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sábado, 18 de novembro de 2017

Salvação e Livre-Arbítrio

“Qual é o homem que teme ao Senhor? Ele o ensinará no caminho que deve escolher” Sl 25.12

Salvação e Livre-Arbítrio

Prezado(a) professor(a), na aula desta semana é importante remontar a biografia de Jacó Armínio. Por isso o estudo de livros de história da Igreja é importante. Há também boas literaturas teológicas sobre Armínio, uma delas já mencionada em artigo anterior. A CPAD também tem as obras de autoria de Armínio publicadas em língua portuguesa à disposição dos irmãos: As Obras de Armínio, 3 Volumes. Assim, faremos um breve resumo sobre a importância desse grande teólogo.

Jacó Armínio era um teólogo holandês que se posicionou contrário a algumas doutrinas de linha calvinista com o objetivo de destacar mais o caráter amoroso, bondoso e justo de Deus que foram manifestos na pessoa bendita de Jesus Cristo. Por isso, Armínio foi acusado injustamente de ensinar muitas heresias. Contra ele, foram usados argumentos frágeis e insustentáveis se analisados de maneira séria. Infelizmente, esse “espírito” é comum ainda hoje. A fé cristã não é uma expressão homogênea. Embora tenhamos pontos de fé comuns, que nos une, também temos pontos que nos traz discordâncias pontuais: batismo, escatologia, batismo no Espírito. Mas temos de fazer um alerta importante! Por exemplo, antes de existirem tradicionais-históricos, pentecostais, neopentecostais e outros, já havia milhares de cristãos fiéis ao Senhor. Isso significa que a história da Igreja não começou com uma pessoa ou denominação somente. Por isso não se justifica guerras teológicas, brigas denominacionais e, até mesmo, rompimentos de amizade por causa disso. A Palavra de Deus não é para trazer contendas e rivalidades.

É importante salientar que Jacó Armínio não acrescentou nada novo à teologia cristã no sentido doutrinário. Para fortalecer esse parecer, o estudioso holandês usou em seu método os pais da Igreja, escritos medievais e muitos outros protestantes que lhe antecederam, mostrando que eles defendiam a mesma doutrina cristã. Alguns nomes que fazem parte da belíssima história protestante podem ser arrolados ao lado de Armínio em visões similares e bem idênticas ao do teólogo holandês: Melanchton, um líder luterano; Erasmo, reformador católico; Balthasar Hubmaier e Menno Simons, líderes anabatistas do século XVI. Jacó Armínio morreu no auge da controvérsia teológica na Holanda, em 1609. Revista Ensinador Cristão nº72

O projeto primário de Deus foi salvar a humanidade. Todavia, de acordo com sua soberania, concedeu o livre-arbítrio ao homem.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE - João 3.14-21

Deus é soberano, amoroso e deseja salvar a todos indistintamente, mas isso não anula o direito de escolha do ser humano. O que coube a Deus fazer no plano perfeito da salvação Ele o fez, mas a parte do homem, que é pela fé decidir crer e aceitar o sacrifício de Jesus, ele precisa fazer. Deus criou seres autônomos, inteligentes e permite que suas criaturas escolham entre o bem e o mal. No plano perfeito da salvação, Cristo deu a sua vida por todos, mas somente aqueles que decidem crer serão salvos. Nesta lição estudaremos também a respeito do teólogo reformador Armínio, pois ele foi um dos que refutou duramente a teologia da predestinação de Calvino.

INTRODUÇÃO

Na cruz do Calvário, Jesus Cristo ofereceu a salvação indistinta e gratuitamente para todos os seres humanos (Ap 22.17). Por decisão pessoal, e liberdade individual, os que recebem a oferta de salvação são destinados à vida eterna, pois o Pai quer que todo homem se salve e que ninguém se perca (2Pe 3.9).

I. A ELEIÇÃO BÍBLICA É SEGUNDO A PRESCIÊNCIA DIVINA

1. A eleição de Israel.
A eleição no Antigo Testamento tem um significado mais específico que no Novo Testamento. Exemplo disso é o chamado de Abraão e sua descendência, que mais tarde formariam a nação de Israel. Deus chamou o patriarca e lhe fez promessas (Gn 12.1-3). Livre e espontaneamente, o “amigo de Deus” respondeu positivamente ao chamado. Entretanto, diante dele havia a possibilidade de não atender a essa convocação. Nesse sentido, é importante ressaltar que a eleição de Israel (Is 51.2; Os 11.1) é específica e pontual. Deus tinha um propósito de enviar o Salvador ao mundo por intermédio da nação judaica. Por ser pontual, específica e coletiva, a eleição de Israel não pode ser usada como base para fundamentar a salvação individual do crente, nem mesmo dos judeus, no sentido de Deus decretar uns para a vida eterna e outros para a eterna danação. Além do mais, por meio do livre-arbítrio que Deus deu a Israel, a nação chegou a perder algumas bênçãos prometidas porque se rebelou contra o Senhor e desobedeceu à sua ordem (Jr 6.30; 7.29). Segundo o apóstolo Paulo, isso nos serve de exemplo a fim de não repetirmos os mesmos erros do povo de Deus do Antigo Testamento (1Co 10.6,11).

2. A eleição para a salvação.
A eleição divina é o ato pelo qual Deus chama os pecadores à salvação em Cristo e os torna santos (Rm 8.26-39). Essa eleição é proclamada por meio da pregação do Evangelho (Jo 1.11; At 13.46; 1Co 1.9), pois o Altíssimo deseja que todos sejam salvos, respondendo afirmativamente ao seu chamado para a salvação (At 2.37; 1Tm 2.3,4; 2Pe 3.9). Entretanto, as Escrituras mostram claramente que quem crer será salvo, mas quem não crer será condenado (Mc 16.16).

3. A presciência divina.
Presciência é a capacidade de Deus saber todas as coisas de antemão (At 22.14; Rm 9.23) e de interferir na história humana (Ne 9.21; Sl 3.5; 9.4; Hb 1.1-3). Ele é soberano (Jó 42), provedor (Sl 104) e sabe quem responderá positivamente ao convite de salvação (Rm 8.30; Ef 1.5). Deus proveu o meio de salvação para todas as pessoas, mas nem todas atenderão ao seu convite. Em sua soberania e presciência, estamos sob os seus cuidados, mas paradoxalmente, também desfrutamos do livre-arbítrio que Ele nos deu, o que aumenta mais a responsabilidade humana de obedecer à sua vontade (Rm 11.18-24).

SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“Qualquer estudo sobre a eleição deve sempre começar por Jesus. E toda conclusão teológica que não fizer referência ao coração e aos ensinos do Salvador, seja tida forçosamente por suspeita. Sua natureza reflete o Deus que elege, e em Jesus não achamos nenhum particularismo. Nele, achamos o amor. Por isso, é relevante que em quatro ocasiões Paulo vincule o amor à eleição ou à predestinação: ‘Sabendo, amados irmãos, que a vossa eleição [gr. eklogen] é de Deus’ (1Ts 1.4). ‘Como eleitos [gr. eklektoí] de Deus, santos e amados...’. (Cl 3.12) — nesse contexto, amados por Deus. ‘Como também nos elegeu [gr. exelaxato] nele antes da fundação do mundo... e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito [gr. eudokia] de sua vontade’ (Ef 1.4,5). Embora a intenção divina não esteja ausente nesta última palavra grega (eudokia), ela inclui também um sentido de calor que não fica tão evidente em thelõ ou boulomai. A forma verbal aparece em Mateus 3.17, onde o Pai diz: ‘Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo [gr. eudokesa]’.
Finalmente, Paulo diz: ‘Mas devemos sempre dar graças a Deus, por vós, irmãos amados do Senhor, por vos ter Deus elegido [gr. heilato] desde o princípio para a salvação, em santificação do Espírito e fé da verdade’ (2Ts 2.13). O Deus que elege é o Deus que ama, e Ele ama o mundo. Tornar-se-ia válido o conceito de um Deus que arbitrariamente escolheu alguns e desconsidera os demais, deixando-os ir à perdição eterna, diante de um Deus que ama o mundo?” (HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática:Uma perspectiva pentecostal. 1ª Edição. RJ: CPAD, 1996, pp.363,364).

II. ARMÍNIO E O LIVRE-ARBÍTRIO

1. Breve histórico de Jacó Armínio.
Jacó Armínio (*1560 +1609) nasceu na Holanda, foi pastor de uma igreja em Amsterdã e recebeu o título de doutor em teologia pela Universidade de Leiden. Tendo sido envolvido numa disputa calvinista, desenvolveu uma tese bíblica a partir dos primeiros Pais da Igreja, que foi denominada de Arminianismo. Sua principal característica é a defesa do livre-arbítrio humano. Por esse posicionamento, enfrentou forte oposição, perseguição e falsas acusações por parte dos teólogos calvinistas. Entretanto, esse teólogo holandês sempre apresentou uma postura tolerante e não combativa, embora convicto de suas opiniões.

2. O livre-arbítrio.
O livre-arbítrio é a possibilidade que os seres humanos têm de fazer escolhas e tomar decisões que afetam seu destino eterno, especificamente se tratando da salvação. Isso quer dizer que cabe a cada um deixar-se convencer pelo Espírito Santo para ser salvo por Jesus ou não, embora Deus dê a todos a oportunidade da salvação. No Jardim do Éden, o Criador outorgou o livre-arbítrio ao homem (Gn 2.16,17); a Israel deu também essa prerrogativa (Dt 30.19); e à humanidade o Altíssimo possibilitou escolha entre o caminho da salvação ou o da perdição (Mc 16.16).

3. O livre-arbítrio na Bíblia.
Deus nos criou à sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Logo, por Ele ser naturalmente livre, também seus filhos possuem a faculdade de escolherem livremente. Por isso, o Criador sempre incentivou a nação a escolher o caminho da vida (Dt 30.19-20). Assim, segundo as Escrituras, se em Adão todos são predestinados para a perdição, em Cristo, todos são predestinados para a salvação: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1Co 15.22; cf. Jo 1.12), pois “se, com a tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo” (Rm 10.9).


Eleição divina e livre-arbítrio
“Na Bíblia temos tanto a predestinação divina como a livre-escolha humana, em relação à salvação; mas não uma predestinação em que uns são destinados à vida eterna, e outros, à perdição eterna. [...]. Por outro lado, a ênfase inconsequente à livre-vontade do homem conduz ao engano de uma salvação dependente de obras, conduta e obediência humanas”. 
Leia mais em Teologia Sistemática Pentecostal, CPAD, pp.368,69.


III. ELEIÇÃO DIVINA E LIVRE-ARBÍTRIO

1. A eleição divina.
A eleição é uma escolha soberana de Deus (Ef 1.5,9) que tem como objeto de seu amor todos os seres humanos (1Tm 2.3,4). Não é uma obra que leva em conta o mérito humano, mas que é feita exclusivamente em Cristo (Ef 1.4). Em Jesus, Deus nos elegeu com propósitos específicos: para pertencermos a Cristo (Rm 1.6; 1Co 1.9); para a santidade (Rm 1.7; 1Pe 1.15; 1Ts 4.7); para a liberdade (Gl 5.13); para a paz (1Co 7.15); para o sofrimento (Rm 8.17,18); e para a sua glória (Rm 8.30; 1Co 10.31).

2. Escolha humana e fatalismo.
A graça comum (Rm 5.18) é estendida a todos os seres humanos, abrindo-lhes a oportunidade para crerem no Evangelho, o que descarta a possibilidade de a eleição ser uma ação fatalista de Deus — Fatalismo: acontecimentos que operam independentemente da nossa vontade, e dos quais não podemos escapar. Ora, a eleição de Deus não é destinada somente a alguns indivíduos, enquanto os outros, por escolha divina, vão para o inferno. Isso vai contra a natureza amorosa e misericórdia do Criador. Por isso, indistintamente, Ele dá a oportunidade para que todos se salvem (At 17.30), pois Deus não faz acepção de pessoas (At 10.34).

3. A possibilidade da escolha humana.
Há vários textos bíblicos que apontam para o fato de o ser humano ser livre para escolher: “todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16); “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6.37); “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13). Uma das coisas mais belas da Palavra de Deus é que, embora o Altíssimo seja soberano, Ele não criou seus filhos como robôs autômatos milimetricamente controlados. O nosso Deus deseja que todo ser humano, espontânea e livremente, o ame de todo coração e mente.


Deus nos elegeu, em Jesus, para pertencermos a Ele.


SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“Ainda de acordo com a ideia de que o relacionamento entre o divino e o humano é uma via de mão dupla, a posição compatibilista de Lewis, que aventa o que chamei de ‘coexistência pacífica entre soberania divina e livre-arbítrio’ ou ‘compatibilidade incognoscível’, é exemplificada pelo autor de As Crônicas de Nárnia, com a ideia de perdão. A necessidade de tal ato da parte de Deus, ‘move’ a divindade e, ‘Nesse sentido’, diz ele, ‘a ação divina é consequência do nosso comportamento, [e] é por ele condicionada e induzida’. Lewis então questiona retoricamente: ‘Será que isso significa que podemos ‘influenciar’ Deus?’. O anglicano acredita que é até possível responder afirmativamente caso se quiser e diz que, se isso for dessa forma, é preciso então que se flexibilize a noção de ‘impassibilidade’ divina, ‘de forma que admita isso’, aventando a hipótese de que o comportamento humano, de alguma forma, ‘influencia’ o Criador, ‘pois sabemos que Deus perdoa muito mais do que entendemos o significado de impassível’. Assim é que, a respeito dessa questão, Lewis diz que prefere ‘dizer que, antes de existirem todos os mundos, Seu ato providencial e criativo (porque são uma coisa só) leva em conta todas as situações engendradas pelos atos de suas criaturas’. Mas, questiona, ‘se Deus leva em conta nossos pecados, por que não nossas súplicas?’. Isso significa que a oração, a súplica, move a Deus. Numa palavra, ‘Deus e o homem não se excluem mutuamente, como o homem exclui ao seu semelhante no ponto de junção, por assim dizer, entre Criador e criatura; no ponto em que o mistério da criação — infinito para Deus e incessante no tempo para nós ’ ocorre de fato’. Isso significa que, ‘Deus fez (ou disse) tal coisa’ e ‘eu fiz (ou disse) tal coisa’ podem ambos ser verdadeiros’. Esta, inclusive, é a forma arminiana e pentecostal de crer. A soberania divina coexiste com o livre-arbítrio e qualquer tentativa de explicar como isso ocorre leva a equívocos e discussões desnecessárias” (CARVALHO, César Moisés. O Sermão do Monte: A justiça sob a ótica de Jesus. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2017, pp.114,115).

SUBSÍDIO
Abaixo, segue um quadro comparativo entre as três principais correntes de doutrina da salvação, quanto a vários temas que demonstram as tensões e questões conflitantes entre elas:


(É lógico que há muitas variantes desses três modelos. Procuramos falar aqui das correntes clássicas, sem levar em conta o semipelagianismo e os vários calvinismos como o neopuritano, o neo-ortodoxo, o neocalvinista, o hiper-calvinismo, o fatalista. Além disso, sabe-se que "os tipos ideais possuem uma coerência, que evidentemente não é possível encontrar na realidade" (MARIZ, Cecilia Loreto. A Sociologia da Religião de Max Weber. In: TEIXEIRA, Faustino (Org.). Sociologia da religião: enfoques teóricos. Petrópolis: Vozes,2007.p.78)


CONCLUSÃO

O Evangelho é um presente oferecido a todas as pessoas, independente de méritos pessoais. Por isso o Senhor convida: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Os que aceitam a esse convite estão predestinados a “serem conforme a imagem de seu filho”, Jesus Cristo (Rm 8.29). Deus deseja que todo ser humano seja salvo!


Fonte:
Livro de Apoio - 4º Trim/17 – A Obra da Salvação - Claiton Ivan Pommerening
Lições Bíblicas Adultos 4º trimestre/17 - A Obra da Salvação — Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida – Comentarista: Claiton Ivan Pommerening

Aqui eu Aprendi!

sábado, 30 de setembro de 2017

Uma Promessa de Salvação

“E porei inimizade entre ti e a mulher e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” Gn 3.15

Uma promessa de Salvação

Neste mês de outubro, ocorrerá o evento de suma importância para toda a igreja de tradição protestante no mundo: 500 anos da Reforma Protestante. Por isso, o tema que estudaremos ao longo deste trimestre — A Obra de Salvação: Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida — é importantíssimo para todos os cristãos que se identificam com a tradição protestante, e mais especificamente, para nós os pentecostais. O tema da salvação foi crucial para o advento da Reforma Protestante. Num contexto em que se vendia o céu por dinheiro, bispos praticavam imoralidades e a espiritualidade da igreja oficial era isquêmica e autômata, dizer que a salvação do pecador dependia exclusivamente da fé em Cristo Jesus era algo que só poderia brotar do Espírito Santo. Essa mensagem ia contra toda a teologia e tradição construídas ao longo dos anos pela igreja ocidental. Para nós, os pentecostais, de longa data, há sempre uma tensão ao tratar do assunto. Isso por que muitos se veem diante de uma tradição protestante forte em que a tônica soteriológica se dá no sentido de jamais ser possível perder a salvação. E se afirmamos que o crente precisa esforçar-se para viver em santidade e guardar fé para não cair da graça, faz-se uma acusação de pelagianismo, isto é, Deus não seria o responsável pela salvação, mas sim o homem. Jamais, nós os pentecostais, afirmamos tal “doutrina”. Neste trimestre, veremos que isso não faz sentido algum, pois a mesma Bíblia que diz que Deus é soberano e, sim, é o autor da salvação, pois Ele, em primeiro lugar, deseja que todos sejam salvos (1Tm 2.4); também diz que é preciso estarmos vigilantes e santificar nossa vida diante Deus, pois sem santidade “ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Embora sejamos alcançados pela graça por Deus, pois jamais afirmamos coisa contrária, Ele espera que o Espírito Santo convença o homem “do pecado, e da justiça, e do juízo” (Jo 16.8). Assim, é o desejo do Pai, que em Cristo, o ser humano reconheça o seu real estado e diga o “sim” de verdade, como decisão consciente de que Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6); porque “quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18). Revista Ensinador Cristão nº72 - CPAD

A Promessa da Salvação foi a resposta amorosa de Deus para reconciliar consigo mesmo o ser humano.

Leitura Bíblica em Classe: Gênesis 3.9-15

A salvação é um processo imediato (conversão) e contínuo na vida do crente (santificação). É necessário que o nascido de novo conheça todos os benefícios que essa dádiva, por intermédio da morte de Cristo, outorgou-lhe na cruz. A vida plena, a paz, a alegria, a misericórdia, a graça e a bondade que o crente desfruta provêm do milagre da salvação.


A salvação é obra de Deus e é oferecida como presente pela sua graça (Ef 2.8-9), não podendo ser alcançada por mérito ou esforço humano (Tt 2.11). Ela tornou-se necessária após a experiência destrutível que o homem experimentou ao pecar no Jardim do Éden, o que tornou deplorável o estado do homem.

Um dos maiores tesouros que a raça humana perdeu com a Queda foi a capacidade de amar plenamente a Deus, a seu semelhante e a si mesmo — essa era a essência da imagem de Deus; agora, apesar da capacidade de amar, foi incorporada a desconfiança, a ira, o rancor, o ódio e a vingança, que passaram a fazer parte dos relacionamentos, alienando (separando) o ser humano do seu semelhante, de Deus e de si mesmo. Isso é motivo de angústias e desesperos no ser humano.

O pecado tem como consequência a destruição da comunhão com Deus, provocando alienação; esta, por sinal, provoca a ira de Deus, bem como a culpa (expectativa de horror pela alienação) no homem, impedindo-o de chegar-se a Deus, estabelecendo a parede de separação (Is 59.2; Ef 2.14);

A santidade de Deus exige uma restituição à altura; o homem, entretanto, não tem condições de satisfazer essa exigência. Sendo assim, Deus evidencia sua misericórdia e amor providenciando uma solução, mas a honra de Deus exigiu o sacrifício de um homem perfeito como único meio suficiente de reconciliação. O ser humano é incapaz de satisfazer essa exigência. Assim, Cristo morreu em lugar da humanidade. Essa incapacidade humana exigiu a morte de cruz para que se compreendesse o imensurável amor de Deus.

Esse estado de pecado no homem causou-lhe a culpa pelo pecado e o medo da morte como consequência (Rm 6.23). Antropologicamente, a culpa tenta ser amenizada aplacando o clamor da alma do homem que lhe grita de forma ensurdecedora: “um preço precisa ser pago”; a exemplo dos povos mais primitivos que criam formas e rituais religiosos para amenizar essa culpa, alguns deles sacrificando animais, fazendo oferendas ou sacrificando ao seu deus algo que lhe custe caro, muitos crentes também podem estar tentando aplacar esse grito de forma errônea, ou sem estarem entendendo todos os benefícios da salvação, ou, ainda, querendo aprofundar esse tema. Daí a necessidade de estudarmos o significado da salvação em Cristo Jesus.

Para livrar-se desses medos anteriormente descritos, o homem procura criar preceitos morais e éticos5 que limitam sua esfera de ação, definindo o que é certo e o que é errado. Quando transcende esse limite, ele sente-se culpado e condenado. Quando se comporta dentro desse limite, pode sentir-se falsamente bem. Alguns círculos religiosos têm procurado satisfazer essa ansiedade traçando para si limites mais estreitos, ou seja, quanto maior seu sentimento de culpa e condenação, mais eles tentam, com isso, amenizar sua consciência. Tal situação pode produzir sujeitos neuróticos e doentes, que muitas vezes não conseguem viver a plenitude da salvação e nem se contentam enquanto os outros não se tornarem como eles. Abusados, tornam-se abusadores da liberdade dos outros e vice-versa, num constante círculo vicioso de proselitismo doentio.

O crente precisa transferir esse apelo para Cristo para livrar-se do legalismo e da culpa. Todos os falsos deuses e legalismos exigem algo do homem para aplacar a ira desse “deus”, mas o Deus verdadeiro fez o contrário: Ele deu a si mesmo em resgate da humanidade! (cf. Gl 1.4)

1. O CONCEITO BÍBLICO DE SALVAÇÃO

A palavra salvação em latim é composta por salvare (tornar seguro) e por salus (boa saúde, ajuda). Disso, é oriundo o cumprimento latino “salve” como um desejo de boa saúde. Portanto, salvação é um termo abrangente cujo significado evoca bem-estar físico, mental, social e espiritual, justamente o que a Bíblia diz ser cura, redenção, remédio, completude, inteireza, integridade e integralidade. “Salvação significa a ação ou resultado de livramento, preservação de algum perigo ou enfermidade, subentendendo segurança, saúde e prosperidade.”6  A salvação não é uma ideia ou um projeto apenas; é uma pessoa.
É o próprio Jesus, o próprio Deus quem se dá. Em sua presença todos os debates intermináveis que despertam em nós o sentimento de culpa, todas as diferenças moralistas e nossas defesas contra os julgamentos de outros, tudo isto se esvai. [...] O remorso é silenciado pela sua absolvição. Ele substitui o remorso com uma simples pergunta, aquela que fez para o apóstolo Pedro: “Tu me amas?” (Jo 21.15).7

Tanto os nomes de Deus e de Jesus no hebraico têm semelhanças com a palavra salvação, que é yeshü‘â (livramento, facilidade). Yahweh é Jeová em Êx 14.13 e combina esse nome com o anterior para designar livramento. Yehoshua significa Josué, que é derivado de Yeshua (Jesus), que significa “Yahweh é a salvação”. Portanto, há uma semelhança semântica muito interessante que designa Jesus como o Salvador. “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo” (1 Jo 4.14). A palavra para “paz”, em hebraico shãlôm, cujo significado é completude, saúde, bem-estar, harmonia, paz e algo que não foi violado, tem raiz comum com a palavra “salvação”.

O sentido original de salvação (de salvus, “curado”) pode ser interpretado como cura. A humanidade precisa ser curada do pecado. Nesse sentido, curar significa reunir Deus e o ser humano, que estão separados um do outro, e superar a divisão e a inimizade entre as pessoas e Deus. É exatamente por isso que Jesus disse à mulher que foi curada por tocar na vestimenta dEle: “Filha, a tua fé te salvou” (Mc 5.34).

“Salvação” tem origem também na palavra grega sóter. O vocábulo “soteriologia” é um termo teológico composto por duas palavras gregas: sōtēria que significa “salvação, cura, recuperação, redenção, remédio, bem-estar”, e do substantivo logia, cujo significado primário é “estudo, tratado ou ensino”. Em sentido literal, soteriologia é “o estudo, ensino, ou tratado acerca da salvação”. O substantivo grego soteria ocorre cerca de quarenta e cinco vezes nas Escrituras Neotestamentárias, enquanto o verbo “sōzō” (salvar, conservar do mal, socorrer), ocorre cento e seis vezes.8

Salvação é a saída do estado de pecado para o estado de graça e perdão. O cristão que aceita a Jesus como seu Salvador vive sua vida de forma abundante, ou seja, ele experimenta não apenas a certeza da vida eterna, mas também, já aqui nesta vida, a antecipação do Reino de Deus, podendo viver em paz, em saúde e em prosperidade em todas as dimensões da vida; além disso, ele experimenta também a comunhão com Deus, o perdão e a libertação dos pecados, apazigua sua alma de temores, desfruta a vida em felicidade; ele é nova criatura e esforça-se para compartilhar e implantar as realidades do Reino de Deus em sua vida e no mundo. Salvação significa que Cristo fez a expiação pelo pecador, ocupando seu lugar na cruz (passado); significa que o crente é regenerado e santificado (presente) e será glorificado integralmente (futuro).

Existem várias doutrinas bíblicas relacionadas à salvação; algumas delas serão discorridas neste livro, dentre as quais citamos:9 do pecado (Rm 3.23); da graça de Deus (Tt 2.11); da expiação (Lv 17.11); da redenção (Ef 1.7); da propiciação (Êx 32.30); da fé salvífica (Ef 2.8); do arrependimento (Mc 1.14-15); da confissão dos pecados (Rm 10.9-10); do perdão dos pecados (Cl 3.13); da regeneração (1 Pe 1.3); da adoção (Gl 4.5-6); da santificação (1 Co 6.11); da eleição divina (1 Pe 1.2); da predestinação dos salvos (Rm 8.29); do livre-arbítrio (Mc 16.16); da justificação (Rm 8.30) e da glorificação futura (Rm 8.30). Os principais aspectos da salvação,10 que serão abordados num capítulo específico, referem-se à regeneração, à justificação e à santificação.

Essas doutrinas podem ser divididas em duas partes, que são:
(1) as provisões feitas por Deus, que incluem a morte, ressurreição, ascensão e exaltação de Cristo; e 
(2) a aplicação das provisões, que são arrependimento, fé, justificação, regeneração, adoção, eleição, santificação, confiança e segurança.11

No Antigo Testamento, a salvação está relacionada a escapar das mãos dos inimigos, à libertação da escravidão e ao estabelecimento de qualidades morais e espirituais (Is 33.22ss;). Portanto, diante de ameaças de calamidade física (Êx 15.25), de perseguição (Jz 15.18; 1 Sm 10.19; 2 Sm 22.3), de escravidão, de doenças e da morte, Deus promete salvação no sentido de libertação (Êx 14.13; 15.2,13), livramento e cura (Is 38.16; 58.8). As narrativas do Antigo Testamento têm em vista demonstrar como Deus intervém na história através do amor e, com isso, fica evidente seu imenso interesse em salvar a humanidade perdida.

A salvação no Antigo Testamento envolve o fato de que, quando há transgressão do povo de Deus e o consequente cativeiro, Deus provê libertação (Ne 9.27; Is 46.13; 52.10). Assim sendo, salvação no A.T aponta para várias figuras e tipos de Cristo como o Messias Salvador. Os personagens de José do Egito, Moisés, Josué, Davi, Isaías e vários reis e profetas apontam para o caráter salvífico que Cristo efetuaria de uma vez por todas na cruz do Calvário.

O sacrifício de Cristo teve um grande sentido salvífico. Foi um favor imerecido da parte de Deus para com os pecadores que deveriam sofrer merecidamente, mas Cristo fez essa substituição: o santo pelos pecadores, o justo pelos injustos. Os sacrifícios do Antigo Testamento tinham sua transitoriedade temporal, mas o de Cristo teve validade eterna, como escreveu o autor de Hebreus: “mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus” (Hb 10.12).

Paulo, em suas epístolas, é quem mais esclarece os conceitos de salvação, mostrando que não há salvação por intermédio da Lei, nem por esforços humanos, mas unicamente pela graça de Deus (Gl 2.16). Cabe ao homem confiar pela fé na retidão de Cristo que o redimiu por sua morte e que o justificou por sua ressurreição (Rm 4.25). Através de Cristo, Deus justifica o pecador sem que este mereça, perdoa o seu pecado, reconcilia-o consigo (Rm 5.11), adota-o em sua família (Gl 4.5), dando-lhe o selo do seu Espírito, fazendo dele uma nova criatura. O Espírito Santo capacita o crente a viver em santidade, mortificando a força do pecado, tornando-o semelhante a Cristo (Rm 8.29), esperando sua salvação completa e gloriosa (Fp 3.21).


2. A IMPORTÂNCIA DA DOUTRINA DA SALVAÇÃO

A importância da doutrina da salvação dá-se porque Jesus é o único mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5). Ele é o único Salvador, e sua obra salvadora abrange todas as dimensões humanas: física, emocional, mental, religiosa, social, econômica, histórica e escatológica. Portanto, algo tão abrangente é de suma importância para ser conhecido por todos os crentes. Ela significa que o crente experimenta uma nova vida em Cristo, onde a salvação é a porta de entrada no Reino de Deus e da vivência das realidades deste Reino, aqui e agora, e que receberá a plenitude dEle na vida eterna. As realidades presentes na salvação no aqui e agora dizem respeito à indelicada posição que o homem ocupa diante de Deus por causa do pecado, que é desafiá-lo em arrogância e “desejo de ser igual a Deus. [Em] asserção de independência humana contra Deus”. 12 O homem encontra-se alienado, fracassado, escravo, rebelde, enfermo e condenado à morte; mas, através da salvação, essa condição é resolvida, dando-lhe condições satisfatórias de viver em harmonia consigo, com Deus e com o próximo. Por melhores que sejam, nem a religiosidade e nem mesmo condições sociais e econômicas favoráveis podem mostrar-se eficazes no combate à angústia do pecado, à culpa e à condenação ao Inferno. Somente a obra salvadora de Cristo, aceita em atitude de fé e confiança, pode trazer alívio a essa terrível condição humana. A salvação de Cristo proporcionou-nos a salvação do Inferno — a chamada morte eterna — e a salvação em relação àquilo que conduz ao Inferno, que é o pecado.

Embora haja na vida do cristão um momento de conversão, de ruptura com uma velha vida e nascimento para uma nova vida em Cristo, é necessário esta ser acompanhada de um sempre maior conhecimento de seus benefícios (1 Tm 2.4). Nesse sentido, deve-se tomar o capacete da salvação e a couraça da justiça (Ef 6.14,17); e preencher a mente e o coração com as verdades e mudanças processadas através da salvação para estarmos livres das investidas de Satanás, que coloca dúvidas, e para compreendermos conceitos e práticas fundamentais da doutrina cristã da salvação e apropriarmo-nos sempre mais dos benefícios espirituais e materiais desta tão grande salvação.

A salvação abrange todas as dimensões da vida; para isso, basta apenas aceitar a Cristo (Rm 10.10) — muitas vezes, seu processo é lento e requer compreensões maiores — é o que chamamos de aperfeiçoamento dos santos. Como a salvação pode ser negligenciada (Hb 2.3), devemos esforçar-nos para conhecer e apropriarmo-nos de todos os seus benefícios, dentre os quais citamos: livramento da condenação do Inferno, libertação do poder do pecado e do poder das trevas (Cl 1.13) para experimentar a redenção em Cristo (1Pe 1.18,19), para cuidar da criação (Rm 8.22), para andar segundo o Espírito (Rm 8.1), para nascer de novo (Jo 3.5) e participar da ressurreição (Cl 3.1).

A realidade da salvação convoca-nos para um agir no mundo, como uma antecipação do Reino de Deus, promovendo a paz, o amor e a justiça numa sociedade caótica e carente de Deus, cujos valores estão cada vez mais deturpados pelos pecados da ganância, do egoísmo, do individualismo, do capitalismo selvagem e de toda variedade de situações que o pecado cria e impõe sobre o homem. Dessa forma, o evangelho torna-se a única solução possível, cabendo àqueles que foram alcançados por ele propagarem essa tão grande verdade a respeito da bondade e do interesse de Deus em proporcionar vida plena a todo ser humano.

Embora a salvação tenha implicações para a eternidade e religue o ser humano a Deus, ela manifesta-se também no tempo presente, na reconciliação do relacionamento do ser humano com o outro, “no pão sobre a mesa, no bem-estar do corpo, numa mente sadia” e num relacionamento saudável consigo e com a criação. “Esta vida humana reconciliada com Deus anda em justiça, amor e na prática do bem (At 27.20,31,34; Rm 1.16; Ef 1.1-14)”. 13

A compreensão da doutrina da salvação nos primórdios era entendida como fuga do mundo, depreciando-se a criação e desconfiando de todas as coisas da vida nesta terra. Hoje, os pentecostais já pensam de outra maneira, sentindo sua responsabilidade que engloba a vida em sua plenitude. O sopro do Espírito, através da educação teológica, tem aberto os olhos para a estética, as artes e as questões públicas e políticas; portanto, uma salvação que tem implicações práticas de construir uma vida melhor. 14 Entretanto, os extremos devem ser salientados, pois uma preocupação com a vida apenas aqui nesta terra tem indícios de Teologia da Prosperidade, o que novamente é uma afronta à obra de Cristo na cruz que, além de preparar-nos uma vida plena aqui na terra, prepara-nos especialmente para a vida além.


3. A SALVAÇÃO PROMETIDA NO ÉDEN

O pecado é a ruptura da comunhão do homem com Deus e a ruptura da comunhão dos homens entre si; é o fechamento do homem sobre si mesmo como multiforme atitude de ruptura com os demais e também com a natureza, a flora e a fauna, promovendo destruição e morte. Essa é a realidade do homem desde que ele pecou no Jardim do Éden. Como consequência natural do pecado, Deus disse que a terra perderia parte de sua capacidade produtiva; por conseguinte, todos os animais e plantas também sofreriam as consequências. Deus ainda disse que tanto o homem quanto a mulher teriam esforços excessivos e dores para organizarem suas vidas fora do Éden e que seus próprios corpos experimentariam as consequências do pecado até mesmo nas situações econômicas e sociais e, por fim, a terrível sentença de morte. Portanto, o pecado foi a pior tragédia para o homem como jamais se presenciou na história.

Num sentido ético, as consequências do pecado foram que: 15 (1) ocorreu a depravação ou corrupção da natureza humana. No pentecostalismo, tal depravação não impede que o homem responda positivamente ao gesto gracioso de Salvação que Deus oferece; (2) originou-se a culpa como obrigação de reparar pelo pecado cometido diante da santidade divina; (3) uma pena teria que ser paga, ocasionando sofrimento e perdas para reparar o dano; outra consequência do pecado foi que, ao se sentirem culpados, o homem e a mulher (4) afastaram-se de Deus, alienaram-se dEle — o que é um estado natural do homem pecador —, mas a salvação em Cristo proporciona o reencontro com Deus religando a comunhão com o Criador, que é necessária e vital para o ser humano.

A partir do momento que pecou, a raça humana passou a expressar e vivenciar a maldade; até então, viviam nus um diante do outro, ou seja, não havia limites para conhecerem um ao outro, e eles podiam relacionar-se com confiança plena; a partir do pecado, eles tiveram que encobrir a maldade do coração para conseguirem relacionar-se. A obra de Cristo permite-nos conviver em verdade e sinceridade, pois a maldade do coração é substituída pela capacidade de relacionar-se em amor, bondade e cuidados como uma consequência prática da salvação.

A resposta que Adão e Eva deram a Deus ao serem questionados por Ele após pecarem aponta para o fato de que o homem é incapaz de resolver o problema do pecado e de sua salvação. Ambos transferiram suas culpas para outros, e foi justamente essa a solução que Deus já havia providenciado: a substituição. Naquele instante, Deus transferiu a culpa para um animal inocente, cuja pele foi usada para cobrir a nudez, o qual simbolizava Cristo, que seria o sacrifício perfeito para salvar a raça humana e cobrir a nudez do pecado. Deus anunciou no Éden o que é chamado de protoevangelho, ou seja, a primeira vez na história humana em que é proclamado que Deus daria um jeito definitivo para a queda do homem. Deus não abandonou o homem, pois sabia que este não sobreviveria nesse estado, que lhe rouba toda a alegria e vitalidade. O intento de Satanás não ultrapassa a tentativa de ferir o calcanhar do homem, mas Cristo, através de sua salvação outorgada na cruz, esmaga-lhe a cabeça, significando uma solução definitiva para o estado do homem (Gn 3.15). A peçonha do pecado, que Satanás tenta passar ao ser humano quando fere seu calcanhar, é aniquilada pela morte redentora de Cristo. Portanto, Deus promete a salvação ao ser humano apesar de sua condição de rebelado, de pecador e de inimigo de Deus por causa do pecado. Ainda mais: Deus pode realizar o que promete, pois Ele é fiel.

O Senhor prometeu salvação ao homem desde que este pecou no Jardim do Éden. A partir desse momento, Deus moveu-se na história humana a ponto de, em todas as suas intervenções, manifestar sua intenção de salvar, curar e preservar a raça humana. Existe a história geral da humanidade como micro-história, protagonizada pelos homens, e também a história da salvação como macro-história, protagonizada pelo próprio Deus. A história humana é emoldurada pela história de Deus e tem a ver com as intervenções que Ele faz de acontecimentos ligados entre si pelo nexo soteriológico/revelacional. Assim sendo, Deus revela-se à humanidade através da história da salvação, a macro-história, cujos eventos são essenciais para que a mensagem do evangelho seja entendida.

Jesus inseriu-se na história da salvação como seu executor, proclamador e mediador, criando a redenção com sua morte. Os apóstolos declararam fé no novo evento divino e interpretaram-no de forma soteriológica. É feita uma nova revelação da história da salvação a Paulo, o qual se sente chamado a expô-la aos pagãos. Tal revelação é a exposição do desígnio divino de redenção (Gl 1.12ss). O apóstolo João dá uma claríssima base histórico-soteriológica em que Jesus ocupa posição central ao longo da trajetória da história da salvação. A Igreja, por sua vez, acolhe o Antigo Testamento no Novo Testamento significando que a fé cristã é fé numa ação divina para a salvação ao longo da história. 16 Assim, o fio vermelho (linha central) de toda a Bíblia é Cristo, de onde decorre toda a história humana. A morte de Cristo na cruz e sua ressurreição são o ápice da história da salvação que Deus vivencia com a raça humana. Nessa morte, todo o amor, misericórdia e bondade de Deus manifestaram-se como um gesto salvífico sem comparações na história.

As intervenções de Deus na história têm como alvo central a revelação de si mesmo ao homem através de seu Filho. Assim, a própria Bíblia, a consciência e natureza e, finalmente, Cristo, são a revelação de Deus na história. As intervenções de Deus na história da humanidade são sempre cheias de amor, bondade e justiça, inclusive as intervenções particulares (histórias individuais de cada um). As suas intervenções vão muito além da fé pessoal naquilo que Ele é capaz de fazer, ou seja, elas extravasam o limite de fé. Se nossa fé pessoal fosse limitada, Deus deixaria de ser Deus, pois seu agir vai muito além de nossa capacidade de crer, e não haveria história da salvação para contar.

Segundo Oscar Culmann (1902­–1999), toda a história da salvação está virtualmente contida num único evento: no fato de que todo o passado da história da salvação tende para essa intervenção; dela brota todo o presente e representa todo o futuro da redenção, ou seja, para a morte de Cristo na cruz, inaugurando o “já agora” da redenção, quando estamos na fase intermediária da salvação definitiva chamada de “ainda não” escatológico. A morte de Cristo na cruz foi a batalha decisiva da história da salvação, mas a vitória final será dada no fim da história. Dessa forma, vive-se, na atualidade, na tensão (spannung) aflitiva e hostil empenhada pela força das trevas e do mundo entre o “já agora” e o “ainda não”. 17 A morte de Cristo, embora sendo o centro da história, não é o seu fim; porém, profeticamente, tem caráter final, conclusivo, sendo o início da vitória final. Em Cristo, a salvação de Deus revela sua integralidade e torna-se visível. 18

Deus faz a macro-história acontecer quando cria todas as coisas e intervém quando for preciso. A título de exemplificação, ele interviu: quando do sacrifício temporário para o pecado original; para proteger Caim; no Dilúvio, para refrear o mal; na Torre de Babel, para evitar o caos; no chamado de Abraão e nascimento de Isaque; na ascensão de José, para preservar seu povo da fome; na liberação do Egito com milagres evitando a opressão de seu povo; no provimento das necessidades de Israel na travessia do deserto; na conquista da Terra Prometida; na escolha de Davi e de sua linhagem como rei; no envio de profetas que avisaram seu povo da destruição e do cativeiro; na ida para o cativeiro, para eliminar a idolatria de seu povo; na ascensão de Ester a um trono pagão para proteger seu povo; na libertação do cativeiro babilônico; tudo isso visando à sua maior intervenção na história humana: o envio de seu Filho ao mundo. O Senhor interveio, ainda, na descida do Espírito Santo em Pentecostes; na disseminação do evangelho aos gentios através de Paulo; na capacitação da igreja para a revelação de Jesus Cristo na terra; no chamamento particular de cada um para a salvação; na escolha e chamado para o ministério de cada um. Ele, da mesma forma, intervirá na volta de Jesus para arrebatar seu povo e também quando se fizerem novas todas as coisas e, enfim, morarmos para sempre com Ele na nova Jerusalém.

Existem três instâncias humanas que a promessa de salvação opera. Temos a passada e instantânea, que se refere tanto ao sacrifício efetuado temporalmente na cruz no tempo passado e a imposição do alcance dessa morte no pecador agora redimido que confiou em Cristo para o perdão e que, assim, torna-se filho de Deus e co-herdeiro com Cristo (Cl 1.22). A segunda instância é a presente e progressiva, cuja ação santificadora do Espírito demonstra em atitudes, palavras e ações (Fruto do Espírito) o que aconteceu internamente no passado (Fp 3.12-13; 2Pe 3.18). A terceira instância é a futurista e escatológica, que é a finalização definitiva da salvação em que nem o pecado nem a morte terão qualquer domínio sobre o crente e quando estaremos para sempre com o Senhor.

Deus tem poder ilimitado e demonstra sua intervenção na história, apesar de os acontecimentos e catástrofes apontarem, muitas vezes, para o caos. Além disso, o protagonismo humano na história, na maioria das vezes, é destrutivo, tendo em vista sua situação de pecado; todavia, a história da salvação de Deus em Cristo terá um final feliz e tem força sobre os acontecimentos presentes, pois foi efetuado com um alto preço na cruz do Calvário. Cabe aos alcançados por essa salvação utilizar sua capacidade profética de interpretar o tempo presente e denunciar onde os seres humanos violam a história da salvação divina. Os alcançados trabalham em favor do evangelho para que a salvação alcance os confins da terra, os corações mais endurecidos e as situações de miséria humana como, por exemplo, fome, guerras, opressão e destruição, a fim de que os benefícios dessa salvação sejam acessíveis a todos os que sofrem pelas condições precárias da vida humana e também pelas perdas que o pecado causou a toda a humanidade. Ele é antes do início, foi crucificado (passado), reina agora invisível e voltará no fim dos séculos para estabelecer seu reinado eterno.



Fonte: Livro de Apoio - 4º Trim/17 – A Obra da Salvação - Claiton Ivan Pommerening
Lições Bíblicas Adultos 4º trimestre/17 - A Obra da Salvação — Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida – Comentarista: Claiton Ivan Pommerening
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sábado, 5 de agosto de 2017

A Pecaminosidade humana e a sua Restauração a Deus

“Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” Rm 3.23

A pecaminosidade humana e sua restauração a Deus

O problema do pecado
Um “senhor” que domina a vida de uma pessoa. É assim que a Bíblia nos apresenta o pecado (Rm 6.12-14). Ele não pode ser vencido apenas pela atitude humana.
A questão não é o que o ser humano pode fazer para se livrar do pecado, mas o que foi feito para que o pecado fosse removido do ser humano. Ora, se não houver a experiência de conhecer a Cristo mediante a fé pela graça de Deus (Ef 2.8), o ser humano continuará escravo do “senhorio” do Pecado. Logo, esse poder só é quebrado, e essa opressão só é desfeita, quando a salvação pela graça for operada na vida do pecador.
O pecado é algo sério e grave. Infelizmente, muitos não têm a real dimensão desse problema. Quando se diz que o ser humano não pode fazer nada em relação a sua situação de pecado, o que está se afirmando é que não resta mais esperança nenhuma para a situação dessa pessoa. Por isso, o tema é incômodo. Ele revela a consciência dos erros que muitos tendem a esconder, pois sem a graça de Deus eles não têm a possibilidade de enfrentá-los. O pecado incomoda porque não há como fugir dele, não tem como escapar. Por isso, só a salvação operada pela graça de Deus é capaz de nos constranger a tomarmos o caminho da humildade, reconhecendo os nossos erros, confessando com os lábios: “sou um pecador”. A coragem para enfrentar isso e a tristeza que tal afirmação acarreta à alma humana só pode acontecer pela ação de convencimento do Espírito Santo. É a graça de Deus se revelando ao coração humano, pois depois de um momento desassombro, dor, vergonha e confissão, um alívio como nunca dantes experimentado passa a raiar na alma. É a graça de Deus que chegou e atingiu o coração humano.

Amando o pecador
Como Igreja do Senhor, jamais o nosso papel pode ser o de lançar em rosto os pecados alheios. A Palavra de Deus afirma que dos nossos pecados o Senhor não lembrará mais: “jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (Hb 10.17). Ora, onde há remissão de pecados, tudo está feito (Hb 10.18; cf. Jo 19.30). O nosso trabalho agora é o de acolher as pessoas que se arrependeram de seus muitos pecados. Sem humilhar ninguém, o nosso caminho é o de demonstrar o amor de Deus como Jesus fez em seu ministério terreno (Lc 4.18,19). Essa é uma ótima oportunidade de fazer uma reflexão com a classe à luz do assunto apresentado na lição e a maturidade dos salvos em Cristo em lidar com a questão do acolhimento do pecador. Revista Ensinador Cristão nº71

Reconhecemos a pecaminosidade de todos os seres humanos, que os destituiu da glória de Deus, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo podem restaurá-los a Deus.

Leitura Bíblica: Romanos 5.12-21

No livro de Gênesis encontramos um dos relatos mais tristes da história da humanidade, a Queda. Mas, Deus não foi pego de surpresa com o pecado de Adão e Eva, pois as Escrituras Sagradas afirmam que desde a fundação do mundo a morte redentora de Jesus, pela salvação da humanidade, já havia sido determinada (Ap 13.8). O homem pecou de modo deliberado contra Deus, mas o Criador não o deixou entregue a sua própria sorte. O Senhor providenciou a sua redenção.

Vivemos em uma sociedade relativista, onde muitos não acreditam mais que haja certo e errado. O erro, o pecado, segundo os relativistas, vai depender do ponto de vista de cada um. Mas, cremos na Verdade absoluta e que a única solução para o pecado está na fé no sacrifício de Jesus Cristo.

A Doutrina do Pecado é conhecida nos tratados de teologia como Hamartiologia, da palavra grega hamartia. O estudo se reveste de suma importância porque se trata do problema básico de todos os seres humanos. Todos os conflitos no mundo e as confusões existentes na humanidade são manifestações do pecado. Ninguém pode se livrar dele, mas o Senhor Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores da condenação eterna. O enfoque da presente lição é definir e explicar o pecado, bem como apresentar o meio divino para a solução humana.

Harmatologia: é uma palavra usada no campo teológico para designar ‘a doutrina do pecado’, incluindo seus aspectos sombrios e sua natureza destruidora, tanto aplicada no campo físico como no campo espiritual, mostrando em cada detalhe suas disposições hostis contra Deus, os seres e qualquer entidade no mundo da existência. Em sentido etimológico — a palavra ‘pecado’ conforme se encontra em nossas versões, vem da palavra hebraica ‘hatta’th’, do qual origina-se a raiz hebraica ‘hata’ traduzido na Septuaginta da palavra ‘hamartia’. Existem algumas palavras que relatam significados semelhantes à palavra hebraica hatta’th’, como também a palavra grega ‘hamartia’. Estes termos são aplicados no tempo e no espaço para descrever e dar sentido a tudo aquilo que o pecado é e suas formas de expressão. Os eruditos teológicos usam várias palavras deste gênero para descrever a natureza sombria do pecado, mostrando seus aspectos e suas disposições torcidas, maléficas em sua natureza daninha e perniciosa” (PEDRO, Severino. A Doutrina do Pecado. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2012, pp.13,14).

Os termos hebraicos awon e peshá. Há na Bíblia um repertório amplo que revela o pecado nos seus vários aspectos, mas este espaço não nos permite uma apresentação exaustiva. O termo hebraico avon, “iniquidade, perversão”, vem de uma raiz que significa “entortar, torcer”, daí a ideia de perverter a lei de Deus. Essa palavra aparece traduzida em nossas versões como “injustiça” (Gn 15.16), “maldade” (Êx 20.5) e “iniquidade” (Lv 26.40). Já o verbo avah, de mesma raiz, descreve a natureza do coração da pessoa não regenerada (Jó 15.5). Isso revela a “vida torta” do pecador. O outro termo de importância na Hamartiologia do Antigo Testamento é o verbo pashá “transgredir” ou o substantivo peshá, “transgressão, delito” (Gn 31.36; 50.17). O ser humano forçou e foi além dos limites que Deus estabeleceu, e isso faz toda a humanidade, homens e mulheres, errar o alvo da vida.

Pecado: “Do hebraico hattah; do grego hamartios; do latim peccatum. Transgressão deliberada e consciente das leis estabelecidas por Deus. Errar o alvo estabelecido pelo Criador ao homem: O pecado mortal é a deliberação consciente e intencional de se resistir a vontade de Deus. Não se trata de um simples pecado ou de uma transgressão ordinária; é uma rebeldia movida pelo orgulho e pelo não reconhecimento da soberania divina”. Dicionário Teológico, CPAD, pp.235,236.

Há uma lista extensa de palavras na Bíblia para designar o pecado: erro, iniquidade, transgressão, maldade, impiedade, engano, sedução, rebelião, violência, perversão, orgulho, malícia, concupiscência, prostituição, injustiça etc., além dos verbos e adjetivos cognatos.

Muitos desses termos, e outros similares, estão na sombria lista apresentada pelo apóstolo Paulo (Rm 1.29-32; Gl 5.19-21).


COMO A BÍBLIA DESCREVE O PECADO

O pecado é descrito de diversas maneiras e existem dezenas de termos hebraicos e gregos na Bíblia para descrever suas causas, às vezes, sua natureza e até mesmo suas consequências. Os termos mais comuns para o pecado são o hebraico hāttā’â e o seu equivalente grego na Septuaginta e no Novo Testamento, hamartia. O verbo hātā’ significa literalmente “errar o alvo” (Jz 20.16; Pv 19.2). Essa palavra é usada também no campo secular na quebra de uma lei civil (Gn 41.9; Ec 10.4), mas seu uso comum diz respeito ao pecado contra Deus (Sl 103.10; Dn 9.16). O ser humano erra o alvo e desvia-se do objetivo da vida estabelecido pelo Criador por causa de uma disposição inata que há em todas as criaturas humanas.

O pecado é a transgressão da lei de Deus: “porque o pecado é a transgressão da lei” (1 Jo 3.4 – ARA). O substantivo “transgressão” ou o verbo “transgredir” é de uso comum desde o Antigo Testamento. O verbo hebraico ‘avār, literalmente “atravessar, passar”, não tem conotação moral: “E passou Abrão por aquela terra” (Gn 12.6). Mas é comum o seu uso no sentido de ir além de um limite estabelecido e é isso o que significa “transgredir um mandamento” ou “traspassar o mandado do SENHOR” (Nm 22.18; 24.13); “seus moradores, porquanto transgridem as leis, mudam os estatutos e quebram a aliança eterna” (Is 24.5); “eles traspassaram o concerto, como Adão” (Os 6.7); “porque traspassaram o meu concerto e se rebelaram contra a minha lei” (Os 8.1). A Septuaginta traduz ‘avār em todas essas passagens pelo verbo grego parabaino, “transgredir, desviar-se”. O substantivo é parábasis, “transgressão, violação de uma lei”. É nesse sentido que esses termos aparecem no Novo Testamento: “Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos? Pois não lavam as mãos quando comem pão. Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Por que transgredis vós também o mandamento de Deus pela vossa tradição?” (Mt 15.2, 3). Foi exatamente esse o pecado de Adão: o primeiro casal foi além do limite que Deus estabeleceu, não comer do fruto proibido (Gn 2.17). O profeta Oseias chama essa atitude de Adão e Eva de transgressão (Os 6.7). O apóstolo Paulo emprega o substantivo parábasis para identificar o pecado de Adão e Eva: “até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão” (Rm 5.14); E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2.14).

O termo grego para “transgressão” em 1 João 3.4 é anomía, que literalmente quer dizer “falta de lei, quebra da lei”; o ánomos é alguém para o qual não existe uma lei. A versão Almeida Atualizada e a Tradução Brasileira traduzem essa palavra por “iniquidade”.

A Septuaginta emprega com frequência o termo anomía para traduzir a palavra hebraica ‘awôn, “iniquidade, perversão” (Êx 34.7), além de mais de 20 termos alusivos ao pecado. ‘Awôn é sinônimo de pecado: “Nós pecamos como os nossos pais; cometemos iniquidade, andamos perversamente” (Sl 106.6).

Outro termo hebraico usado como “transgressão” é pāsha‘: “Qual é a minha transgressão? Qual é o meu pecado, que tão furiosamente me tens perseguido?” (Gn 31.36). Há ainda diversos termos para designar o pecado, como impiedade: “Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça” (Rm 1.18); maldade: “como apresentastes os vossos membros para servirem à imundícia e à maldade para a maldade” (Rm 6.19); perversidade: “a vossa língua pronuncia perversidade” (Is 59.3); engano: “Ó filho do diabo, cheio de todo o engano” (At 13.10); sedução: “Seduziu-o com a multidão das suas palavras” (Pv 7.21); “a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera” (Mt 13.22); injustiça: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” 1 Jo 1.9) e incredulidade: “porque o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1 Tm 1.13); “E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (Hb 3.19).

O pecado não se originou no Éden; surgiu primeiro na esfera angelical, quando o querubim ungido (Ez 28.12-15) se rebelou contra Deus e dessa forma foi expulso do céu juntamente com os anjos rebeldes (Is 14.12-14; Ap 12.7-9). Mas parece que muitos teólogos preferem pular essa parte. De qualquer maneira, o que aconteceu no Éden foi outra queda. Adão e Eva foram criados em total inocência e não conheciam o mal antes de desobedecerem a Deus (Gn 3.5). Não havia nenhum tipo de malícia na sua natureza ou no ambiente onde eles foram inseridos. Eles “não se envergonhavam” (Gn 2.25) e ainda não conheciam o “bem e o mal” (Gn 3.5). Em suma, além de não conhecerem nenhum tipo de culpa por nenhum tipo de pecado, também eram inocentes com relação ao pecado. A ordem de Deus foi clara: “E ordenou o SENHOR Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16, 17). Aqui está claro que Deus dotou o ser humano de livre-arbítrio.

A serpente perguntou primeiro se o fruto de todas as árvores do jardim estava liberado (Gn 3.1). Ao ouvir a resposta da mulher, apresentou um discurso contrário do que Deus havia dito: “Então, a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.4, 5). Com essas astúcias, a serpente levou a mulher a desobedecer a Deus, pois despertou a curiosidade de Eva que chamou a sua atenção para o fruto proibido: “E, vendo a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela” (Gn 3.6). O pecado não é causado por Deus: “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta” (Tg 1.13). A tentação vem dos próprios desejos ilícitos (Tg 1.14, 15). “Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo” (1 Jo 2.16). A tentação envolve, além da indução externa, os desejos carnais pelas coisas proibidas. A serpente seduziu Eva com três elementos. Adão e Eva tinham total capacidade de rejeitar a proposta da serpente, pois Deus criou o ser humano com livre-arbítrio e liberdade de escolher entre o bem e o mal (Gn 2.16, 17). A sutileza é uma maneira refinada e sutil de mostrar algo de maneira disfarçada, quase imperceptível, que exige agudeza de espírito para ser    detectada. Essa é uma das especialidades de Satanás e foi com sutileza que Satanás levou o primeiro casal à ruína e, com ele, toda a humanidade (Rm5.12).

A morte de Adão quando desobedeceu a Deus foi instantânea. Morte significa separação. Deus advertiu a Adão dizendo: “No dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Foi o que aconteceu. A comunhão com Deus foi interrompida imediatamente, pois seus olhos foram abertos e eles logo perceberam que estavam nus, conheceram pessoalmente o mal e procuraram se esconder da presença de Deus porque sentiram medo (Gn 3.7, 8, 10). O senso de culpa foi imediato. Eles morreram espiritualmente no mesmo instante em que comeram o fruto proibido; era a ruptura da comunhão: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23).

CONSEQUÊNCIAS DO PECADO

A Queda do Éden arruinou a humanidade de maneira tão profunda que transmitiu a todos os seres humanos a tendência ou inclinação para o pecado. A depravação total do gênero humano não significa ser um pecador ao extremo em último grau, totalmente insensível quanto à consciência no que diz respeito ao certo e o errado (Rm 2.15). Todo o gênero humano se corrompeu, mas a imagem de Deus no ser humano não foi perdida (Gn 9.6; Tg 3.9); ela ficou desfigurada, e a restauração só é possível em Cristo (Ef 2.10). A depravação total significa que nada há no ser humano que não tenha sido contaminado pelo pecado, da cabeça à planta do pé (Is 1.5, 6); significa natureza mental e moral corrupta (Gn 6.5, 12), coração enganoso e perverso (Jr 17.9), morto em ofensas e pecados (Ef 2.1), inimigo de Deus (Rm 8.7), escravo do pecado (Rm 6.17; 7.5). A Bíblia afirma categoricamente que “não há um justo sequer” (Rm 3.10); que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Até um bebê recém-nascido (Sl 51.5), antes mesmo de cometer o seu primeiro pecado, já é pecador (Sl 58.3). Por causa do pecado de Adão, todas as pessoas recebem uma natureza corrompida e culpada aos olhos de Deus.

Todos os seres humanos são pecadores: “Como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só... Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.1-12, 23). Já nascemos pecadores: “Eis que em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5) e “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras” (Sl 58.3). A queda do Éden trouxe a corrupção geral do gênero humano, a natureza moral se corrompeu (Gn 6.5, 12). Essa corrupção afetou a pessoa na tua totalidade, com todas as suas faculdades – a alma, o corpo e o espírito: “Toda a cabeça está enferma, e todo o coração, fraco. Desde a planta do pé até à cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres, não espremidas, nem ligadas, nem nenhuma delas amolecida com óleo” (Is 1.5, 6), como disse o teólogo Millard J. Erickson: “Não somos pecadores apenas porque pecamos; nós pecamos porque somos pecadores” (ERICKSON, 2015, p. 559).

O apóstolo Paulo apresenta uma breve amostra da situação espiritual dos gentios (Rm 1.21-32), mas em seguida explica que a situação dos judeus não é diferente da humanidade (Rm 1.17-23) e depois coloca no mesmo bojo judeus e gentios: “Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma! Pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado” (Rm 3.9) e “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). A Bíblia mostra que “o pecado de Adão nos afetou muito mais que a ele próprio” (HORTON, 1996, p. 269). Isso se baseia nas epístolas paulinas (Rm 5.12-21; 1 Co 15.21, 22). É a isso que chamamos pecado original. Mas a declaração mais surpreendente é quando o apóstolo afirma: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). Essa doutrina do pecado original não é inovação paulina; ela consta da tradição judaica, no Talmude (Berakoth, 61a; Nedarim, 32b). O ensino paulino veio da revelação de Jesus Cristo, das Escrituras do Antigo Testamento e da tradição judaica. O apóstolo Paulo desenvolveu essa doutrina. A morte é universal e nisto está a evidência incontestável da universalidade do pecado. Depois, o apóstolo mostra que, da mesma maneira que o pecado de Adão contaminou toda a humanidade, assim também a justiça de Cristo a graça veio para todas as pessoas: “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida” (Rm 5.18).

Não existe uma teoria detalhada nas Escrituras sobre o pecado original, mas os dados da revelação nos dão base para uma dedução da Bíblia. O ser humano é concebido em pecado: “em iniquidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe” (Sl 51.5) e “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que nasceram, proferindo mentiras” (Sl 58.3). Isso mostra por que o apóstolo Paulo afirma: “Andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2.3). Por dedução, é razoável que um ser humano corrompido produza filhos igualmente corrompidos: “Quem da imundícia poderá tirar coisa pura? Ninguém!” (Jó 14.4); “Não pode a árvore boa dar maus frutos, nem a árvore má dar frutos bons” (Mt 7.18) e “Porque não há boa árvore que dê mau fruto, nem má árvore que dê bom fruto” (Lc 6.43). Os bebês recém-nascidos e as crianças, apesar de nascerem com natureza pecaminosa (Sl 58.3), ainda não conhecem experimentalmente o pecado. Elas não são responsabilizadas por seus atos antes de terem condições morais e intelectuais para discernir entre o bem e o mal, o certo e o errado (Rm 9.11). O sacrifício de Jesus proveu salvação a todas as pessoas, até mesmo às crianças que falecerem na fase da inocência.

AS TEORIAS

Muitas teorias foram apresentadas ao longo da história na tentativa de explicar o processo de transmissão do pecado original. As três principais são o pelagianismo, o calvinismo e o arminianismo. Essas teorias apresentadas a seguir são gerais, pois em todas elas existem as tendências radicais e moderadas e cujos detalhes não são discutidos aqui por absoluta falta de espaço.

O pelagianismo é a mais antiga dessas teorias. Pelágio foi um britânico (360-420), contemporâneo de Agostinho de Hipona, que se transferiu para Roma e, depois em 409, seguiu com seu discípulo Celéstio, para Cartago, no norte da África. Segundo Pelágio, o pecado de Adão não foi transmitido a toda a humanidade, nem a morte física é resultado do pecado de Adão. Na sua teoria, cada alma é criada imediatamente por Deus, no nascimento de cada pessoa, portanto ela não pode vir ao mundo maculada pelo pecado de Adão. O pecado de Adão diz respeito só a ele e não pode ser imputado sobre o destino de sua posteridade. Pelágio enfatizava também a ideia do total livre-arbítrio. Segundo ele, os seres humanos possuem a graça, capacidade de optar livremente por Deus. Por se tratar de criaturas feitas à imagem de Deus, as pessoas têm condições morais e espirituais de fazerem o bem e evitarem o mal, salvando-se com suas próprias forças. Pelágio dizia ainda “que não existe necessidade da graça para a salvação, pois ela pode ser alcançada por meio da nossa livre-escolha, independente de auxílio externo” (GEISLER, vol. 2, 2010, p. 122). Pelágio acreditava que o pecado de Adão era apenas um mal exemplo para os seus descentes, assim como a morte de Jesus não passava do mais eminente exemplo da vida cristã.

A princípio, a sua doutrina teve acolhida popular e não era considerada herética porque parecia um assunto ético e não teológico. A controvérsia não foi desencadeada com o próprio Pelágio, mas com Celéstio. Agostinho foi o primeiro a constatar o perigo dessa doutrina pelagiana. O bispo de Hipona via nisso uma doutrina de autorredenção disfarçada e completamente contrária ao pensamento soteriológico e cristológico. Isso porque, se as pessoas chegam à salvação se baseando simplesmente na sua natureza criada e na decisão de sua livre vontade, significa que Jesus morreu em vão.

O arminianismo ensina o contrário do pelagianismo. Jacó Armínio foi um teólogo holandês de origem reformada (1560-1609) que modificou consideravelmente a linha teológica em que havia sido criado. João Wesley, teólogo e pregador britânico (1703-1791), fez mudanças no pensamento arminiano. O pecado de Adão corrompeu a natureza humana na sua totalidade, e iniciamos a vida sem nenhuma retidão. O ser humano é incapaz de fazer a vontade de Deus e cumprir os seus mandamentos no tocante às coisas espirituais de Deus. A imagem de Deus no ser humano não foi aniquilada, mas desfigurada, por isso necessita da graça de Deus para superar isso em direção a ele. Essa graça não é irresistível; ela opera de forma suficiente “sobre todos, aguardando a sua livre-cooperação antes de se tornar salvificamente efetiva” (GEISLER, vol. 2, 2010, p. 123).

O calvinismo defende os cinco pontos aprovados no Sínodo de Dort em 1619-1620, cerca de 60 anos depois da morte de João Calvino, e muitos duvidam de que ele aprovaria todos esses pontos. São eles: 1) depravação total, 2) eleição incondicional, 3) expiação limitada, 4) graça irresistível e 5) perseverança dos santos. Os arminianos concordam em parte com o primeiro ponto e discordam dos demais. Ninguém é coagido a ser salvo, Jesus morreu por todos os pecadores, o pecador pode resistir à graça e é possível o crente decair da graça.

Adão é apresentado como figura de Cristo: “o qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Existe só um ponto em comum entre Adão e Cristo, um é o cabeça da humanidade caída, representante da morte; o outro, o cabeça da nova eternidade, representante da vida. Fora isso, a comparação paulina é uma antítese que nos enche de gozo.

A morte expiatória de Jesus Cristo foi e é a solução para o pecado.

SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“Lendo o Antigo Testamento e considerando séria e literalmente a sua mensagem, facilmente concluiremos que a salvação é um dos temas dominantes, e Deus, o protagonista. O tema da salvação já aparece em Gênesis 3.15, na promessa de que o Descendente — ou ‘semente’ — da mulher esmagará a cabeça da serpente. ‘Este é o protoevangelium, o primeiro vislumbre da salvação que virá através daquEle que restaurará o homem à vida’. Javé salvava o seu povo através de juízes (Jz 2.16,18) e outros líderes, como Samuel (1Sm 7.8) e Davi (1Sm 19.5). Javé livrou até mesmo a Síria, inimiga de Israel, por meio de Naamã (2Rs 5.1). Não há salvador à parte do Senhor (Is 43.11)”. (HORTON, Stanley M. Teologia Sistemática: Uma perspectiva pentecostal. 1ª Edição. RJ: CPAD, 1996, p.97).


Jesus Cristo, “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”


CONCLUSÃO

A única esperança é o Senhor Jesus, o único que pode nos restaurar a Deus. Restaurar é restituir, e isso se aplica tanto a possessões e bens (Êx 22.14; Is 58.12; Lc 19.8) como também a pessoas (Jr 30.17). O plano de Deus é restaurar todas as coisas (At 3.21), mas Ele começou com os seres humanos. Nós estávamos perdidos, como o filho pródigo, e fomos restaurados a Deus pelo arrependimento (At 3.19; 2Co 7.10) e pela fé em Jesus (Rm 5.1).

Fonte: Lições Bíblicas CPAD Adultos - 3º Trimestre de 2017 - Título: A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Livro de Apoio - Comentarista: Esequias Soares
Revista Adultos 3ºTrim.2017 - A razão da nossa fé — Assim cremos, assim vivemos - Comentarista: Esequias Soares
Aqui eu Aprendi!
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