino do
Norte. Antes de se tornar rei, tinha sido capitão da metade dos carros sob o
reinado de Elá. Quando da ausência do exército em Gibetom, por causa dos
filisteus, Zinri aproveitou da ocasião e da embriaguez do monarca e
traiçoeiramente matou a Elá, também dizimou os membros da família real e se
autoproclamou rei. Contudo, seu reinado foi breve — apenas sete dias —, pois o
exército não o reconheceu e fez do capitão Onri o novo rei. Onri marchou com o
exército revoltado e sitiou a cidade de Tirza, local onde Zinri reinava.
Encurralado, derrotado e apavorado, Zinri incendiou a casa do rei estando ele
dentro e assim tirou a própria vida por ato de incêndio criminoso (1 Rs
16.9-19). Ao não suportar a rejeição sofrida, Zinri covardemente cometeu
suicídio e por motivo fútil.
2. No Novo Testamento
O mais emblemático caso é o suicídio de Judas
Iscariotes. Ele fizera parte do colegiado apostólico (Lc 6.16). Sua função de
tesoureiro requeria integridade (Jo 13.29). No entanto, ele furtava as ofertas
que eram lançadas na bolsa (Jo 12.6). Sua ambição por dinheiro foi uma das
motivações para entregar Jesus (Mc 14.11). Culpado por entregar sangue
inocente, foi enforcar-se (Mt 27.4,5) e como resultado “caiu de cabeça, seu
corpo partiu-se ao meio, e as suas vísceras se derramaram” (At 1.18, NVI).
Cristo já o tinha alertado: “ai daquele homem por quem o Filho do Homem é
traído” (Mc 14.21), porém, Judas não resistiu ao Diabo e nem teve humildade
para buscar o perdão. Preferiu o suicídio em lugar de corrigir o erro cometido.
Em nossos dias, a banalização da vida e da fé tem contribuído para
comportamentos similares e consequente queda espiritual.
Judas foi salvo?
Essa
pergunta é muito comum no meio evangélico. A dúvida de alguns se baseia no
conceito equivocado de predestinação. A doutrina da predestinação fatalista
ensina que Deus predestinou uns para os céus e outros para o inferno. Os
adeptos dessa ideia questionam: “Se Judas estava predestinado para trair Jesus,
o que ele poderia fazer para evitar sua condenação?” De outro lado, usando esse
mesmo pressuposto, alguns consideram uma injustiça Judas não ter sido salvo,
uma vez que, segundo essa teoria, ele nada poderia fazer contra os desígnios
divinos. Sem entrar nos debates da erudição teológica acerca da doutrina da
salvação, especialmente entre Calvino e Armínio, reconhecemos pelas Escrituras
que Deus é soberano (Is 41.21-24). Em sua soberania, Ele concede a cada pessoa
o livre-arbítrio para ser exercido dentro de seu soberano projeto para o
passado, presente e futuro. E as Escrituras também asseveram que a presciência
divina das futuras decisões de alguém não é o resultado de sua predeterminação
dessas escolhas. Portanto, cada qual será responsabilizado e julgado por suas
decisões, quer elas sejam boas, quer sejam más escolhas (Sl 51.3,4, Rm 2.6-8,
Ap 20.12).
Nesse caso,
a presciência divina sabia que Jesus morreria em uma cruz (Jo 12.32). Sabia que
seria traído por Judas Iscariotes (Jo 13.18-27) e também tinha ciência de que
Pedro negaria o Cristo (Mc 14.19-31). No entanto, a responsabilidade de cada um
desses atos recaiu sobre quem os decidiu executar. Quanto à morte de Cristo,
Deus não levou as autoridades e nem os algozes a crucificar Jesus, embora o
Senhor tivesse conhecimento prévio dos fatos, a culpa ainda era dos executores
(At 4.27,28). Isso significa dizer que “Deus não precisa predestinar para saber
de antemão” (HORTON, 1997, p. 364).
Quanto ao Iscariotes, sua má índole e sua
conduta reprovável não aconteceram de uma hora para outra. Não obstante, Lucas
e João escreverem que Satanás entrou em Judas (Lc 22.3; Jo 13.27), isso
significa dizer que embora agisse de modo próprio, inconscientemente o traidor
cooperou com o Diabo (ARRINGTON, 2003, p.139). O discípulo amado informa que
Judas era um corrupto contumaz e furtava as ofertas que Jesus recebia (Jo
12.6). A sua motivação para entregar o Senhor envolveu uma transação monetária
— trinta moedas de prata — o preço de um escravo (Êx 21.32). Apesar disso,
considera-se que esse não fora o único motivo da traição. Talvez ele achasse
que Cristo fosse um embuste e, desacreditado da messianidade de seu líder,
resolveu lucrar com a situação (MOUNCE, 1996, p. 250). Entretanto, ao contrário
de Pedro — que também traiu a Jesus —, mas que após negar ao seu Senhor encontrou
perdão por meio do arrependimento (Lc 22.62; Jo 21.17), Judas, cheio de
remorso, resolveu tirar a própria vida (Mt 27.5). Por conseguinte, tanto o “ato
da traição” quanto o “ato do suicídio” foram escolhas que selaram o seu
destino. Assim sendo, Pedro foi salvo e o Iscariotes morreu perdido.
3. O Suicídio no Mundo
Segundo a
Organização Mundial da Saúde, as mortes por suicídio aumentaram 60% nas últimas
cinco décadas. Quase um milhão de pessoas tira a própria vida todos os anos e
cerca de outros vinte milhões tentam ou pensam em suicidar-se. Para cada
suicídio, cerca de seis a dez outras pessoas são diretamente afetadas. Na
maioria dos países desenvolvidos, o suicídio é a primeira causa de morte não
natural. Desde 2015, as autoridades iniciaram o movimento “Setembro Amarelo”,
estimulado pela Associação Internacional pela Prevenção do Suicídio (IASP), que
consiste em iluminar ou sinalizar locais públicos com faixas ou símbolos
amarelos a fim de alertar e conscientizar do grande mal do suicídio.
II. OS TIPOS DE SUICÍDIOS
Aparentemente, os seres humanos são os únicos
animais que cometem o suicídio. A morte exerce sobre o homem, ao mesmo tempo,
medo e fascínio. Em 37 das peças de Shakespeare, por 54 vezes algum de seus
personagens comete suicídio (DRANE, 2013, p. 61). A prática do suicídio
acontece de modo variado. Neste tópico adotaremos os tipos classificados como
convencional, pessoal e sacrificial.
1. Suicídio Convencional
Dá-se
o nome de “convencional” ao suicídio provocado pela tradição cultural de uma
sociedade ou povo, bem como a coerção do grupo social na qual o indivíduo está
inserido. Trata-se de uma conduta consolidada pelo uso e pela prática. Na
cultura dos esquimós — grupo étnico que vive no gelo e na neve, submetidos a
temperaturas de até -45º C —, a doença e a incapacidade física, bem como a
velhice avançada, podem levar ao abandono e mesmo à morte. Para os Kutchin, na
região do Alasca, a morte dos inválidos era uma questão de sobrevivência para
seus descendentes. Era costume as pessoas de idade avançada, ao se sentirem um
peso para a sociedade, pedirem para serem mortas ou deixadas para trás para
morrer. Um ano após a morte dos velhos e incapacitados, uma cerimônia era
celebrada em memória daqueles que se sacrificaram pelo grupo. Esse tipo de
comportamento se assemelha à eugenia, em que somente os fortes podem e devem
sobreviver.
No
Japão, a prática do “hara-kiri” (suicídio ritual) expressava orgulho do suicida
em escapar de alguma situação intolerável e era visto como um ato de nobreza e
uma forma de heroísmo. Era costume, por exemplo, que o devedor insolvente
praticasse o suicídio na véspera do Ano-Novo, como uma maneira de limpar o seu
nome e o de sua família. Tal costume justificou o aparecimento dos “pilotos
suicidas” durante a Segunda Guerra Mundial (LARAIA, 2015, p. 15). Em época
recente, em maio de 2007, o ministro da Agricultura do Japão, ao ser
investigado por corrupção, sentiu-se extremamente envergonhado e cometeu o
suicídio por enforcamento. Em 2014, a taxa média de suicídios no Japão era de
70 pessoas por dia. Especialistas costumam citar essa antiga tradição de
“suicídio em nome da honra” para explicar que razões culturais tornam os
japoneses mais propensos à morte autoinfligida.
2. Suicídio Pessoal
Praticado por iniciativa individual sem a
influência de tradição cultural. As motivações para esse tipo de suicídio são
variadas e muitas vezes não é possível apontar causas aparentes. Nesse caso, o
suicídio é considerado uma fuga radical e permanente dos problemas da vida,
tais como, dificuldades financeiras, desilusões amorosas, sentimentos de culpa,
depressão, neuroses, desequilíbrios mentais e espirituais, e outros. O único e
último desejo do suicida é supostamente aliviar o sofrimento por meio da morte.
Tais pessoas comportam-se de maneira egocêntrica e costumam pensar apenas em si
mesmas. Não se importam com o sofrimento que vão causar aos outros tirando a
própria vida. Imaginam que seus sofrimentos são insuperáveis. Nessas
circunstâncias de individualização exacerbada, a tristeza e a melancolia
afloram os sentimentos suicidas que, desprovidos de fé e esperança, em um ato
de desespero levam o homem atentar contra a própria vida.
3. Suicídio Sacrificial
Também conhecido como “morte em prol dos
outros”. Trata-se da tentativa altruísta de alguém salvar a vida alheia em
detrimento de sua própria vida. Para o sociólogo Émile Durkheim, o suicídio
altruísta é praticado por indivíduos que se veem sem importância e oprimidos
pela sociedade ou por indivíduos que veem o mundo social sem importância e
sacrificam a si próprios por um grande ideal. Nesse ponto, divergimos do
célebre sociólogo, pois reconhecemos que pessoas podem sacrificar suas vidas
não por desacreditarem de si mesmas ou por desprezarem a sociedade, mas por
pura abnegação e como meio de salvar a vida de outro ser humano que está em
iminente perigo.
Nesse
caso enquadra-se o bombeiro, que entra no fogo ciente de que corre risco de
vida, e que por vezes acaba morrendo como resultado de sua ação. Também aquele
habilitado ou voluntário que se afoga ao entrar na água para tentar salvar a
vida do outro. Ainda o profissional civil e militar ou voluntário que perde a
vida combatendo o crime. Igualmente fazem parte dessa lista os voluntários e os
profissionais que atuam no socorro às vítimas de acidentes e emergências, que
muitas vezes sucumbem no exercício de suas atividades.
Nessas circunstâncias, a morte de quem arrisca
a vida em favor do próximo é considerado um ato de amor. Não se trata de
suicídio deliberado, convencional, pessoal ou egoísta, mas sim de uma ação
caracterizada pelo desprendimento da própria vida em favor do outro. Foi Cristo
Jesus quem nos ensinou: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a
sua vida pelos seus amigos” (Jo 15.13). O próprio Senhor entregou a sua vida
por nós. Não foi suicídio, foi um sacrifício de amor (Jo 10.15).
III. O POSICIONAMENTO CRISTÃO PARA O SUICÍDIO
A posição teológica e ética do cristão é
totalmente desfavorável à prática do suicídio. Atentar contra a vida, a sua ou
a de outro, é atentar contra a soberania de Deus, o autor da vida. Cremos e
ensinamos que o poder absoluto sobre a vida e a morte pertence a Deus. Por
violar os propósitos divinos, repudiamos qualquer ideologia que propague o
direito do homem em exterminar a própria vida.
1. O posicionamento teológico
O cristão
se posiciona contra o suicídio fundamentado no sexto mandamento do Decálogo:
“Não matarás” (Êx 20.13). O mandamento que proíbe o homem de assassinar o outro
também o proíbe de assassinar a si mesmo. A vida humana é uma dádiva divina e,
portanto, pertence a Deus (Sl 100.3). O Criador é quem determina o início e o
término da vida, e não a criatura (Ec 3.2). É Deus quem estabelece quando e
como a vida deve cessar, seja por doença, velhice, seja por acidente. Por
conseguinte, o fim da vida está sob o controle e a sabedoria divina.
A salvação e o suicida
Uma pergunta comum indaga o destino final
daquele que pratica o suicídio. Para responder a essa questão, é preciso ficar
claro que o suicídio é pecado contra Deus, a vida, a dignidade, a pessoa e a
sociedade. As Escrituras advertem que a violação do mandamento “não matarás”
resulta em condenação ao infrator (1 Co 3.16,17; 1 Jo 3.15b; Ap 21.8).
Mercê
da revelação inequívoca das Escrituras, cometer homicídio contra outro ou
contra si mesmo é pecado contra Deus, e atentar contra o corpo que é templo do
Espírito Santo implica a condenação de quem comete tais atos. Aqueles que
tentam inocentar o cristão que tira a própria vida argumentam que Sansão, ao
cometer suicídio, não perdeu a salvação, pois seu nome integra a galeria dos
Heróis da Fé (Hb 11.32). Tal argumento, como já vimos, é um logro e pode ser
desconstruído pelo fato de Sansão ter realizado um ato heroico de fé, para
vingar-se dos inimigos de Israel, mesmo admitindo o risco de morrer com eles.
Portanto, usar o exemplo de Sansão para justificar o suicida é apenas uma falsa
conjectura.
Outro
argumento falacioso apresentado por alguns no intuito de amenizar o pecado do
suicídio consiste em afirmar que a salvação é concedida ao suicida cristão sem
a necessidade de arrependimento de tal pecado. Aliás, essa posição é um desvirtuamento
do ensino das Escrituras Sagradas. Contradizendo essa audaciosa falácia, as
Escrituras revelam que o arrependimento precede a salvação (Lc 24.46,47; 2 Co
7.10a; 1 Jo 1.9,10).
Deus
não requer de nós um estado de perfeição plena. Se assim fosse, a salvação não
seria por graça, e sim por obras. Por outro lado, aquele que é nascido do
Espírito é nova criatura e não vive mais na prática do pecado, mas sim no
processo de santificação sem a qual ninguém verá a Deus (Hb12.14). Por
conseguinte, é preciso entender que a prática do suicídio não é um pecado
involuntário ou inconsciente inerente de nossa fraqueza carnal. Tirar a própria
vida é um pecado deliberado, consciente, pensado, premeditado, planejado e
executado em detalhes. Ao fazer uso do livre-arbítrio, o suicida
intencionalmente decide atentar contra a própria vida na ilusão de acabar com o
sofrimento e assim afronta a soberania divina. Estão inclusos aqui também
aqueles que, segundo Paulo, serão julgados por sua consciência (Rm 2.15,16).
A
Bíblia afirma que o Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, e da
justiça e do juízo (Jo 16.8). Quem comete o suicídio não está convencido desse
pecado; Ele resiste à ação do Espírito Santo e decide dar cabo da própria vida.
Entendemos o desespero da vida de quem chega a esse ponto e reconhecemos que
tal pessoa precisa de ajuda e de compaixão, e não de incentivo para
suicidar-se. Quem vive tal dilema, precisa de apoio e de libertação. E nós
sabemos pelas Escrituras que o homem não pode libertar-se por si próprio e que
tanto a salvação como o livre-arbítrio nos foram propiciados por Deus.
Portanto, quem comete o pecado do suicídio necessita que seu livre-arbítrio
seja conduzido pelo Espírito de Deus ao arrependimento e assim ser alcançado pela
graça salvadora. Lamentamos, porém, que alguns religiosos no afã de defenderem
um dogma de sua denominação religiosa insistem em apresentar argumentos
falaciosos, garantindo a salvação de quem comete suicídio, e assim, de maneira
insensata e inconsequente, consciente ou inconsciente, fazem apologia à prática
do suicídio.
Em
contrapartida, cremos que no caso do suicida ser convencido pelo Espírito de
Deus acerca de seu pecado, e nos últimos instantes de sua vida, tal qual o
malfeitor da cruz, por meio da fé arrepender-se de seu ato será salvo por meio
da graça, o favor imerecido concedido por Deus a pecadores arrependidos. E,
esclareço, o arrependimento não é obra humana; é obra do Espírito, que convence
o homem do pecado e o capacita ao arrependimento. Por conseguinte, somente Deus
é quem conhece a situação espiritual no último momento da partida de cada um de
nós. Por isso, o cristão não deve buscar e nem amenizar a prática do suicídio.
2. O Posicionamento Ético
O aumento do suicídio é resultado da ideologia
que enaltece a criatura em lugar do Criador e propõe a morte como única saída
para o sofrimento humano. O existencialismo, o secularismo e o relativismo tão
comuns na cultura pós-moderna insistirão que é direito do homem exercer
autonomia sobre o próprio corpo, a liberdade de fazer o que quiser, inclusive
suicidar-se. Essa filosofia é antiga. Os estoicos, por exemplo, glorificavam o
suicídio como a suprema independência do homem. Os atuais adeptos de tais ideologias
defendem que qualquer opinião contrária ao suicido é ameaça e violação contra a
liberdade humana. Quando o homem evoca autonomia sobre o próprio corpo e a
própria vida, desprezando e afrontando a soberania divina, graves e funestas
consequências ocorrem. A vida só tem sentido quando está sob o controle
irrestrito de seu Criador (Is 41.13). O início da vida e também o quando e o
modo do término da vida são prerrogativas exclusivamente divinas.
Justificativas éticas
A posição da
ética cristã é contrária à prática e à apologia ao suicídio pelos seguintes e
principais motivos:
a) o suicídio implica banalizar a vida e
afrontar a soberania divina, constituindo-se em último ato da falta de fé e de
esperança na vida de alguém;
b) o suicida viola o mandamento de amar a si
mesmo e ao próximo, constituindo-se em descaso com a dádiva da vida e desamor
para com o outro;
c) o suicídio é um ato egoísta de quem pensa em
aliviar seu sofrimento sem se importar com os outros, constituindo-se em
individualismo extremado;
d) suicidar-se denota inversão dos
valores da vida e falta de confiança em Deus, constituindo-se em conduta que
relativiza as verdades bíblicas;
e) o suicido é um gesto de ingratidão que
interrompe o ciclo e a missão da vida outorgada por Deus, constituindo-se em um
ato de desagravo ao favor divino.
A ética da prevenção
A
ética da prevenção tem por objetivo ser uma referência para a prática de
conduta pessoal e profissional de todos os colaboradores que visam impedir o
suicídio e auxiliar pessoas com tendências suicidas. Em 2006, a Organização
Mundial da Saúde, alarmada com os índices de suicídio no mundo, lançou um
Manual de “Prevenção do Suicídio”. O Manual afirma que “os comportamentos
suicidas são mais comuns em certas circunstâncias devido a fatores culturais,
genéticos, psicossociais e ambientais” (Prevenção do Suicídio, 2006, p. 3, 4),
e ainda apresenta dicas que podem reduzir o risco de suicídio, tais como, o
apoio da família e de amigos, crenças religiosas, culturais e étnicas; envolvimento
na comunidade; vida social satisfatória e o cuidado com a saúde mental, dentre
outros.
Como
cristãos, não podemos ignorar que também somos seres humanos, e, portanto, não
estamos imunes aos sofrimentos psíquicos e angústias da alma. Precisamos cuidar
uns dos outros por meio do apoio mútuo, do diálogo franco, e não por meio de
acusações ou atitudes discriminatórias. Ao percebermos os sintomas aqui já
listados, não podemos tomar atitudes triunfalistas ou de negação dos fatos. Os
sentimentos suicidas são atos de desespero e profundo sofrimento. Por isso, é
indispensável agir. Dar atenção, estar disponível, conversar, aconselhar e
interceder. Estimular a fé e a esperança, cobrir de afeto e de carinho, sentir
empatia e ser compreensivo. Em caso de nenhuma dessas prevenções surtir efeito,
deve-se buscar ajuda qualificada. Não é nenhum demérito o cristão receber
tratamento profissional adequado.
Lançando a ansiedade sobre Cristo
“A Bíblia manda lançar todas as ansiedades
sobre o Senhor e não na morte (1Jo 1.7; 1Pe 5.7). A Palavra de Deus nos
incentiva a exercitar a fé, colocando sobre Deus os nossos cuidados, ansiedades
e sofrimentos. Diz a Palavra: ‘Verdadeiramente, ele tomou sobre si as nossas
enfermidades e as nossas dores levou sobre si...’ (Is 53.4a — ênfase
minha). Cristo levou nossas dores sobre si. Isso nos dá o conforto e a
segurança de que, pela fé, nossas dores foram Lançadas sobre Ele”. Ética Cristã: Confrontando as Questões Morais do
Nosso Tempo, CPAD, p.145.
Fonte:
Livro de Apoio – Valores Cristãos - Enfrentando as questões morais de nosso tempo - Douglas Baptista
Lições Bíblicas 2º Trim.2018 - Valores Cristãos - Enfrentando as questões morais de nosso tempo - Comentarista: Douglas Baptista
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