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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Reforma Protestante - Protestantismo

Surgido a partir do rompimento de alguns dogmas da Igreja Católica, o protestantismo é atualmente um dos maiores ramos do cristianismo, com milhões de seguidores no mundo.

O protestantismo é, ao lado do catolicismo, um dos grandes ramos do cristianismo. O nome “protestante” provém dos protestos dos cristãos do século XVI contra as práticas da Igreja Católica. Em alguns países, especialmente no Brasil, o termo “protestante” foi substituído por “evangélico”, retirando a conotação polêmica da palavra e dando uma característica mais positiva e universal.

História e crescimento do protestantismo

O movimento protestante surgiu na tentativa de reformar a Igreja Católica, iniciada pelo monge agostiniano Martinho Lutero, no século XVI. Os motivos para esse rompimento incluíram principalmente as práticas ilegítimas da Igreja, além da divergência em relação a outros princípios católicos, como a adoração de imagens, o celibato, as missas em latim, a autoridade do papa, entre outros.

Para os protestantes, a salvação é conseguida por meio da graça e bondade de Deus e, para isso, cada pessoa pode se relacionar diretamente com seu criador, sem a necessidade de um intermediário, diferentemente da fé católica, a qual diz que o único método para obter a salvação é a partir dos sacramentos e rituais de purificação da alma realizados por intermediação de pessoas santificadas (padres, bispos, etc.).

Os protestantes defendem a crença de que a única autoridade a ser seguida é a "Palavra de Deus", presente na Bíblia Sagrada. De acordo com esse ponto de vista, pela ação do Espírito Santo, os cristãos, ao lerem a Bíblia, teriam uma maior harmonia com Deus. Por esse motivo, a partir da Reforma Protestante, a Bíblia foi traduzida para diversas línguas e distribuída sem restrições para as pessoas.

O protestantismo pode ser subdividido em ramos, como luteranismo, calvinismo, anglicanismo, etc. Atualmente, costuma-se classificar as igrejas protestantes em pentecostais e neopentecostais.

No Brasil, essa vertente cristã foi trazida pelos holandeses, entre os anos de 1624 e 1625, e foi propagada principalmente entre os índios. Pesquisas recentes mostram o crescimento desse ramo do cristianismo entre os brasileiros: em 1970, o censo do IBGE registrava cerca de 4,8 milhões de evangélicos, e, em 1980, esse número passou a 7,9 milhões. O número registrado de seguidores em 1991 foi de 13,7 milhões e, em 2000, foi 26,1 milhões. Segundo o IBGE, se esse crescimento se mantiver estável ao longo dos anos, no ano de 2020, metade da população brasileira será evangélica.

Sabe-se que existe atualmente cerca de 593 milhões de protestantes no mundo. O país mais protestante do mundo é os Estados Unidos da América, com quase 163 milhões de seguidores.

Fonte: BrasilEscola

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sábado, 6 de outubro de 2018

O que é o Movimento Pentecostal

“E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas” Mc 16.17


“Pentecostal
Palavra usada a partir de 1907, na Grã-Bretanha, pelas igrejas históricas tradicionais (anglicanas, episcopais, metodistas, evangélicas), para se referir aos crentes que criam e recebiam o batismo no Espírito Santo, por causa da analogia entre esse movimento e o dia de Pentecostes (At 2.1-13), isto é, por causa da efusão do Espírito e das manifestações de poder, que eram observadas por toda a parte nas ilhas britânicas.
Por sua vez, ‘pentecostal’ é o crente que crê (adepto) nas possibilidades de receber a mesma experiência do Espírito Santo que os apóstolos receberam, no dia de Pentecostes.
A diversidade mundial do pentecostalismo torna quase impossível falar de ‘uma’ teologia pentecostal. Nem ainda se conseguiu amadurecer uma teologia da fé cristã sob a perspectiva do pentecostalismo clássico. Todavia, existem certas correntes teológicas entre os pentecostais que são dignas de serem exploradas. O que segue, é uma tentativa de explorar uma quantidade das principais linhas de pensamento relacionadas na tarefa contínua de se fazer reflexão teológica entre os pentecostais brasileiros clássicos e neopentecostais” (ARAÚJO, Isael. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1ª Edição. RJ, CPAD, 2007, pp.553-557).

O Movimento Pentecostal, iniciado no Livro de Atos e que continua em nossos dias, é a materialização da promessa de revestimento de poder da parte do Senhor Jesus Cristo para a sua Igreja.

Texto Bíblico - Joel 2.28-32

INTRODUÇÃO

Há pouco mais de um século, cristãos em vários lugares do mundo passaram a experimentar em seus cultos um avivamento sem precedentes. Viu-se entre eles sinais como os descritos em Atos dos Apóstolos, como falar em outras línguas, curas, libertação de pessoas oprimidas pelo Diabo, profecias, e uma forte e profunda convicção da presença de Deus, confissão de pecados e salvação. Esse avivamento foi chamado de Movimento Pentecostal. Tais manifestações da presença de Deus ocorreram antes na história, mas desta vez foi diferente, pois a mensagem pentecostal se espalhou pelo mundo e trouxe profundas modificações na forma de pensar da teologia cristã, como também na própria prática cristã. Neste trimestre, estudaremos o que é o pentecostalismo, sua doutrina e a sua importância para o cristianismo do século XXI.


I. UM PANORAMA BÍBLICO DO PENTECOSTES

1.O Pentecostes em Israel.

Para que possamos iniciar o estudo do pentecostalismo, é necessário que comecemos com as bases bíblicas que servem de referência ao Movimento Pentecostal. Pentecostes é o nome grego dado a uma festa judaica: a Festa das Colheitas. Os hebreus foram orientados, por Deus, a comemorar:

1) a festa da Páscoa, que celebrava a libertação do povo hebreu da escravidão egípcia, quando o Senhor passou por sobre o Egito e julgou aquela nação com a praga da morte dos primogênitos dos egípcios;

2) a festa das Colheitas, comemorada cinquenta dias após a Páscoa, e que celebrava a colheita do trigo e da cevada; e

3) a festa dos Tabernáculos, que recordava aos hebreus o período em que habitavam em tendas. Essas festas eram ordenadas pelo Senhor, como ajuntamentos públicos, que sempre, deveriam levar o povo a se lembrar de Deus e comemorar a sua intervenção na história.

Havia outras datas que os judeus observavam, como por exemplo, a festa das Trombetas, que marcava o ano novo civil, onde o povo fazia uma reflexão a respeito da sua relação com Deus; o Dia da Expiação; o Purim, para comemorar o livramento que Deus concedeu aos judeus por intermédio da rainha Ester.

2. Motivo de alegria.

A Festa das Colheitas ou Pentecostes deveria ser, conforme preconiza a lei, motivo de grande júbilo para os hebreus. O Senhor diz: “E te alegrarás perante o SENHOR, teu Deus [...]” (Dt 16.11). Essa orientação divina incluía os filhos, os servos, os levitas, estrangeiros, órfãos e viúvas que estivessem ali. A celebração ordenada por Deus deveria ser um motivo de confraternização que incluía até os que não pertenciam à família dos israelitas, e deveria ser um momento alegre. Pentecostes não era um momento de tristeza, ou de arrependimento, mas de satisfação, pois estavam em um período de sega do trigo e da cevada que Deus lhes dera. Essa festa durava um dia, pois o povo estava em plena atividade de colheita da safra de grãos. Da mesma forma. Pentecostes traz alegria em nossos dias por ser a realização do uma das promessas mais importantes de Deus para com aqueles quer creem nEle.

3. O Dia de Pentecostes em Atos dos Apóstolos.

No Novo Testamento, Deus se utiliza dessa comemoração nacional judaica para fazer com que os seguidores de Jesus fossem cheios do Espírito Santo. Antes de sua ascensão aos céus, Jesus ordenou aos seus discípulos que permanecessem em Jerusalém, até que recebessem, da parte de Deus, um revestimento de poder, de autoridade para proclamar o nome do Senhor (Lc 24.49). Os discípulos estavam em oração, como se entende, em um cenáculo. Um cômodo em um pavimento superior de uma construção. Aqueles discípulos já conheciam a Jesus, e tinham recebido a salvação dada por Deus, mas estavam esperando o cumprimento da promessa do Pai: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5). O próprio Senhor Jesus falou do batismo com o Espírito Santo aos seus seguidores como uma promessa do Pai. E esse evento teve tal importância que chamou a atenção de outras pessoas que estavam em Jerusalém, abrindo a oportunidade para Pedro falar de Jesus e do cumprimento da profecia de Joel naquele dia.

II. A PROMESSA FEITA NO ANTIGO TESTAMENTO

1. O contexto de Joel.

Joel foi um profeta que exerceu seu ministério no Reino de Judá. Seu nome significa “Jeová é Deus”, e sua atuação profética se deu antes da destruição do Templo. Sua profecia começa com a seguinte afirmação: “Palavra do Senhor que foi dirigida a Joel, filho de Petuel” (Jl 1.1). No livro de Joel, vemos que uma praga de gafanhotos destruiu a colheita de grãos de cevada e de trigo, e depois de tal tragédia, há uma conclamação ao jejum e à oração (1.14; 2.15). Deus chama o povo para que se converta, de todo o coração, a Ele (2.12).

O profeta também fala de um tempo onde haverá fartura, pois o Senhor há de abençoar a terra. Finalmente, Deus usa o profeta para falar que haveria o grande Dia do Senhor, mas que antes o Todo-Poderoso derramaria do seu Espírito sobre toda a carne.

2. A promessa feita.

“E há de ser que, depois, derramarei o meu Espírito sobro toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões. E também sobre os servos e sobre as servas, naqueles dias, derramarei o meu Espírito” (Jl 2.28,29). Essa profecia mostra que no futuro, Deus visitaria a humanidade trazendo sobre ela um derramar do seu Espírito. Esse derramar do Espírito faria com que eventos como profecias, sonhos e visões, que no Antigo Testamento eram concedidos somente aos profetas, fossem dados de forma ampla a todos. Joel inclui pessoas que tinham poucos direitos e eram tidas por “inferiores” em algumas sociedades, como por exemplo, os servos. Eles também seriam contemplados pelo alcance dessa promessa divina.

3. O alcance dessa promessa.

As palavras proferidas por Joel foram relembradas pelo apóstolo Pedro, por ocasião do seu discurso no Dia de Pentecostes, logo após terem sido cheios do Espírito Santo e falado em outras línguas. Lembremo-nos de que a Bíblia dos primeiros cristãos era o Antigo Testamento ao qual recorriam a fim de verificar as profecias que estavam se cumprindo. Pedro de imediato não apenas reconheceu que a profecia de Joel se cumprira naquele dia, mas que esse cumprimento tinha inicialmente dois objetivos: o derramar do Espírito sobre todos e o cumprimento da promessa que Jesus fez antes de sua ascensão: “E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai, porém, na cidade de Jerusalém, até que o alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Pedro ainda deixou claro que apesar de Jesus ter sido crucificado, Ele foi feito Cristo, o Messias: “Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (At 2.36). O Senhor ressurreto, o Messias, havia mandado o seu Santo Espírito, como prometera.


III. PENTECOSTES, UMA PROMESSA CUMPRIDA EM NOSSOS DIAS

1. O Pentecostes antes do século XX.

É certo que ao longo da história, Deus jamais deixou de manifestar os dons espirituais em diversas comunidades e grupos cristãos. No século II da nossa era, Irineu de Lion disse que “temos em nossas igrejas irmãos que possuem dons proféticos e, pelo Espírito Santo, falam toda classe de idiomas”. Mas a manifestação do poder de Deus não se restringe ao falar em outras línguas. A história relata casos em que pessoas usadas por Deus foram portadoras de mensagens proféticas específicas, como John Welch, um escocês do século XVI, que após orar sobre o caso de dois mercadores de tecido que queriam passar pela cidade de Ayr, onde ele residia, Welch disse aos magistrados que havia uma praga nos rolos de tecido daqueles mercadores, e os homens foram impedidos de entrar. Aqueles homens seguiram para uma cidade vizinha, e lá uma praga se espalhou matando diversas pessoas. Como vemos, Deus jamais deixou de manifestar seus dons por meio de seus servos. Um estudo honesto sobre a história da Igreja mostra que o dom de línguas e outros dons ocorreram de forma espontânea em diversos países, e com pessoas de diferentes denominações.

2. No início do século XX.

As manifestações pentecostais ressurgiram, de forma sistemática, no fim do século XIX, e se multiplicaram no século XX. Na Suécia, em 1902, um pregador batista chamado Levzi Petrus recebeu o batismo com o Espírito Santo e falou em línguas, tornando-se um dos mais importantes nomes pentecostais de seu país. Nos Estados Unidos, em 1905, Wílliam Seymour recebeu a mensagem pentecostal de Charles Fox Parham e se tornou um dos líderes do pentecostalismo na Rua Azuza. E na China, em 1907, por intermédio da missionária Nettie Normam, que recebeu o batismo com o Espírito Santo na Rua Azuza, muitos chineses foram visitados por Deus. Da mesma forma que a Reforma Protestante foi um divisor de águas na história da Igreja, o pentecostalismo trouxe um grande avivamento ao cristianismo em várias partes do mundo.

3. O Pentecostes no Brasil.

É notório que o Pentecostes alcançou o Brasil no início do século XX. Deus trouxe, em 1910, dois missionários batistas suecos que haviam recebido o batismo com o Espírito Santo, Daniel Berg e Gunnar Vingren, para evangelizar no Brasil. Esses dois homens, com suas esposas, fundaram as Assembleias de Deus e sua mensagem era acompanhada de milagres, testemunhos de cura e transformação de vidas. A mensagem pentecostal foi se espalhando por nossa nação, e hoje os pentecostais representam, no Brasil, a maior ala do segmento cristão evangélico, pelos dados do IBGE.

Há, no Brasil, aproximadamente 12 milhões de cidadãos que se dizem pertencentes às Assembleias de Deus (IBGE 2010). Note-se que em nossos dias, as Assembleias de Deus não são a única denominação pentecostal, há muitas igrejas em solo pátrio que fizeram da mensagem pentecostal a sua vocação, seja por origem, seja por mudança de pensamento por ocorrência de avivamentos e manifestação espontânea dos dons espirituais. As igrejas pentecostais comprometidas com a pregação e o ensino da Palavra de Deus têm como foco de sua mensagem a necessidade da salvação, do arrependimento de pecados, da realidade da vida eterna, da cura divina, da vida em santidade e da prática do testemunho da pessoa de Jesus Cristo.

A promessa do derramamento e revestimento de poder mediante o batismo com o Espírito Santo é para todos os cristãos. Na atualidade, muitas são as igrejas que fizeram da mensagem pentecostal a sua vocação.

CONCLUSÃO

Deus declarou que seu Espírito seria derramado sobre toda a carne, e essa promessa foi cumprida após o retorno de Jesus aos céus, no Dia de Pentecostes, Em um mundo repleto de pensamentos que se voltam cada dia mais contra Deus, a mensagem pentecostal e o poder de Deus dão à Igreja a autoridade para testemunhar de Jesus, trazendo libertação aos oprimidos, cura aos enfermos e salvação aos perdidos.

Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 4º Trimestre de 2018 - Título: O vento sopra onde quer – O ensino bíblico do Espírito Santo e sua operação na vida da Igreja – Comentarista: Alexandre Coelho

Aqui eu Aprendi!

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Firmes na Verdade e na Graça de Deus

“E o próprio nosso Senhor Jesus Cristo, e nosso Deus e Pai, que nos amou e em graça nos deu uma eterna consolação e boa esperança” 2Ts 2.16


“Paulo sabia que os tessalonicenses iriam enfrentar pressões das perseguições, dos falsos pregadores ou ensinadores, do materialismo, e da apatia. Eles se sentiriam tentados a se afastar da verdade e até mesmo a deixar a fé. Com tudo isto em mente, Paulo insistiu para que eles estivessem firmes e retivessem as tradições que lhes tinham sido ensinadas por ele e por seus cooperadores. Os tessalonicenses tinham recebido muito ensino pessoalmente, e tinham também as cartas de Paulo. Eles precisariam se agarrar à verdade que lhes tinha sido ensinada.

Por intermédio da sua graça. Deus e Cristo deram aos crentes uma eterna consolação e boa esperança. O cristianismo não é uma crença de perguntas e preocupações, nem uma crença na qual os crentes precisem esperar até o final para ver se conseguirão alcançar o objetivo maior. Na verdade, os crentes recebem esperança e incentivo com a certeza das promessas de Deus. Entretanto, orar pelos crentes de todas as partes é algo que sempre será útil, especialmente por aqueles que enfrentam perseguições por causa da sua fé, para que Deus os console e lhes dê conforto para que continuem fazendo a boa obra” (Comentário do Novo Testamento Aplicação Pessoal. Volume 2. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2010. p.468).

Em tempos de crise a melhor mensagem que pode ser anunciada a uma comunidade é a de consolação.

Texto Bíblico - 2 Tessalonicenses 2.13-17

INTRODUÇÃO

A parte final do segundo capítulo de 2 Tessalonicenses trata a respeito do destino que Deus tem para os santos, em comparação com o que vinha sendo tratado anteriormente a respeito do estado final dos desobedientes (2Ts 2.10-12). Os santos serão alcançados pelo amor eterno do Pai. Paulo discorre por que os santos devem permanecer em paz e tranquilidade. Nesse esforço de fundamentar o consolo sempiterno de Deus para o justo, o apóstolo constrói uma magnífica referência à Trindade. Nos versículos 13 e 14, Paulo demonstra que o penhor da salvação é constituído por meio de uma obra realizada pelas três pessoas da trindade: Pai, Filho e Espírito Santo.

I. A AÇÃO DA TRINDADE NA VIDA DO SALVO

1. Eleitos pelo Pai (v.13)
A obra da salvação não é uma realização desprovida de sentido, como se fosse uma saída de improviso realizada por um Deus que teria sido pego de surpresa diante do pecado do primeiro casal. O Pai em sua bondade nos elegeu por meio de seu Filho Unigênito Jesus Cristo desde antes da fundação do mundo (Ef 1.4). O fato de o Cordeiro ter sido morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8), nos mostra o propósito eterno de Deus em prover salvação à humanidade. Somos eleitos pelo sacrifício do Filho e não há outro caminho para nós. Nunca possuiríamos méritos suficientes para fazermo-nos dignos da salvação, pois esta é uma obra exclusiva de Deus. Portanto, uma vez conscientes disso, devemos operosamente desenvolver nossa salvação (Fp 2.12). Não desprezemos a obra de Cristo por nós e já manifesta em nós, antes; vivamos como filhos da luz, nascidos do alto, restaurados em Cristo.

2. Santificados pelo Espírito (v.13b)
Uma vez chamados à salvação pelo Pai, é o Espírito Santo, que numa obra de transformação contínua, faz Cristo manifesto em nós (Cl 1.27,28). Como prometido por Jesus, não estamos órfãos neste mundo, temos a presença acalentadora do Santo Espírito que, numa relação simultânea de consolação e orientação, guia nossa trajetória no curso de nossa jornada ao céu (Jo 14.18; 16.7-11). Nossa luta cotidiana contra as astutas ciladas do inimigo somente pode ser superada por meio da ação do Espírito em favor de nós, o qual constantemente aperfeiçoa-nos o caráter de modo a tornarmo-nos, progressivamente, imitadores de Deus manifestando cada vez mais nossa condição de filiação (Ef 5.1). A ação do Espírito é incessante em nossa vida, pois enquanto estivermos no caminho para o céu temos muito o que nos aperfeiçoar (2Co 7.1).

3. Vocacionado para a glória do Filho.
A promessa feita por Jesus a nós é que onde Ele estiver (na eternidade) nós estaremos com Ele (Jo 14.3). A oração do Mestre ao Pai em nosso favor era para que nós fôssemos participantes da glória que Ele vivenciara antes da fundação do mundo (Jo 17.24). Não possuímos uma vocação para uma vida imortal aqui na terra; ao contrário, somos convidados a abandonar todas as coisas que aqui são perecíveis e passageiras em nome de uma chamada para aquilo que é eterno. O ponto áureo da salvação não é a isenção de sofrimentos terrenos ou a promessa de galardões celestiais; o ápice da redenção é a certeza de que experimentaremos uma eternidade na presença de Jesus, em comunhão com Ele. Nosso maior bem é o Senhor, e todas as demais coisas, na presença dEle, constituem-se em nada.

II. A FIRMEZA DO CRISTÃO

1. Persistência no ensino dos apóstolos.
Diante de um quadro de falsas profecias no seio da igreja local e charlatões da fé, é necessário fixar um ponto de segurança. Tal ponto, sem dúvida alguma, é a Bíblia Sagrada. Essa foi uma exortação paulina à Igreja em Tessalônica (vv.15,17). Para evitar a propagação de heresias e falsos ensinos, Paulo recomendou àquela comunidade que persistisse no modelo de cristianismo que havia recebido, tanto por meio do testemunho vivo dos pregadores do genuíno Evangelho, como por meio das orientações escritas que já circulavam pelas igrejas. Nossa fé, para ser madura, precisa ter alicerces sólidos, e a Palavra é o melhor e mais confiável de todos (Lc 6.46-49).

2. Convicção nas tradições.
Para além da doutrina — infalível, imutável e fundamentada exclusivamente nas Escrituras — cada igreja local possui uma série de costumes e tradições que garante o bem-estar dos relacionamentos locais. A orientação do apóstolo é que os tessalonicenses também se mantenham firmes nessas práticas (v.15). Há em nossa geração um “culto ao novo”, de tal maneira que alguns líderes de jovens procuram incessantemente a fórmula para o culto perfeito. Nesta busca desenfreada o culto virou “balada” e muitos jovens estão se perdendo. Precisamos de novidade de vida (Rm 6.4), e não apenas de coisas novas. Não devemos ter vergonha de nossas tradições, pois foram elas que nos trouxeram até onde estamos. Não precisamos de novos costumes, basta nos revestirmos de significado para este tempo.

3. Confirmados em boas obras.
A salvação de Deus em nossa vida produz um impulso positivo para a prática de boas obras (Ef 2.10). A fé dos tessalonicenses seria comprovada por meio da adoção de um estilo de vida que espelhasse o testemunho de Cristo. Para usar uma metáfora paulina podemos dizer que demonstrar nossa comunhão com Jesus na sociedade atual é similar a exalar uma excelente fragrância (2Co 2.15). O mundo ao nosso redor não conhece a Cristo e de muitos modos rejeita sua Palavra, cabe-nos então, por meio de uma vida piedosa e edificante, pregar o Evangelho sempre, inclusive quando estivermos em silêncio. Não se pode esconder uma cidade construída sobre uma montanha, os sinais de sua existência manifestam-se de modo natural (Mt 5.14). Assim, aquilo que somos espontaneamente se revela em nosso falar e proceder.

III. O CONSOLO DE DEUS AOS SANTOS

1. Confortados em amor e graça.
Tendo refletido anteriormente a respeito do final dos injustos (2Ts 2.10-12) e sobre a bênção eterna da salvação, Paulo fala a respeito do consolo dos cristãos. A fonte do conforto anunciado pelo apóstolo não são as circunstâncias humanas favoráveis ou os bens materiais que aqueles irmãos poderiam possuir, mas a maravilhosa graça e o grande amor de Deus.

2. Eternamente consolados.
Deus deseja construir algo de eterno em nós. Por isso, o Espírito que nos consola é eterno (Hb 9.14). O Reino para onde somos chamados é eterno (2Pe 1.11), o propósito dEle para conosco é eterno (Ef 3.11). Mas não apenas isso, o consolo que o Senhor oferece-nos é sem fim (2Ts 2.16). Por isso, não devemos nos angustiar se, por alguma circunstância aleatória, as coisas não estão conforme nossos planos. Devemos crer que o amanhã que nos está preparado é sem lágrimas, desesperos ou medos (Rm 8.18). Se é para a eternidade que somos vocacionados, não devemos nos iludir com os efêmeros encantos que este mundo pode nos oferecer.

3. Intimamente aliviado.
O alívio que Paulo anuncia a Igreja em Tessalônica é algo profundo, manifesto no interior dos irmãos; é consolo para o coração (2Ts 2.17). Vivemos em tempos difíceis. De uma maneira geral, as pessoas teatralizam suas vidas: fingem ser felizes, mascaram seus medos, fazem de suas vidas uma patética representação. Não foi para exterioridades que o Senhor nos vocacionou. Deus nos chamou para uma restauração interior. Chega de superficialidade! O Evangelho é algo mais profundo. Está diretamente relacionado com o nosso ser, nosso interior, nosso coração.

CONCLUSÃO

As palavras de Paulo àquela comunidade tinham como objetivo o desenvolvimento sadio dos crentes. Eles nem deveriam angustiar-se quanto às coisas futuras, muito menos estarem aflitos com relação ao seu estado eterno. Consolo é a palavra-chave para entender este momento da escrita apostólica aos irmãos em Tessalônica. Que a certeza de consolo para aqueles irmãos fortaleça também nossos corações.

SUBSÍDIO
“Algumas pessoas questionam a conclusão de que Tomás de Aquino considerava a Bíblia como única revelação de Deus à Igreja apelando para o seu comentário sobre 2 Tessalonicenses 2.15, no qual ele diz que ‘muita coisa não foi escrita pelos apóstolos e que, portanto, também devem ser observadas’. Entretanto, esta interpretação despreza o contexto e o restante da sua citação (de 1Co 11.34), na qual Paulo diz: ‘Quanto às demais coisas, ordená-las-ei quando for ter convosco’. No contexto dos apóstolos vivos, sim, havia ainda autoridade apostólica não-escrita. Entretanto, depois da morte deles, Tomás de Aquino jamais parece se referir a qualquer tipo de autoridade apostólica ou revelatória que excedesse a Bíblia. A sua única referência isolada (em Jó) à queda do Diabo como sendo parte da ‘tradição da igreja’ pode facilmente ser compreendida como ‘ensino’ da igreja baseado nas Sagradas Escrituras. Afinal de contas, Tomás de Aquino cria que muitas passagens bíblicas claramente ensinam a queda de Satanás tanto antes (cf. Gn 3) quanto depois de Jó (cf. Ap 12), e ele próprio as cita” (GEISLER, Norman. Teologia Sistemática. Volume 1. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2010. p.272).

Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 2º Trimestre de 2018 - Título: A Igreja do Arrebatamento — O padrão dos Tessalonicenses para estes últimos dias - Comentarista: Thiago Brazil


Aqui eu Aprendi!

sábado, 12 de maio de 2018

Ética Cristã e Doação de Orgãos

“Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” 1Jo 3.16

Ética Cristã e doação de órgãos

O tema desta semana traz um assunto que podemos considerar um exemplo das implicações éticas para questões mais tensas da vida. Doar órgãos traz implicações éticas inimagináveis. Por causa dos dogmas religiosos, ou da moral pré-estabelecida no inconsciente do indivíduo, pessoas doarão sangue ou órgãos, ou não, e admitirão que uma vida tenha a chance de salvar-se, ou não.

A partir de um exemplo extremo poderíamos confabular o seguinte: se num mar você visse uma pessoa se afogando, o que faria? Se você soubesse nadar, espera-se que resgatasse a pessoa segundo sua capacidade de salvá-la; se você não soubesse nadar, por certo buscaria a ajuda dos salva-vidas. Inadmissível seria vir a pessoa afogando-se e não se fizesse nada para salvá-la. A questão da doação de órgãos é um imperativo ético. Nas desumanas filas de esperas, encontram-se inúmeras pessoas que não perderam a esperança de que o seu “salva-vidas” apareça. Só quem passou sabe a dimensão da dor e do desespero desse drama. É uma situação dramática!

Caro professor, prezada professora, que tal abrir a aula desta semana com um belíssimo texto do pastor Claudionor de Andrade, atual Consultor Teológico da CPAD, uma “experiência viva” do assunto que estamos estudando? “No dia 24 de maio de 2009, fui submetido a um transplante de fígado. Terminada a cirurgia, e já na UTI, busquei saber quem era o meu doador. Vendo-me a ansiedade, o chefe da equipe cirúrgica explicou-me que faz parte do protocolo não revelar ao receptor a identidade do doador. Pelo menos, foi o que entendi. Naquele momento, restava-me agradecer a Deus. Faltando-me palavra, orei pela família que, anônima e abnegada, permitiu que os órgãos de seu ente querido viessem a salvar não apenas a mim, mas também outras pessoas igualmente graves e crônicas. Sua decisão não deve ter sido fácil, mas desabrochou amorosa e cristã. Até hoje, desconheço quem foi a pessoa, cuja morte trouxe-me uma segunda chance de vida. Negra? Branca? Não importa. O amor transcende etnias, línguas e fronteiras. Somos todos filhos de Adão e Eva. E, nessa condição, não devemos ignorar nossos laços e dependências. Todos precisamos uns dos outros. Ninguém consegue viver ilhado. O coração do negro bate no peito do branco. E, no peito árabe, pulsa um coração judeu. O transplante de órgãos é capaz de operar semelhantes milagres” (As Novas Fronteiras da Ética Cristã. CPAD, pp.121,22). - Revista Ensinador Cristão nº 73

A doação de órgãos, bem como a de tecidos humanos, expressa o verdadeiro amor cristão.

Leitura Bíblica em classe - 1 Coríntios 15.35-45



O Brasil possui o maior sistema público de transplantes do mundo. São mais de 20 mil cirurgias por ano e cerca de 90% desses transplantes são financiados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Embora os índices sejam promissores, o número de carências também cresceu. Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil tem 64 mil pacientes na fila de espera por um transplante de órgãos, e as maiores listas de espera aguardam doações de rim, fígado e pâncreas.

Por meio de vários esforços envolvendo o Ministério da Saúde, cirurgiões, psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, religiosos, famílias e a imprensa, o Brasil é o quarto país do mundo em número de doadores de órgãos. Contudo, o Brasil precisa avançar mais, especialmente diminuindo a taxa de recusa das famílias em relação à doação de órgãos. Muitas famílias ainda rejeitam a doação por dilemas éticos e falta de informação. Nossa taxa de aceitação familiar, em 2016, chegou a 57%, mas ainda é pouco diante da urgente e imprescindível necessidade de zerar a fila de espera.

I. O TRANSPLANTE DE ÓRGÃO

A doação de órgãos engloba basicamente a técnica de transplante e as pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias. O termo transplante é empregado no sentido de retirada ou remoção de órgãos, tecidos ou partes do corpo de um ser, vivo ou morto, para aproveitamento com finalidade terapêutica, ou seja, o tratamento de doenças com a finalidade de conseguir curar, tratar ou minimizar os sintomas. O gesto altruísta de doar órgãos retrata a essência do cristianismo.

1. Definição de Transplante

O transplante é um procedimento cirúrgico que remove um órgão enfermo do corpo humano para ser substituído por outro saudável. Em muitos casos, o transplante tem sido a única alternativa da medicina para a cura de pacientes com determinadas doenças terminais.

Tipos de transplantes

De acordo com o Ministério da Saúde, podem ser transplantados órgãos como o coração, o fígado, o pâncreas, os rins, os pulmões, medula óssea, tecidos e outros. O tipo mais comum de transplante é a transfusão de sangue, que acontece por meio da doação entre pessoas vivas (intervivos). Os demais transplantes intervivos são permitidos em caso de órgãos duplos (rins e pulmões), órgãos regeneráveis (fígado) ou tecidos (pele, medula óssea).

A transfusão de sangue é um dos cinco procedimentos médicos mais realizados em todo o mundo. As Testemunhas de Jeová, por uma equivocada interpretação das Escrituras, rejeitam e condenam esse tipo de tratamento. No entanto, os genuinamente cristãos consideram a “doação” e a “transfusão” de sangue como verdadeiro ato de amor e solidariedade em total acordo com os princípios bíblicos do cristianismo. A despeito do progresso da ciência médica e das técnicas cirúrgicas, os outros tipos de transplantes entre pessoas vivas são bem complexos e contêm sérios riscos. Embora seja a esperança de cura para uma série de doenças, o procedimento é recomendado apenas em casos de morte iminente, como sendo a última alternativa para o paciente.

As células-tronco

O corpo humano possui dois tipos de células-tronco: as embrionárias e as adultas. O transplante de células-tronco em órgãos lesados seria capaz de dar origem a células saudáveis, regenerar tecidos e curar as lesões. Pesquisadores acreditam que a cura de certas doenças, tais como, câncer, lesões na medula espinhal, diabetes, Parkinson, Alzheimer e esquizofrenia podem se beneficiar desse tipo de pesquisa. As células-tronco adultas são encontradas principalmente na medula óssea, placenta e cordão umbilical. Células-tronco adultas também foram identificadas em vários órgãos e tecidos, incluindo o coração, cérebro, sangue, vasos sanguíneos, músculo esquelético, pele, dentes, intestino, fígado, ovários e testículos.

As células-tronco embrionárias são encontradas no blastocisto (4 a 7 dias após a fecundação do embrião) e têm a capacidade de se transformar em qualquer uma das 216 diferentes células do corpo humano. É essa capacidade que permite que um embrião se transforme em um corpo totalmente formado. O problema ético que engloba as células-tronco embrionárias é a necessidade de matar/descartar o embrião para poder fazer a replicação desejada. Essa questão ética provocou discussão acerca da constitucionalidade do artigo 5º da Lei de Biossegurança (Lei 11.105/05) que preconiza o seguinte: “é permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização ‘in vitro’ e não utilizados no respectivo procedimento”.

Apesar da oposição de segmentos cristãos, em maio de 2008, o Supremo Tribunal Federal (STF) permitiu o uso das células-tronco embrionárias para fins de pesquisa e terapia sob a alegação que “a Constituição Federal, quando se refere à dignidade da pessoa humana, aos direitos da pessoa humana, ao livre exercício dos direitos [...] individuais e aos direitos e garantias individuais, estaria falando de direitos e garantias do indivíduo-pessoa” (ADI 3510/DF). Desse modo, para o STF, o embrião não é uma pessoa. Como a Bíblia ensina que a vida tem início na fecundação (Jr 1.5), a ética cristã desaprova esse procedimento por exigir a interrupção da vida do embrião.

2. O Conceito de Doação na Bíblia

O ensino registrado nas Escrituras assevera que “mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20.35). Denota um ato voluntário de prover o bem estar do próximo. Trata-se de uma ação desprovida de qualquer interesse de ordem pessoal. A excelência da doação repousa na disposição de renunciar e até de se sacrificar e sofrer com base no amor pelos outros (Rm 5.8). Doar ao necessitado é uma forma de colocar a fé em prática (Tg 2.14-17). E ainda, a reciprocidade está presente no gesto de doar. Foi o Senhor Jesus que assegurou: “Dai, e ser-vos-á dado” (Lc 6.38a).

Argumentos contrários à doação de órgãos

A comercialização de órgãos e tecidos é um argumento baseado na possibilidade de se obter lucro na compra e venda de órgãos e tecidos humanos. Um mercado, clandestino ou até legalizado, poderia explorar os mais pobres, acelerar a morte de doentes terminais e exterminar os que forem considerados inválidos. O temor é justificado pelo número assustador de pessoas que aguardam um órgão e do número não menos lúgubre de pessoas que morrem na fila de espera de um transplante. No Brasil, para inibir a comercialização e o tráfico de órgãos, a legislação permite apenas doações gratuitas e estabelece até oito anos de prisão para quem comercializar órgãos e tecidos humanos. Se o crime for praticado em pessoa viva que resulte em morte do paciente, a pena poderá chegar até vinte anos de reclusão (Lei no 9.434/97, Art. 14).

A priorização de classes privilegiadas é outra preocupação motivada pela possibilidade de ser dispensado tratamento diferenciado entre as classes sociais. Pessoas de classe alta ou de influência na sociedade poderiam ter prioridade na fila de espera de transplantes em detrimento das classes mais pobres. Para coibir à concessão de privilégios às pessoas que necessitam de transplantes, o sistema de saúde pública mantém cadastro dos pacientes em lista única de espera. Esse critério foi instituído pela Lei de Transplantes, cuja responsabilidade recai sobre as “Centrais de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos” (CNCDOs), que são encarregadas de coordenar as atividades de transplantes no âmbito estadual.

A Lista Única pretende distribuir gratuita e equitativamente os órgãos disponíveis e, para tanto, faz uso de dois critérios: o cronológico e o de histocompatibilidade (estado de semelhança ou identidade genética entre dois indivíduos). As listas únicas devem ser por órgãos e podem ser nacionais, estaduais ou regionais, mas a distribuição dos órgãos e tecidos tem caráter estadual. Conforme a legislação, o processo de transplante após a doação do órgão ou tecido não se dará necessariamente pela ordem cronológica de inscrição, o critério de histocompatibilidade deverá ser considerado também. Isso significa dizer que um paciente não compatível com o órgão doado terá que ceder a sua vez na lista de espera para o próximo que seja compatível. Para a efetivação do transplante também é usado o critério da urgência entre os histocompatíveis, ou seja, entre os pacientes compatíveis o caso mais grave tem prioridade.

Diante dessas informações, percebe-se que o legislador se preocupou com essas possibilidades da natureza humana burlar os procedimentos e até auferir lucros diante do sofrimento dos enfermos e de suas famílias. No entanto, tais conjecturas e probabilidades não são razões para o cristão furtar-se de sua responsabilidade de exercer o ministério de socorro e misericórdia. Doar é um gesto de amor, solidariedade e empatia.

3. A Doação de si Mesmo: A Santidade da Vida

Alguns cristãos se posicionam contrários à doação de órgãos sob o pretexto de que o gesto é um ultraje à santidade do corpo. Esse argumento considera que o corpo é sagrado e, por isso, não pode ser mutilado. Obviamente que um corpo humano, mesmo sem vida, deve ser tratado com dignidade e respeito. Desse modo, para impedir a violação do corpo humano, a legislação em vigor não permite transplante intervivos que represente grave comprometimento ou que cause mutilação ou deformação inaceitável no paciente (Lei no 9434/97, § 3º, Art. 9). No caso de retirada de órgãos post-mortem, é indispensável, além da autorização da família, o diagnóstico de morte encefálica, por dois médicos, sendo que pelo menos um deve ser neurologista e nenhum deles pode fazer parte da equipe médica que faz transplantes (Lei no 9434/97, Art. 3). E, no caso de transplante post-mortem, a lei prescreve detenção de até dois anos para quem aviltar o cadáver de um doador ou ainda “deixar de recompor cadáver, devolvendo-lhe aspecto condigno, para sepultamento ou deixar de entregar ou retardar sua entrega aos familiares ou interessados” (Lei no 9.434/97, Art. 19).

Com todos esses cuidados para tratar o corpo humano com respeito a fim de evitar a violação do corpo inerte ou impedir a mutilação ou deformação de um corpo vivo, o argumento da integridade do corpo para não doar órgãos é insustentável. Os cristãos não podem buscar pretextos ou firmar-se em argumentos falaciosos para eximir-se de seu papel de ser o sal da terra e a luz do mundo (Mt 5.13,14). O Senhor Jesus ensinou aos seus discípulos que: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas” (Mt 7.12).

II. EXEMPLOS DE DOAÇÃO NA BÍBLIA

A Palavra de Deus contém registros de ações altruístas carregadas de amor, zelo e dedicação para com o outro. Homens e mulheres que se doaram em prol do reino de Deus e até sacrificaram suas vidas por amor as almas. Neste ponto abordaremos as ações da Igreja na Galácia, a abnegação do apóstolo dos gentios e a suprema doação de nosso Senhor e Salvador. Exemplos dignos de ser observado pelos cristãos.

1. O Exemplo dos Gálatas

A igreja na Galácia foi fundada por Paulo quando este empreendeu sua primeira viagem missionária (c. 47-48 d.C.). Na ocasião, o apóstolo sofria de uma enfermidade não especificada na Bíblia (2 Co 12.7). Ele escreve que orou a Deus três vezes para ser curado, mas o Senhor lhe respondeu: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12.9a). Ao evangelizar na região da Galácia, Paulo deixou indícios de ter sentido os efeitos da doença em sua carne e salienta que os gálatas não o desprezaram nem o rejeitaram (Gl 4.13,14). Conjectura-se por meio dessa passagem que a enfermidade de Paulo era nos olhos, ou que a doença lhe afetava a visão (Gl 6.11). Indiscutível é que para expressar o amor dos irmãos, ainda que de modo metafórico, o apóstolo fala do sentimento altruísta dos gálatas, que, se possível fora, arrancariam os próprios olhos e os doariam no intuito de amenizar o sofrimento de Paulo (Gl 4.15).

A cura e a soberania divina

Nossa Declaração de Fé, professa que “a cura divina é um ato da soberania, graça e misericórdia divina [...] e a Bíblia ensina que Deus, na sua soberania, pode permitir a doença” (SOARES, 2017, p. 179). As Escrituras ainda revelam que Deus equipou a Igreja com os dons de curar visando ao bemestar espiritual e físico do seu povo (1 Co 12.9). O Novo Testamento ensina a oração em favor dos enfermos como uma prática e dever cristão (Tg 5.14,15). Em face dos avanços médicos e científicos, a igreja posiciona-se favoravelmente à medicina, e isso não significa falta de fé (Mt 9.12). Portanto, a oração pelos enfermos não entra em divergência com o tratamento médico Nesse sentido, não há conflito entre a soberania de Deus e a liberdade humana em fazer a doação de órgãos, pois a última palavra sempre será do Senhor que tem poder sobre a vida e a morte (Jo 10.17,18).

2. O Desprendimento de Paulo

O apóstolo dos gentios é um excepcional exemplo de doação em prol do Reino de Deus. Transbordando de amor, ele escreveu aos Coríntios: “Eu, de muito boa vontade, gastarei e me deixarei gastar pelas vossas almas” (2 Co 12.15). Ao retornar da terceira viagem missionária em direção a Jerusalém, o apóstolo discursou aos anciãos de Éfeso: “Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira” (At 20.24a, ACF). Dias depois, ao chegar a Cesareia, Paulo recebeu revelação acerca do perigo que corria. Tendo sido persuadido pelos irmãos a recuar, o apóstolo constrangido declarou em sua abnegação estar disposto não apenas a sofrer, “mas ainda a morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus” (At 21.8-13).

O desprendimento paulino é ação digna de ser imitada pelos seguidores de Cristo. O próprio apóstolo recomenda: “Sede meus imitadores, como também eu, de Cristo” (1 Co 11.1). Na Igreja Primitiva, os que viviam de acordo com o evangelho ficavam parecidos com Cristo e, por isso, eram identificados como “cristãos” (At 11.26). Parecer com Cristo implica imitar a Cristo (1 Jo 2.6), por exemplo, amar como Ele amou, perdoar como Ele perdoou e doar-se como Ele se doou. Entre tantos outros ensinos, é necessário permanecer sendo como Cristo e crescer ainda mais nesse conhecimento. Esse é um dos legados do apóstolo que tinha como alvo ser como Cristo. Paulo chegou a escrever: “[...] para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho” (Fp 1.21), e, ainda: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20a). Sejamos, portanto, como o foi Paulo, imitadores de Cristo.

3. A Doação Suprema de Cristo

Seguramente a morte vicária de Cristo é o maior e incontestável gesto de amor e de doação imensurável e inigualável. Quando entregou sua vida por nós pecadores, Ele afirmou que o fez voluntariamente: “Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou” (Jo 10.18). As Escrituras afirmam que essa doação estava fundamentada exclusivamente no amor, uma vez que “Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8). Foi por intermédio do sacrifício de Cristo e de sua vitória sobre a morte que fomos resgatados de nossa vã maneira de viver (1 Pe 1.18-21).

O exemplo supremo de Cristo que confirmou ter “poder para dar e poder para tomar de volta sua vida” (Jo 10.18) é esperança de milagre e de ressurreição para todo aquele que crê (1 Co 6.14; 15.20,21). Entretanto, argumentam alguns que a retirada de órgãos pode impedir o milagre e a cura divina na vida da pessoa com diagnóstico de morte encefálica. Porém, tal argumento não procede, pois, as Escrituras ensinam que “para Deus nada é impossível” (Lc 1.37), por conseguinte, mesmo depois de morto e sem órgão algum no corpo, Deus ainda pode operar um milagre, trazer órgãos à existência e devolver a vida ao doador. Outra opinião inconsistente afirma que a doação de órgãos é incompatível com a doutrina da ressurreição dos mortos (1 Ts 4.16). Refutando essa ideia, Paulo ensina que o “corpo natural, ressuscitará corpo espiritual” (1 Co 15.44), ou seja, não precisarão de órgãos humanos. Nossa vida está nas mãos do Senhor! Somente Ele tem poder sobre a vida e a morte! (1 Sm 2.6).

III. DOAR ÓRGÃOS É UM ATO DE AMOR

O genuíno e excelso sentimento de amor constrange o cristão para ser doador de órgãos e tecidos. O Senhor Jesus ensinou e propagou o amor que deve existir entre os seres humanos. O amor cristão deve ser expresso por meio de atitudes e obras (1 Jo 3.17,18). Esse amor não se restringe apenas às pessoas com as quais nos relacionamos ou que queremos bem (Mt 5.46). Somos exortados a amar os desconhecidos (Mt 5.47) e inclusive aqueles que nos maltratam (Mt 5.44).

1. O Princípio da Empatia e da Solidariedade

A empatia pode ser definida como a capacidade de sentir o que outra pessoa está vivendo, ou seja, colocar-se no lugar do outro. Ser solidário implica apoiar e ajudar alguém num momento difícil. Cristo ensinou no Sermão da Montanha: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós” (Mt 7.12).

O altruísmo do auxílio mútuo

Quando o ser humano entende o altruísmo do auxílio mútuo, os argumentos contrários à doação de órgãos perdem o sentido e a razão de ser. A expressão altruísmo tem origem no latim alter e significa “outro”. Denota interesse pelo bem-estar do próximo. Trata-se de uma ação desinteressada desprovida de qualquer razão pessoal. Biblicamente, o altruísmo é grande prova da espiritualidade de alguém: “Nisto está o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados. Amados, se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros” (1 Jo 4.10,11). No Sermão da Montanha, Cristo ensinou a regra áurea: “[...] tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós” (Mt 7.12). Essa regra requer que façamos aos outros aquilo que gostaríamos que fizessem a nós. Não é simplesmente deixar de fazer o mal, e sim tomar a iniciativa de fazer alguma coisa boa em prol do outro. E, quanto a isso, o apóstolo líder em Jerusalém nos adverte: “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e o não faz comete pecado” (Tg 4.17). A regra áurea é o fundamento de uma bondade ativa e de uma misericórdia ativa — o tipo de amor que Deus nos mostra todos os dias (RIBAS, 2009, p. 52).

Compreensão e Generosidade

Compreender aqui está no sentido de empatia, ou seja, sentir a dor e o sofrimento do outro. Generosidade está no sentido da virtude que nos leva à preocupação com as pessoas de modo prático (solidariedade). O escritor aos Hebreus convoca seus leitores a se identificarem com os que sofrem e padecem necessidades (Hb 13.2,3). Os cristãos são exortados a compreender a dificuldade do próximo e agir com generosidade. A mensagem os conclamava a tomar iniciativa — sair da passividade e do campo do discurso e partir para a ação prática. O princípio emanado é o da regra áurea ensinada por Cristo (Mt 7.12). As admoestações para ser generoso com os viajantes, estender a mão aos prisioneiros e auxiliar os maltratados são, na verdade, exortação para se cumprir o mandamento de Cristo: Amar o próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40). Isso posto, doar órgãos é o exercício do amor cristão para com o outro.

2. O Princípio do Verdadeiro Amor

Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo é o resumo da revelação (Mt 22.37-40). Cristo ensinou que não existe maior amor do que doar a sua vida ao próximo (Jo 15.13). O Salvador não doou apenas um ou outro órgão para salvar nossas vidas. Ele entregou a sua vida por inteiro para que fossemos absolvidos da morte. João nos recorda o ato e nos exorta a fazer o mesmo: “Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos” (1 Jo 3.16). Portanto, doar órgãos para salvar outras vidas é um sublime ato de amor.

A excelência do amor

O capítulo 13 da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios é considerado o “grandioso capítulo do amor”. Nos versículos 2 e 3, Paulo enfatiza que o exercício dos dons espirituais e os atos de autossacrifício nada valem sem o amor. Nos versículos seguintes (1 Co 13.4-8), encontramos as características do amor em quinze sublimes declarações. Destacamos aqui as expressões “é sofredor”, “é benigno” e “não busca os seus interesses”. A excelência do verdadeiro amor repousa na disposição de se sacrificar e sofrer com base no amor pelos outros. A benignidade aparece quando se responde generosamente às necessidades dos outros. O amor preocupa-se com o próximo e, de bom grado, desiste dos seus próprios interesses em benefício dos outros (RIBAS, 2009, p.164, 165).

A essência do amor cristão

A doação de órgãos e tecidos em vida ou post-mortem é um elevado gesto de amor. Essa ação em nada contraria os preceitos éticos ou bíblicos, exceto no caso de células-tronco que requerem a morte do embrião. Contudo, ninguém deve ser forçado à prática de tão nobre e elevado gesto. A ação deve ser voluntária e altruísta sem esperar recompensa alguma. O ser humano e o seu corpo não podem ser coisificados ou comercializados e nem a sua vontade pode ser desrespeitada. Doador e receptor são seres humanos que expressam a imagem e a semelhança de Deus.


SUBSÍDIO TEOLÓGICO

“Infantilismos teológicos. Há crentes que não se dispõem a doar seus órgãos, por temerem ficar incompletos quando do arrebatamento da igreja. Afinal, como entrarão na Jerusalém Celeste sem o coração? Ou sem os pulmões? Ou, então, desprovidos de rins? Na vida futura, todavia, não precisaremos de tais órgãos. Quando todas as coisas se consumarem, nem das gônadas sentiremos falta, conforme sublinha o próprio Cristo: ‘Pois, quando ressuscitarem de entre os mortos, nem casarão, nem se darão em casamento; porém, são como os anjos nos céus’ (Mc 12.25).

Na eternidade, todos seremos perfeitos, como perfeitos são os santos anjos. Por enquanto, necessitamos de órgãos, tecidos, ossos e sangue em virtude de nossa fisiologia. Esta, porém, é transitória. É o que o apóstolo Paulo deixa bem patente: ‘Pois assim também é a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrupção. Semeia-se em desonra, ressuscita em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscita em poder. Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual’ (1Co 15.42-44).

Em vez de especularmos com assuntos tão sérios, exercitemos o amor cristão. Na vida eterna, não precisaremos mais de coração. Então, que este venha a pulsar noutro peito. Que nossos pulmões arfem noutro tórax. E que os rins que, hoje, nos filtram o sangue, venham a beneficiar os que se acham presos à máquina de hemodiálise” (ANDRADE, Claudionor de. As Novas Fronteiras da Ética Cristã. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2017, pp.137).



A ideia de “doar” é abundantemente expressa nas Escrituras Sagradas. Ela está diretamente ligada ao mandamento de “amar o próximo”. Doar é a ação concreta do amor. É a boa obra que expressa o amor que sentimos pelo outro. Tiago e João dizem em suas epístolas que, se por exemplo, um cristão diz ter fé e amar, mas não apresenta uma ação concreta ao objeto dessa fé e desse amor, as epístolas sentenciam: esse cristão não tem fé e não ama respectivamente. O nosso amor a Deus está proporcionalmente ligado ao nosso amor ao próximo. Nesse sentido, precisamos expor a relevância deste tema tão urgente nos dias atuais: doar órgãos significa salvar vidas. Quem ama, doa!

Fonte:
Livro de Apoio – Valores Cristãos - Enfrentando as questões morais de nosso tempo - Douglas Baptista
Lições Bíblicas 2º Trim.2018 - Valores Cristãos - Enfrentando as questões morais de nosso tempo - Comentarista: Douglas Baptista


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