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sábado, 25 de agosto de 2018

Jesus, o Holocausto perfeito

“Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” Hb 10.10

Jesus, o Holocausto perfeito

Nem toda oferta, ou oferenda, presente no sistema de sacrifício levítico, era sacrifício pelos pecados. Algumas delas tinham a função de expressar a comunhão com Deus ou ratificar uma aliança com Ele. Com o Holocausto já é diferente.

O que é o Holocausto?

Tragicamente, o termo se popularizou com o desumano e carniceiro “Holocausto Judeu”. Este foi um acontecimento histórico que representa o mais alto grau de antissemitismo no mundo, bem como a raiz contemporânea dele. Mais de seis milhões de judeus foram mortos, incinerados nos campos de concentração. Uma vergonha trágica para a humanidade do período contemporâneo.

Holocausto, na Bíblia, significa “oferta inteiramente queimada”. Era uma oferta dedicada inteiramente a Deus e, por isso, deveria ser integralmente queimada como expiação do pecado. O princípio por trás dessa oferta era o seguinte: para uma pessoa viver algo precisa morrer no lugar dela. Assim, era oferecido o gado, vacas e ovelhas (Lv 1.2). Estas ofertas deveriam ser queimadas inteiramente. Note, que não por acaso, o holocausto abre o livro do Levítico (Cap. 1). Sem dúvida, é a oferta que mais faz sentido com a entrega total do Filho de Deus, Jesus Cristo, na cruz do Calvário.

A transitoriedade do Holocausto

A oferta do Holocausto, como as demais, era transitória e insuficiente para resolver o problema do pecado, conforme escreve o escritor aos Hebreus: “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece perto está de acabar” (Hb 8.13). Graças a Deus!, hoje não é preciso mais queimar animal algum. Está consumado! Tudo pago!

Tudo se deu por intermédio da revelação do Verbo Encarnado. Nosso Senhor se tornou homem para se apresentar como um de nós. Um amor que não se pode medir fez tudo isso.

Além do Verbo Encarnado, nosso Senhor padeceu um sofrimento imenso porque tinha perfeita consciência de que Ele deveria morrer. Não!, nosso Senhor não morreu para servir de um grande exemplo para a humanidade, mas para salvá-la de uma vez por todas.

A morte e a ressurreição de nosso Senhor é o “clímax” de todo o plano divino para prover uma salvação suficiente e eterna para o seu povo. Cristo é o Holocausto perfeito porque, nEle, tudo o que era necessário para que o ser humano fosse salvo se realizou. Um Holocausto que gerou vida para todo o que crê! Estejamos em Cristo, o Holocausto perfeito! Revista Ensinador Cristão nº74

Os holocaustos da Antiga Aliança eram transitórios e imperfeitos, mas o sacrifício de Jesus Cristo é perfeito e eterno, porque Ele morreu e ressuscitou eficazmente por toda a humanidade.

Leitura Bíblica - Levítico 1.1-9

É importante que você conheça e compreenda o significado desse termo. A palavra holocausto vem do grego holokauston, de hólos, completo + kaio, eu queimo. O holocausto é um tema frequente e relevante no Antigo Testamento, por isso o livro de Levítico inicia com as instruções divina conferidas a Moisés a respeito dos sacrifícios que seriam oferecidos no Tabernáculo. Levítico mostra o tipo de sacrifício e a forma como deveria ser apresentado ao Senhor.

O Deus que tudo criou precisava do sangue de animais? Não! Tudo é dEle, contudo os holocaustos apontavam para o plano perfeito da salvação que o Pai já havia preparado antes da fundação do mundo. Eles expunham a verdade de que Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, morreria em nosso lugar. Seu sacrifício foi perfeito, único e superior a todos os holocaustos já oferecidos.



Só viremos a entender plenamente a obra da salvação, em Jesus Cristo, se nos voltarmos com devoção e temor à teologia do holocausto, o principal sacrifício levítico. Quando o ofertante apresentava essa oferta ao Senhor, encenava ele, de maneira vívida e dramática, a História Sagrada. Uma interface perfeita com João 3.16; sublime teologia. Quem melhor compreendeu a sua doutrina foi o autor da Epístola aos Hebreus. Inspirado pelo Espírito Santo, ele divisou, nos animais oferecidos periodicamente a Jeová, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Estudaremos, neste capítulo, a instituição do holocausto: história, teologia, referência simbólica e cumprimento em Jesus. Sem o sacrifício dos sacrifícios, não podemos entender o plano da nossa salvação. O presente estudo, por conseguinte, além de formalmente tipológico, é essencialmente soteriológico; requer uma exegese correta que harmonize profetas e apóstolos, pois estes jamais estiveram em desarmonia.

Que Deus nos permita a perceber a maravilhosa doutrina da salvação e a desenvolvê-la em nossa jornada terrena.

I. HOLOCAUSTO, O SACRIFÍCIO POR EXCELÊNCIA

Como já vimos, a religião noética gerou grandes santos e teólogos como Jó, Melquisedeque e Abraão. E, pelo que nos é permitido inferir do texto sagrado, cada um deles, em seu próprio turno, serviu a Deus com sacrifícios cruentos.

Nesse sentido, o rei de Salém, por ter uma teologia bem mais messiânica e soteriológica, foi além das oferendas animais. Ao receber o pai dos hebreus, em seu domicílio, Melquisedeque apresentou-lhe uma oferta que, em virtude de sua essência, unia o Antigo ao Novo Testamento. Neste tópico, mostraremos por que o holocausto é o ofertório por excelência.

1. Definição de holocausto.

O termo holocausto provém do vocábulo hebraico `olah, que significa ascender ou ir para cima. É uma referência tanto à fumaça da oferta queimada, em si, como à devoção e a entrega amorosa dessa mesma oferta ao subir à presença de Deus (Lv 1.9). Sacrifício dos sacrifícios. Foi por essa razão, que Paulo considerou o desprendimento dos irmãos filipenses, em favor da obra missionária, como um holocausto de cheiro suave ao Senhor (Fp 4.18).

O holocausto era o mais importante sacrifício do culto hebreu (Lv 1.1-3). Consistindo no oferecimento de aves e animais limpos, requeria a queima total da vítima; era pleno e incondicional (Lv 1.9). Tendo em vista a sua relevância, inaugurava todas as solenidades diárias, sabáticas, mensais e anuais do calendário litúrgico do Antigo Testamento.

O holocausto era conhecido também como oferta queimada.
Ao oferecê-lo ao Senhor, o crente hebreu fazia-lhe uma oração que, apesar da ausência de palavras, era eloquente e persuasiva; implicava em sua total submissão ao querer divino. Assim como a vítima do sacrifício dera-se ao altar sem resistência, assim também o fazia o adorador naquela instância; entregava-se resignadamente a Deus. Tal atitude remetia-o ao Calvário.

Jesus Cristo é o holocausto perfeito.
Quando nos conformamos plenamente à vontade do Filho, oferecemos ao Pai o mais sublime dos holocaustos; mostramos-lhe que, pela ação intercessora do Espírito Santo, já estamos crucificados com Cristo. A partir de agora, não sou eu quem vive, mas Jesus Cristo vive em mim.

2. A antiguidade do holocausto.

O holocausto é também o mais antigo sacrifício da História Sagrada. Introduzido mui provavelmente por Abel, foi observado durante todo o período do Antigo Testamento. É o cerimonial que mais caracteriza o culto levítico; descreve, gestualmente, a peregrinação da alma penitente da Queda, no jardim do Éden, à Redenção, no monte Calvário.

Pelo que depreendemos da narrativa sagrada, após a morte de Jó, o holocausto, como o praticara os primeiros descendentes de Noé, não demoraria a desaparecer. Manter-se-ia, porém, no clã de Abraão, o ramo mais nobre de Sem; messiânico e soteriológico.

Em Canaã, se o holocausto noético foi alguma vez oferecido, não tardou a dar espaço a celebrações sórdidas, lascivas e criminosas. Naqueles templos e lugares altos, dominados por régulos tiranos e sanguinários, prostituição e homicídio litúrgico eram livremente praticados. Já no Egito, sacrifícios como o holocausto eram algo impensável. Se bovinos e ovinos eram deuses, por que lhes tirar a vida?

Nas escavações arqueológicas realizadas nos entornos das pirâmides, animais mumificados são descobertos em nichos e santuários. Aqui, um macaco; ali, um falcão. E quanto ao boi? Era intocável; personificava a Terra. Imolá-lo? Sacrilégio dos sacrilégios aos olhos egípcios.

No Cairo, capital do Egito, existe um museu em que é possível constatar que os ídolos, nos quais Faraó depositava toda a sua confiança, eram absurdamente esdrúxulos. Cada um deles, embora tivesse corpo de homem, carregava uma cabeça de animal. Até deus com cara de cachorro pode ser visto ali entre múmias de reis e carcaças de nobres.

Já que a religião egípcia tinha o holocausto como algo abominável, como descrever-lhe a soteriologia? Para mim, semelhante religião nem soteriologia possui. O mais acertado seria qualificá-la de tanatologia: doutrina ou estudo da morte. Isso porque, no Egito, empregavam-se todos os recursos para dar a Faraó, após o seu falecimento, confortos, regalias e honras. O reino do Nilo mais parecia uma imensa casa funerária.

A bem da verdade, os egípcios não acreditavam na vida eterna, mas numa morte sem fim. No mundo além, dependiam do mundo aquém. Nem mesmo Aquenáton que, reinando no século XIV antes de Cristo, buscou estabelecer um culto monoteístico em ambos os Egitos (alto e baixo), logrou uma doutrina da salvação que tivesse a Deus como redentor. Adorando o Sol, ignorou o Criador dos Céus e da Terra.

Retornemos, agora, aos descendentes de Noé que perseveraram em seguir-lhe as pisadas.

3. O holocausto no período patriarcal.

Se considerarmos o sacrifício que Abel ofereceu ao Senhor uma espécie de holocausto, então essa oferenda foi, de fato, a mais antiga da História Sagrada (Gn 4.4). O costume seria preservados pelos filhos de Abraão em Isaque e Jacó (Gn 8.20; 22.13).

A religião divina, como Adão e Noé a transmitiram a seus descendentes, foi preservada nos holocaustos que, sem interrupção, foram oferecidos ao Senhor desde Abel até a destruição do Templo de Esdras, no ano 70 de nossa era. Cada vez que um desses crentes imolava um animal, profetizava ele, tipologicamente, a morte de Cristo no Calvário. Em cada oferenda, sustentada pela fé, havia uma súmula da soteriologia que hoje professamos.

4. O holocausto no período mosaico.

Após a saída dos filhos de Israel do Egito, o Senhor instruiu Moisés a sistematizar o culto divino, para evitar impurezas pagãs. Quanto ao holocausto, por exemplo, apesar de já ser uma tradição na comunidade de Israel, teria de observar preceitos e normas. A partir daquele momento, haveria um altar específico para as ofertas queimadas (Êx 31.9). Tudo deveria ser executado de acordo com as normas estabelecidas por Deus (Lv. 1—6).

Em sua peregrinação, os israelitas retornam livremente ao holocausto. Se, no Egito, era abominação imolar um animal a Jeová, agora, naquele deserto inóspito, o sacrifício de animais veio a constituir-se na parte mais bela e nobre da religião hebreia. Os sacerdotes, agora, ofereciam redis inteiros ao Senhor.

Como puderam eles criar tantos animais, não apenas consumo próprio, como também para oferecê-los a Deus? Se em prados verdejantes e junto a águas tranquilas já é difícil tanger bois e carneiros, o que fazer em regiões ermas e abrasadoras? Quando nos pomos a servir a Deus, tudo Ele dispõe a nosso favor. À noite, orvalhava o maná para o sustento do povo. Durante o dia, providenciava o pasto àqueles rebanhos que se esparramavam pelo Sinai.

A instituição e a continuidade do culto levítico, no deserto, constitui, em si, um grande milagre. Uma religião como a hebreia que, litúrgica e teologicamente, requer animais, perfumes, incensos e pães, não pode sobreviver sem uma logística perfeita. Num grande centro urbano, não haveria problemas; fornecedores de matérias-primas não faltam. Mas, no Sinai, já distante do Egito e ainda longe de Canaã, adorar ao Senhor, com os rigores e demandas do culto levítico, era um desafio cotidiano. Sem mencionar a construção do Tabernáculo em si.

5. O holocausto na Terra de Israel.

Após a conquista de Canaã, os holocaustos continuaram a ser oferecidos livremente ao Deus de Abraão. Josué celebrou uma importante vitória sobre os cananeus com holocaustos e ofertas pacíficas (Js 8.31). Gideão, ao ser comissionado pelo Senhor para libertar Israel, ofertou-lhe um holocausto (Jz 6.26). Quanto a Samuel, ofereceu o mesmo sacrifício ao Poderoso de Jacó, antecipando uma grande vitória sobre os filisteus (1 Sm 13.9,10). A reforma de Ezequias foi marcada por generosos holocaustos (2 Cr 29.7-35). Após o retorno do exílio, os judeus, agradecidos a Deus pela restauração de seu culto, também ofereceram-lhe holocaustos que iam além de suas posses (Ed 8.35).
        A essa altura, o que era tradição adâmica e noética torna-se instituição religiosa em Israel. Agora, o holocausto é visto como a principal liturgia do culto israelita. Se fizermos uma pesquisa no âmbito da história, da cultura e da antropologia, concluiremos que apenas a linhagem de Sem observou a prática de ofertas queimadas ao Senhor. Quanto aos camitas, que povoaram a África e partes do Oriente Médio, e aos jafetitas, que colonizaram a imensa região da Eurásia, temos evidências de que não deram continuidade a oferenda com que Noé inaugurara a segunda civilização humana.

As etnias acima citadas praticavam sacrifícios cruentos; nenhum desses, porém, assemelhava-se ao holocausto semítico. Entre os povos tidos como bárbaros, houve (e ainda há) abate ritual de animais e de seres humanos. Mas holocausto, semelhante ao hebreu e com a sua essência teológica, não; é algo exclusivo de Israel, a linhagem mais nobre e representativa de Sem. E, por se falar em sacrifícios humanos, veremos, daqui a pouco, por que esse tipo de oferenda jamais seria aceito por Deus.

II. A IMPLICAÇÃO TEOLÓGICA DO HOLOCAUSTO

Em todo sacrifício levítico, subjaz uma teologia que tem, em sua natureza, uma soteriologia que nos remete, de imediato, à morte vicária de Jesus Cristo. Sendo assim, precisamos descobrir aquilo que não seria incorreto chamar de a mecânica teológica do holocausto.

1. A consciência do pecado humano.

Quando um crente hebreu propunha-se a oferecer um holocausto ao Senhor, a primeira coisa que lhe vinha ao coração era a sua própria culpabilidade (Sl 51.5). Ele sabia que, em Adão, todos haviam pecado; ninguém seria tido por inocente diante de Deus. Até mesmo o recém-nascido, apesar de ainda não ter a experiência do pecado, já carregava, em si, a essência da ofensa adâmica (Rm 3.23; 5.12).

Se a situação do peregrino é tão desfavorável, o que fazer?

Ele não poderia apresentar a si próprio a Deus, pois não ignorava a pecaminosidade que lhe ia na alma. Por isso, buscava num animal tenro, bom e geneticamente perfeito (símbolo de um intermediário eficaz); uma ponte que o conduzisse a Deus. Sem o saber, o penitente evocava perspectivamente, pela fé, ali, junto àquele altar, o sacrifício do Senhor Jesus Cristo no Calvário. O Filho de Deus haveria de morrer, de fato, em favor de todos os filhos de Adão: pelos contemporâneos da cruz, pelos que viriam a nascer e pelos que já haviam morrido.

2. A consciência da justiça divina.

Já diante do altar, esse mesmo crente sabia que, confrontado pela justiça de Deus, merecia apenas uma coisa: a morte; o salário mais adequado ao pecado adâmico. Nesse impasse, a pergunta vinha-lhe à mente: “Como aplacar um Deus irado?”. Se, por um lado, ele sabia que Deus é justo, por outro, não ignorava que a justiça divina jamais deixava de vir acompanhada por um amor que, incompreensivelmente, se dá. Por essa razão, apresentava ao Senhor a vítima do holocausto, como a rogar-lhe: “Nele, perdoa-me”. E, pela fé, era não apenas perdoado, mas justificado imediatamente.

A justificação não é uma doutrina exclusivamente apostólica; no âmbito profético, era já conhecida e praticada junto ao trono divino. O salmista, ao discorrer sobre a ousada ação de Fineias no episódio de Baal-Pedor, reconhece: “Isso lhe foi imputado por justiça, de geração em geração, para sempre” (Sl 106.31, ARA).

No episódio narrado pelo autor sagrado, observa-se que Fineias assim agiu porque fora movido por uma fé incomum na santidade divina. E, por essa mesma fé, foi justificado. O mesmo acontecia àquele que, crendo na justiça divina, apresentava-lhe um holocausto. No ato da matança e da queima do animal, mostrava ele a Deus a sua confiança num sacrifício vicário que alcançaria o mundo todo. No ato do holocausto, desfilava diante de Deus toda a soteriologia do Novo Testamento.

3. A consciência da propiciação diante de Deus.

O que o crente hebreu mais ansiava era tornar-se propício a Deus. Todavia, ninguém poderia fazê-lo por si só, a não ser por meio de um intermediário, que fosse visto pelo justíssimo Deus como alguém igualmente justo, santo, inocente e eficaz como salvador; o próprio Filho de Deus.

Nos tempos dos patriarcas, ainda não se tinha um retrato do Messias como hoje encontramos nos Salmos e nos Profetas. Davi, em vários de seus cânticos, descreveu a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Já Isaías, no capítulo 53 de seu livro, pinta o Servo de Jeová em tons fortes e inapagáveis.

Ambos os autores sagrados já não precisavam do holocausto para saber que o Filho de Deus, ao vir a este mundo como homem, teria o mesmo destino do animal oferecido a Deus numa oferta queimada. Eis porque o rei de Israel, numa evocação messiânica, lembra a transitoriedade do holocausto na soteriologia messiânica: “Sacrifícios e ofertas não quiseste; abriste os meus ouvidos; holocaustos e ofertas pelo pecado não requeres” (Sl 40.6, ARA).

Davi, como bom teólogo, sabia que o homem, para tornar-se propício diante de Deus, carece não propriamente de um animal perfeito, mas de um perfeitíssimo medianeiro. Já antevendo não apenas o Messias, mas também o Consolador, roga ele a Jeová, depois de haver quebrantado duplamente a lei divina:

Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades. Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário. (Sl 51.9-12, ARA)

Observemos que Davi, embora almejasse a aceitação de Deus, não lhe ofereceu um único holocausto. Sua compreensão das coisas divinas ia além da pedagogia das oferendas e dos sacrifícios. Naquele momento, ofertório algum, ainda que duplamente cruento, ser-lhe-ia útil. Por essa razão, evocando implicitamente a intermediação de Jesus Cristo, o Holocausto dos holocaustos, confessa sua confiança no verdadeiro Mediador entre Deus e os homens: “Pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria; e não te agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Sl 51.16,17, ARA).

Não procuramos, aqui, ao evocar Davi e Isaías, invalidar o holocausto na compreensão da soteriologia bíblica. Sem esse sacrifício, o profeta e o rei jamais viriam a entender adequadamente a mecânica da redenção que Deus, em Jesus Cristo, nos providenciara antes mesmo da fundação do mundo.

4. A consciência de um sacrifício perfeito diante de Deus.

Assombrado pela justiça divina, indaga o profeta:

Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma? Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus. (Mq 6.6-8 ARA)

Sim, indaga Miqueias: “Com que me apresentarei ao SENHOR?”. Buscando a propiciação divina, o crente hebreu poderia oferecer diversas coisas a Deus: bezerros, carneiros e azeite. Numa instância já desesperada, não hesitaria em dar-lhe o próprio filho; o primogênito da alma. Vejamos a inadequabilidade desses ofertórios. Iniciemos por examinar a oferta que mais dor custaria a um pai.

Antes de tudo, deixemos bastante claro, que Deus jamais exigiu sacrifícios humanos. A razão é bastante simples. Não obstante o custo espiritual, moral e espiritual que tal demanda acarretaria ao adorador, o seu efeito redentor e soteriológico seria inútil perante a justiça divina. Se todos pecaram e carecem da glória de Deus, quem estaria apto a morrer vicariamente por alguém? Um recém-nascido? Embora ainda inocente, já traz em si a semente do transgressão adâmica. Até mesmo os três homens mais justos da História Sagrada não seriam capazes de se darem vicária e salvificamente em favor dos transgressores, como o próprio Deus o demonstra através do profeta Ezequiel:

Filho do homem, quando uma terra pecar contra mim, cometendo graves transgressões, estenderei a mão contra ela, e tornarei instável o sustento do pão, e enviarei contra ela fome, e eliminarei dela homens e animais; ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel e Jó, eles, pela sua justiça, salvariam apenas a sua própria vida, diz o SENHOR Deus. (Ez 14.13,14, ARA).

No entanto, se o Senhor Jesus Cristo estivesse nessa mesma cidade, Ele, em virtude de sua justiça vicária, certamente morreria; ela, porém, seria poupada. Foi o que disse mui sabiamente o sumo sacerdote Caifás: “Vós nada sabeis, nem considerais que vos convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação” (Jo 11.49,50, ARA). Ao registrar o fato, o apóstolo João, com a sua elevadíssima acuidade teológica, assim interpretou a alocução de Caifás:

Ora, ele não disse isto de si mesmo; mas, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus estava para morrer pela nação e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos. (Jo 11.51,52, ARA).

Inspirados por esse modelo teológico, como explicaremos a experiência de Abraão ao ser instado pelo Senhor a oferecer-lhe Isaque? O patriarca, como o melhor teólogo da época, depois de Melquisedeque, sabia que, seja desta seja daquela forma, haveria de recobrar o filho, pois tinha irrestrita fé na promessa divina. Mas, ainda que viesse a imolar o seu querido unigênito, a morte deste poderia ser doxológica, mas jamais soteriológica e redentora, porque Abraão já havia sido justificado ao crer em Deus (Gn 15.6). No instante extremo da provação, o Senhor interveio, não permitindo que o hebreu lhe imolasse o filho da promessa (Gn 22.11-13). Vicariamente, o ser humano é ineficaz até para si mesmo. Se a nossa morte fosse suficiente para salvar-nos, bastaríamos optar pelo suicídio, e a nossa situação, diante de Deus, estaria resolvida de vez. O suicídio, todavia, não tem qualquer eficácia remidora. Se assim fosse, Judas Iscariotes estaria hoje no Paraíso junto ao Senhor Jesus. Mas sabemos que, perdendo-se ele, foi para o seu próprio lugar.

Se a morte do meu primogênito é ineficaz para tornar-me aceitável diante do Senhor, o que lhe entregarei? Rios de azeite? O fruto da oliveira pode (e deve) ser apresentado ao Senhor como dízimo e ação de graças, mas, soteriologicamente, que eficácia tem? Afinal, não somos salvos pelas obras, mas pela fé em Jesus Cristo. Logo, tais ofertas servem apenas evidenciar-nos a salvação; somos salvos não pelas boas obras, mas à prática de obras boas, meritórias e que mostrem, por intermédio delas, o nosso compromisso com o Pai Celeste.

Restam-nos, agora, os bezerros de um ano e os carneiros tenros e bons. Tornar-nos-ão propícios a Deus? Como símbolos e tipos são eficazes. Mas, vicariamente, não. Se a simbologia e tipologia desses animais fossem recebidas pela fé, o adorador não deixaria de ver, em cada um deles, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Caso contrário, a morte desses bichos não passaria de um desperdício litúrgico, um pesado encargo ao crente, um enfado ao sacerdote e um enojamento ao Senhor.

O adorador que, pela fé, oferecia um holocausto ao Senhor, demonstrava a eficácia desse sacrifício, em sua vida, na prática da justiça, no exercício da misericórdia e na vivência do amor divino em seu cotidiano. E, no final de tudo, veria naquele bezerro ou naquele carneirinho, o Cordeiro de Deus.

III. JESUS CRISTO, O HOLOCAUSTO PERFEITO

Para que o Filho de Deus se tornasse o holocausto perfeito, a fim de redimir a humanidade, três coisas foram-lhe necessárias: a encarnação, o sofrimento e, finalmente, a morte e a ressurreição.

1. A encarnação de Cristo.

A encarnação de Cristo foi o cumprimento cabal e perfeito da profecia de Davi: “Sacrifício e oferta não quiseste; os meus ouvidos abriste; holocausto e expiação pelo pecado não reclamaste” (Sl 40.6).

O que o Messias, por meio do salmista, diz é que, sendo os holocaustos transitórios, restava-lhe apresentar-se voluntária e eternamente, perante o Pai, para ser a oferta e o ofertante, a fim de redimir a humanidade (Hb 10.110). Foi na condição de Homem Verdadeiro que o Senhor Jesus foi provado em todas as coisas, exceto no pecado, para mostrar a eficácia de seu maravilhoso e definitivo sacrifício.

2. O sofrimento de Cristo.

Assim como a vítima do holocausto era, antes de ser queimada, repartida em pedaços, foi o Senhor Jesus submetido a todos os sofrimentos, angústias e dores (Is 53). Ele sabia o que era padecer.

O autor da Epístola aos Hebreus garante que o Filho de Deus, durante o seu ministério terreno, apresentou ao Pai constantes rogos, clamores e lágrimas (Hb 5.7).

Da encarnação à morte, Ele foi implacavelmente provado em todas as coisas. Mas, nem por isso, deixou de apresentar um fiel testemunho como o Cordeiro de Deus (Jo 1.29).

3. A morte e a ressurreição de Cristo.

O auge do sofrimento do Filho de Deus, como nosso perfeito holocausto, foi a sua morte no Calvário. Antecedendo o seu sacrifício, rogou ao Pai que lhe afastasse aquele cálice (Mc 14.36). No entanto, Ele sabia que a morte na cruz era a sua missão, o ápice de seu ministério. Em sua morte, a nossa vida.

Na verdade, foi morto e sepultado (Mt 27.59-66). No terceiro dia, entretanto, eis que ressurge dos mortos como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Mt 28.1-10). Com a sua ressurreição, Jesus Cristo plenifica o sacrifício perfeito, como ofertante e oferta.

CONCLUSÃO

Neste capítulo, refletimos sobre o sacrifício perfeito de Jesus Cristo. Ele é o Holocausto dos holocaustos. Ele morreu eficazmente por mim e por você. Por essa razão, mantenhamos uma vida de santidade e pureza, a fim de sermos fiéis testemunhas do Evangelho. Não ignoremos o sacrifício de Cristo. Se o fizermos, sobre nós recairá o justo juízo de Deus (Hb 10.26,27).

Fonte:
Livro de Apoio – Adoração, Santidade e Serviço - Os princípios de Deus para a sua Igreja em Levítico - Claudionor de Andrade
Lições Bíblicas 3º Trim.2018 - Adoração, Santidade e Serviço - Os princípios de Deus para a sua Igreja em Levítico - Comentarista: Claudionor de Andrade
Aqui eu Aprendi!

sexta-feira, 23 de março de 2018

Exortações finais na Grande Maratona da Fé

“Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta” Hb 12.1

Professor(a), pela graça do Senhor Jesus Cristo, chegamos ao final de mais um trimestre. Estudamos a Epístola aos Hebreus, uma carta que revela a superioridade de Cristo, do seu ministério e da Nova Aliança. Ela foi escrita em um tempo e em um contexto bem diferente do nosso, mas seu conteúdo é atual e nos ajuda a enfrentarmos os “tempos trabalhosos” pelos quais estamos passando. Nesta última lição estudaremos os dois últimos capítulos, esses nos exortam a correr a maratona da fé sem recuar ou olhar para trás, pois em breve o nosso Salvador virá.


Texto Bíblico - Hebreus 12.1-8;  13.15-18

ESBOÇO DA LIÇÃO

1. Introdução
Texto Bíblico: Hebreus 12.1-8; 13.15-18

2. I. A Corrida Proposta
• 1. O exemplo dos antigos.
• 2. O exemplo de Jesus.
• 3. O exemplo da Igreja.

3. II. Corredores Bem Treinados
• 1. Respeitam limites.
• 2. Mantêm a mente limpa.
• 3. Valorizem as coisas espirituais.

4. III. As Responsabilidades da Nova Aliança
• 1. Valorizar a liderança.
• 2. Valorizar a doutrina.
• 3. Valorizar a adoração.

5. Conclusão

Assim como um atleta, o cristão corre a grande maratona da fé.

Os dois capítulos finais da Carta aos Hebreus constituem-se como um dos mais fortes apelos exortativos de toda a epístola. A exortação, que começa no capítulo 12, é que cada um corra a “maratona da fé” que está proposta. A palavra grega agon traduzida como “carreira” tem o sentido de luta, conflito, esforço e corrida. No capítulo 11 o autor havia falado das promessas de Deus como o alvo a ser alcançado, agora ele coloca o cristão dentro da maratona da fé, correndo rumo a essa meta. Como toda corrida, é preciso fazer os preparativos necessários. E isso tem uma razão de ser — toda corrida, especialmente a maratona, demanda algum tipo de esforço e sofrimento. O sofrimento aparece como algo intrínseco da corrida, já que ela exige uma vida disciplinada. Todavia, nada disso deve servir de desmotivação, já que estamos numa pista onde outros, bem antes de nós, também já trilharam.

Comentário de Hebreus 12.1-29 e 13.1-25

O capítulo 12 de Hebreus continua com o tom exortativo característico do autor. Neil R. Lightfoot observa que o capítulo 11 não está isolado dessa seção. Ele destaca que o autor

"combinando fervor e o discernimento religiosos, trata-se de uma brilhante exortação colocada em meio a duas grandes seções apelatórias (10.19-39 e cap. 12) com respeito ao empreendimento cristão. Este capítulo então começa ou continua um desafio aos leitores para que perseverem na fé até o fim”.1

“Portanto, nós também, pois, que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta" (v. 1).
Tendo discorrido sobre a odisseia dos heróis da fé, o autor introduz um elemento de conclusão de sua longa dissertação sobre o valor da fé na vida do crente. Estamos cercados de todos os lados pelo testemunho daqueles que ousaram acreditar nas promessas de Deus e viver à altura delas. Ele exorta seus leitores a deixar todo embaraço. A palavra grega usada aqui para “embaraço” é onkos, que significa peso, massa, e só aparece aqui no Novo Testamento. Philip E. Hughes destaca que esse termo é usado em relação a um atleta que se despirá para a ação, tanto pela remoção do peso supérfluo — mediante rigoroso treinamento — como pela remoção de todas as suas roupas.2  Muitas coisas à nossa volta não são pecados, mas podem tornar-se um peso do qual precisamos nos livrar.

"olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus" (v. 2).
O autor encoraja seus leitores a olharem para Jesus, e não para as circunstâncias ao redor. Ele é o autor e consumador da nossa fé. O termo grego teleiotés, traduzido aqui como consumador, tem o sentido de “aquilo que é conduzido até o fim”. A ideia é do alvo que foi alcançado. O autor destaca que, a favor da igreja, Cristo trocou a alegria pelo desprezo. Ele suportou a cruz. A palavra "cruz” traduz o termo grego stauros, traduzido como cruz e madeiro.3  A palavra grega kekathiken, traduzido "sentar”, está no perfeito. Esse tempo verbal mostra uma ação feita no passado, mas cujos efeitos continuam no presente. Nesse aspecto, o autor destaca que Cristo, tendo concluído a obra da redenção, assentou-se à destra de Deus e ainda continua lá assentado (Ef 1.20). E mais: no Reino espiritual, nós também estamos assentados com Ele acima de todo principado, potestades, poder, domínios e qualquer nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro (Ef 2.6).

"Considerai, pois, aquele que suportou tais contradições dos pecadores contra si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos" (v. 3).
Os crentes hebreus estavam desfalecendo. Deveriam, portanto, tomar como exemplo Jesus Cristo, que, mesmo sendo inocente, suportou a afronta dos pecadores.

“Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado" (v. 4).
Jesus Cristo não apenas suportou o escárnio, o desprezo e a oposição dos pecadores; muito mais do que isso: Ele derramou seu sangue pela humanidade. Era verdade que os cristãos hebreus haviam passado por certas provas e sofrimentos, mas não ao ponto de derramar sangue. Não havia, portanto, razão para recuar. Donald Hegner destaca que

"como indica o contexto, não a batalha do crente que evita o pecado (cf. o v. 1), mas a luta para vencer a apostasia. Pode referir-se também ao pecado dos inimigos de Deus que perseguem o povo do Senhor, tanto quanto pode relacionar-se ao pecado potencial da apostasia que aflige os leitores. É contra a apostasia que estes devem lutar”.4

“E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor e não desmaies quando, por ele, fores repreendido" (v. 5).
Citando Provérbios 3.11, o autor mostra que a prova da fé cristã, longe de sinalizar um abandono de Deus, é uma clara demonstração do seu amor. Aqui, o autor vê o sofrimento que vem como consequência da oposição desse mundo hostil como algo positivo que vai acrescer maturidade à vida do crente. É evidente que o autor não se refere aqui ao sofrimento que foi provocado pelo próprio crente em virtude de seu pecado ou desobediência, nem tampouco naquele que é claramente visto como uma ação de Satanás. Aqui, tem-se em vista o sofrimento de quem vive de forma justa e piedosa e, por causa disso, entra em rota de colisão com o mundo, a carne e o diabo.

“Pois o Senhor corrige ao que ama, e açoita a todo o que recebe por filho” (v. 6).
Longe de apresentar Deus como um ser sádico, que tem prazer em ver o sofrimento dos outros, o autor continua com sua citação do Antigo Testamento, onde mostra que, muitas vezes, o sofrimento exerce um papel disciplinador na formação do caráter e identidade do crente. Se sofremos, e Deus se faz presente nesse sofrimento, então o sofrimento é para nosso próprio bem.

“É para disciplina que sofreis; Deus vos trata como a filhos; pois qual é o filho a quem o pai não corrija?” (v. 7).
O apóstolo Paulo lembrou que, quando não nos disciplinamos, Deus, então, exerce o seu papel de Pai quando nos disciplina (1 Co 11.31,32). O autor mostra que, se alguma coisa extraordinária estivesse acontecendo entre os hebreus, eles deveriam ver isso não de forma negativa, mas como um agir de Deus para o bem deles. Nem sempre é fácil ver Deus na adversidade. Como Gideão, dizemos: "O Senhor nos desamparou" (Jz 6.13).

“Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois, então, bastardos e não filhos" (v. 8).
O filho legítimo necessitava de disciplina e devia ser disciplinado para que tivesse seu caráter bem formado. Todavia, no mundo antigo, o filho ilegítimo não recebia tratamento igual. A palavra grega nothos, “ilegítimo”, não indica apenas

“que o pai não está suficientemente interessado neles para lhes infligir o castigo apropriado a seus filhos legítimos, mas, também, deve ser entendida no sentido legal de que um filho ilegítimo não desfruta dos direitos de herança e do direito de participação no culto familiar".5

“Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos?" (v. 9).
Nesse versículo, a palavra “pais” traduz o grego “paideutes”, de onde se origina a palavra “paideia” e a portuguesa pedagogia. A lógica do autor é bastante simples e prática: se nossos pais terrenos possuem o direito de educar-nos, às vezes tendo que corrigir comportamentos errados, da mesma forma Deus não pode fazer o mesmo conosco? Se respeitamos nossos pais, que nos disciplinam, e não os abandonamos de forma alguma, então por que vamos desistir da fé quando alguma situação adversa surge na nossa caminhada espiritual? O contraste é feito entre “pais segundo a carne”, que tem o sentido de “pais terrenos”, com "Pai dos espíritos", que tem o sentido de “Pai celeste” ou “Pai espiritual".

“Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade” (v. 10).
Visando um bem maior, nossos pais nos corrigiam conforme melhor lhes parecia. Às vezes, as suas intenções eram boas, mas a forma como faziam poderia não ser adequada. Por outro lado, Deus, como nosso Pai, corrige-nos visando um bem maior e da forma correta. O alvo da correção ou prova espiritual é a nossa participação na santidade de Deus. Não podemos servir a Deus de qualquer forma, visto ser Ele um Deus santo; precisamos nos manter separados daquilo que ofende a sua santidade.

“E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas, depois, produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela" (v. 11).
Nenhuma criança (e adulto também) gosta de ser repreendido ou corrigido. A repreensão mostra-se desconfortável principalmente no momento em que é feita. Todavia, o autor mostra que o Pai celeste sabe que ela é necessária e, por isso, corrige-nos segundo melhor lhe parece. Há muitas famílias e até mesmo igrejas destroçadas por omissão e descaso na aplicação da disciplina bíblica. Se praticarmos a disciplina, ou, como diz o autor, nela nos exercitarmos, seremos cristãos bem formados espiritualmente.

"Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados” (v. 12).
Como faz com frequência, o autor fundamenta suas exortações com passagens da Bíblia. Aqui, ele recorre a Isaías 35.3 da tradução dos LXX. Há muitas semelhanças entre o que Isaías diz para o antigo Israel com aquilo que o autor vem falando para seus leitores hebreus. A linguagem figurada mostra que é preciso vencer o cansaço e a fadiga que surge na caminhada.

“E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja se não desvie inteiramente; antes, seja sarado” (v. 13).
A metáfora é a de um atleta em plena corrida que poderia “desviar-se” da rota que lhe foi traçada. O termo "desviar" usado pelo autor ocorre outras quatro vezes no texto grego (ektrapé) e, em todas as vezes, são de uso paulino. Duas dessas ocorrências paulinas mantêm o mesmo sentido que o autor demonstra aqui. Em 1 Timóteo 1.6, é usado para referir-se àqueles que se haviam desviado da sã doutrina para seguir as fábulas. Em 1 Timóteo 5.15, o apóstolo usa em referência às viúvas que se haviam desviado seguindo a Satanás. O perigo de perder o rumo existe, e é por isso que é preciso vigilância e cuidado.

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (v. 14).
O autor volta à santidade sobre a qual já se havia referido em Hebreus 12.10. O termo "santidade” traduz o grego hagiasmós, que, nesse contexto, tem um sentido mais relacional do que cerimonial. Aqui, o autor usa "santidade” para referir-se ao relacionamento do crente com Deus. Não se trata de uma forma de prática legalista, mas, sim, da intimidade do cristão com o Senhor.

“Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem" (v. 15).
O autor mantém seu tom exortativo. Aqui, ele exige cuidado e supervisão (gr. episkopeo) de seus ouvintes para não se privarem da graça de Deus. Os expositores Wilfrid Haubeck e Heinrich Von Siebenthal destacam que a expressão “hysteron apo charitos (privar da graça de Deus) tem o sentido de "ficar para trás / não chegar ao destino (na competição) e, assim, perder a graça”.6  O expositor George Wesley Buchanan observa que, aqui, o autor tenha ainda em mente a metáfora da corrida atlética e adapta à corrida cristã. Buchanan destaca que o autor tem em mente alguma coisa que pode conduzir à idolatria e à apostasia.Para Richard Taylor, essas palavras do autor de Hebreus também realçam o aspecto metafórico por ele descrito, só que em referência aos aspectos da vida cristã, e não propriamente às pessoas.

“Como as mãos são uma metáfora de serviço, e joelhos são uma figura de atitude (quer corajosa ou ansiosa), assim os pés são uma figura do caminhar cristão diário. Se este caminhar é cambaleante e tortuoso, nossa fraqueza se tornará pior, e nossa influência sobre os outros será prejudicada. Deus deseja a cura; mas nem as nossas próprias almas nem a nossa influência serão curadas a não ser que estejamos dispostos a corrigir o que está errado em nossas vidas. O arrependimento é o pré-requisito para a cura da alma".8

"E ninguém seja devasso, ou profano como Esaú, que por uma simples refeição vendeu o seu direito de primogenitura” (v. 16).
A palavra “devasso" usada aqui traduz o termo grego pornôs, da mesma raiz de pornográfico, prostituição e imoralidade. No Antigo Testamento, é bastante comum esse vocábulo ser usado em relação à idolatria como uma forma de prostituição. Aqui, o contexto sugere o uso desse sentido, pois, ao vender o seu direito de primogenitura, Esaú agiu com uma mentalidade materialista e avarenta. Ele valorizou mais o seu desejo que as bênçãos espirituais. Paulo afirma que a avareza é uma forma de idolatria (Cl 3.5). Por outro lado, o termo “profano”, do grego bébelos, está relacionado à falta de religiosidade de Esaú, que o fez perder a sua bênção.

“Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que, com lágrimas o buscou” (v. 17).
O autor usa o exemplo de Esaú como uma metáfora de como devem ser tratadas as coisas espirituais. Esaú serve para exemplificar que há casos em que o arrependimento pode ser tardio.9  O expositor Richard Taylor comenta que

“Esaú pode ter alcançado arrependimento para a salvação eterna, mas não readquiriu seu direito de primogenitura (...). Persistir em vender santidade, que é o nosso direito de primogenitura, pelo prato de lentilhas que este mundo oferece vai finalmente selar nossa condenação. Há esperança para o relapso, mas não há esperança para o apóstata absoluto, e não haverá uma 'segunda chance’ após a morte”10.

No caso de Esaú, foi a bênção da primogenitura; no caso dos Hebreus, era a promessa da salvação.

“Porque não chegastes ao monte palpável, aceso em fogo, e à escuridão, e às trevas, e à tempestade" (v. 18).
Aqui, o autor usa os textos da Septuaginta de Deuteronômio 4.11; 5.22-25 e Êxodo 19.12-19. Os eventos do Sinai, onde houve manifestações físicas da presença divina, servem para mostrar como o povo da Antiga Aliança comportou-se diante dessas manifestações. Adam Clarke destaca que o propósito do escritor era "demonstrar que a dispensação da lei gera terror; que era terrível e exclusiva; que pertencia somente ao povo judeu".11  Por outro lado, Bruce vê aqui uma advertência dada pelo autor de Hebreus àqueles que começaram, mas estavam voltando atrás. Aqueles que são fiéis não devem temer nada.12

“E ao sonido da trombeta, e à voz das palavras, a qual, os que a ouviram pediram que se lhes não falasse mais” (v. 19).
Êxodo 19 mostra a sequência de eventos quando Deus revelou-se. A santidade de Deus é demonstrada aos israelitas de uma forma imponente em Êxodo 20.18-21. C. S. Keener destaca que, naquela ocasião. Deus quis provocar no povo o temor a fim de que eles parassem de pecar.13

"Porque não podiam suportar o que se lhes mandava: Se até um animal tocar o monte, será apedrejado” (v. 20).
Deus é tremendamente santo e, aqui, os parâmetros sobre a sua santidade atingiam até os animais (Nm 17.3).

“E tão terrível era a visão, que Moisés disse: Estou todo assombrado e tremendo” (v. 21).
Diante da manifestação da glória de Deus, até mesmo Moisés ficou assustado. No livro de Deuteronômio, ele diz: "Porque temi por causa da ira e do furor com que o Senhor tanto estava irado contra vós, para vos destruir; porém, ainda por esta vez, o Senhor me ouviu" (Dt 9.19). Donald Guthrie destaca que:

"Não há nenhum registro específico no Antigo Testamento de que Moisés tenha dito: Sinto-me aterrado e trêmulo na ocasião da outorga da lei, mas a ocorrência da tremedeira não é difícil de se imaginar nessas circunstâncias. A declaração mais próxima é Deuteronômio 9.19, que registra que Moisés relembra o temor que sentira. Além disso, há referência ao seu temor diante da sarça ardente (Êx 3.6), fato este que Estêvão nota em Atos 7.32. Este terror da parte de Moisés termina abruptamente o comentário do escritor sobre a velha ordem. Seu interesse centraliza-se na nova ordem”.14

“Mas chegastes ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, e aos muitos milhares de anjos" (v. 22).
O cenário muda do monte Sinai para o monte Sião; da Jerusalém terrena para a Jerusalém celestial; das figuras humanas para as figuras angélicas. Aqui, os anjos aparecem não como seres a serem adorados, mas como adoradores de Deus juntamente com os remidos.

“Á universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados" (v. 23).
Esse versículo é mais bem traduzido na Bíblia de Jerusalém: “com a igreja toda, na qual todos são ‘primogênitos’ e cidadãos do céu.” A expressão "espíritos dos justos aperfeiçoados” é uma referência a todos os crentes que completaram suas carreiras, que chegaram ao alvo desejado. É o mesmo termo grego que o autor usou em Hebreus 5.9.

"E a Jesus, o Mediador de uma nova aliança, e ao sangue da aspersão, que fala melhor do que o de Abel” (v. 24).
O relato de Gênesis 4.10 mostra que o sangue de Abel clama justiça. Na tradição rabínica, ele continuava clamando contra Caim. Esse conceito do “sangue que clama” também é lembrado por Jesus: “para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar” (Mt 23.35). Aqui, o contraste é entre o sangue do justo Abel, assassinado injustamente, e o sangue de Cristo, o Cordeiro de Deus imaculado e Mediador de um novo pacto, que foi entregue e morto por todos os homens. F. F. Bruce destaca que

"O sangue de Abel clamou a Deus desde a terra, ele está protestando contra o seu assassinato e reivindicando vingança; mas o sangue de Cristo traz uma mensagem de limpeza, perdão e paz com Deus para todos os que depositam sua fé nele".15

"Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos daquele que é dos céus" (v. 25).
Com Êxodo 20.19 em mente, o autor volta ao seu característico tom exortativo. Se a quebra da Lei, que foi outorgada na terra, no Sinai, trouxe consequências para os desobedientes, muito mais responsabilidade tem aqueles que são advertidos e que participam de uma aliança superior, que vem diretamente do céu.

“A voz do qual moveu, então, a terra, mas, agora, anunciou, dizendo: Ainda uma vez comoverei, não só a terra, senão também o céu” (v. 26).
Esse versículo remete a Êxodo 19.18 e Salmos 68.8. No passado, na outorga da Lei, a voz de Deus foi ouvida como um estrondo. Na Nova Aliança, essa voz será ouvida no futuro, cumprindo a profecia de Ageu 2.6: “Porque assim diz o Senhor dos Exércitos: Ainda uma vez, daqui a pouco, e farei tremer os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca”. O autor de Hebreus usa esse texto como uma referência aos eventos escatológicos finais.

“E esta palavra: Ainda uma vez, mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as imóveis permaneçam" (v. 27).
A velha ordem dará lugar a uma nova ordem. A ideia aqui é que tudo o que existe será “sacudido” e só as coisas que são inabaláveis permanecerão. Donald Hegner sublinha que:

“As palavras ainda uma vez, extraídas da citação, explicam-se como referência ao julgamento escatológico (diferentemente do abalamento’ ou ‘sacudidela’ anterior); este abalar envolve purificação das coisas criadas (lit., como de coisas feitas’) para que (ou a fim de que’) só as (coisas) inabaláveis permaneçam, e mais nada. Mas as coisas que são abaláveis de fato serão abaladas; e isto é o que faz que a perspectiva do julgamento escatológico seja uma coisa terrível, (cf. v. 29)”.16

"Pelo que, tendo recebido um Reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade” (v. 28).
Aqui, o contraste é feito entre o mutável e o imutável; entre o que é abalável e o inabalável. A natureza do reino espiritual do qual todos os crentes fazem parte não sofre desgastes pelo tempo nem tampouco poderá ser substituído. Como participantes desse reino, a atitude do adorador é de um coração reverente e cheio de temor.

“Porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (v. 29).
Aqui, o autor tem em mente Deuteronômio 4.24, que fala de um "Deus zeloso”. Diante de um Deus tão grande e de uma revelação tão completa, o crente não pode agir com indiferença.17

A conclusão da carta aos Hebreus no capítulo 13 segue o modelo das demais cartas neotestamentárias. Tendo terminado a sua longa exposição teológica, o autor conclui sua redação com alguns conselhos e recomendações práticas. Na verdade, essa conclusão apresenta-se como uma forma de "complemento”, onde algumas exortações já feitas no corpo da carta são trazidas à tona, porém de uma forma menos complexa. Muito da identidade do autor é revelada aqui. Um homem humilde, piedoso, compromissado e cheio de amor por seus irmãos aos quais ele queria ver com animo, fé e esperança em tempos de apostasia.

“Permaneça o amor fraternal" (v. 1).
O verbo grego usado aqui, menô, está no presente imperativo. O presente contínuo indica uma ação habitual ou contínua. O autor começa a conclusão de sua carta com uma ordem ou mandamento. O sentido é: “continuem permanecendo no amor fraternal’’.

“Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos” (v. 2).
O autor lembra seus leitores de serem hospitaleiros. Essa palavra (philonexenia) é também usada por Paulo em Romanos 12.13. Visto os constantes deslocamentos e as precárias acomodações existentes, a hospitalidade era algo extremamente necessário. Aqui, ela surge como uma demonstração de amor, comunhão e uma troca de bênçãos recíprocas. Como hospedeiro, Abraão acolheu a anjos (Gn 18.1-8).

“Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo" (v. 3).
É possível que, nessa passagem, o autor esteja se referindo aos cristãos encarcerados por causa de sua fé. No primeiro século, os presos, em alguns casos, não possuíam nem mesmo direito à alimentação. Eles dependiam de terceiros para prover-lhes o necessário.

“Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém aos que se dão à prostituição e aos adúlteros Deus os julgará" (v. 4).
A visão sobre a relação sexual entre os gregos e romanos era muito diferente daquela que existia entre os hebreus. No mundo greco-romano, a prática sexual não possuía os limites que a cultura judaica estabelecia. A pederastia, relação sexual entre uma pessoa mais velha e uma mais jovem, era uma prática que tinha amparo legal. Foi dito que Nero, o impiedoso imperador romano, era o homem de toda mulher e a mulher de todo homem. Sabendo que a prática sexual era vista de forma distorcida nos seus dias, o autor exorta os seus leitores a manterem a pureza sexual. A forma estabelecida por Deus era a prática do sexo dentro da esfera matrimonial.

“Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei" (v. 5).
Aqui, a exortação do autor direciona-se contra a avareza. A palavra grega aphilargyros, usada no versículo como "avareza", tem o sentido de “sem amor ao dinheiro”. Esse mesmo termo grego é usado em 1 Timóteo 3.3. Possuir dinheiro não é pecado, mas amar o dinheiro é. O conselho do autor é buscar o contentamento. Aqui, ele lembra as promessas de Deus a Josué, onde o Senhor mostra seu cuidado com o grande comandante de Israel (Js 1.5).

“E, assim, com confiança, ousemos dizer: O Senhor é o meu ajudador, e não temerei o que me possa fazer o homem" (v. 6).
Tendo em mente o Salmo 118.6, o autor lembra os seus leitores da fidelidade de Deus. Esse versículo é bem significativo quando o contemplamos dentro da exortação que o autor vem fazendo. Numa época de perseguição, espólio, sofrimento e até mesmo morte, o crente necessita descansar nas promessas de Deus.

“Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver" (v. 7).
A palavra "pastores” traduz o vocábulo grego hégeomai, que aparece 20 vezes no Novo Testamento. O autor de hebreus utiliza esse termo seis vezes, sendo três delas neste capítulo.18  Na maioria das vezes, esse termo é aplicar a um "líder”. Dessa forma, Paulo exorta aos Tessalonicenses (1 Ts 5.13); Estevão usa essa palavra para referir-se a José como “governador" do Egito (At 7.10); em Hebreus 13.17, o autor usa essa palavra para exortar seus leitores a serem obedientes a seus pastores. O sentido aqui, portanto, é o de submissão, e não o de subserviência, dos liderados frente a seus líderes ou pastores.

“Jesus Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente" (v. 8).
O expositor bíblico Donald Hegner expôs com precisão esse versículo:

“A ênfase maior desse versículo é que Jesus Cristo, por causa de sua obra do passado e do presente, é infinitamente capaz de satisfazer todas as necessidades de todos os cristãos. Isto se torna aparente não só a partir do contexto, mas também pela estrutura do próprio versículo que diz, literalmente: ‘Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e até as eras.’ Sua obra de ontem, a obra sacrificial e expiatória como sumo sacerdote, foi exposta pelo autor de Hebreus com profundidade. É a própria base do cristianismo. Hoje a obra de Cristo prossegue, na intercessão que ele faz por nós, à mão direita do Pai (7.25; cf. 4.14-16)”.19

“Não vos deixeis levar em redor por doutrinas várias e estranhas, porque bom é que o coração se fortifique com graça e não com manjares, que de nada aproveitaram aos que a eles se entregaram" (v. 9).
Durante sua exposição sobre a doutrina do sacerdócio, o autor havia deixado bem claro que a Antiga Aliança, com todo o cerimonialismo levítico, havia sido substituída por uma Nova Aliança e um novo sacerdócio. Dentro da velha ordem, havia leis minuciosas sobre o que era considerado limpo e imundo (Dt 4.3-20). Ao acharem que essas regras tornavam Israel melhor do que os outros povos, eles acabaram desenvolvendo uma atitude legalista em relação às mesmas. Para o autor, essas prá­ticas não foram capazes de justificar ninguém diante de Deus. O que importava, portanto, não era a observância meticulosa dessas leis, mas, sim, um coração limpo e cheio da graça de Deus.

“Temos um altar de que não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo” (v. 10).
Usando uma linguagem metafórica, o autor usa a cruz como sendo o altar do cristão. Os judeus que insistiam em cultuar a Deus valendo-se do antigo cerimonial levítico estavam excluídos da verdadeira adoração cristã. Era uma coisa ou outra. Quem insistisse em participar do velho sistema estava excluído do novo.

“Porque os corpos dos animais cujo sangue é, pelo pecado, trazido pelo sumo sacerdote para o Santuário, são queimados fora do arraial” (v. 11).
Levítico 9.11 e Números 9.13 descrevem os vários rituais de sacrifícios que eram realizados fora do acampamento. O expositor C. S. Keener observa acertadamente que a referência, nesse versículo, é ao dia da expiação, quando o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos com o sangue do sacrifício (Lv 16.27). Jesus cumpriu esse sacrifício no altar celestial.20

“E, por isso, também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, padeceu fora da porta” (v. 12).
Nessa passagem, o autor estabelece um paralelo entre os sacrifícios realizados no dia da expiação e o sacrifício de Jesus. Naquela ocasião, os corpos dos animais sacrificados eram queimados fora do acampamento. O relato em João 19.20 demonstra o fato de Jesus ter sido crucificado fora da cidade. O sumo sacerdote entrava no santuário com o sangue de animais para fazer o ritual da purificação; Jesus, todavia, com seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos para santificar o povo.

“Saiamos, pois, a ele fora do arraial, levando o seu vitupério" (v. 13).
Esse versículo dá sequência à argumentação do autor no verso anterior. Aqui, o convite é para os crentes deixarem o velho sistema e abraçarem o novo. Seguir a Jesus significa tomar a sua cruz e levar o seu vitupério. O termo grego oneidismos (vitupério) ocorre cinco vezes no Novo Testamento e significa "insulto”, "opróbrio". Esse termo já havia sido usado pelo autor de Hebreus no capítulo 11.26 para referir-se à "desonra" (NVI) que Moisés sofreu por ter abandonado as glórias do Egito. Seguir a Cristo é recompensador, mas quem o segue de verdade não terá os aplausos do mundo.

"Porque não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura" (v. 14).
A cultura judaica antiga alimentava a esperança numa Jerusalém vindoura, que não podia ser encontrada aqui na terra. Para o autor de Hebreus, essa Jerusalém já existe e é para lá que os cristãos devem ansiar ir. Aqui, o contexto sugere que o autor tem consciência da luta dos cristãos primitivos e não quer vê-los alimentando expectativas com o velho sistema, simbolizado aqui pela Jerusalém terrena.

“Portanto, ofereçamos sempre, por ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome” (v. 15).
Seguindo o texto de Oseias 14.3 da Septuaginta, o autor entra na dinâmica do culto cristão. O sacrifício do cristão é feito através da adoração e louvor que ele presta a Deus. Cristo ofereceu-se a si mesmo a Deus, e o cristão, por meio de Cristo, deve render sacrifícios espirituais. Uma tradição judaica afirmava que todos os sacrifícios mosaicos teriam um fim, exceto a gratidão, e todas as orações encerrariam, exceto a de ações de graças.21

“E não vos esqueçais da beneficência e comunicação, porque, com tais sacrifícios, Deus se agrada" (v. 16).
Aqui, há um paralelo entre Atos 4.32-33, onde é descrito como vivia a comunidade primitiva. A exortação é para que os crentes não negligenciem práticas que são saudáveis e necessárias na vida cristã. As palavras “beneficência" e "comunhão" traduzem os termos gregos eupoiia e koinonia, respectivamente, que, neste contexto, significam "prática do bem” e "mútua cooperação”.

"Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil" (v. 17).
Mais uma vez, como já havia feito (v. 7), o autor chama a atenção para a relação líder-liderado. Aqui, o contexto sugere que o termo egoumenois (pastor) tem o sentido de alguém que supervisiona ou pastoreia uma comunidade. Eles devem ser objeto de respeito, amor e consideração devido à obra que realizam (1 Ts 5.13). O trabalho pastoral transcende em muito o aspecto material ou físico. Aqui, o autor diz que o supervisor ou pastor tem a missão de “vigiar”, “estar alerta e vigilante” pela congregação, porque, segundo o autor de Hebreus, ele está consciente que prestará contas sobre a mesma. Tendo sobre seus ombros tão grande responsabilidade, seria um fardo a mais suportar a indiferença de seus liderados.

“Orai por nós, porque confiamos que temos boa consciência, como aqueles que em tudo querem portar-se honestamente" (v. 18).
Embora não saibamos quem escreveu esta carta, suas palavras revelam o caráter de um homem de Deus. Com humildade, ele pede oração a seus leitores, mostrando que a sua obra foi feita com a consciência de quem quer agradar a Deus, e não a si mesmo.

“E rogo-vos, com instância, que assim o façais para que eu mais depressa vos seja restituído"(v. 19).
Nesse versículo, alguns argumentam que o autor revela estar encarcerado, mas F. F. Bruce, tendo em vista o versículo 23, discorda dessa opinião. O fato é que o autor acredita fortemente no poder da oração e pede todo o empenho da comunidade em favor dele.

“Ora, o Deus de paz, que pelo sangue do concerto eterno tornou a trazer dos mortos a nosso Senhor Jesus Cristo, grande Pastor das ovelhas" (v. 20).
Esse versículo é mais bem compreendido dentro da tipologia do Êxodo:
“Todavia, se lembrou dos dias da antiguidade, de Moisés e do seu povo, dizendo: Onde está aquele que os fez subir do mar com os pastores do seu rebanho? Onde está aquele que pôs no meio deles o seu Espírito Santo?" (Is 63.11). A imagem é aquela de Moisés como o pastor do povo de Deus na travessia do mar (Sl 77.20). Aqui, a metáfora, como observa Bruce, é que Jesus, o grande Pastor, assim como Moisés, foi trazido não do mar, mas do domínio da morte.22

“Vos aperfeiçoe em toda a boa obra, para fazerdes a sua vontade, operando em vós o que perante ele é agradável por Cristo Jesus, ao qual seja glória para todo o sempre. Amém!” (v. 21).
Aqui, o autor expressa o seu desejo de ver seus leitores sendo capacitados e aperfeiçoados no servir a Deus. O Senhor é a fonte dessa graça que habilita os crentes a realizarem sua vontade.

“Rogo-vos, porém, irmãos, que suporteis a palavra desta exortação; porque abreviadamente vos escrevi" (v. 22).
O autor tem consciência de que foi incisivo em muitos pontos de sua argumentação e que fora duro em muitos deles. Todavia, isso não era tudo. Ele poderia ter dito muito mais, porém o que fora apresentado era suficiente. Agora, ele rogava-os que essa palavra de exortação deveria ser acolhida.

“Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual (se vier depressa) vos verei" (v. 23).
Aqui, é dada uma informação sobre Timóteo que não aparece nos demais escritos neotestamentários — a libertação de Timóteo da prisão. Essa era uma boa notícia para todos os crentes, já que Timóteo, um discípulo de Paulo, era querido por toda a igreja.

“Saudai todos os vossos chefes e todos os santos. Os da Itália vos saúdam” (v. 24).
Mais uma vez, como já havia feito, o autor demonstra um carinho e um respeito muito grande pelos supervisores da obra de Deus. Ele recomenda saudações a todos, juntamente com todos os crentes.

“A graça seja com todos vós. Amém!” (v. 25).
O autor termina sua carta como o faz os demais escritores do Novo Testamento: recomendando a todos a graça de Deus. Uma carta que começou com a graça, agora termina também com a graça. Amém.

Notas
1 LIGHTFOOT, Neil R. Hebreus - comentário vida cristã. Editora Vida Cristã.
2 FRITZ, Rienecker. Chave Linguística do Novo Testamento. Vida Nova.
3 Stauros, tanto no Antigo com o no Novo Testamento, recebe vários significados quando é traduzida. O seu significado, portanto, não pode ser dado isolado do seu contexto (para um estudo exaustivo sobre essa palavra, veja: GONÇALVES, José. Defendendo o Verdadeiro Evangelho. CPAD, Rio de Janeiro, 2009).
4 HEGNER, Donald. Hebreus - comentário bíblico contemporâneo. Editora Vida.
5 RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento. Vida Nova.
6 HAUBECK, Wilfrid e SIEBENTHAL, Heinrich Von. Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Hagnus.
7 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Doubleday & Company, INC. Garden City, Nova York, EUA, 1972.
8 TAYLOR, Richard. Hebreus - comentário bíblico Beacon. CPAD, Rio de Janeiro.
9 A mesma palavra arrependimento usada aqui, metanoia, também é usada em Hebreus 6.4-6.
10 TAYLOR, Richard. Hebreus - comentário bíblico Beacon. CPAD, Rio de Janeiro.
11 CLARKE, Adam. Hebreus - comentário de la Santa Biblia - Novo Testamento, Tomo III. Casa Nazarena de Publicaciones.
12 BRUCE, F. F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio.
13 KEENER, C. S. Comentário al Contexto Cultural dei Nuevo Testamento. Mundo Hispano.
14 GUTRHIE, Donald. Hebreus - introdução e comentário. Editora Vida Nova.
15 BRUCE, F. F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio.
16 HEGNER, Donald. Hebreos - novo comentário contemporâneo. Editora Vida.
17 KEENER, C. S. Comentário al Contexto Cultural del Nuevo Testamento. Mundo Hispano.
18 FRIBERG, Timothy e FRIBERG, Barbara. Analytical Concordance of the Greek New Testament, vol. 1, lexical focus. Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, EUA.
19 HEGNER, Donald. Hebreus - novo comentário bíblico contemporâneo. Editora Vida.
20 KEENER, C. S. Hebreos - comentário al contexto cultural de la Biblia. Mundo Hispano.
21 RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Vida Nova.
22 BRUCE, F. F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio.

Fonte:
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves

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