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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A Tentação de Jesus

“Então, o diabo o deixou; e, eis que chegaram os anjos e o serviram” Mt 4.11

“Depois de seu batismo e afirmação por Deus, Jesus foi levado para o deserto pelo Espírito de Deus, e ali jejuou por quarenta dias e noites. Há um paralelo direto com Israel, o povo de Deus, no Antigo Testamento. Depois de eles atravessarem o mar Vermelho (batismo) e fazerem uma aliança com Deus (afirmação da missão e identidade), os israelitas passaram quarenta anos no deserto, onde a fé e a obediência a Deus foram testadas (Dt 8.2). Agora, o verdadeiro Filho de Deus também tinha de experimentar esse teste, mas, de forma distinta de Israel, Ele teria de confiar perfeitamente no Pai e obedecer a Ele de forma plena (Hb 4.15).

Mateus e Lucas registram três tentações específicas que Satanás apresentou a Jesus; ainda assim, nosso Salvador, em cada caso, resistiu citando versículos de Deuteronômio (8.3;6.16,13). As tentações de Satanás levaram os primeiros seres humanos a duvidar da Palavra de Deus, mas Jesus firmou-se na verdade da Palavra. Em cada uma das tentações, Jesus foi desafiado sobre a compreensão de sua missão e identidade (‘Se tu és o Filho de Deus [...]’). Primeiro, Satanás tenta Jesus para que provesse pão para si mesmo, mas Jesus responde citando Deuteronômio 8.3. Os israelitas no deserto murmuraram para ter pão e, só de forma muito relutante, confiaram na Palavra de Deus para prover o maná que necessitavam” (Guia Cristão de Leitura da Bíblia. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2013, p.81).

A narrativa da tentação de Jesus enaltece a importância do conhecimento e do uso da Palavra de Deus contra os ataques do Inimigo.

Texto Bíblico - Mateus 4.1-11

INTRODUÇÃO

As pessoas tendem a acreditar que a tentação de Jesus foi apenas momentânea. No entanto, Ele foi tentado pelo Diabo durante toda a sua vida terrena.

Segundo o Evangelho de Mateus, a primeira tentação de Jesus está relacionada com as necessidades de sustento material e tem conexão com o povo hebreu na travessia do deserto. A última está relacionada à idolatria. Tal tentação nos mostra o risco que corremos ao dar lugar ao impulso de se desfrutar das glórias do mundo, em detrimento da adoração a Deus. Precisamos estar atentos.

I. A TENTAÇÃO DOS HEBREUS NO DESERTO

1. A relação de Mateus 4.1-4 com a caminhada dos israelitas no deserto.
Existe uma relação direta entre a narrativa de Mateus 4.1-11 e a narrativa da travessia dos hebreus pelo deserto, em especial nos capítulos 6, 7 e 8 de Deuteronômio.

O texto de Mateus 4.1-11 está diretamente relacionado ao livro de Deuteronômio, que narra a história dos hebreus enquanto caminhavam no deserto rumo à Terra Prometida. A única exceção é o Salmo 91.11,12. Conhecer as Escrituras foi fundamental para as respostas de Jesus ao Adversário. Ele reage cada tentação citando a Palavra de Deus e extraindo o princípio de cada passagem mencionada. É recomendado estudar a tentação de Jesus em paralelo com os textos de Deuteronômio.

2. A tentação de Israel no deserto durou 40 anos.
A tentação de Jesus se assemelha ao Haggadah, um dos mais importantes textos da tradição judaica. No início da Páscoa, judeus de todos os cantos da Terra se reúnem para lê-lo ao redor da mesa. Ele contém a narrativa do êxodo do Egito. Uma celebração da passagem dos israelitas da escravidão para a liberdade, passando pelo deserto.

Os hebreus saíram da escravidão do Egito, onde abundava a injustiça, com a incumbência de criar uma sociedade justa na terra que o Senhor os mandaria. Eles tiveram, necessariamente, de passar pelo deserto e permanecer nele por 40 anos, porém muitos dentre o povo, diante das condições adversas do deserto, colocaram em dúvida a proteção e o cuidado de Deus, tentando-o por diversas vezes (Êx 16.3-8). Por isso, a maioria das pessoas que saíram do Egito não entrou na Terra Prometida. Aprendemos que o deserto é lugar de fome (Mt 4.2-4), porém também é lugar de provisão, aliança, purificação e encontro com Deus (Êx 19.1-19; Os 2.14).

3. A tentação de Jesus no deserto por 40 dias.
Os quarenta dias de jejum de Jesus recordam os quarenta anos de Israel no deserto. O jejum por 40 dias não era uma inovação, pois Moisés (Êx 24.18) e Elias (1Rs 19.8) também jejuaram este mesmo tempo. O número 40 é utilizado várias vezes na Bíblia (Gn 7,4,12; Êx 24.18; Dt 9.9) e quando se refere a dias ou anos pode significar um período necessário e suficiente para determinada ação.

Jesus foi desafiado, como Filho de Deus, a fazer uso de seus atributos divinos para satisfazer suas necessidades humanas, mas Ele rebate a tentação utilizando a Palavra de Deus. Enquanto o povo hebreu murmura contra Deus por causa da fome, Jesus segue submisso a Deus a fim de cumprir sua missão.

Conhecer as Escrituras foi fundamental para as respostas de Jesus ao Inimigo. A Palavra de Deus é uma arma eficiente contra as tentações.

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II. A TENTAÇÃO DO USO DO TEMPLO PARA EXPLORAÇÃO

1. A tentação de mercantilizar a religião (Mt 4.5,6).
O local da segunda tentação é o lugar mais alto do Templo. O pináculo demonstra a responsabilidade de estar no ponto mais alto do poder religioso, e quem assume tal “poder” precisa ter muito cuidado, pois também será tentado pelo Diabo para usá-lo mal. O Inimigo cita o Salmo 91, em que Deus promete proteger o justo. No entanto, isso não quer dizer que o cristão será beneficiado em troca de sua fidelidade. Infelizmente muitos pregam um relacionamento mercantil com Deus. Jesus descartou esse procedimento afirmando que os seus discípulos também passariam por aflições (Jo 16.33).

A sociedade atual é consumista, tendo como principais características o imediatismo, e em resposta a essa sociedade algumas instituições religiosas oferecem uma teologia consumista. Promessas de experiências inovadoras, com resultados imediatistas, em maior quantidade e menor esforço. Em troca, exigem a fidelização dos “consumidores espirituais”, além de sua passividade, cumplicidade e submissão cega. Essa relação de poder beneficia somente algumas pessoas, que não se interessam pelos fiéis, mas pelo sistema de poder que monopolizam. Diferente da teologia pregada por Jesus, que privilegiava a solidariedade, a vida em comunidade, simples e sem excesso de consumo. A mercantilização da sociedade tem moldado práticas religiosas antibíblicas e prestado um serviço ao materialismo.

2. A tentação de fazer de Deus um instrumento de ostentação.
Em uma das respostas de Jesus, Ele cita Deuteronômio 6.16: “Não tentareis o SENHOR, vosso Deus [...]”. O texto se refere ao episódio ocorrido em Massá (Êx 17.1-7), onde os israelitas tentaram a Deus, exigindo que Ele provasse o seu poder providenciando água para beber. Infelizmente, muitos ainda acham que podem determinar o que Deus deve fazer. Muitos falsos profetas usam do autoritarismo em supostas “visões e revelações”, visando à manutenção dos benefícios e interesses próprios. Eles se apresentam como pessoas com o suposto poder de manipular a ação de Deus (“tentam” a Deus). Estes se apresentam como pessoas de fé, mas na realidade se comportam como ateus, pois agem como se Deus não existisse para julgar o seus atos pecaminosos.

3. As distorções que prejudicam o cristianismo.
A atuação dos falsos profetas que querem mercantilizar a fé cristã e a ideia errônea de “manipular a Deus”, acabam por prejudicar o Cristianismo e a pregação da Palavra de Deus. Jesus curou e libertou muitas pessoas, mas Ele nunca tirou vantagem ou usou sua posição de profeta para manipular as pessoas com seus discursos. Mateus 7.28,29 afirma que as multidões se maravilhavam com o seu ensino e reconheciam sua autoridade como divina, pois não estava baseada na sua persuasão, mas no exemplo de vida.

Jesus tinha autoridade e nunca usou de suas qualificações em seu benefício próprio.

III. A TENTAÇÃO DO USO INDEVIDO DO PODER

1. O poder dos impérios e reinos deste mundo.
A grande altura do monte e a visualização de todos os reinos dão a sensação de poder. O ser humano tem a tendência de desejar o poder; a diferença é que alguns têm equilíbrio, enquanto outros não se importam com os meios para conquistá-lo.

2. O poder conquistado à custa da opressão e exploração do povo não provém de Deus.
O texto dá a entender que o Diabo domina os reinos do mundo, pois ele tem a petulância de oferecê-los a Jesus, como se estivessem em seu poder. Que mundo é esse? Provavelmente, Mateus está falando do controle da vida política, social, econômica e religiosa. Portanto, um mundo que necessita da intervenção divina para ser justo.

O Diabo tenta negociar esse poder, mas Jesus rejeita e o vence. Sua vitória final é na cruz, ou seja, no cumprimento da sua missão e com o recebimento de um corpo glorificado. O próprio Mateus descreve que esse Jesus ressurreto recebeu o poder e a autoridade, pois é o Criador de todas as coisas. Esse poder e autoridade são ilimitados, pois é sobre a Terra e também sobre o céu (Mt 28.18).

3. O poder idolátrico dos reinos deste mundo.
Todos aqueles que aguardavam a promessa messiânica tinham sua atenção voltada para a cidade de Sião. Essa atenção e centralidade estavam relacionadas com o fato de Sião ser um centro de adoração de todos os povos e um lugar de bênçãos. Um reino com o poder de prover as necessidades dos povos do mundo, com certeza receberia as “glórias” desses povos. Tal poder era e é realmente tentador. Com a tentação de Jesus também podemos aprender que mesmo alguém que pensa no bem do próximo também pode ser tentado a receber glórias para si. Por isso, a importância de se estar em sincronia com Deus e sua vontade.

Jesus estava estava totalmente comprometido em cumprir a vontade do Pai, mesmo que fosse necessário sofrer dores, perseguição e morrer na cruz. A cruz de Cristo deve ser o real motivo pelo qual realizamos a obra de Deus.

Pense!
Por que muitas pessoas que iniciam seu ministério na obra de Deus com amor e lealdade, com o aumento do “poder” e da fama, acabam por se perderem?

Ponto Importante
Jesus estava consciente que para cumprir sua missão e os propósitos de Deus deveria trilhar pacientemente o caminho da cruz e não o da glória humana.


CONCLUSÃO

Nesta lição aprendemos que a fidelidade a Deus deve preceder a satisfação pessoal e de bens materiais. Aprendemos também que Deus não pode ser tentado pelo mal e seu nome não deve ser usado em benefício próprio. Como crentes não devemos buscar a glória para nós, mas glorificar a Deus.

Precisamos estar sempre vigilantes, pois todos os cristãos passam pelo modelo das tentações de Jesus e o caminho da vitória também é o mesmo: conhecer a Palavra de Deus e fazer a vontade divina.



SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“Jesus experimenta três tentações específicas.
A primeira envolve suas necessidades físicas (Lc 4.3,4). O Diabo presume que Jesus é o Filho de Deus — ‘Se tu és o Filho de Deus’ significa ‘Visto que Tu és o Filho de Deus’. Claro que Jesus pode exercer o poder de Deus e transformar uma pedra do chão em pão. O Diabo sugere que o uso deste poder para aliviar a fome era verdadeira prova de que Jesus é o Filho de Deus. Mas se Jesus transformasse uma pedra em pão, tal milagre revelaria sua falta de fé na bondade de Deus. Ele teria obedecido a Satanás em vez de ser obediente a Deus. Ele teria usado seu poder para satisfazer as necessidades pessoais em vez de usá-lo para a glória de Deus.

Jesus resiste à tentação do Diabo citando Deuteronômio 8.3. O ponto de sua resposta é que o bem-estar humano é mais que assunto de ter comida suficiente. O mais importante é obedecer à Palavra de Deus e confiar no Senhor que cuida de nós. Jesus obedece à Palavra de Deus, embora implique em fome física”

“A segunda tentação é a oferta que o Inimigo fez a Jesus de autoridade sobre os reinos da terra (Lc 4.5-8). Num momento de tempo, ele traz à presença de Jesus todos os reinos do mundo. Afirma que eles lhes foram dados e que ele tem o direito de dispor deles como quiser. A afirmação do Diabo é meia-verdade. Embora ele tenha grande poder (Jo 12.31; 14.30), não tem autoridade para dar a Jesus os reinos do mundo e a glória deles. Ele promete que Jesus pode se tornar o governante da terra se tão somente Ele o adorar. Satanás tenta ludibriar Jesus para obter poder político e estabelecer um reino no mundo maior que o dos romanos.

O Reino que Jesus veio estabelecer é muito diferente. É um reino no qual Deus reina, e é formado por homens e mulheres livres da escravidão do pecado e de Satanás”

“A terceira tentação tem a ver com provar a verdade da promessa de Deus (Lc 4.9-12). Jesus se deixa levar voluntariamente com o maligno até o ponto mais alto do templo. A localização precisa no templo é incerta, mas do ponto mais alto do templo Satanás instiga Jesus a pular: ‘Se tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo’ (v.9). A sugestão dele é esta: ‘Antes de tu te dispores em tua missão, é melhor que te certifiques da proteção de Deus. Então, por que não pulas e não te asseguras de que Deus tomará conta de Ti?’. O maligno foi refutado duas vezes com as Escrituras, então ele cita o Salmo 91.11,12 para garantir que Deus o protegerá de qualquer dano. Este é um exemplo de torcer as Escrituras para servir a um propósito, pois o Salmo 91 não garante que Deus fará milagres sob as condições que estipularmos” (Comentário Bíblico Pentecostal. Volume 1. 1ª Edição. RJ: CPAD, p.338).


Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 1º Trimestre de 2018 - Título: Seu Reino não terá fim — Vida e obra de Jesus segundo o Evangelho de Mateus - Comentarista: Natalino das Neves

Aqui eu Aprendi!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

O Mecânico e o Doutor

NADA COMO, UM DIA APOS O OUTRO...

REFLEXÃO

Um mecânico está desmontando o cabeçote de uma moto, quando ele vê na oficina um cirurgião cardiologista muito conhecido.

O renomado cirurgião está olhando o mecânico trabalhar.

Então o mecânico para e pergunta:
- ´Ei, doutor, posso lhe fazer uma pergunta?´

O cirurgião, um tanto surpreso, concorda respondendo 'Claro que sim!'. Indo até a moto na qual o mecânico está trabalhando.

O mecânico se levanta e pergunta:
- 'Doutor, olhe este motor. Eu abro seu coração, tiro suas válvulas, conserto-as, ponho-as de volta e fecho novamente, e, quando eu termino, ele volta a trabalhar como se fosse novo. Como é então, que eu ganho tão pouco e o senhor tanto, quando nosso trabalho é praticamente o mesmo??'

Então o cirurgião dá um sorriso, se inclina e fala bem baixinho para o mecânico:
- ´Você já tentou fazer como eu faço, com  o motor funcionando?´
texto 'adaptado' de domínio publico - autor desconhecido

Pense nisso!
QUANDO A GENTE PENSA QUE SABE TUDO PERCEBEMOS QUE AINDA TEMOS MUITO À APRENDER.

Prossigamos em conhecer o nosso SENHOR. 

Ele sabe onde e como fazer. Deixa ELE cuidar de você!

"Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido. Assim como o Pai me conhece a mim, também eu conheço o Pai, e dou a minha vida pelas ovelhas. Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor. Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar, e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai." João 10:14-18

Deus te abençoe!

"Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; e se cada uma das quais fosse escrita, cuido que nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que se escrevessem. Amém." João 21:25

Aqui eu Aprendi!

sábado, 20 de janeiro de 2018

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou” Hb 3.3

A superioridade de Jesus em relação a Moisés

Explicando o capítulo 3

O capítulo 3 de Hebreus está na seção que aborda a supremacia do Filho de Deus: 1.4—4.13. Essa parte da carta demarca a supremacia de Jesus em relação a Moisés, o legislador de Israel. Diferentemente de Moisés, que serviu a uma casa, que “não era o tabernáculo, mas os da casa de Deus, ou o povo de Deus como a comunidade da fé” (Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, p.1557), Jesus Cristo é o construtor dessa casa de Deus, enquanto o legislador de Israel fazia parte dela.

Podemos retomar essa abordagem no Evangelho de Mateus, no capítulo 16, e no versículo 18: “edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Atenção para o verbo “edificarei” e o pronome possessivo “minha”. É Cristo quem construiu, edificou e ergueu o povo de Deus, por isso, esse povo pertence a Ele; diferentemente de Moisés, que embora fosse uma figura proeminente entre os judeus, um líder exemplar, ele não edificou o povo de Deus, mas se achou parte dele.

Portanto, o escritor de Hebreus faz um apelo aos leitores de sua carta, que diferentemente dos judeus do deserto que não atentaram para as palavras de Moisés, os seguidores de Cristo atentem para o mandamento do Filho, o edificador do povo de Deus, e não se deixem endurecer pelo engano do pecado. Revista Ensinador Cristão nº73

Leitura Bíblica - Hebreus 3.1-19

Cristo em tudo foi superior a Moisés na Casa de Deus, pois enquanto o legislador hebreu foi um mordomo, o Salvador foi o dono.



Comentário de Hebreus 3.1-19

Neste capítulo, o autor de Hebreus faz um contraste entre Jesus e Moisés. O objetivo é chamar a atenção dos leitores para a importância e a urgência da mensagem cristã. Moisés era lembrado e reverenciado não apenas por ter sido um grande legislador hebreu, mas também como um servo que se sacrificou em prol do seu povo. Ele foi um bom mordomo na casa de Deus. No Antigo Testamento, o povo de Israel era considerado a família de Deus e foi por essa famí­lia que Moisés sacrificou-se. Mas o que representava os esforços de Moisés, que era um simples servo na casa de Deus, diante de Jesus, o bendito Filho de Deus, que voluntariamente deu sua própria vida em resgate do mundo?

Como aconteceu na trajetória do êxodo, os cristãos hebreus estavam repetindo os mesmos erros cometidos pelos seus antepassados. Cari B. Gibbs destaca que

"muitos dos leitores da Epístola aos Hebreus estavam em perigo de rejeitar a Cristo e voltar ao judaísmo. Sabendo disso, o autor que conhecia a história de Moisés muito bem fez uma comparação entre a decisão tomada no tempo de Moisés e uma decisão atual. Quis ele despertar a atenção dos seus leitores para o fato de que assim como os filhos de Israel se revelaram contra Moisés, decidindo por voltar para o Egito, a mesma coisa estaria acontecendo com os cristãos hebreus que estavam na iminência de abandonar a Cristo e voltar ao seu antigo modo de vida (Hb 2.15). Assim como os israelitas tiveram que peregrinar durante penosos quarenta anos, como paga da sua desobediência, os hebreus cristãos estavam correndo o perigo de serem cortados da videira verdadeira (Jesus Cristo) e serem lançados no fogo da perdição eterna”.1

"Pelo que, irmãos santos, participantes da vocação celestial, considerai a Jesus Cristo, apóstolo e sumo sacerdote da nossa confissão" (v. 1). Tendo chegado à conclusão de seus argumentos no final do capitulo 2 de sua epístola, o autor dirige-se a seus leitores chamando-os de "irmãos santos". Os lexicógrafos Liddel e Scott destacam que, no grego clássico, esse vocábulo (santos, gr. hágios) possuía o sentido de algo devotado à divindade e era traduzido como sagrado, santo. Era usado tanto em relação a coisas quanto a pessoas. Quando usado em referência a pessoas, possuía o sentido de santo, puro.2  No contexto do Novo Testamento, a palavra "santos” tem o sentido de algo ou alguém que foi separado para servir exclusivamente a Deus. Não pode ser usado ou estar a serviço de outra coisa. Essa santificação possui dois aspectos. Ela pode ser posicionai, aquilo que, no Novo Testamento, é descrito como "estar em Cristo” (2 Co 5.17), e também progressiva, identificando aqueles que receberam Cristo como Salvador e, a partir daí, passam a andar nEle (Cl 2.6). Na carta aos Hebreus, aparecem ambos os sentidos.

Os crentes são exortados e lembrados que são participantes da vocação celestial. A palavra vocação traduz o termo grego klesis, que ocorre 11 vezes no Novo Testamento grego. Uma dessas ocorrências aparece na primeira carta de Pedro 1.10 com o sentido de chamada, vocação, e é usado em conjunto com ekloge, termo traduzido como eleição. "Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação [klesis] e eleição [ekloge]', porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis". Fomos chamados a participar da eleição em Cristo Jesus. Fomos eleitos em Cristo e, enquanto permanecermos nEle, estaremos seguros. Somos exortados a ser fiéis a esse chamado, tendo sempre em mente que a necessidade de vigilância deve estar sempre presente para evitar o decair da fé.

O autor destaca que Jesus Cristo é o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão. O apóstolo era alguém enviado em uma missão, enquanto o sacerdote atuava como um representante dos homens diante de Deus. Jesus exerceu essas funções mais do que qualquer outra pessoa do antigo pacto. Na sua missão salvífica, Ele foi constituído por Deus como o grande Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa salvação. A palavra “confissão” (gr. homologia) significa, também, concordância. Aqui, é usado no sentido da profissão de fé, isto é, a fé cristã abraçada pelos crentes hebreus.3  John Wesley (170 3-1791) traduziu a palavra apóstolo aqui como “o mensageiro de Deus, que pleiteia a causa de Deus conosco”, e o sumo sacerdote como aquele que "defende nossa causa com Deus”. Wesley lembra que ambos estão contidos na palavra “mediador" e que o autor "compara Cristo, o Apóstolo, com Moisés; e o Sacerdote, com Arão. Ambos os ofícios que Moisés e Arão exerciam, e Cristo carregou-os juntos e de forma muito mais eficaz".4

“Sendo fiel ao que o constituiu, como também o foi Moisés em toda a sua casa” (v. 2). O versículo 2 é uma referência a Números 12.7. Nesse contexto, o termo "casa" também significa família e é aplicada em relação ao povo de Deus na antiga aliança. O autor lembra que Moisés foi um mordomo fiel na casa de Deus durante a peregrinação no deserto e usa essa metáfora como uma analogia da missão de Jesus, o Filho de Deus. Jesus, assim como Moisés, também foi fiel sobre a casa de Deus — a Igreja — , mas as semelhanças entre Jesus e Moisés param por aí porque Jesus em tudo é superior ao grande legislador hebreu.

“Porque ele é tido por digno de tanto maior glória do que Moisés, quanto maior honra do que a casa tem aquele que a edificou" (v. 3). Adam Clarke destaca que

"não há dúvida de que um homem que constrói uma casa para sua comodidade é mais honrável que a casa mesma; mas a casa aqui se refere à Igreja de Deus. Essa igreja, aqui denominada casa, ou "família", está edificada por Cristo; portanto, Ele deve ser maior que Moisés, que era somente um membro e oficial dessa igreja”.5

"Porque toda casa é edificada por alguém, mas o que edificou todas as coisas é Deus” (v. 4). Tomando o termo “casa" com o sinônimo de "família", o autor mostra que o homem, na sua função gregária, constrói famílias, comunidades, etc., mas, na verdade, Deus que é o cabeça de toda a raça.

“E, na verdade, Moisés foi fiel em toda a sua casa, como servo, para testemunho das coisas que se haviam de anunciar” (v. 5). O autor novamente volta à figura de Moisés. O argumento do autor é simples e objetivo: Moisés foi um servo dedicado na casa de Deus. Ele procurou seguir com diligência e fazer com que o povo seguisse as diretrizes da Lei de Deus. Todavia, Moisés era um coadjuvante onde Jesus seria o ator principal. Moisés era uma sombra, Jesus é a realidade. O versículo 6 mostra a Igreja como a casa de Deus hoje.

"Mas Cristo, como Filho, sobre a sua própria casa; a qual casa somos nós, se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até ao fim ” (v. 6). Esse versículo é paralelo a 1Tm 3.15: “Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. A Igreja de Deus não é um prédio nem qualquer estrutura arquitetônica, mas, sim, o povo comprado com o sangue de Jesus Cristo. Quem faz parte da Igreja precisa demonstrar confiança a fim de poder ter esperança até o fim. O autor tem seu foco no futuro e, ao usar os termos parresia (confiança) e elpis (esperança), ele quer chamar a atenção para esse fato. Ele vê a vida cristã dentro de um contexto escatológico, não imediatista. Donald A. Hegner comenta que

“a palavra confiança (parresia) ocorre quatro vezes em Hebreus, duas vezes em referência ao culto (4.16; 10.19) e outras duas vezes quanto ao modo de enfrentar as dificuldades na vida (aqui e em 10.35). A palavra esperança (elpis) expressa a expectativa futura do autor em contraste com a ‘escatologia realizada’ em Cristo. Aqui, assim como em outras passagens do Novo Testamento, a palavra tem conotações de ‘expectativa confiante’”.6

"Portanto, como diz o Espírito Santo, se ouvirdes hoje a sua voz” (v. 7). O versículo 7 introduz uma citação do Salmo 95.7. O autor toma essas palavras do salmista não apenas como uma advertência para os dias passados, mas também para os seus dias. Isso só era possível graças à inspiração do Espírito Santo sobre as letras sagradas. O autor não queria que aquilo que aconteceu com a geração do êxodo fosse repetido com seus leitores.

“Não endureçais o vosso coração, como na provocação, no dia da tentação no deserto” (v. 8). Charles F. Pfeiffer destaca que “ainda que Moisés tenha sido fiel a Deus, a geração da qual ele formava parte pereceu no deserto. Esse fato serviu como advertência à geração que escutou o evangelho de Cristo e esteve em perigo de rejeitá-lo”.7  O autor de Hebreus mostra claramente nesse texto que é a própria pessoa que endurece (gr. sklerynÔ) o seu coração. Essa mesma palavra ocorre em Romanos 9.18, dizendo que Deus “endurece a quem quer". Esse texto de Romanos 9.18, juntamente com o da carta aos Hebreus, forma um paralelo com os textos de Atos 19.9 e 7.51, onde os judeus “endureceram” seus corações para não aceitar a Palavra de Deus. Em ambos os textos, a palavra "endurecer" procede da mesma raiz grega skleros (endurecer), que, por sua vez, dá origem à palavra portuguesa esclerose. O contexto deixa claro que Deus só endurece quem já está endurecido. Noutras palavras, quem resiste à sua Palavra será endurecido por ela.

"Onde vossos pais me tentaram, me provaram e viram, por quarenta anos, as minhas obras” (v. 9). O versículo 9 explica as razões desse endurecimento. O autor tem em mente a rota do êxodo, que cobriu um período de 40 anos. Nessa trajetória, os israelitas presenciaram milagres, sinais e maravilhas, mas não se sentiram convencidos por eles. A tradução do expositor Philip Edgcum be Hughes (1915-1990) expressa melhor o sentido do texto: “fui provocado durante quarenta anos”.8  Essa provocação produziu endurecimento, e a desobediência contumaz provocou a ira de Deus.

"Por isso, me indignei contra esta geração e disse: Estes sempre erram em seu coração e não conheceram os meus caminhos” (v. 10). Como foi mostrado, essa desobediência repetitiva provocou a ira divina. A consequência dessa desobediência e rebeldia foi a privação de entrarem na Terra Prometida.

“Assim, jurei na minha ira que não entrarão no meu repouso” (v. 11). O autor faz um paralelo entre a desobediência dos antigos hebreus com aqueles seus dias. Adam Clarke destacou com muita propriedade:

“Os desobedientes israelitas sirvam de advertência; foram resgatados do cativeiro e tiveram a mais completa promessa de uma terra de prosperidade e descanso. Por causa da desobediência, não a obtiveram e caíram no deserto. Vocês foram resgatados da escravidão do pecado e tem a mais benévola esperança de herança entre os santos na luz. Pela incredulidade e desobediência, eles perderam o seu descanso; pelas mesmas coisas vocês também podem perdê-lo”.9

“Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo" (v. 12). A advertência é intensificada pela exortação do autor. Mais uma vez, ele lembra que a falta de vigilância somada com a negligência e desobediência pode conduzir ao fracasso espiritual. Ele adverte-os do perigo de apostatar e cair da fé.10  Grant R. Osborne destaca que, no versículo 12, o autor começa com o verbo grego blepete (“tome cuidado, cuide-se”), que, no Novo Testamento, é usado para dar o grito de alerta sobre a vigilância e obediência espiritual. Uma chamada à obediência aos mandamentos de Deus. Nesse contexto negativo, também significa “cuidado" com o mesmo coração “mal” e incrédulo que Israel mostrou no deserto. Ele observa que incredulidade e endurecimento são sinônimos aqui.

"No versículo 12, é um genitivo descritivo que significa um ‘coração incrédulo’ que se torna “mal" (poneria) ou cheio de iniquidade (v. 12,19), que é interpretado como 'seus corações estão sempre errados’ no versículo 10b. Essa incredulidade também os leva a se afastarem do Deus vivo’ (en to aposténai apo Theou zontos), estendendo a imagem até eles não conheceram os meus caminhos' no versículo 10b. Esse é o cerne da questão, preparando-se para o pleno uso dessa imagem da apostasia em Hb 6.6 (onde será discutido mais detalhadamente)”.11

Osborne ainda observa que esse é um caminhar da incredulidade, do mal, da queda, e que isso é, obviamente, um aviso sério, com consequências terríveis.12

O termo grego aposténai (apartar), usado aqui em Hebreus 3.12, é o infinitivo aoristo do verbo aphistemi, que ocorre 14 vezes no Novo Testamento grego, significando: cair, deixar, afastar.13  É desse verbo que se origina a palavra apostasia. A apostasia é definida como "a rejeição deliberada de Cristo e de seus ensinamentos por parte de um cristão (Hb 10.26-29; Jo 15.22)”.14

A Bíblia de Estudo Harper Collins destaca que

“a admoestação para ser cuidadoso (ver também 12.25) é comum no NT. Para o perigo de desviar-se, ou apostatar, veja Nm 14.9, que trata da geração do deserto, e Mt 24.10-12. Um jogo de palavras gregas ligando o desviar-se (apostenai) e o coração incrédulo (apistias)".15

Como ficará demonstrado posteriormente, há uma relação da queda da fé aqui retratada com aquela sobre a qual o autor voltará a tratar no capítulo 6.4-6.

Adam Clarke observa oportunamente que a nossa participação na glória depende de nossa firmeza na fé até o final de nossa carreira cristã.16  Jesus alertou que as coisas más procedem de dentro do coração do homem: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15.19). É por isso que os cristãos necessitam de vigilância e também de estimular uns aos outros.

“Antes, exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado" (v. 13). Aqui, o sentido do texto é o de que os cristãos não permitam que seus corações sejam seduzidos pelo pecado. O autor usa o termo grego parakaleo, isto é, chamar à parte para consolar, para se referir à necessidade do encorajamento contínuo. William Barclay (1907-1978) observa que esse mesmo termo era usado por um militar para estimular as suas tropas.17  Joseph Benson observa que alguns passos devem ser tomados para se pôr em prática as palavras do autor de hebreus:

(1) Uma profunda preocupação com a salvação de cada um e o crescimento na graça;

(2) Sabedoria e entendimento sobre as coisas divinas;

(3) Cuidado para que somente palavras de verdade e sobriedade sejam ditas, pois somente essas palavras serão recebidas como tendo autoridade e alcançarão os fins desejados;

(4) Evitar aquelas expressões rudes e severas que expressam indelicadeza; em vez disso, usar palavras com brandura, compaixão, ternura e amor, pelo menos para aqueles que estão dispostos a reconhecer a vontade de Deus;

(5) Evitar falar com leviandade e sempre falar com seriedade;

(6) Prestar atenção ao tempo, lugar, pessoas e ocasiões;

(7) Ser exemplo para as pessoas exortadas;

(8) Devemos ser incansáveis nesse dever e exortar um ao outro diariamente. Não somente em reuniões feitas para isso, mas também em todo e qualquer lugar sempre que estivermos em companhia um do outro.18

Essas exortações tomam-se relevantes porque, para o autor, o cristão tornou-se um participante de Cristo.

“Porque nos tomamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até ao fim ” (v. 14). O termo grego gnomai, de onde deriva gegonamen, usado aqui pelo autor, ocorre 661 vezes no Novo Testamento grego. Aqui nesse texto, ele encontra-se no tempo perfeito, e o seu sentido é que os cristãos tornaram-se participantes de Cristo no passado (quando o receberam como Salvador) e continuavam no presente tempo como participantes dEle. Isso, no entanto, só teria valor se eles continuassem firmados em Cristo até o fim.19  O autor repete a exortação anteriormente lembrada por ele no versículo 8.

"Enquanto se diz: Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como na provocação" (v. 15). Samuel Pérez Millos observa que

"com toda probabilidade, como se disse antes, na mente do salmista (SI 95.7) estava o sucesso ocorrido em Cades-Barneia, onde o povo não creu que Deus havia-o enviado para ocupar Canaã, duvidando de seu poder para dar-lhes vitória sobre os povos que ocupavam a terra (Nm 14.1ss). Deus estabeleceu uma ação judicial sobre o povo rebelde, de modo que nenhum dos homens maiores de 20 anos entrariam na terra por haverem murmurado contra Deus (Nm 14.27,29). A advertência é solene, já que Deus pode aplicar aos crentes rebeldes uma disciplina similar a que aplicou aos israelitas que não quiseram obedecer a sua voz".20

"Porque, havendo-a alguns ouvido, o provocaram; mas não todos os que saíram do Egito por meio de Moisés" (v. 16). O versículo 16 distingue os desobedientes dos obedientes. O livro de Números narra que, quando chegou ao Sinai, Moisés precisou fazer a contagem dos israelitas de 20 anos de idade para cima (Nm 1.1 -3). Os dados, não incluindo os levitas, chegaram a 603.550 homens (Nm 1.46). O versículo 17 mostra que esses homens, excetuando Calebe e Josué, estavam incluídos na maldição de Deus, que os privava de entrar na Terra Prometida (Nm 14.29,30).

“Mas com quem se indignou por quarenta anos? Não foi, porventura, com os que pecaram, cujos corpos caíram no deserto?" (v. 17). Essa geração peregrinou pelo deserto até ser consumida (Nm 14.33,34).

“E a quem jurou que não entrariam no seu repouso, senão aos que foram desobedientes?" (v. 18). Quando essa geração chegou à fronteira da Terra Prometida, Moisés novamente fez a recontagem do povo (Nm 26.1,2,63). Fritz Laubach observa que ali foi colocado o ponto final nessa triste história do povo de Deus, concluída pelas palavras do cronista sagrado: "E entre estes nenhum houve dos que foram contados por Moisés e Arão, o sacerdote, quando contaram aos filhos de Israel no deserto do Sinai. Porque o Senhor dissera deles que certamente morreriam no deserto; e nenhum deles ficou, senão Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num" (Nm 26.64,65).21

"E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (v. 19). A advertência encerra-se neste capítulo com as palavras desse versículo. O autor mostra o perigo da desobediência e rebelião contra Deus. Se não puderam entrar na Terra Prometida, no descanso que Deus preparou, a culpa não era do Senhor. Os cristãos hebreus deveriam tomar isso definitivamente como exemplo — o pecado pode, sim, impedir o cristão de entrar no repouso de Deus. Adam Clarke destaca que não foi um decreto de Deus que os impediu; não foi porque lhes faltavam as forças para fazê-lo; não foi porque lhes faltou o conselho divino instruindo-os como deveriam fazer. Tudo isso eles tinham em abundância; pelo que escolheram pecar e não crer. A incredulidade produz desobediência, e essa, por sua vez, dureza de coração e cegueira mental; tudo isso lhes atraiu o juízo de Deus, e a ira caiu sobre todos eles até o último.


A possibilidade de não chegar ao fim da caminhada
“O livro de Hebreus considera a possibilidade de permanecer firme na fé ou de abandoná-la como uma escolha real, que deve ser feita por cada um dos leitores; o autor ilustra as consequências da segunda opção referindo-se à destruição dos hebreus rebeldes no deserto após sua gloriosa libertação do Egito”. Leia mais em Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, pp.1557-59.

Subsídio Bibliológico
“SE OUVIRDES HOJE A SUA VOZ
Citando Salmos 95.7-11, o escritor se refere à desobediência de Israel no deserto, depois do êxodo do Egito, como advertência aos crentes sob o novo concerto. Porque os israelitas deixaram de resistir ao pecado e de permanecer leais a Deus, foram impedidos de entrar na Terra Prometida (ver Nm 14.29-43; Sl 95.7-10). Semelhantemente, os crentes do Novo Testamento devem reconhecer que eles, também, podem ficar fora do repouso divino, se forem desobedientes e deixarem que seus corações se endureçam.
NÃO ENDUREÇAIS O VOSSO CORAÇÃO
O Espírito Santo fala conosco a respeito do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8-11; Rm 8.11-14; Gl 5.16-25). Se formos indiferentes à sua voz, nossos corações se tornarão cada vez mais duros e rebeldes a ponto de se tornarem insensíveis à Palavra de Deus ou aos apelos do Espírito Santo (v.7). A verdade e o viver em retidão já não serão prioridades nossas. Cada vez mais, buscaremos prazer nos caminhos do mundo e não nos caminhos de Deus (v.10). O Espírito Santo nos adverte que Deus não continuará a insistir conosco indefinidamente se endurecermos os nossos corações por rebeldia (vv.7-11; Gn 6.3). Existe um ponto do qual não há retorno (vv.10,11; 6.6; 10.26)” (Bíblia de Estudo Pentecostal. RJ: CPAD, 1995, p.1902).


Ao mostrar a superioridade de Jesus sobre Moisés, o autor da Carta aos Hebreus não tencionava exaltar o primeiro e desprezar o segundo, mas pôr em relevo a obra do Calvário, bem como esclarecer como os crentes devem valorizá-la. Ora, se Moisés que não era divino, que não se deu sacrificalmente em lugar de ninguém, merecia ser ouvido, então por que Jesus, o Filho do Deus bendito, Senhor da Igreja e superior aos anjos, não merecia reconhecimento ainda maior?


Notas
1 GIBBS, Cari B. O Livro de Hebreus - a supremacia de Cristo. Escola de Educação Teológica das Assembleias de Deus (EETAD), Campinas, SP.
2 LIDDELL, H.G & SCOTT, R. Greek - English Lexicon - with a Revised Supplment. Claredon Press, Oxford. Inglaterra, Reino Unido 1996.
3 Esse termo está muito em voga hoje nos círculos da Teologia da Prosperidade. Dentro desse modismo evangélico, significa “confessar”, “afirmar" e "determinar” algo com o sentido de tomar posse dele. Nesse sentido, ganhou apenas uma conotação consumista e mercantilista. Trata-se de uma distorção do sentido original, que era o de uma afirmação daquilo que estava em consonância com a Palavra de Deus, e não com caprichos pessoais.
4 WESLEY, John. Hebrews - Explanatory notes and Commentary. Bristol-HotWells, Januaiy, Inglaterra, 1754.
5 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de La Santa Bíbia, tomo III, Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa, Kansas, EUA.
6 HEGNER, Donald A. Hebreus- Novo Comentário Bíblico Contemporâneo. Editora Vida, São Paulo.
7 PFEIFFER, Charles F. Hebreos - Comentário Biblico Portavoz. Editorial PortaVoz, Grand Rapids, Michigan, EUA.
8 HUGHES, Philip Edgcumb. A Commentary on the Epistle to the Hebrews. Grand Rapids, Eerdmans, EUA, 1977.
9 CLARKE, Adam. Hebreos: Comentário de La Santa Bíblia - Nuevo Testamento, Tomo III. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, Kansas, EUA.
10 A obra The New Strong’s Exhaustive Concordance of The Bible observa que a palavra apostasia, em suas diferentes formas, tem como radical comum o verbo grego aphistemi e ocorre nos textos de At 21.21; 2 Ts 2.3; Hb 3.12 e 1 Tm 4.1. Assim sendo, Strong traduz aphistemi "propriamente, partida (implicando deserção); Apostasia - uma saída, de uma posição anterior”. Por outro lado, o termo grego parapsontas, derivado deparapipto (cair, desviar), que ocorre em Hb 6.6, é tido pelos eruditos como sendo sinônimo de apostasia (veja um estudo completo sobre esses termos no Apêndice, posto no final deste livro).
11 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
12 OSBORNE, Grant. Four Views on the Warning Passages in Hebrews. Kregel Acadmic & Profession. Grand Rapids, Michigan.
13 CLAPP, Philip S & FRIBERG, Barbara. Analytical Concordance o f the Greek New Testament, volume I, Lexical Focus. Baker Book House. Grand Rapids, Michigan, U.S.A.
14 YOUNGBLOOD, Ronald F; BRUCE. F. F. & HARRISON, R. K. Dicionário Ilustrado da Bíblia. Editora Vida Nova, São Paulo.
15 The Harper Collins Study Bible. Harper Collins Publishers. Londres, Reino Unido.
16 Idem. pp. 589.
17 BARCLAY, William. Hebreos - Comentário al Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Barcelona, Espanha.
18 BENSON, Joseph. Hebrews: The New Testament-A Critical, Explanatory and Praticai Notes. Lane & Tippett, Nova York, EUA, 1847.
19 Aqui, mais uma vez, como ocorre por toda essa carta, observa-se um chamado à vigilância frente aos perigos espirituais.
20 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - Comentário Exegético al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
21 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus - comentário esperança. Editora Esperança. 22 CLARKE, Adam. Op.cit. p. 590

Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O Batismo de Jesus

“E eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”  Mt 3.17



“O batismo de Jesus marca o início de seu ministério. João Batista estava chamando os ouvintes para um batismo de arrependimento. Jesus, no entanto, não tinha pecados dos quais se arrepender. Mas Ele, graças à sua submissão ao batismo de João Batista, demonstrou sua identificação com a humanidade pecaminosa. A descida do Espírito Santo em forma de pomba e as palavras de aceitação do Pai que acompanharam o batismo representaram a aprovação de Deus do ministério que se seguiria. [...] No batismo de Jesus, Deus o confirmou como seu Filho e encheu-o com seu Espírito (Mt 3.13-17), capacitando-o para sua missão” (Guia Cristão de Leitura da Bíblia. 1ª Edição. RJ: CPAD, 2013, p.436).

Texto Bíblico: Mateus 3.13-17

Deus confirmou a filiação divina de Jesus por ocasião do seu batismo.

INTRODUÇÃO

Algumas pessoas não conseguem entender o motivo que levou Jesus, sendo o Deus encarnado, a se sujeitar a ser batizado pelo último dos profetas de Israel (Mt 11.13). No entanto, a narrativa de Mateus, apesar de resumida, mostra o que estava por trás desse gesto de Jesus. A história do batismo de Jesus não era para ser apenas mais um relato de batismo de João, o Batista. Ela teve um significado importante: revelar a divindade de Cristo e a confirmação escriturística de sua missão.

Nesta lição, estudaremos a respeito do gesto humilde de Jesus de vir até João para ser batizado. Veremos também os sinais que aconteceram naquele momento e a relação do batismo de João com o batismo cristão.

I. O PROFETA QUE BATIZOU JESUS

1. João, o batista.
Mateus descreve a aparição de João Batista diretamente no deserto. Ele faz uma conexão entre o texto de Mateus 3.3 com Isaías 40.3: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus”. A profecia de Isaías 40.3 teve um significado especial para os exilados da Babilônia. A interpretação teológica do exílio era de que ele ocorreu devido à desobediência do povo e a libertação estava condicionada ao retorno a Deus. Essa interpretação influencia o discurso de João Batista.

João é comparado a Elias pelo seu estilo de vida e ousadia ao desafiar o povo de Israel a se converter a Deus (1Rs 1.17,18-46). Mateus deixa claro que João tinha uma missão especial já prevista no Antigo Testamento: preparar o caminho para o Messias.

2. O batismo de João.
O batismo de João era com água e para arrependimento, um batismo de purificação precedido por uma confissão de pecados. O discurso realizado por João Batista antes do batismo era direto e firme. Uma temática profética semelhante a Moisés (Dt 30.2,10), Oseias (Os 3.5; 6.1), Amós (Am 4.6,8,9), Isaías (Is 9.13), Jeremias (Jr 2.27) e Ezequiel (Ez 14.6). A mensagem de João era de arrependimento para um batismo que realmente simbolizasse a morte do “velho homem”. Se o batismo de João era para o arrependimento e precedido de um discurso duro, por que Jesus vai ao Jordão procurar João para ser batizado? De que teria Ele que se arrepender? Por que ouvir tal discurso? A atitude de João demonstrava que ele não via em Jesus necessidade de arrependimento, mas que tudo foi realizado para se cumprir as Escrituras.

3. João anuncia um batismo superior ao seu.
Antes de batizar Jesus, João anunciou que após ele surgiria alguém com um batismo superior ao seu. João estava se referindo a Jesus, pois Ele batizaria aqueles que cressem com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11).

A missão de Jesus era salvar e purificar os que o aceitam pela fé e o recebem como seu único Salvador, crendo nas palavras do Evangelho.

II. O BATISMO DE JESUS E OS SINAIS DIVINOS

1. Jesus foi batizado para que se cumprissem as Escrituras.
A narrativa de Mateus a respeito de Jesus não menciona a infância dEle. Do seu nascimento salta para a visita a João.

A atitude de João, seu primo, ao recebê-lo demonstra que ele conhecia Jesus e não via nEle necessidade de arrependimento e muito menos de ser batizado.

Mateus é o único evangelista que registra o fato de João, a princípio, ter se recusado a batizar Jesus. Sua recusa é consistente com sua humildade (Mt 3.11). Quando Jesus menciona que é para cumprimento de “toda a justiça”, ele se rende e batiza o Salvador. O verbo cumprir que aparece também em textos de Mateus (Mt 1.22; 2.15; 4.14) significa concordância da vontade de Deus com o que está acontecendo no ministério de Jesus, que fora previamente declarado nas Escrituras.

2. Primeiro sinal: a descida do Espírito de Deus em forma de pomba (Mt 3.16).
Logo após a saída de Jesus das águas os céus se abrem para Ele. A abertura dos céus revela favor divino a pessoa que estava em consonância com Deus (Ez 1.1; At 7.56; Ap 19.11).

O evangelista afirma que ao sair Jesus das águas o Espírito de Deus desceu sobre Ele como uma pomba (Mt 3.16). O Espírito Santo que já estava ativo no nascimento de Jesus (Mt 1.18) continua presente no início de seu ministério terreno.

Jesus é o Filho de Deus que veio ao mundo para proclamar e libertar o oprimido, conforme a leitura que Ele mesmo fez de Isaías 61.1. Este também era o sinal de um novo governo, diferente do governo do Império Romano, em que os menos favorecidos não tinham quem os representasse.

3. Segundo sinal: uma voz dos céus.
Na sequência, Mateus afirma que “e eis que uma voz dos céus dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Mais uma vez Mateus recorre ao Antigo Testamento, fazendo uma alusão ao Salmo 2.7 e Isaías 42.1.

Mateus apresenta Jesus como o servo sofredor de Deus e como o Messias (Is 42.1-4). Ele demonstra que mesmo sendo Filho de Deus, Jesus tinha a humildade de servir, diferente dos governantes romanos. Mateus também apresenta a figura do Messias, que devia batizar com o Espírito e com fogo. A pomba é símbolo de suavidade e mansidão. Isso nos mostra que, dependendo da atitude do ser humano em relação à vontade de Deus, Jesus pode ser a verdadeira benignidade como também a severidade (Rm 11.22).

III. O BATISMO DE JESUS E O BATISMO CRISTÃO

1. O modelo do batismo de João foi adaptado pelo cristianismo.
João Batista não foi o primeiro a praticar o batismo nas águas. Antes dele, os judeus batizavam os prosélitos como símbolo de uma natureza “purificada”. João Batista propagava o batismo do arrependimento, todavia o significado de arrependimento para João não é o mesmo do batismo cristão (At 18.24-26; 19.1-7). O batismo de João era uma preparação para o batismo que Jesus iria instituir depois de sua morte e ressurreição. Jesus é o Cordeiro de Deus, para justificação de todo aquele que crê e depois da sua morte e ressurreição, todos que nEle creem devem ser batizados em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo (Mt 28.20).

Em Mateus, João Batista aparece pregando o “batismo de arrependimento para remissão de pecados”, enquanto Jesus entra com um discurso do Reino: “Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos céus”. Para a pessoa participar do batismo, é preciso crer na obra vicária de Cristo para ser justificada somente depois disso vem o batismo (At 2.41). O batismo é um símbolo da justificação já realizada por Jesus Cristo.

2. O batismo é uma ordenança de Cristo e não um sacramento.
Segundo a doutrina católica, as obras são essenciais para a justificação assim como o “sacramento do batismo”. Tais argumentos repetem a mesma defesa dos judeus com relação à circuncisão como meio de justificação. Em Romanos 4.9-15, Paulo questiona tal prática e chama de hipócrita quem se gloria de obras e sinais externos. Paulo afirma que Abraão foi justificado antes da instituição da circuncisão, tornando irrefutável a afirmação de que a circuncisão não era requisito para a justificação.

O batismo cristão é a ordenança de Jesus proferida pouco antes de sua ascensão, mas a justificação se dá mediante a fé no Filho de Deus (Mt 28.19,20). Jesus deu orientações explícitas de que as pessoas convertidas devem ser batizadas em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Porém, somos salvos pela fé em Jesus, pela sua graça e não pelo batismo em si. O batismo sem fé nenhum valor tem.

3. O batismo cristão ilustra a morte e ressurreição de Cristo.
O crente, pela fé em Cristo, torna-se justo diante de Deus e o velho homem é com Jesus crucificado, fazendo surgir uma nova criatura (Rm 6.6; 2Co 5.17). O batismo nas águas é um ato público para atender uma ordenança que formaliza, simbolicamente, o que já ocorreu: o sepultamento do velho homem (Cl 2.12). O batismo nas águas é uma bela representação da nova posição do salvo em Cristo, morto para o pecado (debaixo das águas), justificado e reconciliado com Deus (ao sair das águas). Portanto, o batismo cristão é um ato público que simboliza a justificação ocorrida por meio da fé em Cristo.

O batismo nas águas é a ordenança de Jesus, um ritual que simboliza que um pecador justificado está confessando, em público, sua fé em Cristo.

Leia também:  Ordenanças da Igreja 



CONCLUSÃO

Jesus demonstrou sua humildade e obediência, ao que estava predito nas Escrituras, ao se submeter ao batismo de João Batista, mesmo não tendo pecado. O batismo de Jesus foi acompanhado de sinais, comprovando que Ele era o Filho de Deus.



Leia mais sobre:  Batismo - um exemplo a ser seguido


Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 1º Trimestre de 2018 - Título: Seu Reino não terá fim — Vida e obra de Jesus segundo o Evangelho de Mateus - Comentarista: Natalino das Neves


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