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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Justificação, somente pela fé em Jesus Cristo

“E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus” Rm 4.20

Para explicar a doutrina da Justificação pela Fé, o apóstolo Paulo usa dois tipos de linguagem na carta: a do judiciário e a do sistema de sacrifício levítico. Como o apóstolo pretende convencer o seu público leitor, os judeus, bem como os gentios, de que mais do que observar o sistema de Lei como requisito para a salvação, Deus havia manifestado a sua graça justificadora lá no tempo da Antiga Aliança por intermédio do pai da fé, Abraão, o apóstolo afirma com todas as letras: “Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé de Abraão, o qual é pai de todos nós. [...] Pelo que isso lhe foi também imputado como justiça” (Rm 4.16,22). Dessa forma, o apóstolo argumentava ao judeu de que, mesmo o gentio não tendo a Lei, a condição do gentio em relação a Deus em nada é inferior ao do judeu. Em Jesus, pela fé mediante a Graça de Deus, o gentio é filho de Abraão por intermédio da fé, que é pai tanto do judeu quanto do gentio achado por Deus (Rm 4.9-13).

A linguagem judiciária da Justificação
Ser justificado por Deus é ser inocentado por Ele mesmo da condição de culpado pelos atos. Ou seja, o indivíduo não tem quaisquer condições de se auto-declarar inocente ou de aliviar a sua consciência, pois sabe que nada poderá apagar a sua culpa. Por isso, Deus, em Cristo, na cruz do Calvário, nos reconciliou para sempre (2Co 5.19). De modo que o apóstolo Paulo ratifica esse milagre: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).

A linguagem sacrifical da Justificação
Trocar o culpado pelo inocente. O sangue de Jesus Cristo foi derramado no lugar do sangue da humanidade. Foi a substituição vicária de Cristo Jesus por nós. Éramos culpados, mas Cristo se tornou culpado por nós; éramos malditos, Cristo se tornou maldito por nós; éramos dignos de morte, Cristo morreu em nosso lugar e por nós (Rm 3.25).

A linguagem judiciária e sacrifical da justificação nos mostra um Deus amoroso e misericordioso, que não faz acepção de pessoas e que deixa clara a real condição do ser humano, seja ele judeu ou gentio: somos todos carentes da graça e da misericórdia do Pai.

Caro professor, esse trecho bíblico [3.1 — 4.25] é importante para o desenvolvimento do argumento do apóstolo em sua epístola. Estude-o com rigor. (Revista Ensinador Cristão nº66)

A justificação dos pecados diante de Deus ocorre somente pela fé.

A lição de hoje trata a respeito de uma das doutrinas mais importantes apresentadas por Paulo na Epístola de Romanos — a justificação pela fé. Ressalte, no decorrer de toda a lição, que ninguém pode ser justificado diante de Deus pela Lei ou pelas obras da carne. O caminho da justificação é somente pela fé na obra expiatória de Jesus Cristo. Paulo mostra que Cristo é o único caminho para que judeus e gentios sejam absolvidos da penalidade do pecado. O apóstolo, de maneira sábia, utiliza o exemplo do patriarca Abraão para desfazer a ideia errada que os judeus tinham de que a aceitação de Deus era obtida mediante as obras da Lei.
Glória a Deus, pois na Nova Aliança, tudo que recebemos da parte do Senhor, inclusive a salvação, é decorrente única e exclusivamente da graça de Deus.

*Justificação
"[do heb. tsadik; do gr. diakaios; do lat. justificationem]. 
Ato de declarar justo. Processo judicial que se dá junto ao Tribunal de Deus, através do qual o pecador que aceita a Cristo é declarado justo (Rm 5.1). Ou seja: passa a ser visto por Deus como se jamais tivera pecado em toda a sua vida (Rm 5.1).
A justificação é mais que um mero perdão. O criminoso perdoado, ou anistiado, continuará criminoso. Mas se Deus o justificar, torna-se ele justo (Rm 8.1). A justificação é obtida única e exclusivamente pela fé em Cristo Jesus."
Para conhecer mais leia Dicionário Teológico, CPAD, p.198.

Paulo nos mostra como Deus manifestou a sua justificação para alcançar os gentios e judeus.

Romanos 3.21-26
Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da Lei e dos Profetas, isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos e sobre todos os que creem; porque não há diferença. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daquele que tem fé em Jesus.

Declarado Inocente!
"Mas, agora, se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da Dei e dos Profetas” (3.21). Essa seção que começa em Romanos 3.21 e se estende até 4.25 apresenta o remédio do diagnóstico que Paulo tinha dado anteriormente para a questão do pecado em Romanos 1.18—3.20. Vimos que Paulo primeiramente apresentou o mundo pagão totalmente mergulhado nas trevas do pecado. Por outro lado, a situação dos seus compatriotas judeus não era diferente. Eles também estavam debaixo do domínio do mesmo pecado. É, pois, nessa seção que o apóstolo apresentará a solução de Deus para a rebelião do homem —- a justiça de Deus imputada a todos por Cristo Jesus.

À parte da lei, isto é, sem o concurso da lei, a justiça de Deus se manifestou para resolver o dilema humano. Essa justiça divina, que se manifestaria em Cristo Jesus, já era testemunhada pela própria lei e pelos profetas (v. 21). Primeiramente, a imagem que Paulo tem em mente aqui é de um tribunal. Alguém que se encontra como réu diante de um juiz e de quem espera o veredicto condenatório. Todavia, em vez de receber uma condenação, ele recebe a absolvição.

O expositor bíblico William Barclay mostra o pano de fundo da doutrina da justificação nessa passagem. Nesse exemplo de Paulo, imagina-se o homem diante do tribunal de Deus. Barclay destaca com muita propriedade que a palavra grega traduzida como “justificar” vem da mesma raiz de dikaiúne que todos os verbos gregos que terminam em ún têm o sentido de considerar alguém como algo e não o de fazer algo a alguém. Dessa forma, se alguém que é inocente se apresenta diante de um juiz, o juiz, evidentemente, o declarará inocente. Todavia, o caso mostrado por Paulo aqui é diferente. A pessoa que se apresenta diante de Deus é totalmente culpada, merecendo a punição do seu erro, porém, o justo Juiz, em uma demonstração de sua graça infinita, considera-o como se fosse inocente. Isso é o que se entende do significado da palavra “justificação” no contexto paulino. Quando Paulo diz “Deus justifica o ímpio”, significa, dentro do contexto da justificação, que Deus trata o ímpio como alguém bom. É evidente que tal raciocínio deixou os judeus totalmente escandalizados. Na mente dos judeus, apenas um juiz iníquo agiria dessa forma, pois justificar o ímpio é uma abominação para Deus (Pv 17.15); “não justificarei o ímpio” (Ex 23.7). Todavia, a argumentação de Paulo mostra que é exatamente isso o que Deus fez.

Na mente de Paulo, observa Barclay, se alguém desejasse saber como Deus é, então deveria olhar para Jesus, pois Ele revelou Deus aos homens. O verbo encarnado de Deus veio mostrar o grande amor de Deus pelos homens, mesmo estes estando mortos em seus delitos e pecados (Ef 2.1,2). Barclay destaca que “quando descobrimos isso e cremos, nossa relação com Deus muda radicalmente. Estamos conscientes do nosso pecado, mas não estamos aterrorizados ou distantes. Quebrantados e arrependidos, recorremos a Deus como uma criança triste se chega a sua mãe e sabemos que o Deus a quem chegamos é amor. Isso é o que significa justificação pela fé em Jesus Cristo. Isso significa que estamos em relacionamento correto com Deus porque acreditamos sinceramente que o que Jesus nos disse de Deus é a verdade. Já não somos estranhos que têm medo de um Deus irado. Somos filhos, crianças errantes que confiam no amor do Pai que os perdoará. E não podíamos nunca chegar a esse relacionamento com Deus, se Jesus não tivesse vindo para viver e morrer para nos dizer como maravilhosamente Deus nos ama”.

Escravo Alforriado
“...pela redenção que há em Cristo Jesus” (3.24 b).
A palavra traduzida como “redenção” vem do grego apolutrósis. De acordo com o léxico grego de Gerhard Kittel, essa palavra tem o sentido de resgate ou pagamento de um regaste, passando a ser um termo muito importante no Novo Testamento. A história seguinte ajuda-nos a entender o seu real sentido.

No tempo da escravidão, nos Estados Unidos, numa movimentada rua de certa cidade, uma multidão de pessoas concorreu para uma feira de escravos. Amarrados de pés e mãos, aguardavam compradores.
No meio dos escravos, estava uma moça de olhar cabisbaixo, triste, pensando na sua condição de escrava. Um cavalheiro passou, olhou para os escravos e teve profunda compaixão por aquela escrava, que era tratada como os demais escravos, feito animais. Na hora dos lances, o cavalheiro ofereceu o dobro. O leiloeiro bateu o martelo, estava livre, podia gozar de sua liberdade.
Soltaram a escrava e o seu libertador disse-lhe: “Acompanhe-me”. Com raiva, ela cuspiu na cara do seu benfeitor. Ele tirou o lenço do bolso, limpou a cusparada. Terminou a parte burocrática. Pegou os documentos e deu à jovem. Era a carta de alforria. A escrava estava livre. Com aqueles papéis ninguém conseguiria escravizá-la.
Com os documentos na mão, dizia quase sem parar: “O senhor me comprou para me libertar?”. Estava livre. Aquele homem comprou a libertação da jovem escrava. Poderia gozar de sua liberdade. A nossa escravidão, imposta pelo Diabo, é muito mais grave do que a escravidão daquela jovem negra. Estávamos nos grilhões do Diabo. Comumente, ele nos levava pelo caminho do cigarro, das drogas, da prostituição, do furto e do crime. E esses pecados se refletiam em nossa família, nossos filhos, nosso trabalho. No cabresto do Diabo, ele nos levava por esses caminhos de sombras, de desilusão, de amargura, de morte. Matou a esperança em nosso coração. Como aquele cavalheiro nos Estados Unidos pagou a libertação da jovem, Cristo pagou o preço da nossa redenção.

O Preço de um Resgate
"... a qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue... ” (3.25).
O vocábulo “propiciação” (gr. hilastérion), comenta Elvis Carballosa, significa sacrifico expiatório. Esse sacrifício expiatório foi a morte de Cristo em lugar do pecador. A frase “no seu sangue” se refere à morte de Cristo. A morte de Cristo foi uma realidade histórica.
Romanos 3.27-31
Onde está, logo, a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não! Mas pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei. É, porventura, Deus somente dos judeus? E não o é também dos gentios? Também dos gentios, certamente. Se Deus é um só, que justifica, pela fé, a circuncisão e, por meio da fé, a incircuncisão, anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma! Antes, estabelecemos a lei.

Jesus e o Judaísmo Palestino
“Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (3.28). Nesse ponto, dentro de nosso comentário textual e exegético desse texto, é preciso fazer referência a um grande debate que nos últimos anos tem surgido em torno da teologia paulina da graça. Alguns expositores têm defendido a tese de que Paulo não estaria combatendo o legalismo judaico, isto é, a salvação pelas obras, mas em vez disso estaria se posicionando apenas contra o orgulho judaico de pertencer ao povo da aliança.

Os escritos do norte-americano E. P. Sanders revolucionaram os estudos sobre a teologia paulina quando, em 1977, publicou seu livro Paulo e o Judaísmo Palestino. Sanders parte do princípio de que o judaísmo não era uma religião legalista que pregava a salvação pelas obras. Esse pensamento de Sanders, denominado de A Nova Perspectiva sobre Paulo, é radicalmente oposto àquele da tradição cristã histórica. O livro de Sanders é uma tentativa de provar que a teologia sobre Paulo, que os reformadores defendiam, não era de fato de Paulo, mas de Agostinho, bispo de Hipona. O escritor William S. Campbell destaca que “é perceptível, pela leitura de Sanders, que um debate cristão interno posterior sobre a graça e obras foi projetado no cristianismo inicial, fazendo com que nosso entendimento das origens cristãs, em relação ao judaísmo, se tornasse um tanto distorcido. Em certo sentido, esse é, na verdade, mais um debate sobre a graça dentro do cristianismo. É esclarecedor observar que foram os escritos antipelagianos de Agostinho o material que Lutero considerou mais úteis. Para Lutero, Agostinho é sua autoridade preferida, seu principal aliado na luta contra as tendências pelagianas do escolasticismo. Mas, em decorrência disso, os judeus são vistos por Lutero como representantes de um tipo de pelagianismo e, como tal, inimigos do Evangelho tanto quanto a igreja não reformada”.

Partindo, portanto, desse princípio, E. P. Sanders se opôs a essa visão dos reformadores. Ao contrário do que crê o cristianismo tradicional, disse que o judaísmo é uma religião da aliança em que o status de pertencer ao grupo eleito, e não a obediência legalista da lei, é a principal característica. Para Sanders, os judeus não acreditavam que a obediência aos preceitos legais lhes garantia salvação, mas apenas mantinha seu status dentro do grupo da aliança. Nesse aspecto, em vez de ser a causa da salvação, a obediência era apenas a condição. Essa nova perspectiva, Sanders denominou denomismo da aliança. Em outras palavras, o erro dos judeus era o de se orgulhar de pertencer ao povo eleito de Deus, pertencer a aliança que Deus fez com Israel e não querer agradá-lo por meio das obras.

Outro autor que fez coro com Sanders foi o britânico James D. G. Dunn que também passou a defender a Nova Perspectiva sobre Paulo. Todavia, Dunn fez críticas ao modelo de Sanders para implantar o seu próprio modelo. Dunn afirma que “o Paulo luterano foi substituído por um Paulo idiossincrático que, de maneira arbitrária e irracional, volta-se contra a glória e a grandeza da teologia pactuai do judaísmo e abandona o judaísmo simplesmente por que ele não é cristianismo”. O teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus observa que J. D. G. Dunn nessa nova abordagem sociológica sobre Paulo “tem recebido vasta aceitação. Para ele, Paulo ataca as ‘obras da lei’ não porque elas expressam algum desejo de alcançar mérito por parte dos judeus, mas porque entende que elas fazem uma distinção entre os judeus, o povo de Deus da antiga dispensação, e os gentios, a quem o evangelho está sendo oferecido. As ‘obras da lei’, que Paulo identifica como restritas à circuncisão, às leis sobre alimentos puros e impuros (kashrut) e aos dias especiais do calendário judaico, são emblemas que caracterizam o judaísmo e devem ser rejeitadas porque enfatizam a separação entre judeus e não judeus, a qual Cristo veio abolir”.

Duas coisas precisam ser observadas aqui. Primeiro, a leitura de Romanos 3.28 mostra claramente que Paulo não via o problema da rejeição judaica apenas como sendo um orgulho de pertencer ao povo da aliança. Essa Escritura é clara o suficiente para mostrar que a busca pelo mérito por meio das obras constituiu-se o principal obstáculo para um judeu legalista aceitar a justificação somente pela fé. Em segundo lugar, é um fato que não apenas Lutero, mas outros reformadores depois dele, beberam do poço doutrinário de Agostinho, como por exemplo, a crença no pecado original com a consequente doutrina da regeneração batismal, etc. Embora haja similaridade entre o legalismo judaico e a doutrina da salvação pelas obras de Pelágio, não é correto fazer a crença luterana na justificação pela fé depender exclusivamente de Agostinho. Não há como negar que Lutero foi influenciado de forma negativa por Agostinho, todavia, a própria história da Reforma, com seu lema “O justo viverá pela fé” (Rm 1.17), revela a grande influência que a Carta aos Romanos teve na vida e obra do reformador alemão. Não é seguro, portanto, pelo menos neste caso, fazer a convicção teológica do reformador alemão depender somente de Agostinho. Por outro lado, é certo e historicamente provado, como demonstrou Sanders, que Lutero errou ao odiar os judeus ao projetar neles o erro pelagiano.

Romanos 4.1-25
Que diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, àquele que faz qualquer obra, não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Mas, àquele que não pratica, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado. Vem, pois, esta bem-aventurança sobre a circuncisão somente ou também sobre a incircuncisão? Porque dizemos que a fé foi imputada como justiça a Abraão. Como lhe foi, pois, imputada? Estando na circuncisão ou na incircuncisão? Não na circuncisão, mas na incircuncisão. E recebeu o sinal da circuncisão, selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão, para que fosse pai de todos os que creem (estando eles também na incircuncisão, a fim de que também a justiça lhes seja imputada), e fosse pai da circuncisão, daqueles que não somente são da circuncisão, mas que também andam nas pisadas daquela fé de Abraão, nosso pai, que tivera na incircuncisão. Porque a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo não foi feita pela lei a Abraão ou à sua posteridade, mas pela justiça da fé. Pois, se os que são da lei são os herdeiros, logo a fé é vã e a promessa é aniquilada. Porque a lei opera a ira; porque onde não há lei também não há transgressão. Portanto, é pela fé, para que seja segundo a graça, a fim de que a promessa seja firme a toda a posteridade, não somente à que é da lei, mas também à que é da fé de Abraão, o qual é pai de todos nós, (como está escrito: Por pai de muitas nações te constituí.), perante aquele no qual creu, a saber, Deus, o qual vivifica os mortos e chama as coisas que não são como se já fossem. O qual, em esperança, creu contra a esperança que seria feito pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E não enfraqueceu na fé, nem atentou para o seu próprio corpo já amortecido (pois era já de quase cem anos), nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara. E não duvidou da promessa de Deus por incredulidade, mas foi fortificado na fé, dando glória a Deus; e estando certíssimo de que o que ele tinha prometido também era poderoso para o fazer. Pelo que isso lhe foi também imputado como justiça. Ora, não só por causa dele está escrito que lhe fosse tomado em conta, mas também por nós, a quem será tomado em conta, os que cremos naquele que dos mortos ressuscitou a Jesus, nosso Senhor, o qual por nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação.

*O antinomismo se opõe a justificação.
Antes de discorrer a respeito do assunto faça a seguinte indagação:
"O que é antinomismo?"
Ouça os alunos com atenção e explique que "literalmente significa contra a lei. Doutrina que assevera não haver mais necessidade de se pregar nem de se observar as leis morais do Antigo Testamento. Calibrando esta assertiva, alegam os antimonistas que, salvos pela fé em Cristo Jesus, já estamos livres da tutela de Moisés.
Ignoram porém, serem as ordenanças morais do Antigo Testamento pertencentes ao elenco do direito natural que o Criador incrustara na alma de Adão. Como podemos desprezar os Dez Mandamentos? Todo crente piedoso os observa, pois o Cristo não veio revogá-los; veio cumpri-los e sublimá-los. Além do mais, as legislações modernas estão alicerçadas justamente no Decálogo" (ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Dicionário Teológico. 8.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p.44).

A Jornada da Fé
A partir dessa seção, Paulo introduz a história do patriarca Abraão com um exemplo do seu argumento da justificação pela fé. Paulo argumenta a partir de Gênesis 15; todavia, acredito ser oportuno aqui vermos alguns aspectos anteriores da jornada desse gigante espiritual. Voltemo-nos, pois, ao capítulo 13 de Gênesis para traçarmos o percurso dessa jornada.
1. Uma jornada para conviver com altares, e não com pirâmides.
“Subiu, pois, Abrão do Egito [a terra das pirâmides] [...] E fez as suas jornadas do Sul [Neguebe] até Betei, até ao lugar onde, ao princípio, estivera a sua tenda, entre Betei e Ai; até ao lugar do altar que, dantes, ali tinha feito; e Abrão invocou ali o nome do Senhor” (Gn 13.1-4). Abraão saiu do Egito, onde conviveu com as grandes pirâmides, para voltar à Palestina, terra onde construíra altares. Deus quer o fiel convivendo com altares, e não com pirâmides. (*Abrão esteve no Egito por volta de 2000 a.C. e as pirâmides foram construídas pelo menos 600 anos antes de sua chegada lá.)

2. Uma jornada onde a visão deve ser maior do que a ambição.
“E houve contenda entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló [...] E disse Abrão a Ló: Ora, não haja contenda entre mim e ti e entre os meus pastores e os teus pastores, porque irmãos somos” (Gn 13.7,8). A ambição, o orgulho e o desejo de ter são agentes causadores da quebra da unidade fraternal, mas a busca da koinonia (original grego significa Comunhão) é o remédio para esse mal. A luta por espaço arranhou o relacionamento entre os pastores de Abraão e Ló. Evidentemente que isso estava tendo consequências entre o tio e o sobrinho. E melhor abrir mão de alguma coisa do que permitir que venha a arranhar a comunhão fraternal.

3. Uma jornada que não pode ser seduzida por uma imitação do Paraíso nem pelas lembranças do Egito.
“E levantou Ló os seus olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes de o Senhor ter destruído Sodoma e Gomorra, e era como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, quando se entra em Zoar” (Gn 13.10). Ló se deixou seduzir por uma lembrança do Paraíso, todavia Abraão procurou viver a realidade nua e crua de uma vida de fé. As campinas de Sodoma lembravam o Paraíso, mas não eram o Paraíso. Às vezes, o crente se deixa iludir pelas aparências e em vez de procurar o caminho mais seguro, busca os atalhos.

4. Uma jornada que se aproxima de Canaã e se afasta de Sodoma.
“Habitou Abrão na terra de Canaã, e Ló habitou nas cidades da campina e armou as suas tendas até Sodoma” (Gn 13.12,13). Enquanto Ló se aproximava de Sodoma, do pecado, Abraão se distanciava cada vez mais dele. Impulsionado pelos atrativos, Ló se aproximava cada vez mais dos encantos de Sodoma. Foi uma sedução que, posteriormente, lhe custou muito caro. Por que em vez de se afastar de Sodoma muitos se aproximam cada vez mais?

5. Uma jornada onde a exclusividade determina a intimidade.
“E disse o Senhor a Abrão, depois que Ló se apartou dele” (Gn 13.14). Às vezes precisamos nos separar de determinadas coisas, até mesmo de pessoas, se queremos ouvir a voz do Senhor. Não dá para conviver com quem gosta de Sodoma.

6. Uma jornada onde Deus mostra o futuro, mas é o homem quem constrói o presente.
“Levanta, agora, os teus olhos e olha desde o lugar onde estás, para a banda do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente; porque toda esta terra que vês te hei de dar a ti e à tua semente, para sempre. [...] Levanta-te, percorre essa terra, no seu comprimento e na sua largura; porque a ti a darei. E Abrão armou as suas tendas, e veio, e habitou nos carvalhais de Manre, que estão junto a Hebrom; e edificou ali um altar ao Senhor” (Gn 13.14-18). Deus revela o futuro, mas somos nós quem construímos o presente. É preciso haver deslocamento. Começar e recomeçar sempre. Deus faz promessas e as cumpre, mas é preciso ter paciência, encarar as incertezas do presente para chegar às garantias do futuro.

7. Uma jornada onde pessoas são mais importantes do que coisas.
“Também tomaram a Ló, que habitava em Sodoma, filho do irmão de Abrão, e a sua fazenda e foram-se. [...] não tomarei coisa alguma de tudo o que é teu; para que não digas: Eu enriqueci a Abrão” (Gn 14.12,23). Abraão era rico, mas não punha nas riquezas a sua confiança. O importante para ele era a comunhão com o seu Deus.

8. Uma jornada onde Abrão aprendeu que era grande, mas não o maior.
“E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e este era sacerdote do Deus Altíssimo. E abençoou-o e disse: Bendito seja Abrão do Deus Altíssimo, o Possuidor dos céus e da terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos. E deu-lhe o dízimo de tudo” (Gn 14.18,20; Hb7.1-10). Mesmo sendo um homem grande, Abraão reconheceu que havia alguém ainda maior. Melquisedeque é um tipo de Cristo, e o velho patriarca aprendeu desde sempre a depender da fé nEle.

Pois bem, voltemos ao texto.
O texto de Romanos 4.1-25, como vimos, trata com exclusividade da vida do velho patriarca Abraão. A exegese feita por Paulo nessa passagem mostra, a partir do livro de Gênesis, que a justificação de Abraão não se deu em decorrência das obras, mas da fé. Nesse aspecto há uma similaridade entre a fé de Abraão e a fé do cristão. Lucien Cerfaux sintetizou bem essa analogia usada por Paulo. Dentro dessa passagem de Romanos é possível perceber com clareza Paulo fazendo a ligação entre a justiça de Abraão, Cristo e a justiça do cristão.

“Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça” (Rm 4.3). Paulo toma como ponto de partida de seu argumento Gênesis 15.6, onde Deus fez a promessa a Abrão de lhe dar uma posteridade numerosa. O judaísmo acreditava que Abraão havia sido justificado em consequência do rito da circuncisão, o que Paulo vai negar. Paulo observa que Deus justificou o patriarca em consequência da sua fé, que aconteceu muito antes da prática da circuncisão. Dessa forma, como mostra Romanos 4.4, Abraão não poderia ter sido justificado pelas obras, mas pela fé. A sua justificação foi uma dádiva, e não uma dívida.

O expositor Lucien Cerfaux destaca que “Paulo exalta a fé de Abraão, emoldurando-a de maneira mais determinada com a fé dos cristãos, cujo objeto principal é a ressurreição de Cristo. Abraão crera em Deus ‘que dá vida aos mortos e, chamando-as, faz existir as coisas que não existiam’ (Rm 4.17). Paulo explica seu modo de pensar: ‘E sem vacilar na fé, não considerou nem o seu corpo, já sem vitalidade, por ser quase centenário, nem a falta de vigor do seio de Sara; nem hesitou por falta de fé, perante a promessa de Deus, antes hauriu força na sua fé, dando gloria a Deus’ (Rm 4.19). Notem-se as expressões ‘morte’ (o corpo de Abraão, o seio de Sara estão mortos) e ‘dar vida’. E a antítese morte-ressurreição. A fé de Abraão constitui o primeiro esboço da fé cristã; pela maneira com a qual a formula, suspeita-se que Paulo a encara como um ‘tipo’ de fé na morte e ressurreição de Cristo”.

“Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado” (Rm 4.8). Seguindo um dos princípios hermenêuticos (Gezerah Sahawah) da escola rabínica de Hillel, faz um paralelo entre Salmos 32.1 e Gênesis 16.6. O propósito do apóstolo é interpretar Gênesis 15 a partir do Salmo 32. “O fato de Abraão ter sido considerado justo, de ter-lhe sido atribuída justiça diante de Deus (Gn 15.6), significa que Deus não contou, atribuiu seus pecados contra ele (SI 32.1,2), com referência ao perdão divino dos pecados de adultério e homicídio cometidos por Davi [cf. 2 Sm 11]. Tudo isso significa que Abraão foi justificado diante de Deus, pela fé e não por obras. De fato, Abraão era um pecador cuja única esperança era a graça de Deus recebida pela fé”.

Na argumentação de Paulo, ficam, portanto, os fatos:
1. Quando Abraão foi justificado, era ainda incircunciso.
Isso significa que Abraão seria o pai de todos os que haviam de crer sem estar circuncidados (incircuncisos), e assim fosse creditada a justiça também a eles.

2. A circuncisão foi dada após, como “sinal” (segundo Gn 17.10ss), isto é, como sinal da justiça da fé que ele havia recebido sendo ainda incircunciso.
Isso significa que Abraão seria o pai de todos circuncisos, isto é, daqueles que não se limitam à circuncisão, mas que, além disso, seguem na esteira da fé que, ainda incircunciso, possuía nosso pai Abraão (Rm 4.11)


SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO
1- "A Doutrina da Justificação
A estudarmos a Doutrina do Pecado descobrimos que ninguém pode ser justificado pela justiça humana. Entretanto, é na doutrina da justificação, no texto de 3.1 a 5.21, que o pecador encontra o caminho da justificação, através da obra expiatória de Cristo. No primeiro estado, o pecador está perdido e sem possibilidade alguma de se justificar diante de Deus. No segundo estado, o pecador encontra Cristo que o justifica.
É a partir do capítulo 3.21 que o pecador, judeu ou gentio, encontra um novo caminho através dos méritos de Cristo Jesus. É aqui que ele pode ser perdoado e declarado livre da pena do seu pecado, perante Deus.
Justificação significa absolvição da culpa, cuja pena foi satisfeita. Significa ser declarado livre de toda culpa tendo cumprido todos os requisitos da lei.
Justificação é um termo forense que denota um ato judicial da administração da lei. Esse ato judicial legaliza a situação do transgressor perante a lei e o torna justo, isto é, livre de toda a condenação. Cristo assumiu a pena do pecador e foi sentenciado no lugar do pecador. Ele sofreu a pena contra o pecador. Cumprida a pena, o veredicto final da justiça divina é a justificação do pecador. Entende-se então que ser justificado não significa que a justiça tenha sido adiada, ou que ela não tenha sido cumprida"
(CABRAL, Elienai. Romanos: O Evangelho da Justiça de Deus. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.52).

2- "Paulo diz que, se Abraão, o pai dos judeus segundo a carne, tivesse sido julgado por obras ou justiça própria, teria que gloriar-se diante de Deus. Porém o que aprendemos é que Abraão foi como qualquer outro homem, pecador e sem justiça nenhuma. Ele foi declarado justo por meio da fé (Rm 4.3). Os judeus vangloriavam-se em Abraão e criam que isto lhes garantiria a justificação, apenas por serem 'filhos de Abraão segundo a carne". Os versículos 4 e 5, apresentam dois modos de justificação: por méritos  e  por graça.
A justificação por méritos se baseia nas obras do homem para obter a sua salvação. A justificação por graça baseia-se sobre o princípio da fé. Deus justifica o pecador pela fé. Ele imputa justiça ao que crê, isto é pela graça de Deus"
(CABRAL, Elienai. Romanos: O Evangelho da Justiça de Deus. 5.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p.59).

CONCLUSÃO
Chegamos ao final de uma importante lição sobre a doutrina da justificação pela fé. Nesta lição aprendemos que Paulo recorreu a experiência do patriarca Abraão para argumentar contra a crença judaica que associava a aceitação das obras como garantia de justificação diante de Deus. Para Paulo isso não poderia ser verdade já que o velho patriarca não possuía mérito algum quando recebeu as promessas de Deus. As bênçãos recebidas por ele, assim como as da Nova Aliança, decorrem exclusivamente da graça de Deus em resposta a fé.

Fonte:
Lições Bíblicas - Maravilhosa Graça - O Evangelho de Jesus Cristo revelado na Carta aos Romanos - 2º.trim_2016 CPAD - Comentarista Jose Gonçalves
Livro de Apoio - Maravilhosa Graça - O Evangelho de Jesus Cristo revelado na Carta aos Romanos - José Gonçalves
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Isaque, o sorriso de uma Promessa - Livro de Gênesis

“E disse Sara: Deus me tem feito riso; e todo aquele que o ouvir se rirá comigo” Gn 21.6

O nascimento de Isaque é a confirmação da promessa feita por Deus a Abraão, onde a descendência prometida viria do útero de uma mulher estéril, de sua esposa Sara. Embora a história de Isaque e de Jacó fosse contada simultaneamente, pois o relato de Jacó é contado dentro da história de Isaque (25.19-35.29), as promessas de Deus feitas a Abraão são repetidas a Isaque (26.3-5), como também para Jacó (28.13-15).

Igualmente, como aconteceu com Sara, o Senhor abriu a madre da mulher de Isaque, Rebeca, conforme está escrito: “E Isaque orou instantemente ao SENHOR por sua mulher, porquanto era estéril; e o SENHOR ouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu” (Gn 25.21). Rebeca, não concebeu apenas uma vida, mas duas nações.
No capítulo 26, Isaque repetiu o fracasso de seu pai, Abraão, mentindo sobre a sua esposa (26.6,7), pois ao invés de afirmar ser Rebeca a sua esposa, ele disse a Abimeleque que ela era a sua irmã. Entretanto, Deus interviu na história para proteger a descendência do Seu povo e garantir o cumprimento da promessa feita a Abraão, o seu amigo (Gn 26.11,12).
Isaque era o “bem” mais precioso de Abraão. Foi com esse “bem” que o Senhor provou a fé de Abraão. Isaque foi exemplarmente obediente ao seu pai, e não questionou o fato de ser a “oferta” para o sacrifício apresentado por seu pai a Deus.

O convívio com Abraão, seu pai, ensinou Isaque a se relacionar com Deus. Sabendo quem é Deus e o quão importante é viver uma vida que o honre, Isaque foi forjado “aos pés de Abraão”, pois ele daria prosseguimento à promessa: conquistar a terra de Canaã.
Perceba que, até aqui, Abraão e Isaque representam aquela fase nômade do povo de Israel. Esse povo não tinha terra, não tinha casa e não tinha raízes. Viver é o grande desafio diário. Entrava numa terra, se estabelecia nela e, logo depois, saía, iniciando esse mesmo ciclo em outro lugar. Mas, em Isaque, esta realidade começa a ser quebrada.
Ele é o filho da promessa. É o filho da livre e não da escrava. Com essa imagem, o apóstolo Paulo fundamentou a doutrina da Graça de Deus: “Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e outro da livre. [...] Mas a Jerusalém que é de cima é livre, a qual é mãe de todos nós; porque está escrito: Alegra-te, estéril, que não dás à luz, esforça-te e clama, tu que não estás de parto; porque os filhos da solitária são mais do que os da que tem marido. Mas nós, irmãos, somos filhos da promessa, como Isaque” (Gl 4.22,26-28). Revista Ensinador Cristão - nº64

A promessa divina, ainda que pareça tardia, sempre nos sorri no momento certo e na estação apropriada.

COMENTÁRIO
Deus havia prometido a Abraão um herdeiro, porém, sua idade e a da sua esposa já eram bem avançadas. Continuar esperando o cumprimento de uma promessa a essa altura da vida não parecia nada fácil. Mas, Deus é fiel e vela por sua palavra. Se Deus fez uma promessa a você, creia que no tempo certo ela se cumprirá. Todavia, Sara querendo resolver a situação do seu jeito pede que Abraão tenha um filho com sua escrava Agar. A princípio, parecia que o plano de Sara havia dado certo, porém, depois que o filho da promessa nasceu, começaram os conflitos. Abraão teve que lançar seu filho fora. Mas Deus não havia lançado fora Ismael. O Senhor livra o menino e sua mãe da aflição do deserto e transforma um caso que a princípio parecia de fracasso e morte, em bênção. Deus abençoou Ismael, mas Isaque era o filho da promessa e por seu intermédio, Deus cumpriria seu concerto com Abraão.

INTRODUÇÃO
À primeira vista, Isaque parece retraído e tímido. Ao contrário do pai, Abraão, e do filho, Jacó, sua vida não é marcada por grandes eventos. Não teve de peregrinar ao Neguebe, nem refugiar-se além do Nilo. Limitando-se a andejar por Canaã, ali armou suas tendas, criou Esaú e Jacó, multiplicou os haveres da família e também, ali, ergueu altares ao Senhor. Ele, porém, viria a destacar-se por uma fé singular e perfeita no Deus das alianças e pactos eternos.
Embora patriarca, Isaque entrou para a História Sagrada como o filho da promessa, pois chegara à tenda de Abraão, quando este já tinha 100 anos, e Sara, 90. Seu nascimento levou os pais a rirem daquela espera que, ignorando os limites da biologia, evidenciou a intervenção do Autor da vida. Ele nasceu do ventre amortecido de Sara e do corpo envelhecido de Abraão. Sim, havia motivos para sorrir do aparecimento serôdio de Isaque.

Neste capítulo, acompanhemos alguns episódios que marcaram a vida do segundo patriarca dos hebreus. Veremos que aquele homem de pouquíssimas e reservadas palavras deixou-nos um eloquente testemunho de fé e temor a Deus. No campo da fé, nem sempre as palavras dizem muito; as ações, porém, revelam a intervenção divina em cada passo de nossa jornada a caminho de Sião.

I. O HERDEIRO QUE NÃO VINHA
Já se haviam passado 24 anos, desde que Abraão saíra de Ur dos Caldeus. E, apesar da promessa que o Senhor lhe fizera quanto à posse das terras de Canaã, o patriarca continuava sem herdeiro. Ele já estava com 99 anos, e Sara beirando à casa dos 90. Numa idade tão avançada, teriam eles ainda o prazer de embalar o próprio filho? Em breve haveriam de constatar que, para Deus, não há impossível.

1. A promessa de um herdeiro. Num momento de conjecturas, o Senhor aparece a Abraão, nos carvalhais de Manre, e promete-lhe que, passado um ano, Sara dar-lhe-á um filho (Gn 18.10). Ao ouvir a promessa, ri-se a mulher que, ainda formosa, já entrara na menopausa e cujo útero jazia emurchecido. Ela já não possuía a vitalidade, nem o frescor requeridos por uma mulher que almeja ser mãe. No campo da fé, nem sempre as palavras dizem muito; as ações, porém, revelam a intervenção divina em cada passo de nossa jornada a caminho de Sião.
Repreendida pelo Eterno, ouve uma pergunta que, claramente, vinha ao encontro de sua desesperança: “Acaso, para o Senhor há coisa demasiadamente difícil?” (Gn 18.14). Portanto, Sara já não teria de esperar para usufruir as alegrias da maternidade. Agora grávida, a promessa cumpre-se na gestação de seu unigênito.

2. O nascimento do herdeiro. No tempo apontado pelo Senhor, eis que Sara dá à luz o herdeiro de Abraão. Na tenda do patriarca, ouve-se, agora, o choro do filho da promessa, através do qual viriam heróis, reis e o próprio Cristo (Mt 1.1,2). Ao embalar o filhinho, ela desvanece: “Quem diria a Abraão que Sara daria de mamar a filhos, porque lhe dei um filho na sua velhice?” (Gn 21.7).
Sara não sorrira quando da anunciação do menino? Pois este se chamará Isaque que, na língua hebraica, significa “riso”.

Quanto à velhice de Abraão e de Sara, não nos esqueçamos de que, naquele tempo, as pessoas ainda eram longevas. Lendo-se o capítulo 11 de Gênesis, verifica-se que, a partir de Sem, que viveu 500 anos, a longevidade humana vai gradativamente caindo (Gn 11.11). No final do texto, a idade dos avoengos de Abraão já não ia além dos 200 anos. Mesmo assim, o aspecto de um homem de 100 anos, e de uma mulher, com 90, naquela época, não era nem senil, nem decrépito. Haja vista que Sara, embora haja saído de Ur, aos 65 anos, era de uma beleza estonteante e ainda não havia chegado à menopausa. A espécie humana, porém, já começava a sentir as condições ecológicas e climáticas devido ao Dilúvio. Se a idade dos filhos de Adão era contada em séculos, a dos descendentes de Noé será computada em décadas (Gn 5.27; Sl 90,10).

3. A circuncisão do herdeiro. Abraão circuncidou Isaque, quando este completou oito dias de vida (Gn 21.4). Foi o primeiro bebê varão da linhagem hebreia a receber a circuncisão de acordo com o pacto que o Senhor estabelecera com o patriarca (Gn 17.10-12). O ato reafirmou a continuidade da chamada patriarcal, que seria caracterizada mais fortemente em Jacó, pai dos 12 patriarcas.
Circuncidado, Isaque era inserido liturgicamente na família da promessa. A partir daquele momento, o problema sucessório de Abraão estava resolvido; seu filho dar-lhe-ia continuidade à comunidade da fé monoteística que, apregoando uma ética superior, mudaria a história do mundo.

4. O desmame de Isaque. Se a circuncisão de Isaque foi motivo de alegria e riso, o que se poderia esperar de seu desmame? No Oriente Médio, a criança era desmamada aos três anos. O acontecimento foi marcado por um grande banquete (Gn 21.8). Afinal, o filho da promessa deixava de ser bebê; doravante, seria olhado por todos como o homenzinho da família. A celebração, entretanto, teria o brilho esmaecido pelo mau comportamento de Ismael que, nessa época, já era um adolescente de 14 anos. E isso deixaria Sara muito aborrecida.

SUBSÍDIO DEVOCIONAL
"Idade de Noventa e Nove Anos
Abraão agora estava com noventa e nove anos e Sarai já há muito ultrapassara a idade de ter filhos. Mas treze anos após o nascimento de Ismael e vinte e quatro anos depois da promessa original de Deus, o Senhor apareceu a Abraão com uma mensagem e exigência.
(1) Deus se revelou como o 'Deus Todo-Poderoso', significando que Ele era onipotente e que nada lhe era impossível. Como Deus Todo-Poderoso, Ele podia cumprir suas promessas, quando na esfera natural tudo dizia ser impossível o seu cumprimento. Então, seria por um milagre que Deus traria ao mundo o filho prometido a Abraão.
(2) Deus ordenou que Abraão andasse diante dEle e que fosse 'perfeito'. Assim como a fé de Abraão foi necessária na efetuação do concerto com Deus, assim também um esforço sincero para agradá-lo era agora necessário, para continuação das bênçãos de Deus, segundo o concerto feito. A fé de Abraão tinha que estar unida à sua obediência (Rm 1.5); senão ele estaria inabilitado para participar dos propósitos eternos de Deus. Noutras palavras, as promessas e os milagres de Deus somente serão realizados quando o seu povo busca viver de maneira irrepreensível, tendo o seu coração voltado para Ele" (Bíblia de Estudo Pentecostal.  Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 56).

II. ISAQUE E ISMAEL
Se Isaque era o filho da promessa, Ismael estava ali na conta do filho da desesperança e do arranjo carnal. Por isso, o filho de Abraão com Agar, sentindo-se enciumado com a chegada do meio-irmão, põe-se a zombar dele. A situação faz-se tão insustentável que Sara, irritada e incontida, roga ao esposo: “Deita fora esta serva e o seu filho; porque o filho desta serva não herdará com meu filho, com Isaque” (Gn 21.10).

1. A despedida de Sara e Agar. O desejo da esposa pareceu duro e desumano a Abraão. O Senhor, porém, acalmou-lhe o espírito: “Não te pareça isso mal por causa do moço e por causa da tua serva; atende a Sara em tudo o que ela te disser; porque por Isaque será chamada a tua descendência” (Gn 21.12). Em seguida, o bondoso Deus reafirma sua bênção sobre Ismael, pois este também era filho de Abraão: “Mas também do filho da serva farei uma grande nação, por ser ele teu descendente” (Gn 21.13).

Deus tinha tudo sob controle. Não permitiria que a sua serva, Agar, viesse a perecer com o filho. E, diferentemente do que haveria de acontecer entre Esaú e Jacó, tanto Isaque quanto Ismael seriam abençoados. A bênção messiânica, porém, caberia exclusivamente ao filho da promessa.

2. A despedida de Ismael. Ao despedir Agar e Ismael, deu-lhes Abraão tão somente um pedaço de pão e um odre de água (Gn 21.14). O que era isso para uma jornada num deserto sem fronteiras e causticante? Acrescente-se, ainda, que mãe e filho não tinham para onde ir. Naquele instante, dependiam unicamente da providência divina.

Já bebida a água, Agar deita o filho agonizante e afasta-se para não lhe ver a morte (Gn 21.15,16). Mas neste momento, brada-lhe o Senhor através de seu anjo: “Que tens, Agar? Não temas, porque Deus ouviu a voz do rapaz desde o lugar onde está” (Gn 21.17). Deus jamais nos falta com a sua presença. Basta confiarmos em seus cuidados, e a sua proteção far-se-á presente.

Ao abrir os olhos, Agar vê uma fonte em pleno deserto (Gn 21.19). Portanto, não se desespere. Ainda que as suas lutas mostrem-se renhidas e cruéis, sempre haverá um manancial no deserto. Jesus é a água da vida.

3. A bênção de Ismael. Em seguida, diz-lhe o anjo: “Ergue-te, levanta o moço e pega-o pela mão, porque dele farei uma grande nação” (Gn 21.18). O mensageiro celeste reafirma a Agar a promessa que o Senhor fizera a Abraão (Gn 17.20; 21.13). O que parecia morte faz-se vida; o que era maldição torna-se grande bênção. Como está o seu filho? Não o deixe caído. Tome-o pela mão. Erga-o a uma vida de triunfos.

Mais adiante, o autor sagrado mostra os êxitos e façanhas de Ismael. Deus era com o menino. Ele cresceu, fez-se hábil arqueiro e passou a morar no deserto. Obediente à mãe, aceitou de bom grado a esposa que Agar fora buscar-lhe no Egito (Gn 21.20,21). Ismael gerou doze príncipes que, espalhando-se pela região da Arábia, fundaram reinos e nações.

III. O APRENDIZADO EM MORIÁ
Que o Senhor queria provar Abraão, em Moriá, não há dúvida. Todavia, era sua intenção, também, levar o jovem Isaque a um encontro pessoal e experimental com o Deus de seu pai. Naquele monte ermo e distante da tenda materna, o menino defrontar-se-á com uma nova fronteira no campo do conhecimento divino.

1. A provação das provações. Certa noite, o Senhor ordenou a Abraão: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22.2). Na manhã seguinte, madrugada ainda, o patriarca conduz o filho amado ao sacrifício supremo.

O patriarca, todavia, tinha absoluta certeza de que retornaria do Moriá com o filho, pois aos servos, ordenara claramente: “Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós” (Gn 22.5; Hb 11.17-19).

Como bom teólogo, sabia Abraão que, mesmo que viesse a sacrificar o filho, tê-lo-ia de volta, porque Deus lho havia prometido. Por isso, escreve o autor da Epístola aos Hebreus: “Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigênito aquele que acolheu alegremente as promessas, a quem se tinha dito: Em Isaque será chamada a tua descendência; porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou” (Hb 11.18-20).
Abraão, pois, escalou o Moriá com serenidade e confiança. Sabia que, apesar do que viesse a ocorrer naquele monte, Deus lhe reaveria o filho, pois a promessa não podia ser revogada: em Isaque seria reconhecida a sua descendência. Mas, como estaria o coração do jovenzinho? Em que condições emocionais chegaria ao cume da provação?

2. O aprendizado teológico de Isaque. A primeira lição de teologia que Abraão ensina ao filho é, embora básica, fundamental e colunar: Deus proverá todas as coisas (Gn 22.8). Por essa razão, sem nenhum temor, deita-se e deixa-se amarrar, pelo pai, ao altar do holocausto (Gn 22.9). Ele sabe que, no momento certo, o Senhor haverá de intervir, como de fato, interveio. Isaque também ouve o bradar do céu, contempla o cordeiro vicário e, atento, escuta o Anjo do Senhor chancelar ao pai as bênçãos quanto aos dias futuros.
E, assim, na companhia de Abraão, desce um Isaque mais confiante nas providências divinas. Antes, conhecia a Deus somente por ouvir. Agora, já está preparado a enfrentar os desafios de longas e árduas peregrinações. O Deus de Abraão é também o Deus de Isaque. Se ao escalar o Moriá, o seu monoteísmo era apenas teórico, ao descer, sua crença no Deus Único e Verdadeiro é atuantes e prática. Como bom teólogo, sabia Abraão que, mesmo que viesse a sacrificar o filho, tê-lo-ia de volta, porque Deus lho havia prometido.


CONHEÇA MAIS
*"O  teu único filho
A intenção de Deus não era de que Abraão sacrificasse seu filho. A ordem de oferecer Isaque serviu para provar o quanto ele confiava no Senhor. Contudo, tratava-se também de uma história profética. Deus, que foi tão generoso em permitir que Abraão sacrificasse seu filho, estava desejoso de entregar seu único filho, a quem amava, para garantir a nossa salvação." Para conhecer mais leia, Guia do Leitor da Bíblia, CPAD, p.38.


IV. UMA NOIVA PARA ISAQUE
Isaque bem que poderia haver tomado uma das jovens daquela terra por esposa. Entretanto, ele não se enganava com as cananeias. Idólatras e lascivas, davam-se aos pecados mais grosseiros. Muitas delas, encerradas em templos pagãos, entregavam-se à prostituição ritual; em nada diferiam das rameiras que circulavam por Jericó. Como haveria ele, pois, de esposar uma idólatra? Isaque, porém, estava tranquilo, pois aprendera a confiar no Deus que tudo provê.

1. Operação Rebeca. Sabendo que Isaque era um homem espiritual e seletivo, Abraão encarrega seu mais antigo servo de buscar-lhe uma esposa na Mesopotâmia (Gn 24.1-7). A jornada seria longa, estressante e cerceada de perigos. Mas o patriarca sabia que, em sua parentela, ainda havia uma reserva espiritual e ética; não eram poucos os que serviam ao Senhor.
Na cidade de Naor, o mordomo ora ao Eterno: “Seja, pois, que a donzela a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba; e ela disser: Bebe, e também darei de beber aos teus camelos, esta seja a quem designaste ao teu servo Isaque” (Gn 24.14).


A moça que assim procedesse revelaria as seguintes virtudes: espiritualidade, gentileza, respeito, disposição e amor ao trabalho. Eis que aparece Rebeca, virgem bela e formosa, preenchendo todos os requisitos.
Embora a jovem tivesse criadas e servas, não fugia ao trabalho. Em pleno calor do dia, saiu a buscar água. E, quando solicitada, gentilmente deu de beber não somente ao servo de Abraão, mas a toda sua cáfila. Em seguida, conduz a comitiva à casa, onde Labão, seu irmão, oferece-lhes uma calorosa acolhida. Seu amor e serviço foram além da expectativa do mordomo do patriarca.

Com tantos atributos, Rebeca não teria dificuldades em assumir a tenda patriarcal, pois a mãe de seu futuro esposo já era morta. A jovem mostrava-se, em tudo, uma autêntica serva do Deus de Abraão e Isaque.

2. O casamento de Isaque e Rebeca. O encontro de Isaque com Rebeca não poderia ser mais espiritual e romântico. Ele saíra a orar, à tarde, quando avistou a jovem ornando-lhe a comitiva. Depois de ouvir com atenção o servo do pai, ele a conduz à tenda da mãe, e a toma por mulher (Gn 24.67). Tão grande era o carinho entre os cônjuges, que não havia como negar que Isaque e Rebeca fossem casados. Certa vez, ao peregrinar em Gerar, disse aos homens daquele reino, imitando o pai, que a esposa, na verdade, era sua irmã. O rei, todavia, não demorou a surpreendê-lo acariciando a mulher (Gn 26.8,9). Tal intimidade, concluiu logo Abimeleque, não era coisa de irmãos, mas de gente casada.

SUBSÍDIO BIBLIOLÓGICO
"Isaque
O nome dado por Deus antes do nascimento da criança (Gn 17.19) significa 'ele ri', 'aquele que ri', ou simplesmente 'riso'.
Nada é conhecido sobre os dias da infância de Isaque. Em seguida, vemo-lo grande e forte o suficiente para carregar a madeira para o fogo do altar subindo a montanha, não sabendo que ele mesmo seria colocado no altar. A experiência de ter sido amarrado como uma vítima de sacrifício e então liberto pela intervenção divina deve ter afetado profundamente toda a sua vida" (Dicionário Bíblico Wycliffe. 1.ed.  Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p.989).
Deus tinha planos para Isaque, e mostraria ao jovem que Ele cumpre suas promessas.

V. OS FILHOS DE ISAQUE
Embora apaixonados e românticos, a felicidade de Isaque e Rebeca ainda não era completa. Ela, à semelhança de Sara, era estéril. Como, pois, se haveria o casal sem filhos?
1. A oração por um filho. Ao invés de arranjar um herdeiro através de um ventre escravo, como haviam feito seus pais, Isaque foi buscar a ajuda de Deus. Ele “orou insistentemente ao Senhor por sua mulher” (Gn 25.21). E a sua oração foi de pronto respondida. Isaque confiou no Deus que lhe proviera a esposa e, agora, há de prover-lhe também o herdeiro da promessa. Através da fé, aprendera a agir no terreno do impossível.

2. Esaú e Jacó. Já grávida de gêmeos, assustou-se Rebeca com o comportamento dos filhos. Em seu ventre, os bebês lutavam, numa antecipação profética do que seriam eles no futuro. Diz, então, o Senhor à mãe atribulada e inconsolável: “Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23).

Esaú, o primogênito, veio à luz coberto de pelos. Jacó, por seu turno, chegou liso e agarrado ao calcanhar do irmão. A história de ambos seria marcada por conflitos, inimizades e guerras. O primeiro fez-se perito caçador. O segundo, homem pacato e reflexivo, aconchegava-se à tenda da mãe.

Não demorou para que Esaú revelasse toda a sua profanidade e menosprezo às coisas de Deus. Certo dia, apertado pela fome, vendeu a Jacó a sua primogenitura por um prato de lentilhas. Enquanto isso, ia Jacó, influenciado pelos conselhos maternos, fundamentando-se na fé professada por Abraão e Isaque.

3. Isaque abençoa os filhos. Vendo-se envelhecido e turvado de olhos, buscou Isaque resolver, de vez, o problema sucessório da família. Chamando Esaú, diz-lhe: “Agora, pois, toma as tuas armas, a tua aljava e o teu arco, sai ao campo, e apanha para mim alguma caça, e faze-me uma comida saborosa, como eu aprecio, e traze-ma, para que eu coma e te abençoe antes que eu morra” (Gn 27.3,4).

Ao ouvir o diálogo do esposo com o primogênito, Rebeca trata de instruir o caçula a roubar a bênção do irmão.
Relutante a princípio, aproxima-se Jacó, fingindo ser Esaú. O pai, que já não enxergava com distinção, enganado, abençoa profeticamente o enganador: “Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27.28,29).

Já abençoado, Jacó deixa a tenda paterna. Em seguida, entra Esaú. O que pode fazer o velho Isaque? Profeta e bom teólogo, sabe que as palavras que proferira ao filho mais novo eram, na verdade, palavras de Deus. Jacó, pois, seria abençoado. Quanto a Esaú, restava o choro amargo de quem sempre desprezara o conhecimento divino, conforme escreve o autor da Epístola aos Hebreus: “Nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado” (Hb 12.16,17). Isaque confiou no Deus que lhe proviera a esposa e, agora, há de prover-lhe também o herdeiro da promessa.


CONCLUSÃO
Deus abençoou de tal forma a Isaque, que ele veio a tornar-se mais poderoso que os reis cananeus. Era temido, inclusive, por Abimeleque, soberano de Gerar. Aos olhos dos gentios, ali estava um homem que sabia como desfrutar dos favores divinos. Isaque era um príncipe de Deus. Tudo o que fazia vinha a prosperar. Seu gado multiplicava-se e sua lavoura vingava até mesmo em terras inférteis.
Enfim, Isaque era o bendito do Senhor.

O epílogo de sua vida é descrito não com palavras de condolência, mas com vocábulos que descrevem o recolhimento dos justos e íntegros: “Foram os dias de Isaque cento e oitenta anos. Velho e farto de dias, expirou Isaque e morreu, sendo recolhido ao seu povo; e Esaú e Jacó, seus filhos, o sepultaram” (Gn 35.28.29).

A vida de Isaque inspira-nos a ter uma fé mais ativa nas providências divinas. Quando, pois, formos assaltados por dificuldades e provações, não caiamos no desespero, nem questionemos as intervenções do amoroso Deus. Humildes e humilhados, caiamos aos seus pés, pois ele nos provê o necessário para termos uma vida abundante e bem-aventurada em seus caminhos.

Que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó seja eternamente louvado.


SUBSÍDIO DIDÁTICO
Professor, procure enfatizar as características de Isaque. Mostre que a sua mansidão "é vista em sua submissão sem resistência a seu pai ao tornar-se o sacrifício sobre o altar de Moriá, e em sua recusa a discutir quando os pastores de Gerar reivindicavam os poços. Ele possuía uma natureza afetuosa, profundamente ligado à mãe, chorando por sua morte, e sendo depois confortado em seu amor por Rebeca. Seu espírito mediador pode ter contribuído para seu afeto expansivo.
Ele era um homem que vivia em contato com Deus. Embora não tenha as visitações dramáticas que foram concedidas ao seu pai, Abraão, Isaque obedeceu aos mandamentos de Deus. O altar, a tenda e o poço simbolizavam os principais interesses de sua vida" (Dicionário Bíblico Wycliffe. 1.ed.  Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 990).

Professor, mostre aos alunos que Isaque demonstrou ser um filho obediente, um homem paciente e um marido cuidadoso. Observe algumas das lições que aprendemos com o filho da promessa, Isaque. Se desejar, leia para os alunos e discuta com eles cada lição:
"*A paciência sempre produz recompensas;
*As promessas e os planos de Deus são maiores que os das pessoas.
*Deus sempre cumpre suas promessas! Ele permanece fiel embora nossa fé seja pequena.
*Exercer favoritismo certamente produz conflitos familiares" (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2005, p. 35).


Judeus / Árabes / Muçulmanos
Os judeus são descendentes de Isaque, filho de Abraão. Os árabes são descendentes de Ismael, também filho de Abraão. Sendo Ismael filho de uma mulher escrava (Gênesis 16:1-6) e Isaque sendo o filho prometido que herdaria as promessas feitas a Abraão (Gênesis 21:1-3), obviamente haveria alguma animosidade entre os dois filhos. Como resultado das provocações de Ismael contra Isaque (Gênesis 21:9), Sara disse para Abraão mandar embora Agar e Ismael (Gênesis 21:11-21). Isto causou no coração de Ismael ainda mais contenda contra Isaque. Um anjo até profetizou a Agar que Ismael viveria em hostilidade contra todos os seus irmãos (Gênesis 16:11-12).

A religião do Islã, à qual a maioria dos árabes é aderente, tornou essa hostilidade mais profunda. O Alcorão contém instruções de certa forma contraditórias para os muçulmanos em relação aos judeus. Em certo ponto, ele instrui os muçulmanos a tratar os judeus como irmãos, mas em outro ponto, ordena que os muçulmanos ataquem os judeus que se recusam a se converter ao Islã. O Alcorão também introduz um conflito sobre o qual filho de Abraão era realmente o filho da promessa. As Escrituras hebraicas dizem que era Isaque. O Alcorão diz que era Ismael. O Alcorão ensina que foi Ismael a quem Abraão quase sacrificou ao Senhor, não Isaque (em contradição a Gênesis capítulo 22). Este debate sobre quem era o filho da promessa contribui para a hostilidade de hoje em dia.

Leia mais sobre o assunto em Xiitas vs Sunitas - Islamismo


Fonte:
O começo de todas as coisas - Estudos sobre o Livro de Gênesis - 4º trim.2015
O começo de todas as coisas - Estudos sobre o Livro de Gênesis - Claudionor de Andrade (Livro de Apoio)
Guia do Leitor da Bíblia - CPAD
Revista Ensinador Cristão - CPAD - nº64
Dicionário Bíblico Wycliffe
Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal
Bíblia de Estudo Pentecostal
Bíblia Defesa da Fé
Aqui eu Aprendi!
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