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sexta-feira, 29 de junho de 2018

Levítico, Adoração e Serviço ao Senhor

“E porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma de vós não se enfadará” Lv 26.11


Levítico, adoração e serviço ao Senhor

Caros professores, neste trimestre abordaremos um livro da Bíblia que para muitos é tido como difícil, hermético e impenetrável: o Levítico. Essa palavra provém da antiga tradução grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, e seu significado é “Concernente aos levitas” ou “Com respeito aos levitas”.

O nome do livro revela que a obra sagrada foi escrita originalmente como um manual litúrgico para os levitas. Nesse aspecto, o Levítico contém a narrativa da maior parte do sistema de leis estabelecido por Deus para o Seu povo sob a administração do sacerdócio levítico.

Informações Básicas sobre o livro

Ao longo do livro, que com outros quatro formam o Pentateuco (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento), são destacados os seguintes conteúdos: leis sobre a santidade de Deus e o amor ao próximo; sacrifícios como parte da adoração; a pureza ritual e obrigações sociais; instituição do sacerdócio segundo a ordem de Arão; leis quanto à função sacerdotal dos levitas; estabelecimento da expiação dos pecados (o Dia da Expiação); leis que regulam as relações sexuais, a vida familiar, a punição de crimes graves, as festas sagradas e os anos especiais, como o sabático e o jubileu.

Essas descrições apontam para os seguintes objetivos do livro: purificar a nação escolhida das abominações do Egito; preservá-la das sujeiras morais e espirituais de Canaã; transformar a nação num povo separado por Deus para cumprir os propósitos divinos. Por isso, o livro tem o propósito claro de estabelecer a santidade de Deus na vida de seu povo: “Porque eu sou o SENHOR, vosso Deus; portanto, vós vos santificareis e sereis santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44).

Esboço do livro de Levítico

DIVISÃO EM DOIS PRINCIPAIS BLOCOS
1—16 → Regulamento para o povo e os sacerdotes (o Código Levítico);
17—26 → Regulamento do relacionamento com Deus e com o próximo (o Código de Santidade).

DIVISÃO DO PRIMEIRO BLOCO (1—16)
1.1—6.7 → As ofertas do povo
8—9 → A instituição do sacerdócio arônico;
10 → Juízo de Deus e instruções para os sacerdotes;
11—15 → Leis sobre a pureza ritual para os sacerdotes;
16 → Instituição do Dia da Expiação.

DIVISÃO DO SEGUNDO BLOCO (17—26)
17—24 → O Código de Santidade para diversos comportamentos da nação e dos sacerdotes;
25—26 → Instituição dos anos sabáticos e do jubileu; bênçãos e maldições da aliança.


A verdadeira adoração a Deus compreende, necessariamente, o nosso serviço voluntário, santo e amoroso ao seu Reino.

Leitura Bíblica em classe: Levítico 27.28-34

Estudaremos, a partir de agora, o livro de Levítico, cujo tema pode ser resumido nesta simples, mas atual ordenança divina: “... portanto vós vos santificareis, e sereis santos, porque eu sou santo” Lv 11.44



Introdução

Embora seja visto, às vezes, como um manual de cerimônias estressante e monótono, o livro de Levítico vai além das celebrações e ritos que prescreve. No cânon divino, surge como parte viva, orgânica e essencial da História Sagrada. Por essa razão, sua atualidade não pode ser ignorada por nenhum cristão. Isso não significa, porém, que devamos submeter-nos à sua liturgia que, como muito bem explica o apóstolo Paulo, cumpriu-se plenamente em Cristo. Enveredando-se pelo caminho dos judaizantes, os gálatas caíram da graça; quase pereceram. Os princípios teológicos e devocionais de Levítico, todavia, são eternos; eram necessários ontem e continuam imprescindíveis hoje.

Nessa porção sagrada, deparamo-nos com três palavras-chave: adoração, santidade e serviço. Tais proposições servem de alicerce tanto à congregação israelita quanto à Igreja de Cristo. Ambas precisaram aprender, cada uma a seu tempo, a adorar a Deus e a reconhecê-lo como o Criador, Senhor e Mantenedor de todas as coisas. Em seguida, aprendemos com Moisés e Arão que, para agradar ao Senhor, temos de apartar-nos do mundo e separar-nos exclusivamente ao serviço divino. Eis o cerne da santificação preconizada em cada seção do livro de Levítico.

Já em suas primeiras linhas, é possível concluir que a adoração nada é sem a santificação, e a santificação, por sua vez, nenhum valor terá se não resultar em serviços ao Reino de Deus. Aqui está o fulcro do terceiro livro do Pentateuco. Ao chegarmos à última etapa desta obra, concluiremos: o Levítico é tão vivo, hoje, como no dia em que Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, lavrou-o num papiro a caminho da Terra Prometida.

I. Levítico, um Livro por Excelência

À semelhança dos demais livros do Cânon Sagrado, o Levítico destaca-se por sua singularidade, origem e excelência. Vejamos, em primeiro lugar, a razão de seu nome e de sua estrutura.

1. O nome do livro. 
No original hebraico, o livro de Levítico é conhecido por suas palavras iniciais: Vaicrá que, literalmente, significam “e chamou” (Lv 1.1). Numa primeira instância, veremos, nesse enunciado, um chamado indireto de Deus a Moisés a escrever a terceira porção do Pentateuco. Em seguida, enxerguemo-la como a vocação direta de Deus a Israel a reerguer-se como nação santa, profética, real e sacerdotal.

Vaicrá tem, ainda, mais duas traduções possíveis: “e separou” e “e santificou”. Teologicamente, o chamado de Deus implica em nossa separação do mundo e em nossa imediata santificação ao serviço de seu Reino.

Na erudição judaica, o livro é conhecido também como Torath Kohanim – A Lei dos Sacerdotes. Já na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento, o livro recebe o nome de Leuitikon, denotando-lhe o tema e o propósito: as coisas pertencentes ao ministério dos levitas. No latim, a sua designação é Leviticus. E, tendo em vista a origem românica do idioma português, nossos tradutores houveram por bem denominá-lo de Levítico pelas razões já apontadas.

2. Estrutura do livro.
Terceiro livro das Sagradas Escrituras, o Levítico é composto por 27 capítulos, 859 versículos e, aproximadamente, 24 mil palavras. Nele, são encontrados mandamentos, proposições, narrativas e profecias. Em suas páginas, há 26 promessas quanto ao proceder obediente de quem professa adorar a Deus.

3. Singularidade do livro.
O Levítico é um livro singular por duas razões:

1) É o único manual que temos na Bíblia referente à forma correta de se adorar a Deus; e

2) Embora dirigido aos sacerdotes, foi redigido por um profeta (Lv 1.1).


4. As divisões de Levítico.
Utilizaremos A Bíblia Explicada para esboçar o Levítico. Esse livro sagrado, de acordo com S. E. Macnair, pode ser dividido em nove seções principais:

1) As ofertas (caps. 1—6.7).

2) A lei das ofertas (caps. 6.8—7.38).

3) Consagração (caps. 8.1—9.24).

4) Uma transgressão e um exemplo (cap. 10.1—20).

5) Um Deus santo exige um povo santo (caps. 11—15).

6) Expiação (cap. 16).

7) A conduta do povo de Deus (caps. 17 e 22).

8) As festas de Jeová (cap. 23).

9) Instruções e avisos (caps. 24—27).

5. Origem divina e humana do livro.
À semelhança dos demais livros das Sagradas Escrituras, o Levítico é um texto verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. Sua autoria fica bem patente logo no primeiro versículo: “E chamou o SENHOR a Moisés, e falou com ele da tenda da congregação” (Lv 1.1).

O livro tem como fonte o próprio Deus e, como medianeiro, Moisés. Inspirado pelo Espírito Santo, o profeta e legislador dos hebreus redigiu-o e encarregou-se de transmiti-lo aos levitas e aos demais filhos de Israel, seus leitores e ouvintes imediatos, e, depois, a nós, a Igreja de Cristo. É uma obra, pois, de dupla procedência e autoria: divino-humana.

6. Excelência literária do livro.
Que o livro de Levítico é inspirado pelo Espírito Santo, não há dúvida. Nós ouvimos a voz de Deus em cada uma de suas páginas; é um texto comprovadamente divino. Todavia, o que podemos dizer acerca de suas qualidades literárias?

Apesar de ser uma obra técnica, o Levítico não se perde naqueles jargões e tecnicismos que caracterizam os manuais. O seu autor humano, sempre guiado pelo Espírito de Deus, redigiu-o de tal forma que, passados mais de três milênios, sentimo-lo como se tivesse acabado de ser escrito. É importante observarmos que a sua redação não secciona a narrativa pentateutica da peregrinação dos israelitas à Terra Prometida.

Moisés escreveu o Levítico com tanto “engenho e arte”, que se tem a impressão de que essa porção da Bíblia Sagrada é a continuidade do Êxodo e a transição natural para os livros de Números e Deuteronômio. Temos, pois, diante de nós, uma obra de comprovada excelência literária. É bela e sublime; em seu gênero, inigualável.

II. A Certeza da Autoria Mosaica

Neste tópico, ressaltaremos as qualidades literárias de Moisés. Em seguida, veremos o idioma e a escrita usada pelo autor sagrado.

1. Deus, o autor divino.
Do primeiro ao último versículo de Levítico, sente-se claramente que Deus é o seu autor (Lv 1.1). Tal convicção não advém apenas das reivindicações formais do livro; advém, principalmente, da experiência do leitor com a obra. Pelo menos essa é a minha experiência pessoal.

Do início ao final de Levítico, o Senhor dirige-se a Moisés em 38 ocasiões diferentes. Patenteia-se, dessa forma, a origem divina da terceira seção do Pentateuco. Não há dúvida: é a palavra inspirada, inerrante e completa de Deus.

2. Moisés, o autor humano.
Não exagero ao afirmar que Moisés foi o homem mais sábio que o mundo já conheceu. É claro que faço essa afirmação depois de excetuar o Senhor Jesus Cristo que, além de sapientíssimo, era e é a própria sabedoria. Aliás, Ele é a Palavra de Deus encarnada. Nesse sentido, toda a palavra do Levítico era, essencial e tipologicamente, o oráculo do Filho de Deus.

Vejamos algumas qualidades literárias de Moisés.

Educado na corte faraônica, Moisés tornou-se um homem poderoso em palavras e obras. Sua cultura não se restringia ao Egito; era universal. Ele podia transitar por todo o Oriente Médio sem constrangimento algum. Já refugiado em Canaã, entrou em contato com a escrita sinaítica: um meio termo entre a pictografia egípcia e o alfabeto assurítico, que, no tempo de Esdras, seria adotado pelos escribas judeus.

Ali, nos prados midianitas, Moisés foi induzido, providencialmente, a trocar a primeira forma de escrita pela segunda. Em termos técnicos, pode-se considerar os signos sinaíticos como uma espécie de alfabeto. Será que os intelectuais egípcios conheciam os signos do Sinai? Talvez. Mas, à semelhança dos chineses, resolveram manter o seu complexo sistema de linguagem, a fim de não popularizar o conhecimento.

O estilo literário de Moisés foi divinamente forjado no deserto. Fugindo às ladainhas egípcias, foi conduzido didaticamente a sair da movediça e fantástica literatura faraônica até firmar-se num estilo firme, racional e próprio da literatura histórico-profética. Nesse período, deixa-se impregnar pela dicção poética, campesina e pastoral de seu povo. E, assim, depois de quarenta anos no exílio e, após muito pensar, o filho de Anrão e Joquebede estava preparado a lavrar as palavras que Deus, por intermédio do Espírito Santo, assoprar-lhe-ia na alma.

3. O idioma original.
Ao ser intimado por Deus a ser o pai da nação eleita, Abraão ainda não falava o hebraico, embora fosse reconhecido como hebreu (Gn 14.13). Seu idioma materno era, mui provavelmente, um caldaico primitivo que ainda lutava por desvencilhar-se das influências dialetais da Acádia. Nesse sentido, a língua de suas peregrinações pode ser classificada como pré-hebraica. Isso porque, em suas caminhadas por Canaã foi mesclando sua língua materna aos diversos falares cananeus. Como estes se expressavam em línguas igualmente semíticas, o patriarca não teve dificuldades em transitar pelos diversos reinos cananeus e, com estes, negociar e estabelecer alianças. O capítulo 14 de Gênesis mostra, implicitamente, a desenvoltura linguística de Abraão entre os povos de Canaã. Seria como um lusófono, alguém que fala português, a andejar numa área onde predominasse a hispanofonia, uma comunidade linguística que envolve todas as pessoas que têm em comum a língua espanhola.

Nos lábios dos patriarcas, a língua hebraica foi sendo paulatinamente formada ao longo de cinco séculos: do chamado de Abraão ao chamamento de Moisés. Um período que vai, de acordo com a cronologia bíblica geralmente aceita, do ano 2.000 a 1.500 a.C.

A estadia de Israel no Egito foi decisiva à consolidação do idioma hebraico. Ali, na distante Gósen, isolada no delta oriental do Nilo, os israelitas puderam desenvolver o seu idioma, livres das influências linguísticas dos cananeus e dos egípcios. Apesar de residirem no Egito, os filhos de Israel não mantinham contato com os habitantes da terra, uma vez que estes os consideravam abominação (Gn 46.34). Os súditos de Faraó não toleravam pastores de ovelhas, pois tinham o gado vacum e ovino como divindade.

Por conseguinte, quando o Senhor chamou Moisés a escrever os primeiros cinco livros da Bíblia Sagrada, a língua hebraica já estava devidamente formada. Faltava-lhe, porém, um sistema de escrita. Que signos adotar? Os hieróglifos egípcios? Ou a escrita cuneiforme das antigas Suméria e Acádia? Se Moisés tivesse optado quer pelos primeiros quer pela segunda, hoje não teríamos acesso às revelações do Gênesis e às narrativas da redenção de Israel.

4. A escrita pentatêutica.
Foi nesse período que Moisés descobriu a escrita sinaítica. Se comparada aos hieróglifos egípcios e às cunhas mesopotâmicas, ela pode ser considerada, de fato, um sistema alfabético. No entanto, prefiro classificá-la de pré-alfabética por duas razões: ela ainda estruturava-se em sinais pictóricos, e estava bem longe de usar vogais em seus fonemas. Mesmo assim, era um avanço admirável em relação às grafias dos vales do Nilo e do Eufrates.

O que poderia ter acontecido se Moisés, ao invés de usar a escrita sinaítica, tivesse optado pela egípcia ou pela mesopotâmica? Certamente, hoje, a História Sagrada seria um amontoado de signos incompreensíveis e sujeitos às mais bizarras interpretações. Aliás, nem os próprios israelitas achariam nelas qualquer sentido. Mas, graças a Deus, o profeta foi não apenas inspirado a escrever inerrantemente o Pentateuco, como também foi dirigido, pelo mesmo Espírito, a escolher o sistema de escrituração mais eficaz da época, para narrar os princípios da História Sagrada até a libertação completa dos hebreus. O alfabeto sinaítico (chamemo-lo assim) foi rapidamente assimilado pelos sábios de Israel que, sempre dirigidos e supervisionados pelo Espírito Santo, puderam dar continuidade à História Sagrada. Josué, Samuel, Davi e Gade, por exemplo, tornaram-se mestres na escrita do Sinai; grandes literatos (Js 24.26; 1 Sm 10.25; Sl 45.1). Aliás, pelo que inferimos de algumas passagens, era um sistema já bastante utilizado naquela região (Jz 8.14).

Na verdade, a escrita sinaítica nasceu entre os fenícios que, já naqueles dias, dominavam o comércio na região do Oriente Médio. E, para agilizar suas escriturações contábeis, entenderam por bem criar um sistema de registro mais dinâmico e eficaz. E, tendo como base os hieróglifos egípcios, elaboraram um pré-alfabeto que, séculos depois, seria adotado e aperfeiçoado pelos gregos e romanos.

Se bem atentarmos à história de Israel, perceberemos que, durante o exílio babilônico, os judeus vieram a trocar, de fato, o seu alfabeto pelo assurítico. Denominado escrita quadrática, devido à forma de suas letras, foi introduzido na cópia das Sagradas Escrituras mui provavelmente por Esdras. O eruditíssimo doutor e escriba, aliás, foi quem procedeu a última reforma editorial e gráfica do Antigo Testamento. Sem o seu trabalho, as Sagradas Escrituras corriam o risco de se tornarem um todo incompreensível. E, dessa maneira, viriam a cair no esquecimento.

O hebraico, como o lemos hoje no Antigo Testamento, é um legado tanto de Moisés quanto de Esdras, intermediados por filólogos como os homens de Ezequias (Pv 25.1).

A Moisés coube uma tripla e dificílima tarefa: adaptar a escrita sinaítica às necessidades linguísticas de Israel; gramaticar o hebraico e, finalmente, torná-lo uma língua literária. Nesse sentido, Moisés está para o hebraico como Martinho Lutero (1483-1546) está para o alemão. Sem o trabalho de ambos, separados por trinta séculos, hoje não teríamos nem a língua hebraica nem a alemã. Moisés, por esse motivo, não foi apenas o maior profeta da História Sagrada, foi também um dos maiores linguistas e filólogos que o mundo já conheceu. Infelizmente, os eruditos seculares, sempre preocupados em desconstruir a Bíblia, ainda não atentam a esse fato. Quanto a Esdras, coube-lhe uma missão dupla e igualmente dificílima. Em primeiro lugar, adaptou o alfabeto assurítico, usado pelos falantes do aramaico, ao hebraico do exílio. Já resolvido o problema alfabético, o grande e bem-conceituado doutor pôs-se a revisar linguisticamente as Escrituras Sagradas até então lavradas. Sua revisão, frisamos, não avançou além do campo filológico; ele não fez nenhuma mudança de conteúdo, pois a própria Escritura, a fim de preservar-se, proibia-o terminantemente (Pv 30.5,6; Ap 22.18.19). E, sobre as adaptações linguísticas, os editores sagrados não esconderam a sua participação (Gn 22.14; Dt 3.14; 1 Sm 5.5).

A mudança da escrita sinaítica para o alfabeto assurítico, conhecido hoje como hebraico, começou a ser feita no exato momento em que Daniel e seus companheiros chegaram à corte babilônica. Eles foram não somente obrigados a aprender a língua e a cultura dos caldeus, mas também constrangidos a assimilar o seu alfabeto (Dn 1.4). Afinal, os documentos oficiais eram redigidos, inicialmente, em arameu e no alfabeto assurítico, e, depois, nas demais línguas e alfabetos.

Hoje, temos o livro de Levítico na Bíblia Hebraica, não mais na escrita sinaítica, mas no sistema alfabético assurítico. Concernente à língua hebraica, em si, o que podemos dizer? O hebraico falado no tempo de Esdras seria perfeitamente inteligível a um israelense de nossos dias. Deus, portanto, reservou os meios mais eficazes (alfabeto, língua e trabalho editorial), para que tivéssemos, hoje, a sua Palavra como Ele a inspirou a Moisés e aos demais profetas.

III. Ocasião, o Nascimento de Israel

Ao datarmos a redação do livro de Levítico, temos de levar em consideração três coisas muito importantes: a ocasião da obra, a peregrinação e o aparente atraso e, finalmente, o estabelecimento da congregação israelita no deserto.

1. A data da redação do Levítico.
De acordo com a cronologia bíblica geralmente aceita, o livro de Levítico foi escrito por Moisés em 1445 a.C.. É claro que essa data não pode ser considerada exata, mas também não é absurda nem pode ser descartada. E, se levarmos em conta Êxodo 40.7, veremos que a redação da terceira parte do Pentateuco começou a ser feita um ano depois de os israelitas terem saído do Egito. Foi nessa ocasião, ainda, que o Senhor ordenou fosse erguido o Santo Tabernáculo no deserto.

2. O período do Levítico.
Moisés escreveu o Levítico num momento particularmente difícil da história de Israel. Os israelitas tinham acabado de sair de uma segunda apostasia. A primeira, como se recorda, foi o episódio do bezerro de ouro (Êx 32). Mas a segunda, embora não tivesse como motivação a idolatria, foi pior do que a primeira; tinha como fundamento a incredulidade que, a partir daquele momento, tornar-se-ia crônica na vida dos judeus.

Embora conhecessem a promessa feita por Deus a Abraão, os hebreus, contaminados pelo desânimo, não se animaram a apossar-se de Canaã. Foram, por isso, condenados a peregrinar no deserto por quarenta anos (Nm 14.34). Em meio a essa rebelião e apostasia, foi que Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu o Levítico, a fim de ensinar o povo a adorar o Deus Santo, Vivo, Único e Verdadeiro.

3. A peregrinação e o atraso.
Não fossem as duas grandes apostasias, Israel teria chegado a Canaã em, no máximo, dois meses. Mas, em consequência de seus pecados, os hebreus tiveram de voltear o Sinai por um período de quarenta anos, até que toda aquela geração de incrédulos caísse no deserto e, no deserto, fosse sepultada. Sem esse longo contratempo, o livro de Levítico poderia ter sido escrito em Canaã, sob circunstâncias mais favoráveis. E, quem sabe, o lamentável episódio de Nadabe e Abiú teria sido igualmente evitado, pois ambos, frutos daquela incredulidade, eram tão culpáveis quanto os dez espias que esparramaram o desalento pelo arraial hebreu.

Todavia, como o cronograma redentivo de Deus não pode ser atrasado pelas circunstâncias, aprouve ao Senhor entregar as regras e mandamentos levíticos em pleno Sinai. E, dessa forma, a nova geração de Israel adentraria Canaã com uma disposição renovada, apossando-se de vez da terra que mana leite e mel. Sendo assim, podemos dizer que o atraso ocorrido na peregrinação dos israelitas em direção à Terra Prometida foi providencial e didático. Sem a longa estadia no deserto, Israel jamais alcançaria o seu status de nação profética, sacerdotal e real.

4. A congregação no deserto.
Foi nesse período conturbado, que Deus ordenou a construção do Santo Tabernáculo. Neste ponto, vejo-me obrigado a levantar esta questão: se não fossem as duas apostasias de Israel, no Sinai, a tenda de adoração seria necessária?

Que os israelitas careciam de um centro de adoração ninguém o pode negar. Entretanto, se a peregrinação tivesse durado apenas sessenta dias, um tempo mais do que razoável, acredito que, ao invés de um santuário portátil, os israelitas seriam instruídos, pelo Senhor, a erguer uma casa definitiva. Isso, porém, só viria a acontecer quatro séculos depois da entrada de Israel em seu território. A desobediência traz retardos e atrasos em todos os sentidos. Eis porque devemos primar por uma vida de obediência ao Senhor.

IV. Os Objetivos de Levítico

À primeira vista, o livro de Levítico é um manual de cerimônia como outro qualquer. Todavia, uma leitura mais atenta leva-nos a ver, em suas páginas, pelo menos cinco objetivos: doxológico, hagiológico, didático, diaconológico e missiológico.

1. Objetivo doxológico.
No Êxodo, o Senhor demanda de seu povo uma adoração perfeita. Já no Levítico, ensina Ele, a esse mesmo povo, como alcançar esse alvo. Em suas páginas, observamos que, além da intenção do adorador, a adoração tem de processar-se de maneira correta e santa, pois o Senhor busca os que o honram em espírito e em verdade. Por isso, a partir do sacerdócio araônico, a adoração passa a ser considerada um serviço a ser prestado regular e corretamente ao Deus Santo e Verdadeiro.

A doxologia é o primeiro e mais elevado objetivo do livro de Levítico. Eis porque, no cerne de todo sacrifício e oferta, tem de estar o coração e a alma do adorador. Menos que isso é inaceitável.

2. Objetivo hagiológico.
A hagiologia não se limita a estudar a vida dos homens santos; seu objetivo inclui a pesquisa de coisas tidas como santas e o processo de santificação que as acompanha. Por essa razão, temos de ver os estágios de santificação de Israel como o segundo objetivo de Levítico. Isso porque, o Deus Santo e Verdadeiro requer, de seus adoradores, a mesma santidade e a mesma verdade. Aliás, o texto áureo desse livro é bastante claro quanto aos seus objetivos hagiológicos: “Fala a toda a congregação dos filhos de Israel, e dize-lhes: Santos sereis, porque eu, o SENHOR vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2).

A hagiologia bíblica abrange um duplo processo. O primeiro é separar o homem do mundo, para que ele, pelos meios da graça, santifique-se ao Senhor. O segundo leva esse mesmo homem, já separado do mundo, a santificar-se para o serviço de Deus. Conclui-se que a doxologia só há de ser perfeita se a hagiologia for completa na vida de quem professa amar e servir ao Senhor.

3. Objetivo didático.
Mas, como alcançar os objetivos doxológicos e hagiológicos demandados no livro de Levítico? A fim de que a adoração de Israel fosse perfeita, o Senhor providenciou um amplo e eficaz aparato didático. Somente assim o perfeito e santo Deus seria perfeita e santamente adorado.

Devemos, portanto, ver como didáticos os livros de Êxodo e de Levítico, pois o objetivo de ambos é conduzir Israel, para que este, perfeita e completamente instruído, viesse a servir a Deus em espírito e em verdade.

Se levarmos em conta os ensinos das epístolas endereçadas aos gálatas e aos cristãos hebreus, veremos o Santo Tabernáculo como um jardim de infância, no qual os israelitas, sempre conduzidos pelas mãos de Arão e de Moisés, deveriam aprender os primeiros rudimentos das verdades divinas (Gl 3.24,25).

Infelizmente, eles recusaram-se a crescer na graça e no conhecimento do Senhor; optaram por ficar na escola de pré-alfabetização; não avançaram jamais. Vendo esse retardo atingir inclusive os cristãos, o autor sagrado exorta-os a deixar os tipos e emblemas dos bens futuros e, nestes, fixarem-se (Hb 9.11; 10.1).

Hoje, não são poucas as igrejas evangélicas gentias que, embevecidas pelo esplendor do culto hebreu, buscam reviver festas e cerimônias judaicas, como se o templo cristão fosse mera sinagoga. Nosso compromisso com Israel é orar pela paz de Jerusalém, para que os filhos de Abraão retornem o mais depressa possível à sua herança, conforme preconizam os santos profetas. Quanto a nós, já saímos do jardim de infância espiritual. Eis porque devemos cumprir a terceira ordenança de Jesus: evangelizar até aos confins da terra.

4. Objetivo diaconológico.
Que Israel fora chamado a servir a Deus era algo que não podia ser ignorado nem pela nação como um todo, nem pelo adorador em particular. A doxologia, a hagiologia e a didática tinham de resultar, naturalmente, na diaconia de quem professa conhecer o Deus Único e Verdadeiro. Israel deveria erguer-se, necessária e urgentemente, como a comunidade servidora por excelência. Mas não foi isso que aconteceu. Os judeus tardaram em reconhecer a natureza de sua missão como filhos de Deus e herdeiros de Abraão. Se nos detivermos no espírito de Levítico, constataremos que o seu principal objetivo era preparar um povo obreiro ao Senhor.

5. Objetivo missiológico.
O verdadeiro santo não é aquele que se limita a não praticar o mal; é aquele que, apartando-se do mal, deleita-se em fazer o bem e servir a Deus. Refugiar-se num convento pode até ser eficiente para quem busca fugir à avareza, à prostituição e às intemperanças. Todavia, tal refúgio impedir-nos-á de praticar o bem. E quem sabe praticar o bem e não o pratica ofende a Deus; faz-se tão pecador como aquele que, intemperando-se, lança-se a todos os excessos. Por essa razão, entendamos de uma vez por todas: fomos salvos para divulgar o testemunho de Jesus Cristo.

Tal ensino pode ser encontrado na essência de Levítico. Portanto, à semelhança dos demais livros das Sagradas Escrituras, ele é, também, um livro missiológico. Se Israel, compenetrando-se de sua missão como povo de Deus, observasse os seus mandamentos, teria partido dali mesmo, em pleno deserto, a anunciar as grandezas de Deus. Mas, recolhido aos seus privilégios, limitou-se a reagir às agressões dos gentios. De que modo estamos agindo como Igreja de Deus? Agimos? Ou limitamo-nos a reagir às circunstâncias? Santifiquemo-nos! Testemunhemos de Cristo em toda e qualquer circunstância.

Conclusão

Conforme tivemos a oportunidade de ver, o livro de Levítico não é um simples manual de cerimônias. Se o lermos com reverência e cuidado, constataremos estarmos diante de um livro, cuja principal reivindicação é a nossa santificação para servir a Deus. O Senhor intima-nos a ser santos, porque Ele é santo. Mas que a nossa santidade não venha a isolar-nos do clamor do mundo. Embora separados deste, neste ainda estamos. Eis porque, como santos de Deus, temos o dever de apregoar a mensagem do Evangelho por todo o mundo.

O livro de Levítico continua tão atual, hoje, como no dia em que Moisés, inspirado pelo Espírito Santo, o escreveu. Que Deus nos ajude e, por intermédio do Espírito Santo, santifique-nos a cada dia.

Fonte:
Livro de Apoio – Adoração, Santidade e Serviço - Os princípios de Deus para a sua Igreja em Levítico - Claudionor de Andrade
Lições Bíblicas 3º Trim.2018 - Adoração, Santidade e Serviço - Os princípios de Deus para a sua Igreja em Levítico - Comentarista: Claudionor de Andrade

Aqui eu Aprendi!

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A herança das filhas de Zelofeade

"As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; e a herança de seu pai farás passar a elas." Números 27:7


Zelofeade era um pai da tribo de Manasses, a menor tribo de Israel, numericamente falando. No livro de Números capitulo 27 ele é citado por suas cinco filhas: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Estas procuraram Moisés para reivindicarem o direito a herança: Zelofeate havia morrido no deserto de Moabe e segundo a lei daquela época, filhas mulheres não tinham direito a herança.

“Nosso pai morreu no deserto, e não estava entre os que se congregaram contra o Senhor no grupo de Coré; mas morreu no seu próprio pecado, e não teve filhos. Por que se tiraria o nome de nosso pai do meio da sua família, porquanto não teve filhos? Dá-nos possessão entre os irmãos de nosso pai. ” Números 27: 3,4.

Primeiramente e antes de tudo digo que este artigo não tem objetivos feministas de aludir à causa de igualdades de direitos mediante gêneros masculino e feminino. Também não tem por objetivo combater o sistema patriarcal do Oriente na antiguidade. O que se pretende enfatizar aqui é a providência Divina atuando frente as desigualdades sociais que existem desde sempre em qualquer tempo e lugar. As filhas de Zelofeate são representantes de uma transformação social ímpar, consequência de uma cooperação familiar necessária. São um exemplo de fé porque ousaram se apresentar diante de um tribunal constituído por Deus a fim de serem auxiliadas.


As cinco filhas de Zelofeade estavam em luto,angustiadas, mediante a perda do pai e a incerteza do futuro. Elas eram descendentes de José do Egito, sobre elas repousava a promessa de Deus de herdar a terra prometida de Canaã. Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza eram conhecedoras da fé dos antepassados e da relação tão próxima de Deus com seus pais.

Genealogia das filhas de Zelofeade:

-José
-Manassés
-Maquir
-Galaad
-Héfer
-Zelofeade
-Filhas de Zelofeade.

Estas cinco mulheres se organizaram e compareceram diante dos sacerdotes em frente a tenda da congregação:


“E chegaram as filhas de Zelofeade, filho de Hefer, filho de Gileade, filho de Maquir, filho de Manassés, entre as famílias de Manassés, filho de José; e estes são os nomes delas; Maalá, Noa, Hogla, Milca, e Tirza; E apresentaram-se diante de Moisés, e diante de Eleazar, o sacerdote, e diante dos príncipes e de toda a congregação, à porta da tenda da congregação.” Números 27:1,2

Na porta da tenda elas ficaram de pé diante de Moisés e dos sacerdotes. Posição de oração, de espera, de reverência. É incrível a atitude delas, pois não recorreram a tribunais meramente humanos, não se acomodaram e nem temeram. A lei, instituída, tradicional, as excluía. Nunca antes na história daquela nação haviam feito uma reivindicação tão “descabida”. 

O que também é louvável no episódio das filhas de Zelofeade é o comportamento de Moisés e dos sacerdotes daquela congregação. Havia a possibilidade de eles expulsarem-nas, renegarem-nas  por infração a lei. Mas não, eles ouviram a causa atentamente e intercederam por elas:


“E Moisés levou a causa delas perante o Senhor. E falou o Senhor a Moisés, dizendo: As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; e a herança de seu pai farás passar a elas. ”Números 27:5-7

Deus respondeu a oração das filhas de Zelofeade concedendo-lhes herança entre os filhos de Israel.

Aqui esta uma maravilhosa lição ministerial de líderes intercedendo por pessoas aflitas, necessitadas. Aqui a graça e o amor de Deus atuando sobre as desigualdades sociais, quebrando paradigmas, superando a previsibilidade humana. Deus é o Governo sobre todos os governos terrenos.

As filhas de Zelofeade tinham uma causa “impossível” e foi buscando a justiça de Deus que conseguiram alcançar aquilo que só poderia ser alcançado mediante a fé. Entreguemos nossas causas a Deus, prostremo-nos diante de Seu tribunal a fim de sermos auxiliados.

A união familiar garantiu a herança. Elas tinham um objetivo comum, tinham tanto respeito e amor pelo pai que lutaram por preservar sua semente e memória. As filhas de Zelofeade são referenciais familiares para dias de crise. Elas não foram abatidas pela difícil situação, pelo contrário: se uniram a fim de se fortalecerem.  A oração e os laços de amor para com Deus e o próximo também podem nos garantir herança no Reino de Deus, na Canaã celestial.

Que assim seja,


Deus o abençoe.

***

Texto da excelente escritora Wilma Rejane
via A TENDA NA ROCHA

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Plenitude, Tradução João Ferreira de Almeida, São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1995. Baseado no livro de Números, capitulo 27, Antigo Testamento.

Aqui eu aprendi!

sábado, 20 de janeiro de 2018

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou” Hb 3.3

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

Explicando o capítulo 3

O capítulo 3 de Hebreus está na seção que aborda a supremacia do Filho de Deus: 1.4—4.13. Essa parte da carta demarca a supremacia de Jesus em relação a Moisés, o legislador de Israel. Diferentemente de Moisés, que serviu a uma casa, que “não era o tabernáculo, mas os da casa de Deus, ou o povo de Deus como a comunidade da fé” (Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, p.1557), Jesus Cristo é o construtor dessa casa de Deus, enquanto o legislador de Israel fazia parte dela.

Podemos retomar essa abordagem no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, e no versículo 18: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Atenção para o verbo “edificarei” e o pronome possessivo “minha”. É Cristo quem construiu, edificou e ergueu o povo de Deus, por isso, esse povo pertence a Ele; diferentemente de Moisés, que embora fosse uma figura proeminente entre os judeus, um líder exemplar, ele não edificou o povo de Deus, mas se achou parte dele.

Portanto, o escritor de Hebreus faz um apelo aos leitores de sua carta, que diferentemente dos judeus do deserto que não atentaram para as palavras de Moisés, os seguidores de Cristo atentem para o mandamento do Filho, o edificador do povo de Deus, e não se deixem endurecer pelo engano do pecado. Revista Ensinador Cristão nº73

Leitura Bíblica - Hebreus 3.1-19

Cristo em tudo foi superior a Moisés na Casa de Deus, pois enquanto o legislador hebreu foi um mordomo, o Salvador foi o dono.



Comentário de Hebreus 3.1-19

Neste capítulo, o autor de Hebreus faz um contraste entre Jesus e Moisés. O objetivo é chamar a atenção dos leitores para a importância e a urgência da mensagem cristã. Moisés era lembrado e reverenciado não apenas por ter sido um grande legislador hebreu, mas também como um servo que se sacrificou em prol do seu povo. Ele foi um bom mordomo na casa de Deus. No Antigo Testamento, o povo de Israel era considerado a família de Deus e foi por essa famí­lia que Moisés sacrificou-se. Mas o que representava os esforços de Moisés, que era um simples servo na casa de Deus, diante de Jesus, o bendito Filho de Deus, que voluntariamente deu sua própria vida em resgate do mundo?

Como aconteceu na trajetória do êxodo, os cristãos hebreus estavam repetindo os mesmos erros cometidos pelos seus antepassados. Cari B. Gibbs destaca que

"muitos dos leitores da Epístola aos Hebreus estavam em perigo de rejeitar a Cristo e voltar ao judaísmo. Sabendo disso, o autor que conhecia a história de Moisés muito bem fez uma comparação entre a decisão tomada no tempo de Moisés e uma decisão atual. Quis ele despertar a atenção dos seus leitores para o fato de que assim como os filhos de Israel se revelaram contra Moisés, decidindo por voltar para o Egito, a mesma coisa estaria acontecendo com os cristãos hebreus que estavam na iminência de abandonar a Cristo e voltar ao seu antigo modo de vida (Hb 2.15). Assim como os israelitas tiveram que peregrinar durante penosos quarenta anos, como paga da sua desobediência, os hebreus cristãos estavam correndo o perigo de serem cortados da videira verdadeira (Jesus Cristo) e serem lançados no fogo da perdição eterna”.1

"Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (v. 1). Tendo chegado à conclusão de seus argumentos no final do capitulo 2 de sua epístola, o autor dirige-se a seus leitores chamando-os de "irmãos santos". Os lexicógrafos Liddel e Scott destacam que, no grego clássico, esse vocábulo (santos, gr. hágios) possuía o sentido de algo devotado à divindade e era traduzido como sagrado, santo. Era usado tanto em relação a coisas quanto a pessoas. Quando usado em referência a pessoas, possuía o sentido de santo, puro.2  No contexto do Novo Testamento, a palavra "santos” tem o sentido de algo ou alguém que foi separado para servir exclusivamente a Deus. Não pode ser usado ou estar a serviço de outra coisa. Essa santificação possui dois aspectos. Ela pode ser posicionai, aquilo que, no Novo Testamento, é descrito como "estar em Cristo” (2 Co 5.17), e também progressiva, identificando aqueles que receberam Cristo como Salvador e, a partir daí, passam a andar nEle (Cl 2.6). Na carta aos Hebreus, aparecem ambos os sentidos.

Os crentes são exortados e lembrados que são participantes da vocação celestial. A palavra vocação traduz o termo grego klesis, que ocorre 11 vezes no Novo Testamento grego. Uma dessas ocorrências aparece na primeira carta de Pedro 1.10 com o sentido de chamada, vocação, e é usado em conjunto com ekloge, termo traduzido como eleição. "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação [klesis] e eleição [ekloge]', porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis". Fomos chamados a participar da eleição em Cristo Jesus. Fomos eleitos em Cristo e, enquanto permanecermos nEle, estaremos seguros. Somos exortados a ser fiéis a esse chamado, tendo sempre em mente que a necessidade de vigilância deve estar sempre presente para evitar o decair da fé.

O autor destaca que Jesus Cristo é o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão. O apóstolo era alguém enviado em uma missão, enquanto o sacerdote atuava como um representante dos homens diante de Deus. Jesus exerceu essas funções mais do que qualquer outra pessoa do antigo pacto. Na sua missão salvífica, Ele foi constituído por Deus como o grande Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa salvação. A palavra “confissão” (gr. homologia) significa, também, concordância. Aqui, é usado no sentido da profissão de fé, isto é, a fé cristã abraçada pelos crentes hebreus.3  John Wesley (170 3-1791) traduziu a palavra apóstolo aqui como “o mensageiro de Deus, que pleiteia a causa de Deus conosco”, e o sumo sacerdote como aquele que "defende nossa causa com Deus”. Wesley lembra que ambos estão contidos na palavra “mediador" e que o autor "compara Cristo, o Apóstolo, com Moisés; e o Sacerdote, com Arão. Ambos os ofícios que Moisés e Arão exerciam, e Cristo carregou-os juntos e de forma muito mais eficaz".4

“Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” (v. 2). O versículo 2 é uma referência a Números 12.7. Nesse contexto, o termo "casa" também significa família e é aplicada em relação ao povo de Deus na antiga aliança. O autor lembra que Moisés foi um mordomo fiel na casa de Deus durante a peregrinação no deserto e usa essa metáfora como uma analogia da missão de Jesus, o Filho de Deus. Jesus, assim como Moisés, também foi fiel sobre a casa de Deus — a Igreja — , mas as semelhanças entre Jesus e Moisés param por aí porque Jesus em tudo é superior ao grande legislador hebreu.

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou" (v. 3). Adam Clarke destaca que

"não há dúvida de que um homem que constrói uma casa para sua comodidade é mais honrável que a casa mesma; mas a casa aqui se refere à Igreja de Deus. Essa igreja, aqui denominada casa, ou "família", está edificada por Cristo; portanto, Ele deve ser maior que Moisés, que era somente um membro e oficial dessa igreja”.5

"Porque toda casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” (v. 4). Tomando o termo “casa" com o sinônimo de "família", o autor mostra que o homem, na sua função gregária, constrói famílias, comunidades, etc., mas, na verdade, Deus que é o cabeça de toda a raça.

“E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” (v. 5). O autor novamente volta à figura de Moisés. O argumento do autor é simples e objetivo: Moisés foi um servo dedicado na casa de Deus. Ele procurou seguir com diligência e fazer com que o povo seguisse as diretrizes da Lei de Deus. Todavia, Moisés era um coadjuvante onde Jesus seria o ator principal. Moisés era uma sombra, Jesus é a realidade. O versículo 6 mostra a Igreja como a casa de Deus hoje.

"Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim ” (v. 6). Esse versículo é paralelo a 1Tm 3.15: “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. A Igreja de Deus não é um prédio nem qualquer estrutura arquitetônica, mas, sim, o povo comprado com o sangue de Jesus Cristo. Quem faz parte da Igreja precisa demonstrar confiança a fim de poder ter esperança até o fim. O autor tem seu foco no futuro e, ao usar os termos parresia (confiança) e elpis (esperança), ele quer chamar a atenção para esse fato. Ele vê a vida cristã dentro de um contexto escatológico, não imediatista. Donald A. Hegner comenta que

“a palavra confiança (parresia) ocorre quatro vezes em Hebreus, duas vezes em referência ao culto (4.16; 10.19) e outras duas vezes quanto ao modo de enfrentar as dificuldades na vida (aqui e em 10.35). A palavra esperança (elpis) expressa a expectativa futura do autor em contraste com a ‘escatologia realizada’ em Cristo. Aqui, assim como em outras passagens do Novo Testamento, a palavra tem conotações de ‘expectativa confiante’”.6

"Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz” (v. 7). O versículo 7 introduz uma citação do Salmo 95.7. O autor toma essas palavras do salmista não apenas como uma advertência para os dias passados, mas também para os seus dias. Isso só era possível graças à inspiração do Espírito Santo sobre as letras sagradas. O autor não queria que aquilo que aconteceu com a geração do êxodo fosse repetido com seus leitores.

“Não endureçais o vosso coração, como na provocação, no dia da tentação no deserto” (v. 8). Charles F. Pfeiffer destaca que “ainda que Moisés tenha sido fiel a Deus, a geração da qual ele formava parte pereceu no deserto. Esse fato serviu como advertência à geração que escutou o evangelho de Cristo e esteve em perigo de rejeitá-lo”.7  O autor de Hebreus mostra claramente nesse texto que é a própria pessoa que endurece (gr. sklerynÔ) o seu coração. Essa mesma palavra ocorre em Romanos 9.18, dizendo que Deus “endurece a quem quer". Esse texto de Romanos 9.18, juntamente com o da carta aos Hebreus, forma um paralelo com os textos de Atos 19.9 e 7.51, onde os judeus “endureceram” seus corações para não aceitar a Palavra de Deus. Em ambos os textos, a palavra "endurecer" procede da mesma raiz grega skleros (endurecer), que, por sua vez, dá origem à palavra portuguesa esclerose. O contexto deixa claro que Deus só endurece quem já está endurecido. Noutras palavras, quem resiste à sua Palavra será endurecido por ela.

"Onde vossos pais me tentaram, me provaram e viram, por quarenta anos, as minhas obras” (v. 9). O versículo 9 explica as razões desse endurecimento. O autor tem em mente a rota do êxodo, que cobriu um período de 40 anos. Nessa trajetória, os israelitas presenciaram milagres, sinais e maravilhas, mas não se sentiram convencidos por eles. A tradução do expositor Philip Edgcum be Hughes (1915-1990) expressa melhor o sentido do texto: “fui provocado durante quarenta anos”.8  Essa provocação produziu endurecimento, e a desobediência contumaz provocou a ira de Deus.

"Por isso, me indignei contra esta geração e disse: Estes sempre erram em seu coração e não conheceram os meus caminhos” (v. 10). Como foi mostrado, essa desobediência repetitiva provocou a ira divina. A consequência dessa desobediência e rebeldia foi a privação de entrarem na Terra Prometida.

“Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso” (v. 11). O autor faz um paralelo entre a desobediência dos antigos hebreus com aqueles seus dias. Adam Clarke destacou com muita propriedade:

“Os desobedientes israelitas sirvam de advertência; foram resgatados do cativeiro e tiveram a mais completa promessa de uma terra de prosperidade e descanso. Por causa da desobediência, não a obtiveram e caíram no deserto. Vocês foram resgatados da escravidão do pecado e tem a mais benévola esperança de herança entre os santos na luz. Pela incredulidade e desobediência, eles perderam o seu descanso; pelas mesmas coisas vocês também podem perdê-lo”.9

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo" (v. 12). A advertência é intensificada pela exortação do autor. Mais uma vez, ele lembra que a falta de vigilância somada com a negligência e desobediência pode conduzir ao fracasso espiritual. Ele adverte-os do perigo de apostatar e cair da fé.10  Grant R. Osborne destaca que, no versículo 12, o autor começa com o verbo grego blepete (“tome cuidado, cuide-se”), que, no Novo Testamento, é usado para dar o grito de alerta sobre a vigilância e obediência espiritual. Uma chamada à obediência aos mandamentos de Deus. Nesse contexto negativo, também significa “cuidado" com o mesmo coração “mal” e incrédulo que Israel mostrou no deserto. Ele observa que incredulidade e endurecimento são sinônimos aqui.

"No versículo 12, é um genitivo descritivo que significa um ‘coração incrédulo’ que se torna “mal" (poneria) ou cheio de iniquidade (v. 12,19), que é interpretado como 'seus corações estão sempre errados’ no versículo 10b. Essa incredulidade também os leva a se afastarem do Deus vivo’ (en to aposténai apo Theou zontos), estendendo a imagem até eles não conheceram os meus caminhos' no versículo 10b. Esse é o cerne da questão, preparando-se para o pleno uso dessa imagem da apostasia em Hb 6.6 (onde será discutido mais detalhadamente)”.11

Osborne ainda observa que esse é um caminhar da incredulidade, do mal, da queda, e que isso é, obviamente, um aviso sério, com consequências terríveis.12

O termo grego aposténai (apartar), usado aqui em Hebreus 3.12, é o infinitivo aoristo do verbo aphistemi, que ocorre 14 vezes no Novo Testamento grego, significando: cair, deixar, afastar.13  É desse verbo que se origina a palavra apostasia. A apostasia é definida como "a rejeição deliberada de Cristo e de seus ensinamentos por parte de um cristão (Hb 10.26-29; Jo 15.22)”.14

A Bíblia de Estudo Harper Collins destaca que

“a admoestação para ser cuidadoso (ver também 12.25) é comum no NT. Para o perigo de desviar-se, ou apostatar, veja Nm 14.9, que trata da geração do deserto, e Mt 24.10-12. Um jogo de palavras gregas ligando o desviar-se (apostenai) e o coração incrédulo (apistias)".15

Como ficará demonstrado posteriormente, há uma relação da queda da fé aqui retratada com aquela sobre a qual o autor voltará a tratar no capítulo 6.4-6.

Adam Clarke observa oportunamente que a nossa participação na glória depende de nossa firmeza na fé até o final de nossa carreira cristã.16  Jesus alertou que as coisas más procedem de dentro do coração do homem: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15.19). É por isso que os cristãos necessitam de vigilância e também de estimular uns aos outros.

“Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (v. 13). Aqui, o sentido do texto é o de que os cristãos não permitam que seus corações sejam seduzidos pelo pecado. O autor usa o termo grego parakaleo, isto é, chamar à parte para consolar, para se referir à necessidade do encorajamento contínuo. William Barclay (1907-1978) observa que esse mesmo termo era usado por um militar para estimular as suas tropas.17  Joseph Benson observa que alguns passos devem ser tomados para se pôr em prática as palavras do autor de hebreus:

(1) Uma profunda preocupação com a salvação de cada um e o crescimento na graça;

(2) Sabedoria e entendimento sobre as coisas divinas;

(3) Cuidado para que somente palavras de verdade e sobriedade sejam ditas, pois somente essas palavras serão recebidas como tendo autoridade e alcançarão os fins desejados;

(4) Evitar aquelas expressões rudes e severas que expressam indelicadeza; em vez disso, usar palavras com brandura, compaixão, ternura e amor, pelo menos para aqueles que estão dispostos a reconhecer a vontade de Deus;

(5) Evitar falar com leviandade e sempre falar com seriedade;

(6) Prestar atenção ao tempo, lugar, pessoas e ocasiões;

(7) Ser exemplo para as pessoas exortadas;

(8) Devemos ser incansáveis nesse dever e exortar um ao outro diariamente. Não somente em reuniões feitas para isso, mas também em todo e qualquer lugar sempre que estivermos em companhia um do outro.18

Essas exortações tomam-se relevantes porque, para o autor, o cristão tornou-se um participante de Cristo.

“Porque nos tomamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim ” (v. 14). O termo grego gnomai, de onde deriva gegonamen, usado aqui pelo autor, ocorre 661 vezes no Novo Testamento grego. Aqui nesse texto, ele encontra-se no tempo perfeito, e o seu sentido é que os cristãos tornaram-se participantes de Cristo no passado (quando o receberam como Salvador) e continuavam no presente tempo como participantes dEle. Isso, no entanto, só teria valor se eles continuassem firmados em Cristo até o fim.19  O autor repete a exortação anteriormente lembrada por ele no versículo 8.

"Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como na provocação" (v. 15). Samuel Pérez Millos observa que

"com toda probabilidade, como se disse antes, na mente do salmista (SI 95.7) estava o sucesso ocorrido em Cades-Barneia, onde o povo não creu que Deus havia-o enviado para ocupar Canaã, duvidando de seu poder para dar-lhes vitória sobre os povos que ocupavam a terra (Nm 14.1ss). Deus estabeleceu uma ação judicial sobre o povo rebelde, de modo que nenhum dos homens maiores de 20 anos entrariam na terra por haverem murmurado contra Deus (Nm 14.27,29). A advertência é solene, já que Deus pode aplicar aos crentes rebeldes uma disciplina similar a que aplicou aos israelitas que não quiseram obedecer a sua voz".20

"Porque, havendo-a alguns ouvido, o provocaram; mas não todos os que saíram do Egito por meio de Moisés" (v. 16). O versículo 16 distingue os desobedientes dos obedientes. O livro de Números narra que, quando chegou ao Sinai, Moisés precisou fazer a contagem dos israelitas de 20 anos de idade para cima (Nm 1.1 -3). Os dados, não incluindo os levitas, chegaram a 603.550 homens (Nm 1.46). O versículo 17 mostra que esses homens, excetuando Calebe e Josué, estavam incluídos na maldição de Deus, que os privava de entrar na Terra Prometida (Nm 14.29,30).

“Mas com quem se indignou por quarenta anos? Não foi, porventura, com os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?" (v. 17). Essa geração peregrinou pelo deserto até ser consumida (Nm 14.33,34).

“E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram desobedientes?" (v. 18). Quando essa geração chegou à fronteira da Terra Prometida, Moisés novamente fez a recontagem do povo (Nm 26.1,2,63). Fritz Laubach observa que ali foi colocado o ponto final nessa triste história do povo de Deus, concluída pelas palavras do cronista sagrado: "E entre estes nenhum houve dos que foram contados por Moisés e Arão, o sacerdote, quando contaram aos filhos de Israel no deserto do Sinai. Porque o Senhor dissera deles que certamente morreriam no deserto; e nenhum deles ficou, senão Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num" (Nm 26.64,65).21

"E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (v. 19). A advertência encerra-se neste capítulo com as palavras desse versículo. O autor mostra o perigo da desobediência e rebelião contra Deus. Se não puderam entrar na Terra Prometida, no descanso que Deus preparou, a culpa não era do Senhor. Os cristãos hebreus deveriam tomar isso definitivamente como exemplo — o pecado pode, sim, impedir o cristão de entrar no repouso de Deus. Adam Clarke destaca que não foi um decreto de Deus que os impediu; não foi porque lhes faltavam as forças para fazê-lo; não foi porque lhes faltou o conselho divino instruindo-os como deveriam fazer. Tudo isso eles tinham em abundância; pelo que escolheram pecar e não crer. A incredulidade produz desobediência, e essa, por sua vez, dureza de coração e cegueira mental; tudo isso lhes atraiu o juízo de Deus, e a ira caiu sobre todos eles até o último.


A possibilidade de não chegar ao fim da caminhada
“O livro de Hebreus considera a possibilidade de permanecer firme na fé ou de abandoná-la como uma escolha real, que deve ser feita por cada um dos leitores; o autor ilustra as consequências da segunda opção referindo-se à destruição dos hebreus rebeldes no deserto após sua gloriosa libertação do Egito”. Leia mais em Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, pp.1557-59.

Subsídio Bibliológico
SE OUVIRDES HOJE A SUA VOZ
Citando Salmos 95.7-11, o escritor se refere à desobediência de Israel no deserto, depois do êxodo do Egito, como advertência aos crentes sob o novo concerto. Porque os israelitas deixaram de resistir ao pecado e de permanecer leais a Deus, foram impedidos de entrar na Terra Prometida (ver Nm 14.29-43; Sl 95.7-10). Semelhantemente, os crentes do Novo Testamento devem reconhecer que eles, também, podem ficar fora do repouso divino, se forem desobedientes e deixarem que seus corações se endureçam.
NÃO ENDUREÇAIS O VOSSO CORAÇÃO
O Espírito Santo fala conosco a respeito do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11; Rm 8.11-14; Gl 5.16-25). Se formos indiferentes à sua voz, nossos corações se tornarão cada vez mais duros e rebeldes a ponto de se tornarem insensíveis à Palavra de Deus ou aos apelos do Espírito Santo (v.7). A verdade e o viver em retidão já não serão prioridades nossas. Cada vez mais, buscaremos prazer nos caminhos do mundo e não nos caminhos de Deus (v.10). O Espírito Santo nos adverte que Deus não continuará a insistir conosco indefinidamente se endurecermos os nossos corações por rebeldia (vv.7-11; Gn 6.3). Existe um ponto do qual não há retorno (vv.10,11; 6.6; 10.26)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. RJ: CPAD, 1995, p.1902).


Ao mostrar a superioridade de Jesus sobre Moisés, o autor da Carta aos Hebreus não tencionava exaltar o primeiro e desprezar o segundo, mas pôr em relevo a obra do Calvário, bem como esclarecer como os crentes devem valorizá-la. Ora, se Moisés que não era divino, que não se deu sacrificalmente em lugar de ninguém, merecia ser ouvido, então por que Jesus, o Filho do Deus bendito, Senhor da Igreja e superior aos anjos, não merecia reconhecimento ainda maior?


Notas
1 GIBBS, Cari B. O Livro de Hebreus - a supremacia de Cristo. Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), Campinas, SP.
2 LIDDELL, H.G & SCOTT, R. Greek - English Lexicon - with a Revised Supplment. Claredon Press, Oxford. Inglaterra, Reino Unido 1996.
3 Esse termo está muito em voga hoje nos círculos da Teologia da Prosperidade. Dentro desse modismo evangélico, significa “confessar”, “afirmar" e "determinar” algo com o sentido de tomar posse dele. Nesse sentido, ganhou apenas uma conotação consumista e mercantilista. Trata-se de uma distorção do sentido original, que era o de uma afirmação daquilo que estava em consonância com a Palavra de Deus, e não com caprichos pessoais.
4 WESLEY, John. Hebrews - Explanatory notes and Commentary. Bristol-HotWells, Januaiy, Inglaterra, 1754.
5 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de La Santa Bíbia, tomo III, Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, EUA.
6 HEGNER, Donald A. Hebreus- Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Editora Vida, São Paulo.
7 PFEIFFER, Charles F. Hebreos - Comentário Biblico Portavoz. Editorial PortaVoz, Grand Rapids, Michigan, EUA.
8 HUGHES, Philip Edgcumb. A Commentary on the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, Eerdmans, EUA, 1977.
9 CLARKE, Adam. Hebreos: Comentário de La Santa Bíblia - Nuevo Testamento, Tomo III. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, Kansas, EUA.
10 A obra The New Strong’s Exhaustive Concordance of The Bible observa que a palavra apostasia, em suas diferentes formas, tem como radical comum o verbo grego aphistemi e ocorre nos textos de At 21.21; 2 Ts 2.3; Hb 3.12 e 1 Tm 4.1. Assim sendo, Strong traduz aphistemi "propriamente, partida (implicando deserção); Apostasia - uma saída, de uma posição anterior”. Por outro lado, o termo grego parapsontas, derivado deparapipto (cair, desviar), que ocorre em Hb 6.6, é tido pelos eruditos como sendo sinônimo de apostasia (veja um estudo completo sobre esses termos no Apêndice, posto no final deste livro).
11 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
12 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
13 CLAPP, Philip S & FRIBERG, Barbara. Analytical Concordance o f the Greek New Testament, volume I, Lexical Focus. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, U.S.A.
14 YOUNGBLOOD, Ronald F; BRUCE. F. F. & HARRISON, R. K. Dicionário Ilustrado da Bíblia. Editora Vida Nova, São Paulo.
15 The Harper Collins Study Bible. Harper Collins Publishers. Londres, Reino Unido.
16 Idem. pp. 589.
17 BARCLAY, William. Hebreos - Comentário al Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.
18 BENSON, Joseph. Hebrews: The New Testament-A Critical, Explanatory and Praticai Notes. Lane & Tippett, Nova York, EUA, 1847.
19 Aqui, mais uma vez, como ocorre por toda essa carta, observa-se um chamado à vigilância frente aos perigos espirituais.
20 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - Comentário Exegético al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
21 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus - comentário esperança. Editora Esperança. 22 CLARKE, Adam. Op.cit. p. 590

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
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