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sábado, 3 de fevereiro de 2018

Cristo é Superior a Arão e à Ordem Levítica

“Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão” Hb 4.14


Nesta altura, chegamos numa seção crucial da Carta aos Hebreus: A Supremacia do Sumo Sacerdócio de Cristo. O início dessa seção resgata o fato de que o Senhor Jesus, por intermédio de seu sacerdócio supremo, torna aberto o caminho para todas as pessoas aproximarem-se ao trono da Graça de Deus com confiança. Ora, nosso Senhor compartilhou a nossa humanidade e, por isso, ninguém melhor que Ele para compreender nossas fraquezas e debilidades. Por isso, precisamos de um mediador perfeito, “porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2.5,6). Por todos esses motivos, o Senhor Jesus (1) representa mais eficazmente todos os seres humanos do que os sacerdotes do Antigo Testamento; (2) compreende melhor a condição humana, pois a viveu em sua plenitude — Ele é verdadeiro Homem; (3) sua posição, junto ao Pai, o coloca em melhor posição para interceder por nós (1Jo 2.1).

Dentre muitos outros motivos, esses três levantados acima atestam claramente que o nosso Senhor é o Sumo Sacerdote por excelência. Nele, devemos depositar a nossa confiança!

Leitura Bíblica em classe:  Hebreus 4.14-16;   Hebreus 5.1-14

Sugestão Pedagógica

Uma boa sugestão é que você explique a classe a estrutura da ordem sacerdotal e levítica de Israel. Nesse sentido, vale a pena ler o capítulo 16 do livro de Levítico que descreve uma das principais cerimônias que o sumo sacerdote celebrava: o Dia da Expiação. Os capítulos 15 e 16.1-6 de 1 Crônicas também merecem atenção, pois eles destacam a organização dos levitas feita pelo rei Davi. Faça essa leitura com o auxílio da Bíblia de Estudo Pentecostal, editada pela CPAD. Boa aula!

Comentário de Hebreus 5.1-14

No capítulo 4.14-16, o autor introduziu o assunto da doutrina do sacerdócio. Aqui, ele tecerá mais detalhes da ordem sacerdotal levítica para contrastar posteriormente com o sacerdócio de Cristo, que é de outra ordem e superior ao levítico. A ideia do autor ao detalhar as qualificações exigidas do Sacerdócio Aarônico tem o propósito de mostrar, em primeiro lugar, que Jesus preenchera esses qualitativos. É bom ter sempre em mente que o autor já havia mostrado Jesus como sendo o Filho de Deus, fato esse que o identifica com a raça humana e o qualificaria para ministrar como Sumo Sacerdote.

“Porque todo sumo sacerdote, tomado dentre os homens, é constituído a favor dos homens nas coisas concernentes a Deus, para que ofereça dons e sacrifícios pelos pecados" (v. 1).

O autor de Hebreus revela que a primeira condição para alguém exercer o sacerdócio é que esse alguém tenha sido tomado dentre os homens. Somente um homem que possui a mesma natureza de outro homem poderia oficiar como sacerdote.

Nos primeiros capítulos de sua carta, o autor expusera uma farta argumentação em favor da humanidade de Jesus. Esses fatos agora se tornam de grande relevância quando ele apresenta-o como um Sumo Sacerdote constituído em favor dos homens. O sacerdote tinha como dever apresentar dons e sacrifícios. Alguns comentaristas, como, por exemplo, Robert Gundry (nascido em 1932), entendem que a expressão “dons e sacrifícios” é usada como sinônimo.1  Por outro lado, muitos outros eruditos, como Donald Guthrie (1916-1992), entendem que os sentidos desses termos devem ser mantidos distintos. Guthrie observa, por exemplo, que, nesse caso, os dons (dôra) são uma referência às ofertas de cereais, e os sacrifícios (thysias) às ofertas de sangue.2  Isso parece ser confirmado pelo uso do verbo grego prosphero (oferecer), que ocorre 19 vezes nessa carta e que mantém esse sentido de apresentar ofertas e sacrifícios diante de Deus. O sacerdote, portanto, deveria ser alguém que se identificasse com seus semelhantes. “E possa compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados, pois também ele mesmo está rodeado de fraqueza" (v. 2). O termo grego metriopathein, traduzido como "compadecer", tem o sentido de alguém que consegue moderar suas paixões e sentimentos. Alexander Balmain Bruce (1831-1899) destaca que esse vocábulo

"Significa sentir-se com outro, mas sem abster-se de sentir contra ele; ser capaz de ter antipatia. Foi usado por Philo para descrever o sofrimento sóbrio de Abraão sobre a perda de Sara e a paciência de Jacó sob aflição. Aqui, parece ser empregado para denotar um estado de sentimento em relação ao ignorante e errado, com equilíbrio entre a severidade e indulgência excessiva".3

O sacerdote lidava com todos os tipos de desvios, erros e pecados cometidos pelo povo. Nessa teia de relacionamentos, ele via a fragilidade humana, o fracasso e o desespero. Sendo um homem colocado por Deus para representar os homens, o sacerdote sentia na sua própria alma o peso da miséria humana. Por outro lado, ele tinha diante de si a palavra de Deus, que o instruía a dar ao pecado o tratamento adequado, mesmo que o remédio fosse amargo. Era nesse momento que ele precisava agir com metripatheia, isto é, com compaixão!

“E, por esta causa, deve ele, tanto pelo povo com o também por si mesmo, fazer oferta pelos pecados" (v. 3). O sacerdote da antiga aliança vivia um dilema: ele necessitava fazer expiação não apenas pelos erros dos outros, mas também pelos seus. O sumo sacerdote deveria oferecer sacrifício primeiramente por si e, depois, pelo povo. "Depois, Arão oferecerá o novilho da oferta pela expiação, que será para ele; e fará expiação por si e pela sua casa” (Lv 16.6). Samuel Pérez Millos destaca que, na cerimônia da expiação dos sacerdotes e do povo, observam-se dois aspectos: primeiramente, o sacerdote, por uma questão do direito divino natural que lhe competia, deveria purificar-se de toda imundície pessoal, uma vez que isso tomava a oferta imunda e impossibilitava-o de ministrar diante de Deus. Por outro lado, o direito positivo prescrevia-lhe essa obrigação (Lv 4.3; 9,7; Hb 7.27; 9.7). Essa limitação, observa Millos, não é vista em Jesus Cristo, o Eterno Sumo Sacerdote, que não teve necessidade de purificar-se, visto ser imaculado e santo.4

“E ninguém toma para si essa honra, senão o que é chamado por Deus, como Arão" (v. 4). O autor usa a palavra grega timê, traduzida aqui como honra, para destacar a natureza do sacerdócio.5  O sacerdote era alguém chamado por Deus, e não pelos homens. Nos dias do Novo Testamento, o sistema sacerdotal corrompeu-se e tomou-se um cargo político, não mais sendo observadas as prescrições divinas para o exercício desse ofício (Êx 28.1; Lv 8.1; Nm 16.5; Sl 105.26). Todavia, como observa Craig S. Keener (nascido em 1960), o texto sugere que o autor refere-se ao sistema sacerdotal veterotestamentário, onde as exigências da Lei acerca do sacerdócio eram cumpridas, para contrastar com o sacerdócio de Jesus Cristo.6

“Assim, também Cristo não se glorificou a si mesmo, para se fazer sumo sacerdote, mas glorificou aquele que lhe disse: Tu és meu Filho, hoje te gerei” (v. 5). O autor mostra que Jesus cumpriu completamente todas as prescrições exigidas para o exercício do sacerdócio. Ele não se autoglorificou, constituindo-se a si mesmo como sacerdote. O léxico grego de Walter Bauer expressa bem o sentido do texto: "Ele não se elevou à glória do sumo sacerdócio”.7  No versículo 4, o autor fala da honra que Arão teve ao ser escolhido como sumo sacerdote; todavia, quando ele fala do sacerdócio de Jesus, mostra que o sacerdócio era algo inseparável de sua natureza. Deus dá testemunho de Jesus dizendo: "Tu és meu Filho”.8 Essa atribuição foi-lhe dada por Deus. Embora o autor não entre em detalhes sobre o momento no qual Jesus teria sido constituído sacerdote, os comentaristas destacam que a cristologia de Hebreus revela que Jesus é o Filho de Deus desde a eternidade (Hb 1.1,2; 5.8) e que foi vocacionado pelo Pai para ser Sumo Sacerdote. Nesse aspecto, a vocação aconteceu antes da encarnação, entrando, contudo, em vigor na paixão e morte, obtendo sua confirmação na ressurreição e ascensão.9

"Como também diz noutro lugar: Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque" (v. 6). É no capítulo 7 que a relação entre o sacerdócio de Jesus e Melquisedeque será explorada com maior profundidade pelo autor.10  Aqui, o comentarista bíblico Henry Orton Wiley mostra o que a analogia do sacerdócio de Melquisedeque revela em relação ao de Cristo.

1. Melquisedeque era sacerdote por seu próprio direito, e não em virtude de sua relação com os outros;
2. Era sacerdote para sempre, sem substitutos, sem sucessor;
3. Ele não foi ungido com óleo, mas com o Espírito Santo, como sacerdote do Altíssimo;
4. Não ofereceu sacrifícios de animais, mas pão e vinho, símbolos da Ceia, que, depois, Cristo instituiu;
5. E (talvez o principal pensamento na mente do escritor da Epístola) ele uniu as funções sacerdotais e reais, coisa estritamente proibida em Israel, mas a ser manifesta em Cristo, Sacerdote no seu trono (Zc 6.13).11

“O qual, nos dias da sua carne, oferecendo, com grande clamor e lágrimas, orações e súplicas ao que o podia livrar da morte, foi ouvido quanto ao que temia" (v. 7). A intercessão, característica de todo sumo sacerdote legitimamente constituído por Deus, é aplicada a Jesus de uma forma vívida e dramática pelo autor. A expressão "nos dias de sua carne" é uma referência à vida humana de Jesus. A humanidade de Jesus é sempre lembrada pelo autor de Hebreus como algo imprescindível para o exercício do sacerdócio. A expressão “grande clamor e lágrimas, orações e súplicas” não é encontrada nos evangelhos, mas aproxima-se dos acontecimentos que narram a agonia de Jesus no Getsêmani.

“E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito. Então, lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até à morte; ficai aqui e vigiai comigo. E, indo um pouco adiante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.37-39).

A tradução "tendo sido ouvido por causa da sua piedade” (ARA) é preferível a "foi ouvido quanto ao que temia" (ARC), já que o termo grego eulabeia mantém o sentido no Novo Testamento de “temor de Deus" e "reverência", destacando o aspecto da vida piedosa.12

Em que sentido Jesus teria sido ouvido? Ao longo da história da interpretação, pelo menos três formas de entendimentos desse texto têm-se destacado.
- Uma interpretação é que Jesus teria sido ouvido com base na sua piedade. Nesse aspecto, Jesus orou ao Pai para que este o livrasse da morte; todavia, orou também para que a vontade do Pai prevalecesse. Essa era a opinião de João Crisóstomo, de vários escritores medievais e dos comentaristas protestantes James Moffat, Franz Delitzsch e Wescott. Esses autores observam que a oração de Jesus foi ouvida por ter sido feita com temor reverente, e, assim, a vontade do Pai efetivou-se.
- Uma segunda interpretação é que Jesus teria orado para livrar-se do medo da morte. Essa interpretação foi seguida por João Calvino, Teodoro de Beza, Hugo Grócio, Johann Albrecht Bengel, Milligan e Michel. Trata-se de uma interpretação inusitada, mas não parece natural e nem de acordo com o contexto desse capítulo.
- Uma terceira interpretação entende que Jesus foi ouvido e foi libertado da morte através da ressurreição.13  Esse entendimento segue a antiga tradução dada pela Peshitta, que data do segundo século. A tradução da Peshitta diz: “E quando este estava vestido de carne, ofereceu petição e súplica com intenso clamor e lágrimas àquEle que podia ressuscitá-lo da morte, e foi ouvido”.14  Em uma nota de rodapé da versão em espanhol da Peshitta, está a explicação: “Essa expressão é fiel ao cumprimento de que o Pai não o abandonaria no Seol, aparte de que o Senhor sabia de antemão que havia vindo para morrer na cruz. O texto grego diz livrá-lo da morte".15  O erudito W. F. Mouton, um dos defensores dessa interpretação, destaca: “Estamos convencidos de que a oração não foi para que a morte fosse evitada, mas que houvesse segurança de libertação da mesma”.16 F. F. Bruce argumenta que o contexto de Hebreus 5, que é Salmos 22, favorece esse entendimento.

“Mas enquanto o Getsêmani provê a 'ilustração mais vívida’ das palavras de nosso autor, elas têm uma referência mais geral ao curso da humilhação e paixão de nosso Senhor. Mais ainda: Foram influenciadas pela linguagem do Salmo 22, um salmo cuja frequência como testemunium cristão já temos assinalado. 'Grande clamor e lágrimas’ é a súplica e queixa da primeira parte do salmo, enquanto a afirmação de que Cristo foi ‘ouvido por causa de seu temor reverente’ faz eco do Salmo 22.24: ‘Quando ele clamou, o ouviu’. Na interpretação cristológica desse salmo, essas palavras entendem-se como uma referência a ressurreição de Cristo".17

"Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (v. 8). Sendo o verbo de Deus encarnado, Jesus viveu nas mesmas condições nas quais viveram os demais homens, exceto o pecado. Na sua humanidade, Ele também precisou exercitar a vida de obediência. O sentido dado pela tradução americana New English Bible (NEB) é que Jesus aprendeu na escola do sofrimento.

“E, sendo ele consumado, veio a ser a causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem" (v. 9). A expressão “sendo ele consumado" é traduzido na Almeida Revista e Atualizada como “tendo sido aperfeiçoado". Esse vocábulo é o particípio aoristo passivo de teleioô, significando: executar plenamente, consumar, acabar, aperfeiçoar.18  Adam Clarke traduz como “havendo terminado tudo’’, significando “havendo morto e ressuscitado”.19  O texto, portanto, não está sendo usado no sentido de que Jesus era imperfeito e precisava aperfeiçoar-se, mas, sim, no sentido de completude, isto é, que Ele completou a obra da Salvação. Em seu antigo comentário à carta aos Hebreus, Teodoreto de Cirro (393—457 d.C) destacou este sentido: “Com a expressão 'chegou à perfeição’ refere-se à ressurreição e à imortalidade, que são o cumprimento da economia da salvação”.20  O texto mostra que o plano da Salvação é para todos os homens (Jo 1.29; 3.16; 2 Pe 3.9; 1 Jo 2.2), mas ela só se efetiva naqueles que a recebem. Somente aqueles que recebem a Cristo e obedecem a Ele serão salvos. O autor conclui seu raciocínio dizendo que, tendo terminado o sacrifício do Calvário, Deus proclamou a Jesus Cristo, na sua ressurreição, Sumo Sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque.

“Chamado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque’’ (v. 10). Ele voltará a tratar esse assunto com profundidade no capítulo 7; todavia, aqui, o autor introduz um parêntese exortativo, como ele já fizera em outros lugares.

“Do qual muito temos que dizer, de difícil interpretação, porquanto vos fizestes negligentes para ouvir" (v. 11). A doutrina do sacerdócio de Cristo é de suma importância para a vida cristã; o autor, todavia, observou que seus leitores davam sinais de arrefecimento na fé. Eles negligenciaram o aprendizado, sendo tardios para ouvir, e, como consequência, não estavam crescendo em maturidade espiritual. O autor tem consciência de que, quando voltar a tratar do assunto do sacerdócio de Cristo (no capítulo 7), seus leitores terão dificuldades de assimilar o seu ensino. O perfeito do indicativo ativo do verbo grego ginomai mostra que seus leitores nem sempre foram assim. Era hora de acordá-los novamente!

“Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos tome a ensinar quais sejam os primeiros rudimentos das palavras de Deus; e vos haveis feito tais que necessitais de leite e não de sólido mantimento” (v. 12). A censura do autor é forte: eles deveriam ser mestres; no entanto, ainda se encontravam no jardim de infância da fé. Eles estavam atrasados na escola da fé e necessitavam refazer novamente as lições que já deveriam ter aprendido. O crescimento espiritual tem sua analogia no crescimento natural. A criança ainda não tem seus órgãos plenamente desenvolvidos; por isso, ela deve sofrer restrições quanto a determinados tipos de alimentos. Ela necessita de leite, que é necessário e adequado para esse estágio da vida. Para um adulto, porém, somente esse tipo de alimento não é suficiente. Os hebreus ainda estavam bebendo leite!

"Porque qualquer que ainda se alimenta de leite não está experimentado na palavra da justiça, porque é menino" (v. 13). A criança alimenta-se de leite, e o adulto de comida sólida. O autor sabe que a doutrina do sacerdócio exige uma maior dificuldade de compreensão — ela é para os que já são graduados.

“Mas o mantimento sólido é para os perfeitos, os quais, em razão do costume, têm os sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal" (v. 14). Os cristãos maduros, que cresceram na fé, são aqueles aos quais o autor tem como "adequadamente treinados".21

A doutrina da superioridade sacerdotal de Cristo é transcendental aos princípios formadores da fé cristã e essencial à nossa fé.


Notas
1 GUNDRY, Robert. Commentary on Hebrews. Baker Academic, Grand Rapids, Michigan. EUA, 2010.
2 GUTHRIE, Donald. Hebreus - introdução e comentário. Editora Vida Nova, São Paulo.
3 BRUCE, Alexander Balmain. To The Epistle to Hebrews - the first apology of Christianity: An exegetical study. Charles Scribner’s Sons. Fifth Avenue, Nova York City, 1899.
4 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - comentário exegético al texto griego del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
5 Esse termo ocorre 41 vezes no Novo Testamento e 4 em Hebreus. Josefo usa essa palavra para referir-se à honra do ofício do sumo sacerdote (Josefo, Antiguidades HI, 188).
6 KEENER, C. S. Comentário del Contexto Cultural de la Biblia - Nuevo Testamento. Editorial Mundo Hispano, El Paso, Texas, EUA.
7 BAUER, Walter. A Greek-English Lexico of the New Testament and Other Early Christian Literature. The University of Chicago Press, EUA, 1979.
8 Veja a exposição de Thomas C. Edwards no seu Comentário Bíblico do Expositor - Carta aos Hebreus. Editora Koilas, Florianópolis, Santa Catarina, 2014. Edwards observa que o autor usa a palavra time {honra) para referir-se a chamada de Arão. Todavia, em relação a Jesus, ele usa o termo doksa, mostrando que o sacerdócio de Jesus era algo que fazia parte de sua personalidade , e não alguma coisa que foi acrescentada, como no caso de Arão.
9 FR IT Z , Laubach . Comentário aos Hebreus. Editora Esperança.
10 "O sacerdócio de Melquisedeque foi uma fonte de numerosas especulações pós-bíblicas que foi intensificada pela dificuldade do versículo do Salmo 110.4: "O Senhor jurou e não se arrependerá/Tu és sacerdote para sempre/ segundo a ordem de Melquisedeque”. Geralmente, é acreditado que o Melquisedeque mencionado aqui e o de Gênesis são o mesmo” (Enciclopaedia Judaica, 22 volumes. Second Edition, vol. 14. Pp .11. Macmillan Reference, Farmington Hills, MI, EUA, 2007.
11 WILEY, Orton . A Excelência da Nova Aliança em Cristo - comentário exaustivo da carta aos Hebreus. Editora Central Gospel.
12 Adam Clarke fez uma paráfrase de Hebreu s 5.7: "Jesus Cristo, nos dias de sua carne (porque Ele foi encarnado para redimir a semente de Abraão, a raça humana caída) e, em seus sofrimentos expiatórios, quando representava a raça humana, oferecia orações e súplicas com forte clamor e lágrimas àquEle que podia salvá-lo da morte. A intercessão prevaleceu, a paixão e o sacrifício foram aceitos, o aguilhão da morte foi tomado, e Satanás destronado” (CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de La Santa Biblia, tomo III, pp 594, Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, EUA).
13 Veja uma análise detalhada no comentário: Epístola aos Hebreus - Jesus Cristo, Hoje. Neil R. Lightfoot. Editora Vida Cristã.
14 Biblia Peshita - Traducckm de Los Antigos Manuscritos Arameos. Holman Bible Publishers. Nashville, Tennessee, EUA.
15 Idem.
16 ELLIC0TT, Charles John. A Bible Commentary For English Readers. Cassell and Company , Londres, 1905.
17 BRUCE, F. F. La Epistola a Los Hebreos. Libros Desafio. Grand Rapids, Michigan, EUA.
18 MOUCE, William D. Léxico Grego Analítico. Editora Vida Nova.
19 CLARKE, Adam. Hebreos - comentário de la Santa Biblia, tom o III. Editora Nazarena, Lenexa, EUA.
20 CIRO, Teodoreto. Interpretacion Sobre La Carta a Los Hebreos. La Biblia Comentada por Los Padres de La Iglesia. Ciudad Nueva, Madrid, Espana.
21 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Doubleday & Company , INC . Garden City, Nova York, EUA, 1972.

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
Aqui eu Aprendi!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Os primeiros Discípulos

“E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens” Mt 4.19


“Discípulo era um termo comum no século I para uma pessoa que era um seguidor compromissado de um líder religioso, filosófico ou político. No mundo judaico, o termo era particularmente usado para os estudantes de um rabi, o mestre religioso. Nos Evangelhos, João Batista e os fariseus tinham grupos de discípulos (Mc 2.18; Mt 22.15,16). Esses discípulos, com frequência, eram os alunos mais promissores que passaram pelo sistema de educação judaica — os que já tinham memorizado as Escrituras hebraicas e demonstraram o potencial para aprender os ensinamentos específicos dos rabis sobre a Lei e os profetas a fim de que pudesse ensinar isso a outros. Portanto, era uma grande honra e responsabilidade ser chamado por um rabi para ser seu discípulo. Os discípulos aprenderam os ensinamentos de seu rabi vivendo com ele e seguindo-o aonde quer que vá. Uma frase daquele tempo descrevia os discípulos como aqueles que ‘ficavam cobertos pela poeira do rabi’, porque, literalmente, seguiam de muito perto seus mestres” (Guia Cristão de Leitura da Bíblia. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2013, p.69).

O chamado de Jesus e a afirmação de que a seara é grande e os ceifeiros são poucos continuam atuais.

Texto Bíblico: Mateus 4.18-25

INTRODUÇÃO

Ninguém pode fazer a obra de Deus sozinho, por isso Jesus, o Filho de Deus, chamou alguns discípulos para estar mais próximos e ajudarem em seu ministério. O Mestre investiu tempo para preparar estes primeiros discípulos, a fim de que eles dessem continuidade à sua missão depois da sua partida.

Jesus comissionou os primeiros discípulos e começou o seu ministério de evangelização na região da Galileia, logo que soube que João estava preso. O início da pregação na região da Galileia e a preparação dos discípulos foram fundamentais para a expansão do Evangelho.

I. CHAMADOS PARA SEREM PESCADORES DE HOMENS

1. O discípulo recebia formação aos pés do seu mestre.
A escolha do discípulo era de grande responsabilidade, pois ele seria o sucessor do mestre para discipular as futuras gerações. No judaísmo, o discípulo era alguém formado aos pés de um rabi, o mestre religioso, portanto era algo honroso, mas acompanhado de grande responsabilidade. João Batista e os fariseus também tinham grupos de discípulos (Mt 22.15,16; Mc 2.18).

Para ser convocado pelo mestre, o discípulo deveria apresentar algumas qualificações, como por exemplo, ter memorizado a Torá, além de possuir potencial para se tornar um mestre no futuro. Ele também precisava ser próximo de seu mestre, pois a partir da escolha deveriam ter uma vida em comum por um longo período. A princípio pode parecer que Jesus não teve o devido cuidado na escolha dos primeiros discípulos. O texto descreve a escolha a partir de um encontro casual e repentino, durante uma caminhada junto ao mar. Por isso, a necessidade de analisar esta narrativa de Mateus em conjunto com os demais Evangelhos, pois as informações se complementam. Cada um dos evangelistas teve o seu objetivo na hora de escrever os Evangelhos, com destinatários específicos e informações que seguiam também as necessidades específicas.

2. A escolha dos discípulos.
Quando o chamado dos primeiros discípulos é analisado em conjunto com outros Evangelhos é possível perceber que Jesus os conhecia antes de chamá-los e os preparou depois da chamada. Diferente do que aparenta a leitura isolada de Mateus, João nos dá mais detalhes a este respeito (Jo 1.35-56). André, o primeiro discípulo a ser chamado já havia abandonado o negócio de pescaria da família para ser discípulo de João Batista e deve ter visto Jesus pela primeira vez quando este foi batizado por João. Quando ouve João dizer que Jesus era o Cordeiro de Deus, ele segue a Jesus até sua casa e passa o dia com o Mestre. No dia seguinte André encontra seu irmão Simão e o leva para conhecer Jesus (Jo 1.41,42). No outro dia Jesus também chama Filipe, que, também traz mais um discípulo, Natanael. Os novos amigos e discípulos de Jesus permanecem juntos durante vários dias (Jo 2.12).

O lugar onde ocorreu o chamado dos primeiros discípulos é motivo de controvérsia entre alguns estudiosos dos Evangelhos. Pois, a narrativa dos Evangelhos pode dar impressões diferentes. Segundo João parece que eles foram chamados na Judeia, onde João pregava. Mas de acordo com Mateus o local definido é a Galileia. Os comentaristas geralmente falam de duas chamadas, a primeira na Judeia e a segunda e definitiva, pouco depois, na Galileia quando Jesus iniciou o seu ministério, após saber da prisão de João Batista.

3. Ser discípulo exige fazer algumas renúncias.
O que caracteriza um verdadeiro discípulo de Jesus? É a sua disposição para segui-lo, independente das circunstâncias. A chamada dos discípulos e a resposta imediata deles mostram como se dá a verdadeira conversão. O chamado de Jesus falou mais forte do que os projetos pessoais e familiares daquele grupo de homens.

Mateus mostra que os discípulos abandonaram suas profissões para seguir a Jesus, porém eles não abandonaram seus familiares por completo (Mt 8.14,15; 20.20). Mas, uma coisa é certa, todas as pessoas que se propõe a seguir Jesus terão que fazer algum tipo de renúncia e mudar o estilo de vida.

O chamado para o exercício do ministério é para pessoas ocupadas e que estejam dispostas a seguir Jesus, independente das circunstâncias.

II. O DISCIPULADO COMO ESTRATÉGIA DE CRESCIMENTO

1. O início do ministério de Jesus e a preparação dos discípulos.
Jesus deu início ao seu ministério terreno assim que soube da morte de João. Ele retorna para a Galileia, mas não se estabelece em sua cidade natal, Nazaré, onde foi rejeitado (Lc 4.29). Jesus se muda para Cafarnaum, uma cidade marítima na região de Zebulom e Naftali. Mateus faz questão de enfatizar que Ele não fez isso por acaso, mas para que se cumprissem as Escrituras. Por isso, ele cita Isaías 9.1,2. Uma predição de que os habitantes de Zebulom e Naftali, que estavam em trevas, veriam uma grande luz. Mateus relê o texto de Isaías, apresentando Jesus como essa grande luz que traria a salvação para esse povo. A chamada Galileia dos gentios estava em trevas, distante de Deus e era um campo fértil para conversões.

Jesus não foi para os grandes centros da Judeia e nem comissionou os principais rabinos e mestres de Jerusalém para iniciar o seu ministério. Ele escolhe discípulos da própria região, sem qualificações de liderança. Mas investiu na preparação deles.

A comitiva de Jesus saiu por toda a Galileia pregando, ensinando e realizando diversos milagres. Assim, os discípulos vão sendo preparados “aos pés de Jesus”.

2. A difusão das Boas Novas pelos discípulos.
A estratégia de Jesus deu grande resultado, pois as pessoas que se convertiam se transformavam em novos discípulos para anunciar as Boas Novas. Jesus, como homem, não poderia estar em vários lugares ao mesmo tempo, mas poderia ser representado pelos discípulos.

O envolvimento daqueles que eram alcançados pela mensagem das Boas Novas era tão grande que Mateus registra que as pessoas da região da Galileia, da Judeia, de Jerusalém, dalém do Jordão, inclusive de Decápolis e da Síria, foram alcançadas pelo Evangelho. A mensagem de salvação ultrapassou as fronteiras. E isso se deve ao envolvimento e testemunho dos novos convertidos.

Os discípulos foram aprendizes e testemunhas dos milagres de Jesus, foram propagadores de sua mensagem e instrumentos de Deus para cura dos enfermos. A expansão do Reino de Deus se deu com pessoas simples, porém testemunhas do poder de Deus na vida de Jesus. Eles propagavam com eficácia a mensagem e os feitos de Jesus nas ruas, casas e comércio, de tal forma que milhares de pessoas se convertiam e a cada dia aumentava o grupo de discípulos.

3. A estratégia de discipulado de Jesus continua atualizada.
Ainda hoje, algumas pessoas pensam que a responsabilidade pela propagação do evangelho é somente dos líderes e pregadores. Muitos estão acomodados com a rotina de atividades dentro dos templos. A evangelização deixou de ser prioridade para alguns.

Jesus disse que veio para os doentes e não para os sãos. A Igreja deve atuar como um hospital, um local para acolher os enfermos, mas para isso, precisa de pessoas capacitadas e preparadas para receber e tratá-los adequadamente.

A conversão é uma obra espiritual realizada pelo Espírito Santo, mas fazer discípulos é responsabilidade de cada cristão. Essa era a estratégia de Jesus. As pessoas que ouviam e testemunhavam do poder de Deus eram estimuladas a propagar as Boas-Novas em todos os lugares, de forma simples e objetiva. Com isso as conversões cresciam a cada dia por meio do discipulado. A tarefa da Igreja somente estará completa quando o novo crente for integrado à vida da Igreja e for capacitado para fazer novos discípulos (2Tm 2.2).

Desde o início da Igreja o discipulado tem sido a melhor estratégia de crescimento, pois desenvolve tanto o discipulando como o discipulador.

III. A EFICÁCIA DO ENSINO DO MESTRE (Mt 7.24-29)

1. A didática do Mestre.
A eficácia do ensino de Jesus era surpreendente, pois Ele conseguia falar para um público grande e diversificado e mantê-los atentos por horas. Ele fez uso de várias ilustrações em seus sermões, pois elas conduziam os seus ouvintes a imaginarem a cena citada de tal forma que os discípulos se sentiam participantes ativos.

2. Histórias utilizadas pelo Mestre.
Ao longo do Sermão do Monte, Jesus se utiliza da parábola dos dois alicerces para ressaltar a diferença entre aqueles que ouvem a sua palavra e a pratica; e os que somente a ouvem. Jesus mostra que a primeira casa foi muito bem construída, pois o seu construtor a estabeleceu sobre um fundamento seguro, a rocha. Jesus compara o construtor prudente à pessoa que ouve os seus ensinos e os coloca em prática. O Mestre ensina que a nossa vida (nossa casa) é construída mediante as nossas escolhas e que estas vão interferir em nosso futuro. Na segunda casa, o construtor utiliza a areia como fundamento e tal ilustração chama a atenção para as práticas dos escribas, fariseus e os líderes religiosos que viviam uma espiritualidade superficial e hipócrita. Jesus mostra que a primeira casa se manterá de pé, mesmo diante das intempéries da vida, mas a segunda será destruída. Sobre qual fundamento você tem construído sua casa?

3. O ensino de Jesus era único e causava admiração (Mt 7.28,29).
Apesar de tudo que já foi escrito a respeito do Mestre, o estudo de sua vida e obra continua edificando, exortando, consolando seus discípulos e lhes causando admiração. Por isso, não é de se estranhar o entusiasmo das multidões ao ouvir seus sermões (v.28).

Os métodos utilizados por Jesus em seu ensino não eram novos; a grande maioria era conhecida, principalmente pelos mestres judeus. No entanto, a maestria com que Ele os utilizava fazia uma grande diferença no aprendizado dos seus ouvintes e os deixavam maravilhados. Porém, isso não era o que mais impressionava e causava admiração nos seus discípulos e naqueles que o ouviam. O que chamava a atenção do povo era a coerência entre o que Jesus ensinava e o seu modo de vida. Enquanto os escribas, fariseus e demais líderes viviam de aparência e falsas ostentações, o discurso de Jesus era coerente com sua prática. Os anos passam, mas seus ensinos continuam admiráveis, inigualáveis e capazes de transformar o mais vil pecador em filho de Deus, tornando-o “um pescador de homens” (Mt 4.19).

Jesus, com a sua metodologia de ensino e com a sua autoridade, fazia com que multidões o ouvissem voluntariamente por horas.


CONCLUSÃO

Nesta lição, aprendemos que Jesus escolheu os discípulos e investiu tempo para capacitá-los a fim de que se tornassem discipuladores. Isso exigiu deles renúncias pessoais, profissionais e até mesmo familiares. Aprendemos também que o modelo de discipulado de Jesus continua atual e eficiente para o crescimento da Igreja na atualidade.



Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 1º Trimestre de 2018 - Título: Seu Reino não terá fim — Vida e obra de Jesus segundo o Evangelho de Mateus - Comentarista: Natalino das Neves

Aqui eu Aprendi!

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

A herança das filhas de Zelofeade

"As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; e a herança de seu pai farás passar a elas." Números 27:7


Zelofeade era um pai da tribo de Manasses, a menor tribo de Israel, numericamente falando. No livro de Números capitulo 27 ele é citado por suas cinco filhas: Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza. Estas procuraram Moisés para reivindicarem o direito a herança: Zelofeate havia morrido no deserto de Moabe e segundo a lei daquela época, filhas mulheres não tinham direito a herança.

“Nosso pai morreu no deserto, e não estava entre os que se congregaram contra o Senhor no grupo de Coré; mas morreu no seu próprio pecado, e não teve filhos. Por que se tiraria o nome de nosso pai do meio da sua família, porquanto não teve filhos? Dá-nos possessão entre os irmãos de nosso pai. ” Números 27: 3,4.

Primeiramente e antes de tudo digo que este artigo não tem objetivos feministas de aludir à causa de igualdades de direitos mediante gêneros masculino e feminino. Também não tem por objetivo combater o sistema patriarcal do Oriente na antiguidade. O que se pretende enfatizar aqui é a providência Divina atuando frente as desigualdades sociais que existem desde sempre em qualquer tempo e lugar. As filhas de Zelofeate são representantes de uma transformação social ímpar, consequência de uma cooperação familiar necessária. São um exemplo de fé porque ousaram se apresentar diante de um tribunal constituído por Deus a fim de serem auxiliadas.


As cinco filhas de Zelofeade estavam em luto,angustiadas, mediante a perda do pai e a incerteza do futuro. Elas eram descendentes de José do Egito, sobre elas repousava a promessa de Deus de herdar a terra prometida de Canaã. Macla, Noa, Hogla, Milca e Tirza eram conhecedoras da fé dos antepassados e da relação tão próxima de Deus com seus pais.

Genealogia das filhas de Zelofeade:

-José
-Manassés
-Maquir
-Galaad
-Héfer
-Zelofeade
-Filhas de Zelofeade.

Estas cinco mulheres se organizaram e compareceram diante dos sacerdotes em frente a tenda da congregação:


“E chegaram as filhas de Zelofeade, filho de Hefer, filho de Gileade, filho de Maquir, filho de Manassés, entre as famílias de Manassés, filho de José; e estes são os nomes delas; Maalá, Noa, Hogla, Milca, e Tirza; E apresentaram-se diante de Moisés, e diante de Eleazar, o sacerdote, e diante dos príncipes e de toda a congregação, à porta da tenda da congregação.” Números 27:1,2

Na porta da tenda elas ficaram de pé diante de Moisés e dos sacerdotes. Posição de oração, de espera, de reverência. É incrível a atitude delas, pois não recorreram a tribunais meramente humanos, não se acomodaram e nem temeram. A lei, instituída, tradicional, as excluía. Nunca antes na história daquela nação haviam feito uma reivindicação tão “descabida”. 

O que também é louvável no episódio das filhas de Zelofeade é o comportamento de Moisés e dos sacerdotes daquela congregação. Havia a possibilidade de eles expulsarem-nas, renegarem-nas  por infração a lei. Mas não, eles ouviram a causa atentamente e intercederam por elas:


“E Moisés levou a causa delas perante o Senhor. E falou o Senhor a Moisés, dizendo: As filhas de Zelofeade falam o que é justo; certamente lhes darás possessão de herança entre os irmãos de seu pai; e a herança de seu pai farás passar a elas. ”Números 27:5-7

Deus respondeu a oração das filhas de Zelofeade concedendo-lhes herança entre os filhos de Israel.

Aqui esta uma maravilhosa lição ministerial de líderes intercedendo por pessoas aflitas, necessitadas. Aqui a graça e o amor de Deus atuando sobre as desigualdades sociais, quebrando paradigmas, superando a previsibilidade humana. Deus é o Governo sobre todos os governos terrenos.

As filhas de Zelofeade tinham uma causa “impossível” e foi buscando a justiça de Deus que conseguiram alcançar aquilo que só poderia ser alcançado mediante a fé. Entreguemos nossas causas a Deus, prostremo-nos diante de Seu tribunal a fim de sermos auxiliados.

A união familiar garantiu a herança. Elas tinham um objetivo comum, tinham tanto respeito e amor pelo pai que lutaram por preservar sua semente e memória. As filhas de Zelofeade são referenciais familiares para dias de crise. Elas não foram abatidas pela difícil situação, pelo contrário: se uniram a fim de se fortalecerem.  A oração e os laços de amor para com Deus e o próximo também podem nos garantir herança no Reino de Deus, na Canaã celestial.

Que assim seja,


Deus o abençoe.

***

Texto da excelente escritora Wilma Rejane
via A TENDA NA ROCHA

BÍBLIA. Português. Bíblia de Estudo Plenitude, Tradução João Ferreira de Almeida, São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil, 1995. Baseado no livro de Números, capitulo 27, Antigo Testamento.

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sábado, 27 de janeiro de 2018

Jesus é superior a Josué - O meio de entrar no repouso de Deus

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência” Hb 4.11

Jesus é superior a Josué — O meio de entrar no repouso de Deus

O livro de Josué narra a conquista parcial da terra prometida, a terra de Canaã, sua distribuição e o estabelecimento do povo israelita nela. A narrativa do texto mostra batalhas sangrentas para conquistar a terra. Os cananeus não a entregariam gratuitamente. Entretanto, ao longo do livro é possível perceber que Deus honrou Israel, fazendo-o vencer os inimigos idólatras e obter a dádiva da terra prometida ao seu povo. Ali, começaria a se cumprir a promessa da Aliança de Deus com os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó.

Nesse contexto que a promessa de descanso, ou repouso, isto é, a promessa de conquistar e permanecer na terra prometida, que não foi plenamente realizada, foi cumprida por intermédio de Josué ao povo de Israel, mas unicamente numa perspectiva terrena, incompleta e finita. Aqui, o capítulo 4 de Hebreus faz o maior contraste com o “repouso” proposto no livro de Josué.

A Carta aos Hebreus mostra que “o repouso prometido por Deus não é somente o terrestre, mas também o celestial” (vv.7,8; cf.13.14). Para os crentes, resta ainda o repouso eterno no céu (Jo 14.1-3; cf. Hb 11.10,16). Entrar nesse repouso final significa o cessar do labor, dos sofrimentos e da perseguição, tão comuns em nossa vida nesta terra (cf. Ap 14.13); significa participar do repouso do próprio Deus e experimentar a eterna alegria, deleite, amor e comunhão com Deus e com os santos redimidos. Será um descanso sem fim (Ap 21.22)” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, p.1905).

O descanso provido por Josué foi terreno, temporário e incompleto; o descanso provido por Cristo é celestial, eterno e completo.

Leitura Bíblica em classe - Hebreus 4. 1-13

O texto de Hebreus 4 mostra o que a história de Josué representa para a Igreja de Cristo. Enquanto o ministério do sucessor de Moisés foi de caráter terreno, temporário e incompleto — primeiro porque Israel não conquistou toda a terra; depois, as guerras continuaram —, Jesus Cristo proveu um descanso celestial, eterno e completo. Na lição desta semana, é preciso fazer o contraste entre os ministérios de Jesus e Josué, conforme abaixo:

JOSUÉ ⇒ Terreno → Temporário → Incompleto

JESUS ⇒ Celestial → Eterno → Completo

Devido à popularização da teologia da prosperidade, bem como o aumento da “politização ideológica” dos movimentos evangélicos, é comum alguns cristãos virarem as costas para a dimensão celestial e eterna do ministério de Jesus, alegando que se dermos ênfase ao “céu” formaremos cristãos “escapistas”. O problema é que eles se esqueceram de combinar isso com o autor de Hebreus. A natureza celestial, eterna e esperançosa do ministério de Cristo é cristalina nas Escrituras! Por isso, embora a obra de Cristo tenha consequências presentes como uma antecipação das bênçãos futuras, claro que podemos vivê-las hoje, aqui e agora, não tenha receio de enfatizar a natureza do porvir da obra de Cristo, pois Ele nos prometeu a vivência da comunhão no Reino Celestial (Mt 26.28,29).


Comentário Hebreus 4. 1-16

O autor já havia feito uma serie de exortações, tomando a rota do Êxodo sob a liderança de Moisés como ponto de partida. Tendo o grande legislador hebreu morrido, coube a Josué, um dos seus auxiliares mais próximos, a missão de levar o povo a entrar na Terra Prometida (Js 1.1). Para o antigo povo de Deus, a entrada em Canaã significava o descanso da jornada e o cumprimento da promessa de Deus, só que o autor de Hebreus destaca que esse descanso, de fato, nunca ocorreu em sua plenitude. E não ocorreu porque assim teria de ser, mas, sim, porque a incredulidade e a rebeldia não permitiram. Deus não decretara nada daquilo que negativamente marcara seu antigo povo. Da mesma forma, os destinatários da carta aos Hebreus não podiam responsabilizá-lo pelo fracasso daqueles que ficariam para trás. O autor alerta que a coisa parecia repetir-se, não mais rumo à conquista da terra, mas, agora, na trajetória rumo ao Céu.

Esse descanso é entendido pelos intérpretes como a entrada na nova aliança. Nesse aspecto, o autor mostra que alguns se excluíram dele porque não receberam com fé a mensagem do evangelho (4.1,2). Essa falta de compromisso com a mensagem da cruz colocava-os numa posição de perigo. George Howard Guthrie (nascido em 1959) observa que é um descanso no qual todos devem esforçar-se para entrar (4.11) — já que a entrada na nova aliança exige um posicionamento corajoso ao lado de Cristo e de sua Igreja — mas, por outro lado, implica no descanso das próprias obras (4.10). Guthrie ainda destaca que a carta aos hebreus deixa claro que isso exige uma fé obediente que está disposta a afastar-se do erro para abraçar a Palavra de Deus. Esse descanso possui uma dimensão presente, no qual se participa agora pela fé (4.3) e que terá sua consumação no fim dos tempos.1

“Temamos, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fique para trás" (v. 1). De uma forma recorrente, como o faz em vários pontos dessa carta, o autor usa outra vez de um contundente tom exortativo. Temamos é a tradução do grego phobethomen, derivado de phobeomai, que ocorre 95 vezes no Novo Testamento. Joseph Henry Thayer (1828-1901) traduz como: temor, medo, ser atingido pelo medo, ficar alarmado.2  Nessa carta, esse termo aparece novamente nos capítulos 11.23,27 e 13.6. O sentido é de alguém que sente receio, temor ou medo diante de alguma situação que inspira cuidados. Dessa forma, é traduzido para descrever o temor que o apóstolo Paulo demonstrou diante de uma real possibilidade de dano que Satanás poderia causar aos crentes de Corinto. "Mas temo que, assim como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim também sejam de alguma sorte corrompidos os vossos sentidos e se apartem da simplicidade que há em Cristo” (2 Co 11.3). F. F. Bruce destaca que a intenção do autor é mostrar que os crentes

"farão bem em temer a possibilidade de perder a grande bênção que nos está prometida, da mesma maneira que a geração de israelitas que morreu no deserto perdeu a Canaã terrestre, embora fosse o objetivo que tinham diante de si quando saíram do Egito”.3

Esse sentido é obtido a partir da expressão “pareça que algum de vós fique para trás”. Guthrie destaca que o que suscitava temor no autor é que alguns dos membros da comunidade pareciam não ter alcançado o prometido descanso. Guthrie observa que o autor não está afirmando categoricamente que alguns deles deixaram de alcançar o prometido descanso, mas que é necessário exercer a prudência já que essa possibilidade é real.4

“Porque também a nós foram pregadas as boas-novas, como a eles, mas a palavra da pregação nada lhes aproveitou, porquanto não estava misturada com a fé naqueles que a ouviram" (v. 2). Ao referir-se à "palavra da pregação”, o autor destaca o modo como Deus comunicou-se e revelou-se a seu povo no antigo pacto, e não exatamente ao conteúdo da mensagem pregada, que, evidentemente, era diferente das Boas-Novas anunciadas no Novo Testamento.5  Ali, a revelação era parcial; aqui, total. Deus revelara-se aos antigos hebreus, mas eles não quiseram escutar. Da mesma forma, os novos hebreus, que receberam uma revelação em tudo superior, não estavam também atentando ao que fora dito. A razão foi a incredulidade que não permitiu a palavra produzir efeitos naqueles que a ouviram.

"Porque nós, os que temos crido, entramos no repouso, tal como disse: Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso" (v. 3). A expressão "os que temos crido” é um particípio aoristo e tem o sentido de "nós que nos tomamos crentes”.6  Os cristãos que perseveram e não recuam ganham o direito de entrar no descanso de Deus. A. T. Robertson destaca que o verbo “entramos" está no presente futurista e, nesse texto, tem o sentido de “nós temos a segurança de entrar [no descanso], os que cremos”.7  O descanso de Deus é uma realidade já presente, mas a sua plenitude só terá efeito no futuro. Deus proveu um descanso para seu povo, mas esse repouso não é para os indolentes, negligentes e descrentes, e sim para os que fazem a jornada até o fim. Richard S. Taylor (1912-2006) destaca acertadamente que esse descanso provido por Deus não deve ser interpretado como garantia de que “não importa o que façamos, Ele vai dar um jeito de levar-nos até lá”. Pelo contrário, essa evidência da grandeza de Deus deixa-nos completamente indesculpáveis em nossa descrença temerosa. Esses parágrafos intensos são uma forte tentativa de chacoalhar os cristãos hebreus em sua falsa segurança, ao mostrar-lhes que não possuem imunidade contra os perigos da cerca espiritual.8

Neste capítulo, observamos que o autor refere-se a três tipos de descansos:

(1) A entrada do povo de Deus na Terra Prometida sob a liderança de Josué;

(2) O descanso sabático — quando Deus acabou a obra da Criação; e

(3) O descanso trazido por Cristo.

A patrística também via a obra de Cristo como o ponto culminante desse descanso. Dessa forma, João Crisóstomo (347-407 d.C) destacava que havia três descansos: um do sábado, em que Deus descansou de suas obras; um segundo, da Palestina, quando entraram os judeus nela e descansaram das muitas triangulações e fadigas; e o terceiro, que é o verdadeiro descanso: o Reino dos céus, onde quem o obtiver descansará realmente das fadigas e dos sofrimentos. Aqui, ele faz menção aos três. E por que ao falar de um rememora os três? Para mostrar que o profeta fala deste último. Ele não se referia ao primeiro, pois diz: não sucedeu isso nos tempos antigos? Nem tampouco ao segundo, o que teve lugar na Palestina; como iria referir-se a este se já houvesse tido lugar também? Só resta o que se refere ao terceiro.9

J. Wesley Adams resume o pensamento do autor sobre a tipificação desse descanso:

1. O descanso em Canaã é um tipo ou símbolo do repouso espiritual que Deus promete a seu povo, em Cristo;

2. Esse repouso espiritual é prefigurado pelo descanso sabático de Deus;

3. Esse descanso espiritual — como outros aspectos do Reino de Deus — envolve tanto a realidade presente quanto a esperança futura do povo de fé.10

“Porque, em certo lugar, disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia" (v. 4). Recorrendo ao método judaico de fazer hermenêutica, o autor remete a Gênesis 2.2. Já vimos que essa forma de citar as Escrituras não demonstra imprecisão por parte do autor; apenas expõe o seu estilo literário. Os intérpretes destacam que o "repouso” de Deus não significa ociosidade da parte dEle, mas, sim, que não há nada mais a acrescentar àquilo que Ele fez.11  Após concluir sua obra no sétimo dia da criação, Deus descansou de sua obra e continua ainda nesse descanso.

“E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso" (v. 5). Mesmo estando esse descanso disponível para todos os homens, o autor mostra que alguns se excluíram dele. A razão foi a dureza de coração, a desobediência e a incredulidade. Todavia, esse descanso continua acessível para aqueles que creem.

"Visto, pois, que resta que alguns entrem nele e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas-novas não entraram por causa da desobediência” (v. 6). Aqui, o autor explica o versículo anterior. A geração do êxodo não pode entrar no descanso de Deus, mas a promessa do descanso continua de pé. Cabe aos crentes da nova aliança entrar nessa promessa.

“Determina, outra vez, um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (v. 7). O versículo 7 volta à citação do Salmo 95. Para o autor, a promessa do descanso divino não havia cessado com a entrada do povo na Terra Santa, visto que, aproximadamente 500 anos depois, Davi faz uma atualização dessa promessa no Salmo 95. Se não mais houvesse a promessa de um descanso para o povo de Deus ao longo de sua história, o Espírito Santo não teria inspirado o rei-poeta a fazer a atualização dessa mesma promessa.

Os profetas da Antiga Aliança mantinham a expectativa de dias de paz e descanso para o povo de Deus, que ocorreria com a vinda do Messias. O autor de Hebreus já havia lembrado que, antigamente, Deus falara aos pais pelos profetas e que, naqueles dias, Ele falava pelo Filho. A chegada da nova aliança significava a entrada nesse descanso. Para o autor, a expressão "um certo dia, Hoje...”, dita por Davi de forma profética, não se restringia aos dias daquele monarca, mas, sobretudo, à chegada da Nova Aliança. Nem Josué — nem tampouco nenhum outro líder hebreu — foi capaz de conduzir o povo de Deus a um descanso pleno.

"Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria, depois disso, de outro dia” (v. 8). O livro de Josué mostra as grandes conquistas efetuadas por ele, mas destaca que “ainda muitíssima terra ficou para possuir” (Js 13.1). Josué, sem dúvida, proveu uma forma de “descanso” físico, político e social, mas o verdadeiro descanso era uma promessa para o povo da nova aliança.

"Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus” (v. 9). Aqui no versículo 9, o autor usa a palavra sabbatismos, derivada de sabbath (Sábado) para referir-se ao descanso ou repouso em vez de katapausis, usada nos demais versículos desse capítulo, que mantém o mesmo significado.12  Fica evidente que o autor não se refere ao repouso sabático semanal, o que contrariaria todo o seu argumento nessa carta, que é um alerta aos seus leitores a não retomarem às práticas judaizantes (Cl 2.16). Por outro lado, se o autor estivesse se referindo ao descanso sabático semanal, não haveria necessidade alguma de dizer que esse descanso era algo ainda a ser alcançado (resta um repouso (sabbatismos) para o povo de Deus), visto que o Sábado era uma prática rigorosamente observada no judaísmo dos dias de Jesus.

“Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas” (v. 10). Esse repouso é uma referência ao dia anelado pelos profetas e que agora se cumpria com a vinda do Filho de Deus. Da mesma forma que Deus descansou de suas obras, não tendo mais necessidade de acrescentar nada às coisas que Ele criara, os crentes que entraram na nova aliança também não precisam mais de mérito pessoal ou humano para entrar no descanso provido por Jesus Cristo, o Filho de Deus. O versículo 11 é encerrado com uma advertência.

“Procuremos, pois, entrar naquele repouso, para que ninguém caia no mesmo exemplo de desobediência" (v. 11). Adam Clarke comenta in loco: "A palavra indica todo esforço físico e mental com referência ao assunto. Para que não caia da graça de Deus, do evangelho e suas bênçãos e pereça para sempre”.13

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até à divisão da alma, e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração" (v. 12). Na sua exposição, o autor faz uma das maiores declarações sobre a palavra de Deus. Alguns comentaristas não conseguiram ver o elo existente entre o versículo 12 e os demais versículos deste capítulo, mas o melhor entendimento desse texto é aquele que encontramos nas notas de John Wesley sobre a carta aos Hebreus. Wesley observa que a palavra de Deus pregada no versículo 2 e reforçada com advertências no versículo 3 é viva e eficaz, é acompanhada pelo poder do Deus vivente e comunica vida ou morte àqueles que a ouvem; é mais cortante do que espada de dois gumes e penetra o coração mais do que a espada pode penetrar o corpo; que penetra totalmente e deixa aberto; a alma e o espírito, as juntas e medulas — os lugares mais escondidos da mente.14  Nada pode ficar fora do alcance da Palavra de Deus.

“E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar” (v. 13). O autor usa três termos gregos para mostrar o poder revelador da palavra de Deus: aphanes (oculto, não manifesto, escondido); gymnós (nu, aberto, às claras) e trachelizo (expor, descobrir). Aqui, o sentido é de deixar algo totalmente exposto, sem nada a esconder. Para o expositor bíblico A. T. Robertson, significa que o microscópio de Deus pode pôr em evidência o mais diminuto micróbio de dúvida e pecado.15  Tendo em vista que a palavra trachelos significa "pescoço” e é usada, nesse contexto, como algo que está desnudo, descoberto, a metáfora pode referir-se a um animal que tinha seu pescoço exposto para o sacrifício ou a um lutador que era dominado pelo pescoço.16  Em ambos os casos, a metáfora expõe o domínio e o poder revelador da Palavra de Deus.

“Visto que temos um grande sumo sacerdote, Jesus, Filho de Deus, que penetrou nos céus, retenhamos firmemente a nossa confissão” (v. 14). O versículo 14 introduz o assunto sobre o qual o autor devotará maior atenção: a doutrina do sacerdócio de Cristo. Essa seção inicia-se aqui e estende-se até o capítulo 10 e versículo 18. O descanso do qual o autor acabara de falar e do qual todos os cristãos participam por direito da aliança só se tornou possível porque Jesus, como sumo sacerdote, adentrou os céus. O termo grego dielelythota, derivado de dierxomai, ocorre 42 vezes no Novo Testamento Grego.17  Esse termo verbal é usado para retratar um fato que ocorreu no passado, mas que tem seus efeitos no presente. Aqui, o sentido é que Jesus penetrou os céus, por ocasião de sua morte e ressurreição, e ainda está lá.18  No passado, Jesus levou vicariamente a pena de nossos pecados; no presente, Ele é o nosso grande sumo sacerdote que continua a interceder por nós. Esse sumo sacerdote está nos céus, porém não distante do povo. Os cristãos são exortados a manterem-se firme na sua confissão, que aqui mantém o sentido de profissão de fé.

“Porque não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado” (v. 15). O autor reconhece a fragilidade humana e sua vulnerabilidade diante das tentações. Aqui, o verbo grego peirazo, traduzido como "testar”, "tentar”, deve manter esse último sentido por estar associado à hamartia (pecado) no final do versículo. O autor faz referência a Jesus nos dias de sua humilhação e também às tentações as quais esteve sujeito. Tendo Ele sido tentado em tudo, pode socorrer os que também são tentados. A imagem aqui é extraída do sistema sacerdotal no qual o sacerdote intercedia pelas fraquezas do povo. Richard S. Taylor observa oportunamente que Jesus não foi tentado em todas as particularidades ou em cada situação possível. Por exemplo, Ele não foi tentado como marido, ou pai, ou dono de uma propriedade, ou empregador, ou soldado porque não exerceu nenhuma dessas funções. Taylor observa que Jesus foi tentado nas três áreas básicas da suscetibilidade humana: corpo, alma e espírito. Dessa forma, Jesus conhecia a tentação no campo do apetite do corpo, no campo dos relacionamentos humanos e no campo dos relacionamentos espirituais. Eu - os outros - Deus: Ele foi tentado nesses três pontos. O que deveria governá-lo? Seu desejo por pão? Seu desejo por aceitação? Seu desejo por poder? Ou a sua lealdade a Deus?19  É exatamente nessas áreas onde ocorre o campo de batalha de todo cristão. Como nós, Jesus foi tentado, porém não sucumbiu à tentação!

“Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno" (v. 16). Tendo, pois, Jesus como esse grande Sumo Sacerdote misericordioso, o cristão é convidado para que, com ousadia, chegue-se ao trono da graça. A palavra "cheguemos” traduz o termo grego proserxhometha, derivado de proserchomai, que ocorre 87 vezes no Novo Testamento grego, sendo sete vezes em Hebreus. É usado em Mateus 9.20 para descrever a ação da mulher hemorrágica quando se aproximou de Jesus: “E eis que uma mulher que havia já doze anos padecia de um fluxo de sangue, chegando por detrás dele, tocou a orla da sua veste”. Na Septuaginta, é usado para descrever a aproximação que o sacerdote mantinha com Deus durante o culto.20  Da mesma forma que o sacerdote levita adentrava no santuário para ministrar a Deus e da mesma forma que a mulher hemorrágica demonstrou coragem, ousadia e fé para aproximar-se do trono da graça, o cristão também deve aproximar-se de Deus através da mediação de Jesus Cristo.


A palavra chave desta lição é “descanso”. Todos nós nos fatigamos na caminhada da vida. O problema, portanto, não é se cansar, mas permitir que fatores diversos interrompam a nossa jornada de fé. Com os israelitas o desânimo veio como consequência da infidelidade, incredulidade e desobediência. As mesmas coisas podem acontecer conosco se não atentarmos para a santa, viva e eficaz Palavra de Deus. Nessa jornada temos como guia não um Moisés ou um Josué, mas Jesus, o autor e consumador da nossa fé.


Notas
1 GUTHRIE, George H. Hebreus - Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento. Editora Vida Nova.
2 THAYER, Joseph. Greek - English Lexicon of the New Testament. Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, USA, 1977.
3 BRUCE, F. F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio. Grand Rapids, Michigan. EE.UU, 2002.
4 GUTHRIE, George H. Hebreos - del texto bíblico a uma aplicación contemporânea. Editorial Vida, Miami, Flórida, EUA, 2014.
5 GUTHRIE, Donald. Hebreus - introdução e comentário. Editora Vida Nova, São Paulo.
6 Veja uma exposição completa na obra: Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego - Mateus a Apocalipse. Editora Targumim/Hagnus, São Paulo, 2009.
7 ROBERTSON, A. T. Comentário al Texto Griego del Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.
8 TAYLOR, Richard S. Hebreus - Comentário Bíblico Beacon. Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Rio de Janeiro, 2014.
9 CRISÓSTOMO, João. Hebreos - La Biblia Comentada por Los Padres de La Iglesia. Editora Ciudad Nueva.
10 ADAMS, J. Wesley. Comentário Bíblico Pentecostal. CPAD.
11 ADAMS, J. Wesley. Op.cit. pp. 1564.
12 A palavra descanso, repouso, ocorre 9 vezes nesse capítulo, sendo 8 ocorrências como katapausis e uma vez como sabbatismos. Enquanto katapausis mantém sentido de uma paz estabelecida ou um estado de descanso, a palavra sabbatismos significa "repouso sabático” (Comentário Bíblico Beacon, CPAD).
13 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de la Santa Biblia, tomo III - Nuevo Testamento. Editora Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, EUA.
14WESLEY, John. Hebrews - Explanatory Notes & Commentary. Bristol Hotwells, Reino Unido, 1754.
15 ROBERTSON, A. T. Hebreos - Comentário al Texto Griego del Nuevo Testamento. Editorial CLIE. Barcelona, Espanha.
16 Veja uma exposição detalhada na obra: Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Editora Vida Nova.
17 HUGO, M. Petter. Concordancia Greco-Espanola dei Nuevo Testamento. CLIE.
18HAUBECK, Wilfrid & SIEBENTHAL, Heinrich Von. Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Editora Targumin.
19TAYLOR, Richard S. Hebreus - Comentário Bíblico Beacon. Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Rio de Janeiro.
20 TAYLOR, Benhard A. The Analytical Lexicon to the Septuagint - a complete parsing guide. Zondervan Publishing House. Grand Rapids, Michigan, EUA, 1994.

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves

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