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quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Os Livros de Lucas e Atos - A Base da Doutrina Pentecostal

“Então começou a dizer-lhes: Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” Lc 4.21

Professor (a), você crê que o Movimento Pentecostal tem a sua base doutrinária na Palavra de Deus? Se sua resposta foi afirmativa, com certeza você não terá dificuldades em trabalhar o conteúdo dessa lição com seus alunos. Infelizmente muitos crentes, até mesmos os que se dizem pentecostais têm um conceito errado a respeito da Terceira Pessoa da Trindade e desconhecem a origem do Movimento Pentecostal. Segundo Stanley Horton o “Espírito Santo tem sido negligenciado no decurso dos séculos”. O Consolador não é uma força ou uma influência, Ele é Deus e tem revelado à humanidade o Deus Pai e o Deus Filho mediante os dons espirituais. Nesta lição estudaremos a respeito de dois importantes livros das Sagradas Escrituras que são tidos como a base do Movimento Pentecostal. Não se esqueça de que você pode e deve contar com o Espírito Santo para o preparo e a execução dessa aula.

A estrutura de Lucas—Atos
Todo estudioso do Novo Testamento que se preze dirá que Lucas 4.16-30, o impressionante sermão de Jesus em Nazaré, é paradigmático para o Evangelho de Lucas. Todos os principais temas que serão mostrados no Evangelho são prenunciados aqui: a obra do Espírito Santo; a universalidade do evangelho; a graça de Deus; a rejeição de Jesus.
E este é o ponto significativo em que a cronologia do Evangelho de Lucas é diferente do Evangelho de Marcos. Aqui, Lucas toma um evento do meio do ministério de Jesus e o coloca bem lá na frente para inaugurar o ministério de Jesus. Lucas faz isso porque entende que esse evento — em especial a recitação de Jesus de Isaías 61.1,2 e sua declaração de que essa profecia está agora sendo cumprida em seu ministério — fornece insights importantes sobre a natureza de Jesus e sua missão. Essa passagem, então, fornece um modelo para o ministério posterior de Jesus.
É interessante observar que Lucas fornece um tipo semelhante de introdução paradigmática ao segundo volume, o livro de Atos. Depois da vinda do Espírito no dia de Pentecostes, Pedro faz um sermão (At 2.14-41) que, em muitos aspectos, se assemelha ao de Jesus em Lucas 4. No sermão, Pedro também se refere a uma profecia do Antigo Testamento sobre a vinda do Espírito, desta vez Joel 2.28-32, e declara que essa profecia agora também está se cumprindo (At 2.17-21). A mensagem é clara. Assim como Jesus foi ungido pelo Espírito para cumprir sua chamada profética, assim também os discípulos de Jesus foram ungidos como profetas do fim dos tempos para proclamar a Palavra de Deus. O texto de Joel 2.28-32 que é citado aqui, como também a passagem paradigmática em Lucas 4, mostra sinais de edição cuidadosa por parte de Lucas” (MENZIES, Robert. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2016, p.26).

O Movimento Pentecostal está alicerçado nas Escrituras Sagradas, especificamente no Evangelho de Lucas e no livro de Atos, obras que mostram de forma contundente a atuação irrestrita do Espírito Santo.

Estudaremos, ainda que de forma resumida, o Evangelho de Lucas e o livro de Atos. Lucas, o autor desses livros, apresenta as bases doutrinárias do Movimento Pentecostal. Abaixo quadro com uma visão panorâmica desses livros e do trabalho de Lucas.



Texto Bíblico: Lucas 1.1-3; Atos 1.1-9

INTRODUÇÃO

Nesta Lição, destacaremos os escritos de Lucas, considerado o autor pentecostal por excelência do Novo Testamento.

I. LUCAS, O ESCRITOR PENTECOSTAL

1. Quem foi Lucas?

Lucas foi um médico grego convertido ao cristianismo, e que se tornou depois companheiro de Paulo em suas viagens missionárias. De suas mãos saíram dois documentos que representa praticamente 25% do texto do Novo Testamento. Esses dois documentos, o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos, foram dirigidos inicialmente a um homem chamado Teófilo, possivelmente um convertido interessado na história de Jesus e dos apóstolos e que possivelmente financiou o projeto literário de Lucas.

Pelo conteúdo do seu texto, Lucas demonstra que teve uma educação diferenciada, pois seus escritos trazem em torno de 800 palavras que não ocorrem nos demais textos do Novo Testamento, em um grego refinado. E sua narrativa, como ele mesmo expõe, foi feita de forma ordenada, tendo sido investigados os fatos de acordo com a ordem em que ocorreram: “[...] por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio” (Lc 1.3). Lucas é o único que traz o relato da vida de Jesus de forma cronológica, procurando registrar todos os acontecimentos na ordem em que ocorreram. De acordo com a tradição da Igreja, Lucas teria morrido com mais de oitenta anos.

2. A produção literária de Lucas.

Lucas é o autor que descreve a vida de Jesus de forma mais ampla em seu primeiro livro, o Evangelho de Lucas, e que por meio de um segundo livro, Atos dos Apóstolos, mostra a forma com que os discípulos de Jesus deram prosseguimento às obras do Mestre. Por ser médico, relata com detalhes certas doenças e registra suas curas, como nos casos da sogra de Pedro (Lc 4.37-39), do homem que tinha uma das mãos mirrada (Lc 6.6-11) e do servo do centurião (Lc 7.1-10). Por ser gentio, apresenta Jesus falando do reino de Deus a pessoas que a sociedade judaica não prezava, como Zaqueu (Lc 19), e recebendo crianças para abençoar (Lc 18.15-17). Sua narrativa se inicia com os relatos de antes mesmo do nascimento de Jesus Cristo. No seu Evangelho, vemos um farto material de parábolas, histórias que Jesus contou para ilustrar verdades do Reino de Deus, como também um relato a respeito das aparições de Jesus ressurreto aos seus discípulos. Em Atos, Lucas dá prosseguimento à narrativa evangélica, desta vez mostrando o que os discípulos de Cristo fizeram após o Senhor retornar aos céus.

3. Fontes dos escritos de Lucas.

Lucas, no seu Evangelho, mostra o relato de testemunhas oculares dos fatos narrados. Ele buscou pessoas que haviam convivido com Jesus, visto seus milagres, ouvido seus ensinos e que foram libertas de doenças e espíritos imundos pelo poder do Salvador. No livro de Atos, Lucas chega a participar de acontecimentos que ele mesmo descreve, deixando de ser um mero ouvinte de relatos para ser um dos protagonistas da própria narrativa. Isso pode ser visto nas vezes em que ele usa o pronome pessoal “nós”, indicando ser um protagonista dos relatos, como na volta de Paulo para a Ásia (At 20.13), na viagem de volta a Jerusalém (At 21.7) e na viagem de navio de Paulo a Roma (At 27.2). Sua ênfase recai na atuação do Espírito Santo tanto na vida e ministério de Jesus como nas obras que os discípulos desenvolveram nos primeiros anos da Igreja, chegando a mostrar Paulo antes de seu martírio.

II. O EVANGELHO DE LUCAS

1. Um livro que prima pela oração.

O Evangelho de Lucas é iniciado, mostrando uma resposta de oração. Zacarias, futuro pai de João Batista, tem a oportunidade de oferecer incenso por ocasião de seu ofício sacerdotal, quando recebe a visita do anjo Gabriel e junto com ele a informação de que seria pai (Lc 1.13). A Bíblia não registra a oração de Zacarias, mas deixa claro que ele orava ao Senhor, e que sua oração foi respondida, concedendo-lhe Deus a paternidade do precursor do Messias.

Lucas mostra Jesus orando quando foi batizado e o Espírito Santo desceu sobre Ele (Lc 3.21,22). Jesus ungido pelo Espírito Santo, se retira, depois de seu batismo, para o deserto a fim de orar e, posteriormente, ser tentado pelo Diabo (Lc 4-1; 5.16). Jesus ora uma noite inteira na ocasião em que está prestes a escolher seus discípulos (Lc 6.12). E somente Lucas registra que Jesus, na cruz, orou para que os seus crucificadores fossem alcançados pelo perdão de Deus.

2. O Espírito de Deus enchendo e orientando pessoas.

Lucas tem um cuidado especial ao registrar a ação direta do Espírito Santo na vida das pessoas que conviveram com Jesus, o ouviram e creram nEle, e isso antes mesmo do ministério de Jesus começar. É dito por ele que Maria, mesmo sendo virgem, seria mãe de Jesus por obra do Espírito Santo (Lc 1.35), e que por essa ação Jesus seria chamado “Filho do Altíssimo” (Lc 1.32). A prima da mãe do Salvador, Isabel, ao receber a saudação de Maria, é cheia do Espírito Santo e João Batista salta ainda no ventre de sua mãe (Lc 1.41). Este mesmo Espírito Santo estava sobre Simeão, um homem justo e temente a Deus, que foi levado ao Templo pelo Espírito para ver a salvação de Israel, o próprio menino Jesus, por ocasião da apresentação deste no Templo (Lc 2.25-27). É o Espírito Santo que capacita tais pessoas a falarem de forma profética, revelando-lhes informações sobre Jesus.

Lucas registra a ordem de Jesus aos discípulos, que ficassem em Jerusalém para serem revestidos de poder e ser testemunhas do Senhor, completando assim, seu evangelho (Lc 24.49).

3. O Espírito de Deus agindo em Jesus.

Jesus, já adulto, é batizado por João, e nesse momento o Espírito Santo veio sobre Ele em “forma corpórea, como uma pomba” (Lc 3.22). Pela virtude do Espírito volta para sua terra, a Galileia, para ensinar nas sinagogas, e tendo chegado a Nazaré, leu o texto de Isaías que dizia: “O Espírito do Senhor é sobre mim [...]” (Lc 4.18). É neste Evangelho que nos é dito que a “a virtude do Senhor estava com ele para curar” (Lc 5.17).

Jesus, como relatado por Lucas, deu poder aos seus discípulos para expulsarem demônios e curarem os enfermos (Lc 9.1,2), virtude que só poderia ser dada peto Espírito Santo, que estava em Jesus, o que é dito posteriormente pelo mesmo Lucas, desta vez em Atos.

III. OS ATOS DOS APÓSTOLOS

1. A vinda do Espírito Santo.

Lucas registra a descida do Espírito Santo não apenas como uma promessa feita pelo Senhor Jesus Cristo, mas também as palavras do apóstolo Pedro, associando o evento, no Pentecostes, à profecia de Joel. Esse é o registro da primeira interpretação da profecia de Joel se cumprindo naqueles dias.

Da mesma forma que Lucas prioriza os relatos de oração no Evangelho, ele o faz no livro de Atos. Os discípulos de Jesus, no Dia de Pentecostes, não estavam comemorando a festa, como era de costume, mas estavam orando no cenáculo, até que receberam a virtude do Espírito. Os discípulos oraram quando ameaçados, e pediram que Deus estendesse sua mão para curar e manifestar sinais e prodígios (At 4.30).

2. O poder do Espírito Santo.

Lucas registra a descida do Espírito Santo e a conversão de quase três mil pessoas no Dia de Pentecostes. Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu aos principais da sinagoga a respeito da cura do coxo, na Porta Formosa, que foi realizada em nome de Jesus (At 4.1-11). O mesmo Espírito Santo enche outros discípulos de Jesus quando, ameaçados pelas autoridades, oravam pedindo ousadia para testemunhar, e pediam que Deus fizesse sinais e prodígios (At 4.24-31). O Espírito de Deus, de forma poderosa, encheu Estêvão diante de seus inimigos, de tal forma que não podiam resistir “à sabedoria e ao Espírito com que falava” (At 6.10), e lhe permitiu ver o próprio Senhor Jesus em pé à direita de Deus momentos antes de encontrar com seu Salvador (At 7.55,56). Percebemos que o Espírito agia tanto para trazer a palavra adequada de testemunho a respeito de Jesus quanto para operar milagres, numa atuação diversificada.

Lucas registra em Atos que na segunda viagem missionária, por duas vezes seguidas, Paulo, Silas e Timóteo tentaram entrarem duas regiões, e foram impedidos pelo Espírito (At 16.6,7), uma referência clara de que Ele estava diretamente ligado à expansão missionária da igreja. O Espírito Santo é responsável por realizar sinais e maravilhas, e direcionar os caminhos pelos quais a sua obra vai se desenvolver.

3. Os Atos do Espírito Santo.

Mais que registrar atos dos discípulos de Jesus, Lucas registra os atos do Espírito Santo. Seus escritos mostram que Deus está no controle da história, guia seus discípulos, opera milagres e fala diretamente com seus servos.

Lucas mostra que tanto judeus como gentios foram cheios do Espírito Santo, falaram em línguas e receberam poder para serem testemunhas de Cristo (At 10.44-48). É Lucas quem narra que um homem chamado Barnabé, cheio do Espírito Santo (At 11.22-24), foi mandado para Antioquia, e lá viu a graça de Deus entre os crentes gentios. É nessa mesma igreja que o Espírito Santo de Deus, tempos depois, disse que separassem a Saulo e Barnabé para uma obra específica (At 13.1-3).

Somos pentecostais e não temos dúvidas quanto à atualidade do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais.

CONCLUSÃO

A Bíblia é rica em detalhes de como o Espírito Santo veio habitar naqueles gentios e judeus que aceitaram a Jesus. Essa habitação traz consigo santidade, poder para resistirão mal e testemunhar de Jesus. Não há um verso nas Sagradas Escrituras que nos permita inferir que o batismo com o Espírito Santo, seguido do falar em outras línguas, ficou restrito ao tempo dos apóstolos. Lucas registra o início da obra do Santo Espírito, e sabiamente, não descreveu um encerramento dessa atividade, pois o Espírito de Deus continua a mover pessoas com seu poder, acima de tudo, para testemunhar de Cristo com autoridade.

Lucas é efetivamente um escritor que dá ênfase à presença do Espírito Santo em seus dois livros e suas obras são fontes primárias da doutrina pentecostal.

Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 4º Trimestre de 2018 - Título: O vento sopra onde quer – O ensino bíblico do Espírito Santo e sua operação na vida da Igreja – Comentarista: Alexandre Coelho

Aqui eu Aprendi!

sábado, 13 de outubro de 2018

Para ouvir e anunciar a Palavra de Deus

“Mas o que foi semeado em boa terra é o que ouve e compreende a palavra; e dá fruto, e um produz cem, outro, sessenta, e outro, trinta” Mt 13.23

Para ouvir e anunciar a Palavra de Deus

A lição desta semana trata acerca de uma das parábolas de nosso Senhor mais conhecida, a Parábola do Semeador. Tal parábola marca o início do chamado aos discípulos de Jesus para proclamar o Evangelho a toda a criatura. A presente lição, não obstante, está estruturada em três tópicos seguintes:

(1) Interpretação da Parábola do Semeador;
(2) A importância de ouvir o Evangelho;
(3) O chamado para anunciar o Evangelho.

Uma realidade que precisa ser destacada

Ao menos duas realidades podem ser destacadas com a exposição da Parábola do Semeador:

(1) a pregação do Evangelho não germinará em todos os corações;

(2) o coração humano é muito vulnerável às circunstâncias exteriores da vida.

Nosso Senhor mostrou que, em sua grande seara, há o semeador, a semente e o solo. O semeador deve semear a semente em todos os solos. Entretanto, quem semeia deve ter a consciência acerca dos vários tipos de solos existentes. Estes representam o coração humano, bem como a dimensão da existência. Veja a tabela abaixo em que correlacionamos o significado com os símbolos presentes na parábola:


É preciso falar de Cristo e orar para que os ouvintes recebam a Palavra, e tornem-se seguidores do Mestre.

Texto Bíblico - Marcos 4.3-20

INTRODUÇÃO

Para ilustrar verdades espirituais, Jesus frequentemente contava, por parábolas, histórias sobre os acontecimentos do dia a dia. A parábola do semeador é uma das narrativas de Jesus encontrada nos três Evangelhos sinóticos (Mt 13.1-9, Mc 4.3-9 e Lc 8.4-8) e relata de que forma a mensagem de salvação será recebida no mundo. Um dos seus propósitos é prevenir os discípulos com relação ao triste fato de a pregação da Palavra de Deus não produzir “colheita de cem por cento” em todos os ouvintes. Além disso, a parábola do semeador pode ser interpretada como “a parábola do coração”, pois mostra como é o interior de cada pessoa.


I. INTERPRETAÇÃO DA PARÁBOLA DO SEMEADOR

1. A importância em compreender a parábola.

A parábola do semeador é uma das mais importantes, não apenas por constar nos três primeiros Evangelhos, mas também por ser fundamental para o entendimento de outras. Por essa razão, é necessário comparar e contrastar as referências paralelas a cada narrativa. Desse modo, teremos um quadro completo do que o Senhor Jesus disse sobre o Reino do Céu, já que a narrativa refere-se ao Reino. Essa história fala de um agricultor que lançou sementes em vários lugares com diferentes resultados, dependendo do tipo do solo (Mc 4.3-20). Para se entender essa parábola, é preciso recorrer ao contexto de Mateus 13.18-23, quando o próprio Senhor Jesus a interpretou.

2. Os elementos que constituem a Parábola: o Semeador, a semente e o solo.

No mesmo capítulo da parábola do semeador, ao explicar a parábola do trigo e do joio, o Mestre apresenta-se como o semeador (Mt 13.36-43). Daí, ainda que não especificamente mencionado, é possível inferir que o Semeador é Jesus, pois se compararmos o texto dessa parábola com o de Mateus 13.37, podemos concluir que há uma referência imediata com o Senhor. Contudo, por extensão, podemos igualmente entender que o semeador também pode ser qualquer pessoa que fielmente proclama a mensagem do Evangelho nos nossos dias. Quanto à semente, esta é a Palavra de Deus ou “a palavra do Reino” (Mt 13.19a) que, como sabemos, era o tema da pregação de Jesus (Mt 4.23) e da pregação apostólica (At 8.12; 28.30,31). Já o “solo”, é algo muito importante para qualquer planta. Por isso, os cristãos precisam desenvolver suas raízes por meio da fé em Cristo e do estudo da Palavra cada vez mais profundo. Tempos difíceis virão, e somente aqueles que tiverem desenvolvido suas raízes abaixo da superfície, sobreviverão.

3. Os diferentes tipos de solos infrutíferos.

As pessoas que ouvem a Jesus são comparadas com vários tipos de solo (Lc 8.5-8). O solo duro e compactado da estrada impediu que as sementes penetrassem, permitindo que ficassem na superfície, expostas às aves que vieram e as comeram. Este solo representa aqueles que “ouvem e não entendem” (Mt 13.19a), por isso endurecem o coração para não receberem a Palavra (Mt 13.15). As aves representam Satanás (Mc 4.15), que arrebata a Palavra dessas pessoas, cujos corações estão endurecidos. As sementes que caíram sobre pedregais (vv.16,17), onde não havia muita terra, e, como consequência, cresceram rapidamente, acabaram secas num instante (v.6). Este solo raso representa as pessoas que ouvem a Palavra e a recebem com grande alegria, porém, quando surgem as dificuldades, as tribulações ou as perseguições por causa do Evangelho, elas não resistem e imediatamente tropeçam (Mt 13.20,21). Daí a necessidade de um maior embasamento na Palavra de Deus recebido através de um bom discipulado e frequência na Escola Dominical. Já as sementes que caíram entre espinhos são sufocadas quando estes crescem e roubam o alimento, a água, a luz e o espaço dos brotos. Infelizmente existem forças capazes de sufocar a mensagem, de forma a torná-la infrutífera (v.18). Este solo representa aqueles que “ouvem a palavra”, mas cuja capacidade para gerar fruto é sufocada. Jesus descreveu os espinhos como “os cuidados deste mundo”, “a sedução das riquezas” e “os prazeres da vida” (Mt 13.22; Mc 4.19; Lc 8.14; 12.29-32; 21.34-36). As distrações e os conflitos impedem os novos crentes de refletir e aprender a Palavra de Deus a fim de crescerem. Essas coisas, produzidas pela ambição das coisas materiais atormentaram os discípulos do primeiro século, da mesma forma como acontece nos dias atuais, distraindo os crentes de maneira que permaneçam infrutíferos, não produzindo nenhuma colheita.

II. A IMPORTÂNCIA DE OUVIR O EVANGELHO

1. O tipo ideal de solo.

A parábola do semeador é uma descrição das várias respostas ao “ouvir” a Palavra de Deus e, seguramente, retrata as reações que Jesus encontrou no seu próprio ministério. A parábola adverte contra o ouvir superficial, mas também alimenta a expectativa do ouvir real e produtivo, que leva à obediência, e não devemos esquecer que o verbo grego correspondente a “ouvir” é frequentemente traduzido como “obedecer”. Por isso, o Mestre falou que algumas sementes caíram em boa terra (v.20). Tal terra tinha profundidade, espaço e umidade para crescer, multiplicar e produzir uma boa colheita. Este solo representa as pessoas que “ouvem” a Palavra e a “entendem”, frutificando abundantemente (Mt 13.23; Lc 8.15). Elas são como os bereanos que foram recomendados “porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” (At 17.11). São, na verdade, os verdadeiros discípulos, aqueles que aceitaram Jesus, creram em sua Palavra e permitiram que Ele fizesse a diferença em suas vidas (At 17.12).

2. O tipo ideal de ouvinte.

Jesus mostrou que o ato de “ouvir” representa um solo fértil para a mensagem do Reino. Se produzirmos frutos, isso provará que ouvimos. Se aqueles a quem pregamos o Evangelho produzirem frutos, isso mostrará que a semente que plantamos fincou raízes em seus corações. Jesus inicia a parábola do semeador com a palavra “ouvi” (v.3a) e termina com a seguinte advertência: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (v.9). Analisando o aspecto material, o solo não é culpado se estiver duro, cheio de pedras ou de espinhos, enquanto que no aspecto espiritual, somos responsáveis se o nosso coração estiver endurecido, ou seja, se não estiver aberto para a Palavra de Deus arraigar-se profundamente, ou deixarmos as coisas deste mundo sufocarem a Palavra.

3. A importância de “ouvir”.

Ao descrever o tipo ideal de solo, Jesus destaca o melhor perfil de ouvinte, mas também a importância de ouvir a Palavra e a conservar “num coração honesto e bom” a fim de dar “fruto com perseverança” (Lc 8.15). Aqui há uma lição para o ouvinte também. O fruto produzido depende da resposta à Palavra. É importante ler, estudar e meditar sobre as Escrituras. A Palavra tem que vir habitar em nós (Cl 3.16), para ser implantada em nosso coração (Tg 1.21). Temos que permitir que nossas ações, nossas palavras e nossas próprias vidas sejam formadas e moldadas pela Palavra de Deus.


“O uso de parábolas era comum entre o povo hebreu, mas Jesus as usava com propósito penetrante, especialmente quando entre os ouvintes aumentava o número daqueles que poderiam interpretar mal ou usar mal os seus ensinos. Uma história poderia captar e conservar naturalmente a atenção; mas, além disso, a parábola examinava o coração, levando a pensamentos e aplicações mais profundos”. Comentário Bíblico Beacon, Volume 6, CPAD, p.246.

III. O CHAMADO PARA ANUNCIAR O EVANGELHO

1. A obra da maior importância.

Uma vez que a condição das pessoas sem Deus é de ignorância espiritual, pois Satanás “encobre” os seus corações para não ouvir o Evangelho (2Co 4.3,4), o maior serviço que qualquer cristão pode, e deve realizar, é semear a boa semente da Palavra de Deus (Ec 11.6). Isso não apenas com os seus lábios, mas também através do testemunho pessoal e da literatura (Fp 1.18). Cristo morreu e ressuscitou para nos salvar de nossos pecados. Agora, todo aquele que nEle crê, e for batizado, não mais será condenado, antes receberá a vida eterna (Mc 16.16; Ef 1.13,14).

2. Jesus e a ordem para pregar.

Recordando que Evangelho significa “boas novas”, “boa notícia”, e que tal boa notícia nada mais é que a salvação em Jesus (Mt 28.18-20; Mc 16.15-18), todos precisam ouvir o evangelho. Jesus nos encarregou de contar as boas notícias às pessoas à nossa volta, pois o evangelho é uma notícia tão boa que não podemos guardar só para nós!

3. A importância de pregar o Evangelho.

É muito importante pregar o evangelho, para que mais pessoas ouçam, creiam e sejam salvas (Rm 10.14,15). Aplicando-se espiritualmente, todos aqueles que seguem a Cristo devem estar sempre ensinando a Palavra, pois quanto mais ela é plantada nos corações, maior a colheita (1Co 3.6,7). É preciso, porém, saber que o que semeia a Palavra (v.14) o faz em todas as qualidades de solo (Is 32.20; Mc 16.15), semeia a Palavra sem observar o vento, nem as nuvens (Ec 11.4-6), semeia a Palavra sem gastar tempo com outra coisa (2Tm 2.4).


CONCLUSÃO

Como vimos, atualmente somos os semeadores, ou seja, a mesma Palavra de Deus pode ser plantada em nossos dias. Todavia, como na parábola, os resultados serão determinados pelo coração daquele que ouve. Lembremos que o nosso papel é pregar e o do Espírito, convencer os pecadores (Jo 16.8-11).



SUBSÍDIO EVANGELÍSTICO

“Ganhar almas foi a suprema tarefa do Senhor Jesus aqui na terra (Lc 19.10; 1Tm 1.15). Paulo, o grande homem de Deus, do Novo Testamento, tinha o mesmo alvo e visão (1Co 9.20). Uma grande parte dos crentes pensa que a obra de ganhar almas para Jesus está afeta exclusivamente aos pregadores, pastores e obreiros em geral. Contentam-se em, comodamente sentados, ouvir os sermões, culto após culto, enquanto os campos estão brancos para a ceifa, como disse o Senhor da seara em João 4.35. O ‘ide’ de Jesus para irmos aos perdidos (Mc 16.15), não é dirigido a um grupo especial de salvos, mas a todos, indistintamente, como bem revela o texto citado. Portanto, a evangelização dos pecadores pertence a todos os salvos” (GILBERTO, Antonio. A Prática do Evangelismo Pessoal. 14ª Edição. RJ: CPAD, 2003, p.10).

Fonte:
Livro de Apoio – As Parábolas de Jesus - As verdades e princípios divinos para uma vida abundante - Wagner Tadeu dos Santos Gaby e Eliel dos Santos Gaby
Lições Bíblicas 4º Trim.2018 - As Parábolas de Jesus - As verdades e princípios divinos para uma vida abundante - Comentarista: Wagner Tadeu dos Santos Gaby

Aqui eu Aprendi!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Parábola do Semeador

O Semeador

O capítulo 13 de Mateus registrou sete parábolas de Cristo proferidas nas cercanias de Cafarnaum, junto ao mar da Galiléia. Geralmente, Jesus subia na popa de algum barquinho; outras vezes, em terra, colocava-se em algum ponto mais alto, tendo diante de si a planície de Genesaré, e então ministrava ao povo que afluía para ouvi-lo. Forma de comunicação típica do povo do Oriente Médio, em especial na Palestina, o Mestre usava muitas figuras de linguagem para transmitir seus ensinos. Porém, o método mais utilizado foi a linguagem por parábolas.

Jesus foi especialista em usar linguagem figurada. Por esse método de comunicação, Ele conseguia ilustrar as verdades espirituais e morais que desejava ensinar. Para cada parábola, Cristo tinha uma lição especial. E na Parábola do Semeador deixou-nos uma das mais extraordinárias lições sobre os tipos distintos de corações (solos, terrenos), os quais recebem a semeadura.

O versículo 3 diz que Jesus “falou-lhe de muitas coisas por parábolas”. O termo parábola vem da língua grega, e significa, “colocar coisas lado a lado, para que se perceba as semelhanças”, ou pode ser definido como “uma comparação ilustrativa na forma de narrativa”. Jesus, portanto, contava suas parábolas a partir de fatos da vida cotidiana. Nesta parábola, Cristo se volta para a vida agrícola da Palestina a fim de ilustrar a receptividade do Reino de Deus no coração das pessoas.

O SEMEADOR

Antes de qualquer interpretação especulativa e secundária devemos considerar o sentido original do ensino que Jesus queria transmitir àquele povo. Visto que Ele estava contrastando os inimigos do Reino com os verdadeiros discípulos, conforme está retratado no capítulo 12, Mateus organiza seus registros de forma especial e conecta com o capítulo 13, no qual Jesus ensina por parábolas (Mt 13.1-3).

O que aprendemos e interpretamos inicialmente nesta parábola? O contexto da parábola indica o próprio Cristo como “o semeador”. No texto está escrito que: “o semeador saiu. a semear” (v. 3). Por quê? Ao analisar as circunstâncias anteriores no capítulo 12, vemos que Jesus havia se deparado com muita oposição e dureza de coração daqueles ouvintes. Sua mensagem não havia sido bem aceita, especialmente pelos escribas e fariseus que sempre buscavam algo para acusá-lo. Muitas pessoas foram até Ele, e já era o fim da tarde quando Cristo entrou num pequeno barco e dali passou a falar à multidão desejosa (por meio de parábolas) pelos seus ensinos. O ponto de partida da interpretação acerca de quem era o semeador tem um caráter particular, porque indica subjetivamente o próprio Cristo como “o semeador”. Todavia, essa característica particular da interpretação não impede que se dê um sentido genérico aos cristãos como “semeadores”. Não acrescenta nem fere os princípios hermenêuticos que regem a interpretação dessa parábola.

Nesta parábola Jesus teve como objetivo principal mostrar a diferença dos corações quanto à recepção da Palavra de Deus. Era o próprio Cristo revelando a rejeição ao seu ministério por parte dos judeus. Na parábola seguinte, a do Joio e do Trigo (Mt 13.36-43), Jesus se identifica (v.37) como aquele que “semeia a boa semente”. Antes dEle, outros haviam atuado como semeadores da Palavra, especialmente no Antigo Testamento. Porém, foi Jesus, que a si mesmo se referiu como o “Filho do Homem”, para distinguir-se dos demais em singularidade, quem podia e sabia como semear em quaisquer terrenos. A expressão “Filho do Homem” revelava, de modo especial, a humanidade de Jesus, como ser gerado no ventre de uma mulher, sendo, porém, sua geração operada pelo Espírito Santo. Ele é o “semeador” que veio para fazer diferença dos demais “semeadores” (Jo1.11,12).

Espírito Santo também é um semeador da boa semente. Ele é o que inspira os semeadores ao serviço da semeadura e quem rega a semente lançada. Cristo declarou acerca do Espírito e o seu trabalho na vida do pecador: “O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). Entendemos que essa passagem implica, metaforicamente, numa ação do Espírito semeando a Palavra de Deus. Não significa que o Espírito faça o nosso papel de “semeadores”, ou seja, evangelizadores, mas é Ele quem toca o nosso espírito e somos despertados para espalhar a semente. Como Cristo ascendeu ao Pai, Ele ainda ministra através do Espírito Santo seu Paracleto, e este ministra através dos crentes, nos quais opera pelo seu Espírito (Jo 14.26).

Os cristãos autênticos são os semeadores na dispensação da graça. A missão evangelizadora dos discípulos de Cristo é identificada em dois textos dos Evangelhos (Mt 28.19,20 e Mc 16.20). A missão de Cristo foi a de um semeador e Ele a passou aos seus discípulos, os quais semeiam em toda a terra desde então. O que Jesus começou a ensinar, seus discípulos deram continuidade (At 1.1). Na história inicial da igreja, surgiram outros grandes semeadores, entre os quais Paulo, que se declarava representante de Cristo como semeador, e dizia que: “vis­to que buscais, uma prova de Cristo que fala em mim, o qual não é fraco para convosco; antes, é poderoso entre vós” (2 Co 13.3). Paulo considerava seu ministério como uma semeadura de coisas espirituais (1 Co 9.11). Ao dar testemunho de sua conversão, o apóstolo usa a metáfora do vaso para ilustrar sua utilidade na expansão do nome de Jesus (At 9.15). Paulo, portanto, tornou-se um autêntico semeador da “boa semente” do evangelho de Cristo.

Todo crente em Jesus é um semeador da sua Palavra e, indubitavelmente, encontrará os mais variados tipos de solos para receber a boa semente. Fomos salvos para servir e semear a boa semente e devemos servir com amor e espírito sacrificial (SI 126.6).

Na ótica de Cristo não há uma mera preocupação com expansão e quantidade. Não era apenas a proporção da quantidade de sementes que lançamos sobre a terra, de qualquer maneira, sem critério. Para Jesus, não deveria haver inibição quanto ao ato de semear a boa semente, porque o que interessava mesmo era que a semente fosse semeada, a tempo e fora de tempo, em qualquer solo que estivesse disponível para se lançar a semente. Não se trata de um ato de semear aleatoriamente, mas um ato de confiança no poder da semente para encontrar alguma terra capaz de recebê-la e romper com as dificuldades de sua frutificação. Por outro lado, a falta de critério para a semeadura refere-se ao trabalho cuidadoso do semeador. Tudo o que o semeador tem de fazer é semear. Fazer que cresça a semente é algo que vai além de sua capacidade. É trabalho misterioso, sem a intervenção humana.

A SEMENTE

Os Evangelhos Sinóticos tratam, às vezes, das mesmas narrativas históricas ,porém com a visão do autor do Evangelho. Mateus, Marcos e Lucas narraram a mesma parábola e destacaram nuanças percebidas particularmente por cada um dos autores.

Mateus descreve a “semente” como “a palavra do reino” (Mt 13.19);

Lucas a descreve como “a palavra de Deus” (Lc 8.11);

Marcos, simplesmente, como “a palavra” (Mc 4.15).

Na ótica de Mateus, “a palavra do reino” referia-se à natureza e exigências do Reino messiânico desejado e esperado pelos judeus, mas incompreendido e, de certo modo, rejeitado por eles. Jesus mesmo interpretou sua parábola e destacou alguns solos nos quais as sementes lançadas não germinaram. Ele interpretou esses “terrenos” (solos) como aqueles que não “compreendem ” a sua mensagem ou como aqueles que a rejeitam (Mt 13.13).

Jesus também quis mostrar aos seus discípulos que a semeadura da “boa semente” não podia ficar restrita a um solo específico, ou seja, a um grupo étnico, no caso, os judeus. mas teria uma dimensão global, como está escrito: “Portanto ,ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28.19). A lição básica dessa parábola é que é preciso semear toda a semente. Toda a semente refere-se, essencialmente, à plenitude da mensagem do evangelho da graça de Deus que é Jesus Cristo (At 20.24,25). O evangelho é a semente viva, poderosa, que ultrapassa qualquer elemento físico porque “é poder de Deus para salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). A Bíblia diz que esta “ semente” é “ Viva “ e “incorruptível” (1 Pe 22-25); tem poder e produz fé (Rm 1.16; 10.17); é celestial e divina (Is 55.10,11); imutável e eterna (Is 40.8); pode ser enxertada e salvar (Tg 1.18,21).

Outro aspecto importante que se percebe é que no campo das similitudes tanto o semeador quanto a semente significam o mesmo elemento, que é “a palavra de Deus”. Ora, a Bíblia é a Palavra de Deus tanto quanto Cristo é a Palavra divina. Se a Bíblia é a Palavra viva de Deus, portanto, está cheia de Cristo, que é o Verbo de Deus enviado para salvar o mundo (Jo 1.1). Jesus é o logos de Deus, “o Verbo divino que estava com Deus... se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1.14). Ele mesmo é a semente. A Palavra escrita dá testemunho de que veio como a Palavra viva (Jo 5.39). Os que recebem “a semente” (a Palavra, Cristo), recebem a vida, porque têm vida em seu nome (Jo 20.30,31). Portanto, a semente que semeamos na terra dos corações humanos não só é a “semente de Cristo”, como também é o próprio Cristo. A semente do Reino dos céus é Ele mesmo, o Rei.

A TERRENO PARA O PLANTIO (M t 13.4-8)

Jesus apresentou sua parábola com muita criatividade, pois destacou quatro tipos distintos de terrenos nos quais a semente podia ser semeada. Figurativamente, o terreno onde cai a semente é o coração das pessoas e a receptividade à semente se apresenta de maneiras diversas. O que aprendemos nesta parábola é que o coração humano é como um terreno que pode receber uma semente e produzir fruto, como também poderá desenvolver dureza e rejeição a qualquer tipo de semente. No plano espiritual, o terreno do coração das pessoas é também espiritual, todavia pode desenvolver disposições favoráveis ou contrárias à recepção das coisas espirituais. Por causa da natureza pecaminosa e rebelde adquirida pelo homem, a disposição do seu coração tornou-se rebelde e endurecida. O que Jesus nos mostra na Parábola do Semeador é que a semente é lançada em quatro tipos de terrenos, mas nem todos serão receptivos à "boa semente”.

O terreno “ao pé do caminho” (w . 4,19)

Naquela época, Jesus procurou conduzir a mente dos seus ouvintes aos caminhos feitos por entre os campos, como podemos exemplificar com o texto de Mateus 12.1, que diz: “Naquele tempo, passou Jesus pelas searas, em um sábado; e os seus discípulos, tendo fome, começaram a colher espigas e a comer”. Em suas viagens, Jesus passava por muitos lugares, nas montanhas, nos desertos, às margens do mar da Galileia, junto aos rios e, especialmente, nos caminhos poeirentos entre as plantações, de trigo, cevada, aveia e outros grãos. O povo israelita aproveitava todo o espaço de terra cultivável, porque era pouco para cultivá-lo. Da experiência vivida por aquelas terras, Ele sabia tirar proveito para ensinar verdades profundas com ilustrações da vida cotidiana. Por isso. Cristo tirava lições da vida pesqueira, da agricultura e até da pecuária.

Nesta parábola, em especial, suas andanças pelas terras agricultáveis lhe deram, uma, visão dos vários tipos de terras que podem receber sementes e frutificarem ou não. Na sua percepção, Ele notou, um tipo de terreno que não era acessível à semente: era a terra “ao pé do caminho”. As sementes lançadas objetivamente ou as que caíam naquela terra batida “por acaso” não penetravam a terra,, então os pássaros as comiam, porque estavam expostas sobre aquela terra dura ao pé do caminho.

Que classe de ouvintes é comparada a esse tipo de terreno? Segundo o próprio Cristo definiu no versículo 19, é aquela classe de pessoas que ouve a Palavra de Deus e não a entende, nem se esforça para entendê-la. É a classe de ouvintes-terra-dura. Na realidade, nos parece que são pessoas displicentes com as coisas de Deus e acham que não precisam se preocupar com isso. O terreno “ao pé do caminho” é batido e pisado pelos transeuntes da vida. E, portanto, terreno duro, impenetrável e inacessível. São muitas as influências exteriores que alcançam o coração humano e influenciam sua vida.

As “aves” que vêm e comem as sementes expostas naquela terra dura representam o quê? Jesus mesmo dá a resposta, quando diz: “Ouvindo alguém a palavra do Reino e não a entendendo, vem o maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração; este é o que foi semeado ao pé do caminho” (Mt 13.19). O Mestre interpreta essas aves como sendo “o maligno”. E quem é o tal? Em toda a Bíblia a palavra “maligno” refere-se ao Diabo e aos demônios sob seu domínio, Segundo o dicionário Aurélio, “maligno” deriva do latim e significa “ser propenso para o mal, ser maléfico, mau, nocivo, pernicioso, danoso”. Esses elementos identificam a pessoa do Diabo. Em Marcos 4.15, o próprio jesus denuncia Satanás como o ladrão da semente da Palavra de Deus para que o pecador não a receba (Jo 10.1,10). As aves do céu que arrebatam a semente lançada no coração precisam ser enxotadas.

As “aves do céu” podem representar os agentes espirituais da maldade que são acionados para impedirem o progresso do “reino de Deus na terra” (Ef 6.10-13). Esses demônios atuam de várias maneiras, com as mais diferentes características para enganar e seduzir os incautos. Essas “aves” podem representar homens ou mulheres usados por Satanás para pisarem a terra do coração das pessoas, influenciando suas mentes com artifícios intelectuais e ateístas, ou com idolatria, para lhes fechar e endurecer o coração.

O ouvinte representado pelo terreno ao pé do caminho é, na verdade, o de coração fechado. E uma classe de pessoas que recebem a semente com o ouvido, mas não permitem descer ao coração. A semente fica exposta na flor da terra, na camada exterior, e não entra para o interior. Lamentavelmente, temos esse tipo de crentes no seio da igreja que, a despeito de participarem de atividades sociais e religiosas, são pessoas sem percepção espiritual. Nada do que acontece no terreno espiritual as sensibiliza porque são desprovidas de uma experiência interior profunda. A semente não pode penetrar nem germinar, e então fica exposta para que “as aves do céu”, que representam os agentes do mal, a arrebatem. A Palavra não surte efeito.

O terreno cheio de “pedregais” (w . 5,6,20,21)

Esse é o tipo de ouvinte que recebe inicialmente bem a Palavra de Deus, mas tem pouca duração, porque onde há pedregulhos o solo é movediço e não permite criar raízes. Na realidade, esse tipo é aquele que facilmente se emociona com o que ouve, porém os obstáculos da vida impedem que a Palavra germine no seu coração. É o tipo de pessoa que chora quando ouve a Palavra, faz confissões de necessidade, mas não consegue se desvencilhar das pedras de sua vida pessoal. A semente é recebida, contudo não cria raízes. Essas pessoas recebem a semente na camada de cima da terra, isto é, na camada emocional do coração, todavia não deixam penetrar a terra. São pessoas entusiastas que se comovem com facilidade e gostam de ouvir a mensagem do evangelho. No entanto, são pessoas superficiais, cuja fé é temporal e frágil, incapazes de superar dificuldades.

As pedras neste terreno podem representar problemas de ordem moral. vícios, maus hábitos de caráter e pecados recorrentes. Nota-se uma diferença na forma de receber a semente nos dois primeiros tipos de terrenos (ou solos). O terreno “ao pé do caminho” é o endurecido, fechado, compacto, que não dá espaço para mais nada. São as pessoas que não entendem a Palavra. Porém, o segundo tipo de terreno é cheio de pedras. Esse terreno é o coração daqueles que, imediatamente, entendem a Palavra, mas de modo superficial. São pessoas que têm dificuldades em administrar seus sentimentos e emoções, por isso, são volúveis e medrosas. Estão sempre resvalando em alguma dificuldade que não sabem resolver. Muitos cristãos vivem na superficialidade espiritual, pois imaginam que por se emocionarem num culto com uma mensagem ou um cântico não precisam de mais nada, por isso não se esforçam para tirar as pedras. De suas vidas. Eles recebem a semente naquele momento (v. 20) e ela até chega a brotar de imediato (v. 4), mas não desenvolve suas raízes. E típico do “cristão-pedregulho”. que está sempre buscando novidades e não se firma na fé. A hipocrisia acaba sendo uma característica desse tipo de crente, sempre propenso a grandes emoções, manifestando-as com frequência nos cultos da igreja. Ao calor de um culto de adoração de louvor, ele manifesta fervor e faz demonstrações de profissão de fé, mas passando aquele momento, volta a ser o mesmo cristão inseguro de sempre, facilmente “levado por ventos de doutrina e vãs filosofias”. Ainda que deseje frutificar, ele não consegue, porque não possui raízes profundas em si mesmo. São pessoas de convicções duvidosas, inseguras e frágeis. Não suportam tribulações e provas, e com facilidade tropeçam e caem.

O terreno cheio de “espinhos” (w . 7,22)

Diz o texto literalmente: “E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na”. Na língua grega, a palavra “espinho” é akantha, que se refere a “planta espinhosa”, típica das terras do Oriente Médio. Por exemplo, a coroa de espinhos que os romanos fizeram para Jesus era, de fato, uma “coroa de akanthon” (Mt 27.29). Esse tipo de planta espinhosa se espalha e se dimensiona sobre a terra de tal forma, que outras plantas não subsistem naquele terreno. Geralmente, esse tipo de solo é constituído de rochedos elevados cobertos de pouca terra. Sobre ele é fácil encontrar essa planta de akanthon (de espinhos) e lançar sementes frutíferas. Às vezes, uma ponta de terra que entra pelo mar e é cercada de águas por todos os lados. Naquela ponta de terra rochosa crescia muita planta de espinhos. O autor da Carta aos Hebreus escreveu o seguinte: “Porque a terra que embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada recebe a bênção de Deus; mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Hb 6.7,8). Entende-se, portanto, que esse tipo de terreno torna inútil o trabalho do semeador. É interessante notar que a semente lançada ali encontrou possibilidade de germinar, mas logo foi sufocada pelos espinhos.

A semelhança dos problemas típicos do terreno pedregoso, esse terceiro também é cheio de obstáculos e estorvos. Jesus quis de fato dar um destaque especial a esse terreno porque esses espinhos sufocaram a semente (v. 22).

Que tipos de espinhos podem sufocar a “boa semente”? O texto de Mateus 13.22 apresenta dois tipos de espinhos e Lucas 8.14, três.

Mateus indica “os cuidados deste mundo” e “a sedução das riquezas”, e Lucas considera três: “cuidados, riquezas e deleites da vida”. Todos esses espinhos estão, na verdade, na mesma dimensão.

Na primeira expressão — “cuidados deste mundo” — , Mateus coloca em destaque duas palavras: “cuidados” e “mundo”. A primeira delas fala de preocupações secundárias que acabam dominando a mente e o coração das pessoas, sem deixar espaço para a prioridade maior que é o “reino de Deus”. Essas preocupações sufocam a floração e a frutificação da Palavra de Deus, que é a fonte de toda a vida e de toda fecundidade. Muitos cristãos não frutificam na vida cristã porque vivem sufocados pelas preocupações da vida. Não têm tempo para as coisas de Deus.

A segunda palavra significa um sistema espiritual invisível que oferece às criaturas toda sorte de coisas que roubam o espaço da relação e comunhão com Deus.

A segunda expressão — “a sedução das riquezas” — refere-se à possessão de riquezas que têm sufocado a vida espiritual de muitos irmãos que não têm tempo, para a oração, meditação e comunhão com Deus. A participação nas atividades da igreja torna-se nula porque “a sedução das riquezas” toma o primeiro lugar em suas vidas. Paulo exortou sobre o perigo que correm os “que querem ficar ricos” (1 Tm 6.9).

A terceira expressão — “os deleites da vida” — encontra- se em Lucas, como já mencionado anteriormente. Sem dúvida, os deleites propiciados pela prosperidade material induzem as pessoas à arrogância e à presunção. A busca desmedida por prosperidade material facilita o caminho das tentações e, inevitavelmente, o lugar da Palavra de Deus é sufocado no coração dessas pessoas. Nos tempos modernos, quando a equivocada teologia da prosperidade é pregada e ensinada como descoberta de se ficar rico, a verdadeira teologia é abandonada. A prosperidade material deveria ser um modo de servir melhor a Deus e não para produzir sentimentos presunçosos no coração daqueles que se imaginam mais abençoados que os outros.

O terreno da “boa terra” (w . 8,23)

A quarta classe destacada por Jesus é o que chamaria de ouvintes-boa-terra porque são aqueles que ouvem e compreendem a Palavra de Deus e dão frutos. A “boa terra” recebe a semente porque é macia, profunda, sem pedras e limpa. É a terra fértil e fofa que recebe a semente e é propícia à sua germinação e desenvolvimento. Pelo menos três características, são manifestadas nesse tipo.de terreno.

Primeiro, as pessoas ouvem e entendem a Palavra. Geralmente, tais pessoas são sensíveis às coisas espirituais. São desejosas de conhecer e aprender porque suas raízes são profundas. Segundo as pessoas tornam-se frutíferas. Essa atividade frutífera é demonstrada por uma dinâmica interior da semente plantada e pela qualidade da terra. Jesus destaca essa dinâmica quando diz:“... e deu fruto: um, a cem, outro, a sessenta, e outro, a trinta” (Mt 13.8).
Quando a Palavra (a semente) penetra fundo a terra do coração, ela produz bons frutos, que é o resultado das convicções firmes no poder da Palavra (Jo 15.8'). Em Terceiro lugar, as pessoas tornam-se frutíferas independentemente da quantidade ou proporção. Não importa quem produz mais ou menos. O que importa é que produzamos o suficiente para alcançar muitas pessoas (SI 1.3). Porém, há um detalhe que indica que certos grãos rendem mais que outros. Isto não significa qualquer privilégio propiciado ou discriminativo. No mundo em que vivemos, algumas pessoas produzem mais que as outras, e no Reino de Deus é a mesma coisa. O importante é que todos produzam, independentemente da quantidade. A proporção é equivalente à capacidade individual de cada “grão” (semente) produzir ou não.

Os estudiosos têm procurado entender o texto de Mateus 13.8, que destaca as proporções de produtividade das sementes semeadas. O famoso teólogo Fausset interpreta esse texto da seguinte forma: “trinta por um” designa o nível menor de frutificação; “sessenta por um”, o nível intermediário de frutificação; “cem por um”, o mais elevado nível. Um outro teólogo comentou esse texto da seguinte maneira: “Assim como os níveis dos ouvintes sem fruto eram três, também é tríplice a abundância de frutos. Aqueles que tinham, foi-lhes dado”. A semente plantada em nossos corações germinará e frutificará mediante a nossa disposição para produzir. Todavia, a lição maior desta parábola não é simplesmente frutificar, o que está relacionado com a disposição para querer aprender e entender a Palavra de Deus. É o entendimento intelectual e espiritual da Palavra que produzirá algum fruto. Essa parábola tem a ver com a nossa capacidade de ouvir, entender e obedecer .Nossa receptividade à Palavra “descortinará a verdade na justa proporção do entendimento dos homens”. Só entenderemos as verdades profundas do Reino de Deus mediante nossa receptividade. Jesus falou em “mistérios do reino”, indicando que nem todos conheceriam esses mistérios, mas aqueles para os quais fossem revelados. A uns o entendimento é menor e mais lento; a outros, é mais amplo e claro, tal como a palavra declara: “trinta por um, sessenta por um e cem por um”. Na igreja, os crentes são distintos membros do Corpo de Cristo (1 Co 12.12,27) e, naturalmente, cada membro deve cumprir o seu papel dentro do Corpo. Por isso, podemos entender que cada pessoa produzirá “a boa semente” na medida da sua capacidade de frutificar. Não há espaço para ciúmes ou invejas, desde que cada um produza à proporção de seu, entendimento dos “mistérios da Palavra de Deus”.

CONCLUSÃO

Aprendemos com esta parábola do semeador que existem três tipos de solos que representam obstáculos para germinar, crescer e desenvolver. Em termos de desenvolvimento cristão, no primeiro solo o cristão não se desenvolve; no segundo, a semente é frustrada quanto à germinação; no terceiro, encontra um pouco de terra, mas é sufocada pelos espinhos; e no quarto, ela encontra terra capaz de germiná-la e fazê-la crescer e frutificar.

Fonte: Parábola de Jesus - Advertências para os dias de hoje - Elienai Cabral

Aqui eu Aprendi!

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Como os Pentecostais interpretam a Bíblia

“Escondi a tua palavra no meu coração, para eu não pecar contra ti” Sl 119.11

“Nós, pentecostais, nunca vimos o abismo que separa o nosso mundo do mundo do texto em sentido geral. Combinar nossos horizontes com o do texto ocorre naturalmente, sem muita reflexão, em grande parte porque o nosso mundo e o do texto são bastante semelhantes. Tendo em vista que os teólogos e acadêmicos ocidentais dos últimos dois séculos empregaram grandes esforços para saber como interpretar os textos bíblicos que falam da atividade milagrosa de Deus, os pentecostais não foram afligidos com esse tipo de mal-estar. Enquanto Rudolph Bultmann desenvolveu sua demitologização ao Novo Testamento, os pentecostais silenciosamente oravam pelos enfermos e expulsavam demônios. Enquanto os teólogos evangélicos, seguindo os passos de B. B. Warfield, procuravam explicar por que devemos aceitar a realidade dos milagres registrados no Novo Testamento, mas, ao mesmo tempo, não esperar que ocorram hoje, os pentecostais estavam testemunhando que Jesus operava ‘prodígios e sinais’ contemporâneos quando estabeleceu a igreja.
Não, a hermenêutica da maioria dos crentes pentecostais não é exclusivamente complexa. Não está cheia de questões sobre a confiabilidade histórica ou repleta de cosmovisões ultrapassadas. Não é excessiva mente reflexiva sobre os sistemas teológicos, a distância cultural ou as estratégias literárias” (MENZIES, Robert. Pentecostes: Essa História é a Nossa História. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2016, pp.21,22).

Existem vários métodos de interpretação das Sagradas Escrituras, porém não podemos nos esquecer de que precisamos compreender o texto sagrado corretamente e praticá-lo (Tg 1.22). Muitos veem o livro de Atos, e algumas partes da Bíblia, apenas como uma narrativa histórica com acontecimentos que fizeram parte somente de uma época da história da Igreja, como por exemplo, o batismo com o Espírito Santo. A falta de conhecimento leva as pessoas a rejeitarem e a falarem mal daquilo que não conhecem com profundidade. Que a aula de hoje venha contribuir para que seus alunos tenham uma visão correta a respeito do livro de Atos e da forma como o interpretamos. Pois, o Espírito Santo não é um mito, uma força, um vento. Ele é a Terceira Pessoa da Trindade que foi enviado a este mundo com uma missão específica: convencer o homem do pecado, da justiça, do juízo e edificar os crentes e a Igreja do Senhor mediante a concessão de dons espirituais.

Ler a Bíblia de forma correta é importante não apenas para que entendamos perfeitamente a sua mensagem, mas também para que a pratiquemos.

Texto Bíblico - Atos 2.1-13

INTRODUÇÃO

Um dos maiores desafios dos grupos cristãos evangélicos tem sido a leitura da Bíblia e a sua correta interpretação. A forma como vão expor seus ensinos e principalmente aplicá-los, depende da maneira como leem e interpretam as Sagradas Escrituras. Por isso, há regras que norteiam a interpretação da Bíblia, dirigindo o leitor não apenas ao perfeito entendimento do texto bíblico, mas acima de tudo, motivando-o à aplicação correta. Se lermos o texto sagrado e o interpretamos de maneira imprópria, a aplicação também será imprópria. E de que forma os pentecostais leem a Palavra de Deus? Sua interpretação acerca dos textos de Atos, sobre a vinda do Espírito Santo e o falar em línguas, é correta? Será que os dons espirituais seriam para os nossos dias? As respostas a essas perguntas passam pelo processo de leitura e interpretação corretas da Palavra de Deus.

I. POR QUE LER E INTERPRETAR A BÍBLIA CORRETAMENTE

1. Ler corretamente para entender corretamente.

Um dos segredos para uma vida cristã sadia é o correto entendimento do texto sagrado. Se pensarmos que a Bíblia foi produzida em um contexto diferente do nosso, devemos então acatar princípios que nos ajudem a entendê-la. Para isso, a Teologia elaborou um método que direciona de forma acertada como um cristão deve ler a Bíblia. E por qual motivo isso foi feito? Para que todo cristão, em sua leitura, leve em conta os princípios que lhe permitirão aplicar a leitura bíblica às suas vidas. O desafio de ser um praticante da Palavra de Deus passa, portanto, pela interpretação correta. Não temos dúvida de que certos textos têm uma aplicabilidade imediata, pois não necessita de muitas explicações para a sua compreensão, já que a mensagem traz elementos que são conhecidos de praticamente todas as pessoas, como por exemplo, os Dez Mandamentos: “Não adulterarás”; “Não furtarás”; “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êx 20.14-16). Outros textos, como o que se refere a Melquisedeque em comparação ao Senhor Jesus, “rei de justiça e depois também rei de Salém, que é rei de paz; sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida” (Hb 72.3), precisam de uma explicação, pois corremos o risco de entendermos que Melquisedeque surgiu do nada, que não teve pai ou mãe. Na verdade, a genealogia de Melquisedeque não é apresentada no texto sagrado, mas ele, como qualquer ser humano, tinha pai e mãe.

O entendimento correto de um texto passa pela sua leitura correta. Tais princípios não têm por objetivo cercear a leitura da Palavra de Deus, e sim fazer com que essa leitura se enquadre dentro do objetivo que o escritor tinha quando foi inspirado a materializar a revelação de Deus de forma escrita.

2. Ler corretamente para ensinar e aplicar.

Um dos propósitos da leitura correta das Escrituras é o ensino correto dela. Se uma leitura e interpretação do texto sacro forem dirigidas por premissas equivocadas, tais premissas acarretarão um ensino equivocado da Palavra de Deus. Por sua vez, um ensino equivocado traz práticas equivocadas e danosas para a Igreja de Cristo. Não é à toa que, ao longo do texto sagrado, Deus se encarrega de usar seus servos para que exortem o seu povo a que pratiquem obras corretas e vivam uma existência que, efetivamente, agrada a Deus. Cremos que quando Deus inspirou os escritores a redigirem o texto sagrado, Ele o fez para que a sua vontade fosse praticada (2Tm 3.16,17).

3. O respeito para com o texto sagrado.

Deus, ao inspirar seus servos a que escrevessem sua Palavra, o fez em um contexto diferente do nosso. A Bíblia não foi escrita em nenhuma versão em português do século XXI, no Brasil. Foi escrita em pelo menos três línguas diferentes: o hebraico, o grego e algumas porções em aramaico. Homens em posições sociais diferentes, lugares diferentes e em tempos diferentes compuseram o texto que temos hoje em mãos, e para que haja uma correta interpretação desses textos é preciso que respeitemos essas observações. O cristão cuidadoso vai ler o texto sagrado estudando o contexto em que a Escritura foi produzida.

II. COMO O PENTECOSTAL LÊ A BÍBLIA

1. Privilegiando o texto primeiramente na sua literalidade.

Crentes pentecostais valorizam a literalidade do texto. Se Jesus disse que em seu nome expulsaríamos demônios, pentecostais não discutem se é possível ou não a libertação de pessoas possessas por espíritos imundos em nossos dias. Simplesmente oram e, crendo nas palavras de Jesus, expulsam demônios. Se Jesus disse que em seu nome seus discípulos falariam em novas línguas, pentecostais entendem que tal evento seria cumprido por Deus (Mc 16.14-20).

É evidente que pentecostais não atribuem literalidade a um texto que não deve ser entendido literalmente. Há textos cujo sentido é figurado, como no caso em que Jesus disse que Ele era a porta, o caminho, o pão do céu. Entendemos que o Senhor se valeu de elementos conhecidos do seu tempo para comunicar verdades por meio de comparações, e que esses elementos não são sempre literais.

O que não se pode é acreditar que. no processo de interpretação da Bíblia, podemos mudar as regras conforme a nossa conveniência.

2. Respeitando o contexto histórico e os gêneros literários.

A Palavra de Deus teve sua escrita encerrada há pouco menos de dois mil anos. Portanto, há um hiato de tempo entre nós e os acontecimentos descritos na Bíblia que deve ser observado na leitura e interpretação do texto, pois não se pode esquecer que o tempo, os costumes, a forma como viviam os homens e mulheres daquela época eram diferentes dos nossos.

Na Bíblia há textos históricos que registram acontecimentos dentro e fora de Israel, para que fossem conhecidos pelas gerações seguintes (Dt 6.20,21).

Há, na Bíblia, poesia descrita com sensibilidade por pessoas que registraram suas emoções com alegria, tristeza, desapontamento e contentamento, mas também confiança em Deus (Sl 42.10,11).

Há textos proféticos nos quais Deus usa seus servos para declarar o que ocorrerá no futuro e advertir seu próprio povo a que viva uma vida justa o honre ao Senhor com uma adoração genuína e respeite seus irmãos (Mq 6.8).

A Bíblia traz cartas dos apóstolos a pessoas e a igrejas, tendo em vista que os leitores, que agora professavam uma nova fé, precisavam ser instruídos sobre como poderiam viver neste mundo. Esses detalhes precisam ser respeitados no momento da leitura da Bíblia, ou faremos interpretações equivocadas da revelação divina.

3. Entendendo que a Bíblia é a Palavra de Deus.

Crentes pentecostais consideram a Bíblia como a Palavra de Deus. Isso implica reconhecer igualmente que a chamada revelação escriturística se completou com o encerramento do Cânon, e que qualquer outra revelação trazida por meio intelectual ou por dons espirituais precisa se curvar à revelação inspirada por Deus em sua Palavra. Cremos que Deus, para a edificação da Igreja, concede dons espirituais que podem trazer, eventualmente, novas diretrizes a grupos ou pessoas, mas nenhuma revelação trazida em nossos dias, seja por profecia, seja pela palavra do conhecimento, pode ser entendida como sendo da parte de Deus se estiver contrária ao que o Senhor já declarou em sua Palavra.

III. O LIVRO DE ATOS — DESCRITIVO OU PRESCRITIVO

1. A ação do Espírito Santo na Igreja.

O livro de Atos recebe esse nome por ser o registro dos feitos dos apóstolos após a ascensão de Jesus, mas acima de tudo, é o registro dos atos do Espírito Santo na Igreja e por meio dela. Lucas não apenas se preocupa em registrar o crescimento da Igreja, mas também a forma com que Deus agia para que a mensagem do Evangelho transformasse pessoas e fizesse crescera Igreja (At 2.47b).

2. A interpretação de Pedro.

Por ocasião da descida do Espírito Santo no cenáculo, com o sinal de falar outras línguas que transmitiam as grandezas de Deus, o apóstolo Pedro não hesitou em atribuir o fato à profecia de Joel, de que o Espírito de Deus seria derramado em toda a carne. É curioso o fato de que haja crentes em nossos dias que não veem problema na forma como Pedro aplicou a passagem de Joel ao que havia acontecido no Dia de Pentecostes, mas rejeitam que esse derramamento do Espírito de Deus é para os nossos dias. Se examinarmos bem as Escrituras, veremos que tanto Jesus quanto os discípulos conheciam a Palavra e a interpretavam de forma correta.

3. Atos é descritivo ou prescritivo?

Essa é uma questão que precisa ser entendida, a fim de que olhemos o livro de Atos como mais do que um livro de história. Quando dizemos que o livro de Atos é meramente uma descrição do que se passou nos primeiros 35 anos da Igreja, queremos dizer que a sua narrativa serve somente de registro histórico, e que não tem a intenção de indicar que os eventos iniciados pelo Espírito Santo devem se repetir em nossos dias. De acordo com essa possibilidade de interpretação, as línguas, as curas, as operações de milagres, revelações e outras ocorrências não deveriam ser correntes na Igreja de nossos dias, pois o livro de Atos tem caráter meramente descritivo. Mas se o livro de Atos tiver o caráter descritivo e prescritivo, então podemos crer que as experiências relatadas por Lucas podem se repetir em nossos dias e o Espírito de Deus é o responsável por milagres, curas e manifestação dos dons operados tanto na Igreja quanto no ministério pessoal.


CONCLUSÃO

Ler e interpretar corretamente a Palavra de Deus é um requisito necessário para que todo cristão cresça na vida espiritual e pessoal. Pentecostais leem as Sagradas Escrituras com zelo e esclarecimento, de maneira que busquem sempre a interpretação correta do texto sagrado. Esse cuidado se dá pela certeza de que a correta interpretação do texto gerará a correta aplicação, e esta redundará na vivência debaixo da vontade e da bênção de Deus.


Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 4º Trimestre de 2018 - Título: O vento sopra onde quer – O ensino bíblico do Espírito Santo e sua operação na vida da Igreja – Comentarista: Alexandre Coelho

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