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sábado, 11 de julho de 2015

O Evangelho da Graça

[...] contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” Atos 20.24


O EVANGELHO DA GRAÇA
Professor, iniciando a aula, leia o seguinte versículo: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8). Faça uma reflexão com os alunos mostrando que se hoje estamos firmes com Cristo é porque um dia nós fomos alcançados pela maravilhosa Graça de Deus. Além de nos salvar pelo ato da sua graça, Deus nos preparou as boas obras para que andássemos por elas. Explique que as boas obras não salvam, mas dá um poderoso testemunho diante da sociedade sobre o quanto fomos alcançados pela graça divina.

A doutrina da Graça de Deus é uma das verdades mais gloriosas das Sagradas Escrituras. A convicção de que não há nada na pessoa humana capaz de preencher o vazio da alma, isto é, o restabelecimento da nossa ligação com Deus e o significado do sentido último da vida, e saber que só Deus é capaz de fazer esse milagre em nós, mostra-nos o quão miserável nós somos e quão misericordioso Deus é.

A doutrina da Graça apresenta-nos o misericordioso Deus, que em Jesus Cristo estava reconciliando o mundo consigo mesmo (2Co 5.19), operando em nós para o reconhecermos Pai amoroso. Por isso, apresentar a doutrina da Graça ao pecador é conceder-lhe libertação da prisão do pecado, a autonomia da fé em Cristo e o privilégio em sabermos que não há nada que pode separar-nos do amor de Deus (Rm 8.33-39).

Caro professor, quando falamos da Graça de Deus, inevitavelmente, chegaremos ao tema da eleição divina. Como a graça de Deus nos alcançou? A graça de Deus é arbitrária sem levar em conta a responsabilidade humana? Qualquer estudo sobre a eleição divina tem de partir obrigatoriamente da Pessoa de Jesus. Em Jesus não achamos qualquer particularidade divina em eleger alguns e deixar outros de fora, resultado de uma escolha divina arbitrária e individualizada antes da fundação do mundo. A escolha de Deus se deu em Jesus (Ef 1.4; Rm 8.29). Nele, a salvação é oferecida a todos (2Pe 3.9; cf. Mt 11.28), e, pela sua presciência, o nosso Senhor sabe quem há de ser salvo ou não. A eleição de Deus leva em conta a volição humana, pois é um dom dEle mesmo à humanidade. Assim, quando levamos em conta a volição (ação de escolher ou decidir) humana não esvaziamos a soberania de Deus e da sua Graça. Pelo contrário, afirmamos a sua soberania, pois Deus escolheu fazer um homem autônomo. Afirmamos também que a graça de Deus opera, restaurando a capacidade do homem de se arrepender e crer no Evangelho (1Tm 4.1,2; Mt 12.31,32).

O evangelho da graça de Deus é por excelência o evangelho da libertação do homem através do sacrifício salvífico de Jesus Cristo.

O apóstolo Paulo era um pastor cuidadoso em extremo com o rebanho do Senhor sob seus cuidados. Quando escreveu a primeira epístola a Timóteo, este se encontrava em Éfeso, cumprindo a orientação de Paulo, a fim de ministrar as devidas orientações àquela igreja, ante as ameaças de falsos mestres que se infiltraram no seio dos irmãos e já estavam semeando seus ensinamentos perniciosos.

O jovem obreiro não era o pastor da igreja de Éfeso, mas recebera a grande e grave incumbência de não só advertir a igreja, mas de confrontar os que se tornaram instrumentos a serviço da semeadura das heresias. O problema era tão grave que Paulo fugiu ao seu estilo peculiar de redigir suas cartas. Normalmente, ele começava algumas de suas epístolas com ações de graças (Rm 1.8; 1Co 1.4; 2Co 1.2).

A leitura geral da epístola não dá informações claras sobre quais heresias estariam sendo difundidas no meio da igreja. Paulo vai direto ao assunto, abordando o problema dos ensinos falsos que estavam sendo repassados pelos “falsos mestres”, os quais se aproveitavam das dificuldades próprias da época, em que as comunicações eram escassas e demoradas, para contaminar a mente dos crentes, especialmente dos novos decididos, com seus ensinos perniciosos.

“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinem outra doutrina, nem se deem a fábulas ou a genealogias intermináveis, que mais produzem questões do que edificação de Deus, que consiste na fé; assim o faço agora” (1Tm 1.3,4 - grifo nosso). Que seria essa “outra doutrina”, essas “fábulas” e essas “genealogias intermináveis”? O texto não esclarece. Estudiosos da Bíblia entendem que poderiam ser os ensinos gnósticos ou dos judaizantes. Ao que tudo indica em Éfeso, além da perseguição externa, havia também a perseguição interna, dos falsos mestres, de dentro da própria igreja. Em sua despedida dos anciãos de Éfeso, Paulo expressou seus sentimentos de preocupação com o rebanho de Deus (At 20.29,30). Sem dúvida, fora uma palavra profética. Sete anos depois, Paulo estava deixando Timóteo em Éfeso, para fazer face aos “lobos cruéis”, que queriam “devorar” o rebanho sob seus cuidados pastorais.


I - AS FALSAS DOUTRINAS CORROMPEM O EVANGELHO DA GRAÇA
1. O Evangelho da Graça

O evangelho da graça é o evangelho libertador que Cristo trouxe ao mundo, por mercê de Deus, independentemente das obras humanas (Ef 2.8,9). Paulo se referiu a esse evangelho de maneira muito eloquente em Atos 20. 24. Ele entendeu bem o que significa o “evangelho da graça de Deus”. Ele, que em seu zelo extremista em defesa do judaísmo, cometeu atos absurdos, a ponto de consentir na morte de seguidores de Cristo, sendo testemunha e cúmplice de Estêvão (At 7.58; 8.1). Ele próprio, julgando estar fazendo a vontade de Deus, tornou-se líder da perseguição aos servos de Jesus, mas foi escolhido para ser uma testemunha da graça e da misericórdia de Deus. A superabundante graça do Senhor Jesus Cristo não só escolheu, como chamou e acolheu Paulo, como ministro do evangelho, mas o enviou a ser um dos maiores e mais destacados líderes da evangelização do mundo, em sua época.

2. As Falsas Doutrinas

O evangelho da graça de Deus é bem diferente de “outro evangelho” (G1 1.8), que era pregado em Éfeso e em diversos lugares por onde Paulo passara, fundando igrejas. Escrevendo a Timóteo, o apóstolo orienta bem acerca dos ensinos estranhos à “sã doutrina”.

1) “Outra doutrina”

“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficasses em Éfeso, para advertires a alguns que não ensinem outra doutrina” (1Tm 1.3). Esse versículo mostra que os falsos mestres não eram apenas pessoas de fora da igreja, que difundiam a doutrina herética do gnosticismo ou do judaísmo. Estudiosos das epístolas paulinas entendem que se tratava de presbíteros, a quem cabia a tarefa de ministrar o ensino à igreja (1Tm 5.17). Sem dúvida, isso se deve ao fato de que o “bispo” ou o presbítero deve ser “apto para ensinar” (1Tm 3.2). Esses ensinadores se deixaram influenciar por ensinamentos estranhos e passaram a ensinar “outra doutrina”. No grego original, “outros” vêm de “heteros", no caso, “doutrina estranha”, “falsificada”, “diferente”. Ou “não ensinar diferente” (gr. heterodidaskalein).
“Os oponentes do apóstolo são aqueles que (literalmente) ‘ensinam outra/diferente’. Embora desejem ser ‘doutores da lei’ (v.7), não são mais do que ensinadores de inovações, isto é, daquilo que é alheio ao verdadeiro evangelho”.1

2) “Fábulas ou genealogias intermináveis”

Para o destinatário da carta em apreço, essas expressões eram familiares. Mas, para os leitores dos tempos atuais, tão distantes daquele período em que foi escrita, o que seriam essas “fábulas” e essas “genealogias”? Fábulas (gr. mythoí) são lendas, narrativas imaginárias, mentiras, invencionices literárias, que podem ter lições positivas ou negativas. “O termo ‘fábulas’ ou ‘mitos’ (mythos) poderia incluir narrações alegóricas, lendas ou ficção, ou seja, doutrinas espúrias em contraste com a verdade do Evangelho”.2
Os gnósticos desenvolviam cultos aos anjos, e acreditavam que eles seriam guardiões que levavam as pessoas a Deus. Esses falsos ensinos resultavam em “questões” vazias, discussões que não levavam a lugar nenhum em termos de edificação dos crentes (cf. 1Tm 1.4). Não é de admirar que tais ensinos tivessem lugar no seio da igreja cristã, como em Éfeso.

Genealogias (gr.genealogiai) significam “linhagem, estirpe, ascendência. A: descendência”,3 ou estudo das origens das linhagens, ascendências e descendências de determinados grupos sociais ou famílias. Não fica claro, no texto a que se referem essas genealogias. Mas, ao lado das fábulas, eram ensinos que demandavam o confronto decidido e firme da liderança eclesiástica. As genealogias não eram vistas apenas como lista de ascendentes e descentes de uma linhagem. Os gnósticos as consideravam de forma mítica, como temas centrais de sua teologia espúria. Dá para imaginar a confusão que tais ensinos causavam no meio de igrejas cristãs, que recebiam muitos novos convertidos. Timóteo foi o mensageiro, enviado por Paulo, para enfrentar “o bom combate” da fé genuína, que se fundamenta na ortodoxia da “sã doutrina” (1Tm 1.10; 2Tm 4.3; Tt 1.9).


3) “O fim do mandamento”

Após exortar com firmeza contra as “fábulas” e as “genealogias” intermináveis, que só trazem perturbações, discussões inúteis e fúteis, Paulo chamou a atenção de Timóteo para a doutrina prescritiva de Deus e de Cristo, a que ele resumiu no “mandamento”, e sua finalidade, dizendo: “Ora, o fim do mandamento é a caridade de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida. Do que desviando-se alguns, se entregaram a vãs contendas” (1Tm 1.5,6).

Mas a Palavra de Deus, ou a sua doutrina (gr. didakê), tem por finalidade a transformação espiritual do ser humano. Essa transformação se dá de fora para dentro, pela ação sobrenatural e eficaz da Palavra (Hb 4.12). Essa é a finalidade do “mandamento” ou do ensino cristão. Provocar mudança eficaz no interior do homem. Paulo expressa bem essa transformação em 2 Coríntios 5.17. É o que ele expressa a Timóteo: que o ensino, a doutrina ("o mandamento”) não produz efeito superficial, mas profundo, que resulta na “caridade de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida”. Os gnósticos dividiam-se em dois grupos: os ascetas e os libertinos. Os ascetas pregavam o afastamento do mundo, do contato com os homens e as mulheres, para terem uma vida monástica, sobre as montanhas, ou o mais distante das cidades, para não se contaminarem com as coisas materiais, incluindo o corpo, que é mau.


A corrente dos libertinos tinha outro direcionamento para a purificação do corpo. Era a sua destruição, na libertinagem, na depravação sexual desenfreada. Buscavam a purificação pela destruição do corpo. Certamente, Timóteo teve muito trabalho em usar a Palavra de Deus para desmanchar a influência desse tipo de doutrina. Esse “mandamento” a que Paulo se referia eram as exortações, os ensinos e a “sã doutrina” (Tt 2.1), cujo objetivo ou finalidade era promover três importantes resultados na vida dos crentes: “a caridade de um coração puro, e de uma boa consciência, e de uma fé não fingida”. Essa caridade, que se revela num “coração” puro, não é qualquer tipo de “amor”, mas o verdadeiro amor cristão, que deriva do amor Àgape, ou amor de Deus. E se concretiza, ou se materializa, não em teoria, mas num viver santo e puro, conforme a Palavra de Deus. E o amor que faz o crente amar a Deus em primeiro lugar, e “ao próximo como a si mesmo” (Lc 10.27). Jesus refere-se aos que têm “coração puro”. São os “limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5.8).


A segunda evidência desse “mandamento” é “uma boa consciência” cristã. No vernáculo, consciência significa “conhecimento, ciência”; “A consciência é a capacidade, ou sede, da consciência moral, comum a todas as pessoas” (Rm 2.15; 2Co 4.2)”;4 a consciência natural, do homem não salvo é influenciada por muitos fatores, tais como sua origem, sua história, bem como sua nova vida em Cristo (2Co 5.17); mas, na Bíblia, consciência é mais que isso, é a convicção interior da condição cristã, na comunhão com Cristo. E o sentimento de firmeza de pensamento; é a certeza da comunhão com Deus. E a “boa consciência” no andar com Deus (At 23.1; 1Pe 3.21); é “ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus como para com os homens” (At 24.16); é a “voz interior”, que acusa ou defende cada pessoa (Rm 2.15); é a consciência que leva o crente a obedecer a Deus, independentemente de quem quer que seja (Rm 13.5); é o testemunho interior da conduta do crente (2Co 1.12); é a consciência do crente que serve a Deus com pureza (2Tm 1.3); é o contrário da “má consciência” (Hb 10.22).


Os “falsos mestres”, que perturbaram a igreja em Éfeso, não tinham essa “boa consciência” cristã. Eles certamente falavam, ensinavam e agiam conforme a consciência deles (2Tm 4.1); eram hipócritas, falavam mentiras e tinham “cauterizada a sua própria consciência” (2Tm 4.2). O terceiro resultado, fruto do “mandamento”, ou da Palavra de Deus, na vida do crente, é “uma fé não fingida”. Tem o sentido de fé sincera, autêntica, verdadeira. “Aqui, fé não fingida refere-se à virtude cristã, significa confiar em que Deus está presente de verdade, em contraste com a natureza enganosa da ‘fé’ dos mestres do erro”.5 É a “fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd 3). No dizer de Paulo, os “falsos mestres queriam ser doutores da lei e não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam (1Tm 1.7). Por isso mesmo, davam-se a fábulas e a genealogias intermináveis” (1Tm 1.4), com o que se embaraçavam e embaraçavam seus ouvintes. Certamente, era uma ação diabólica, promovendo a confusão entre os cristãos de Éfeso.


4) A lei e a quem se destina

Como os falsos mestres da lei (nomos didaskalos), ou “professores” da lei, manipulavam os textos do Antigo Testamento, Paulo, escrevendo, disse que sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela usa legitimamente (1Tm 1.8). Os ensinos da Lei de Moisés tinham seu bom efeito, se fossem bem interpretados e aplicados à vida da igreja, ou seja, mediante o uso legítimo do texto legal. Mas os fariseus, os saduceus e os doutores da lei nem sempre usavam seus textos de modo correto e legítimo.

Eles exigiam o cumprimento estrito e literal da lei, mas eles próprios não o faziam (Mt 23.23). Ou seja, fariseus davam o dízimo de tudo, até das menores coisas, mas desprezavam o mais importante da lei: “a misericórdia e a fé”. Ser dizimista fiel é uma bênção. É o reconhecimento e a gratidão de que tudo o que temos vem de Deus (cf. 1 Cr 29.14). Mas a entrega dos dízimos e das ofertas para a obra do Senhor não dão direito a desprezarmos os sagrados princípios bíblicos de santidade, ética e pureza em nossas vidas.

Paulo ensina acerca do objetivo da lei, e para quem ela se destinava; sabendo isto: que a lei não é feita para o justo, mas para os injustos e obstinados, para os ímpios e pecadores, para os profanos e irreligiosos, para os parricidas [que matam seus pais] e matricidas [que matam suas mães], para os homicidas, para os fornicadores [em outra tradução é “devassos”; “impuros”, gr. pomos; “no moderno vocabulário, esta última palavra indica a prática ilícita de contatos sexuais antes do casamento”,6 os que praticam atos sexuais ilícitos], para os sodomitas [homossexuais ativos, que fazem o papel de macho], para os roubadores de homens [sequestradores ou traficantes de pessoas], para os mentirosos, para os perjuros [que proferem falso juramento] e para o que for contrário à sã doutrina, conforme o evangelho da glória do Deus bem-aventurado, que me foi confiado” (1 Tm 1.9-11 - informações explicativas acrescentadas).


II - A GRAÇA SUPERABUNDOU A FÉ E O AMOR
1. Gratidão a Deus

Uma das características marcantes no caráter de Paulo é o ser grato a Deus (Rm 7.25; 1Co 1.4; 14.18; 2Tm 1.3). Ele expressa sua gratidão a Cristo por tê-lo escolhido e posto no ministério apostólico e pastoral, apesar de ter sido um terrível opositor do evangelho de Jesus, em sua vida pregressa (1Tm 1.12,13). E mais uma demonstração do que o “evangelho da graça de Deus” pode fazer na vida de um homem.

2. Humildade na Grandeza Espiritual

Já fazia bastante tempo desde a conversão de Paulo ao evangelho de Cristo, ocorrida de forma dramática, no caminho de Damasco. Ele não era mais um “novo convertido” ou “neófito” (pagão recém convertido ao cristianismo) quando escreveu suas cartas a Timóteo. Declara que “Esta é uma palavra fiel e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15). Não era falsa modéstia. Ele tinha convicção de que fora salvo, mas ainda se considerava “o principal” dos pecadores. Certamente, não era uma confissão de prática de pecados atuais. Mas considerava que, mesmo na condição de salvo, ainda assim o crente deve considerar-se pecador. Não mais um pecador praticante do mal, mas sujeito ao pecado em suas formas muitas vezes as mais sutis.

É tão verdade isso, que a Palavra de Deus diz que “não há homem que não peque” (1Rs 8.46; 2Cr 6.36; Ec 7.20). O apóstolo João diz que “há pecado para morte” e há “pecado que não é para morte” (1Jo 5.16,17).



“Não obtemos por boas obras (a essência da religião legalista) o direito à libertação do pecado e da morte. Jamais! Graça significa que tudo começa e termina com Deus. A salvação é, então, um presente de nosso Criador. Nós criamos a nossa própria ruína, mas nele reside nosso socorro. O Criador restaura com as próprias mãos sua obra-prima arruinada. Enquanto a graça é a origem ou fonte da nossa salvação, a fé é o seu meio ou instrumento. A fé não faz reivindicações, para que não seja dito que foi por ‘mérito’ ou ‘obra’” (Comentário Bíblico Beacon. 1ª Edição. Volume 9. RJ: CPAD, 2006, p.136).


III - UM CONVITE A COMBATER O BOM COMBATE (vv. 18-20)
1. A Boa Milícia

Depois de orientar Timóteo sobre a difícil missão de combater as heresias na igreja de Éfeso, Paulo dá uma palavra de ânimo, encorajamento e incentivo ao jovem obreiro.
Numa atitude de um verdadeiro “pai na fé” (1Tm 1.18). Paulo lembra a Timóteo que, em sua vida de obreiro, ele teve o respaldo de mensagens proféticas a seu respeito. Certamente, por meio do “dom de profecia”. Deduz-se, do texto, que as “profecias” eram tão consistentes que Timóteo deveria militar a boa milícia”, ou o bom combate, com base naquilo que Deus lhe falara. No seio da igreja cristã, os dons espirituais são usados como ferramentas ou instrumentos para o fortalecimento da fé dos crentes, no cumprimento da missão confiada por Cristo, ante os embates com as forças que a ela se opõem. Mas os dons, e em especial a profecia só têm valor se for genuína. “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus...” (1Pe 4.11). Pela experiência e as evidências incontestáveis na vida de Timóteo, o apóstolo concluiu que o plano de Deus na vida dele estava em pleno andamento, e ele deveria lembrar-se das “profecias que houve acerca” dele, a fim de saber conduzir-se na “boa milícia” que lhe fora confiada, “conservando a fé e a boa consciência” (1 Tm 1.19).

2. A Rejeição da Fé e suas Consequências

A base ou o fundamento da “boa milícia” a que Timóteo deveria dedicar-se eram a fé e a boa consciência” cristã, de que o jovem obreiro era bem conhecedor. Essa “fé” é a “fé não fingida” (1Tm 1.5), aliada à “boa consciência” a que Paulo já se referira (1Tm 1.5). Sem essa base de caráter espiritual e esse respaldo doutrinário, seria temerário engajar-se numa luta contra as forças do mal que agiam na igreja. Com essa exortação, Paulo lembra que quem rejeitou esse fundamento naufragou na fé, não foi bem sucedido e fracassou em sua jornada. Foi muito forte sua admoestação. Ele diz que “rejeitando a qual alguns fizeram naufrágio na fé. E entre esses foram Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar” (1Tm 1.19,20). Quem rejeita “a fé não fingida” e a “boa consciência” cristã colhe os resultados de sua má escolha, e o resultado é o “naufrágio na fé”. Paulo toma como exemplo de obreiros que entraram por esse caminho Himeneu e Alexandre. Quem eram esses maus exemplos de “falsos mestres”? Pouco se fala deles no Novo Testamento. Quanto a Himeneu, é citado em 2 Timóteo 2.17. Não se sabe ao certo qual “doutrina” falsa ele semeava. Mas ele se encarregava de disseminar “falatórios profanos”, ao lado de outro heresiarca, chamado Fileto (2Tm 2.17,18). Estudiosos dizem que eles eram representantes do gnosticismo no meio da igreja de Éfeso.

Com relação a Alexandre, aliado de Himeneu na semeadura das falsas doutrinas, era tão pernicioso que Paulo o considera desviado ou “naufragado” na fé. Sua influência era tão maliciosa que o apóstolo os entregou “a Satanás, para que aprendam a não blasfemar” (1Tm 1.20). Eram “os dois apóstatas” que estavam à frente do movimento herético, surgido no seio da igreja de Éfeso, com o objetivo de promover dissensão e divisão naquela igreja. Esse tipo de falso obreiro perturbou também a igreja em Creta, e Paulo tomou a medida de enviar Tito para fazer frente à ação predatória contra a igreja (Tt 1.10,11).



“Conforme Timóteo 1.18, houve profecias concernentes à vontade de Deus para o ministério de Timóteo na igreja (1Co 14.29). Paulo exorta a Timóteo a permanecer fiel àquela vontade revelada para sua vida. Como pastor e dirigente da igreja, Timóteo devia permanecer leal à verdadeira fé apostólica e combater as falsas doutrinas que estavam penetrando insidiosamente na igreja.
Paulo adverte Timóteo várias vezes a respeito da terrível possibilidade da apostasia e abandono da fé” (Bíblia de Estudo Pentecostal, CPAD, p.1865).


CONCLUSÃO
O cristianismo não nasceu em “berço esplêndido” de condições favoráveis à sua expansão pelo mundo. Pelo contrário. Nasceu debaixo de perseguição e confronto com heresias e ensinos desvirtuados. Na consolidação de igrejas abertas em suas viagens missionárias, Paulo teve que oferecer resistência e ação decidida contra os “lobos vorazes” que haveriam de surgir, até mesmo no seio das igrejas, como no caso da igreja de Éfeso. Com a graça de Deus e o apoio de homens fiéis, como Timóteo e Tito, o apóstolo fez frente aos falsos mestres que se levantaram para prejudicar o trabalho iniciado e desenvolvido em muitas igrejas. Na primeira epístola a Timóteo, Paulo designou o jovem obreiro para pastorear a igreja em Éfeso, para conter a maré de heresias diversas, dentre as quais o gnosticismo e o judaísmo. Nos dias atuais, há muitas heresias infiltrando-se nas igrejas, ou surgindo no seio delas. Os líderes do povo de Deus precisam agir com sabedoria, graça e firmeza contra essas ameaças reais.


Notas:
1 French L. ARRINGTON & Roger STRONSTAD. Comentário bíblico pentecostal - Novo Testamento, p.1445.
2 French L. ARRINGTON & Roger STRONSTAD. Comentário bíblico pentecostal - Novo Testamento, p. 1445.
3 Dicionário HOUAISS.
4 Gordon D. FEE. Novo comentário bíblico contemporâneo 1; 2 Timóteo e Tito, p.53.
5 D. FEE, Gordon. Novo comentário bíblico contemporâneo 1; 2 Timóteo e Tito, p.53.
6 Russell Norman CHAMPLIN. O Novo Testamento interpretado, versículo por versículo. Vol.5, p.284

Fonte:
A Igreja e o seu Testemunho - As ordenanças de Cristo nas Cartas Pastorais
As Ordenanças de Cristo nas Cartas Pastorais - Elinaldo Renovato de Lima (livro de apoio)
Comentário Bíblico Beacon 1ª.ed.vol.9 
Bíblia de Estudo Pentecostal 


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