“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram” Hb 2.3
Hebreus 2.1-4
“Esta é a primeira de sete passagens em Hebreus
onde o autor combina uma urgente exortação com uma solene advertência a fim de
mover seus leitores a uma confiança renovada, a uma esperança e fé perseverante
em Cristo. Estas sete advertências não são divagações, no entanto se relacionam
diretamente com o principal propósito do autor. A íntima conexão entre este
parágrafo e a interpretação em 1.5-14 demonstra que a exposição bíblica do
autor não era propriamente um fim, mas originou-se de sua preocupação por seus
leitores e sua perigosa situação.
O rico vocabulário e os dons do autor como
orador são novamente evidentes. A construção grega de 2.1-4 consiste em duas
sentenças: uma declaração direta (2.1), seguida por uma longa sentença
explicativa (2.2-4), que inclui uma pergunta retórica (‘como escaparemos nós?’)
com uma condição (‘se atentarmos para [ou negligenciarmos] uma tão grande
salvação’, 2.3a).
A expressão
‘Portanto’ (2.1) liga este parágrafo ao esplendor e à incomparável supremacia
do Filho no capítulo 1. Pelo fato de o Filho ser superior aos profetas e aos
anjos, se o que Deus ‘nos falou pelo Filho’ (1.2) for negligenciado, seremos
muito mais culpáveis: ‘Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para
as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas’”
(ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico
Pentecostal Novo Testamento. 2ª Edição. RJ: CPAD, 2004, p.1549).
A salvação não é algo dado ao crente compulsoriamente. O cristão é exortado a ser vigilante e não negligente em relação a essa dádiva recebida.
Uma Salvação Grandiosa
Comentário de Hebreus 2.1 -18
No capítulo 1, o autor mostrou
a superioridade de Jesus ê aos anjos. Neste capítulo, o autor demonstrará as implicações
práticas daquilo que ele afirmara. Os intérpretes destacam que a superioridade
de Jesus em relação aos anjos acontece em três aspectos:
1. Nenhum dos anjos podia
trazer a nova relação entre irmãos (Hb 2.5-13);
2. Nenhum dos anjos podia
livrar os homens do temor da morte (Hb 2.14-16);
3. Nenhum dos anjos podia
realizar a obra da expiação pelos pecados (Hb 2.17-18).
“Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos
ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas" (v. 1). Aqui, o “portanto"
(gr. dia touto) tem o sentido de "acordo com o que acabei de mostrar”.
Nesse contexto, “portanto" é usado em referência à superioridade de Jesus
sobre os anjos. Uma verdade de tão grande magnitude deveria ter recebido uma
maior atenção por parte dos leitores. Eles deveriam ter atendido as verdades
ensinadas com maior diligência. O termo grego prosechein, traduzido aqui como
"atentar", tem o sentido de “prestar atenção a, atender, dar ouvidos".1 O termo é usado no sentido de dar uma resposta positiva ou negativa a uma mensagem
recebida. É usado em Atos 8.6 para afirmar que as pessoas "atendiam”
unânimes as palavras pregadas por Filipe. Por outro lado, em Tito 1.13,14, é usado para exortar os crentes a “não dar ouvidos” às fábulas
judaicas. Em ambos os casos, a participação do ouvinte é requerida. Pedro
afirma que seus leitores faziam bem em “atenderem” a palavra profética (2 Pe
1.19). Esse mesmo termo é usado por Lucas para narrar a conversão de Lídia (At
16.14). “Certa mulher, chamada Lídia, da cidade de Tiatira, vendedora de
púrpura, temente a Deus, nos escutava; o Senhor lhe abriu o coração para
atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14 - ARA). Enquanto Paulo falava
acerca do Reino de Deus, Lídia escutava a Palavra de Deus, e o Senhor abriu-lhe
o coração para atentar (prosechein) àquilo que o apóstolo dizia.2
As Escrituras exortam o
cristão a ser vigilante e batalhar pela fé que uma vez lhe foi dada (Jd 3). O
autor não queria que os crentes aos quais ele escrevia ficassem desviados da
fé. A palavra "desviar” (gr. pararreô) era usada em referência a um rio
que corria fora do seu leito. Podia ser usada também em referência a uma pessoa
que perdia a memória ou, então, a um navio que estava à deriva.3 Franz Delitzsch (1813-1890) destaca que está
presente o sentido de obter ou encontrar a si mesmo em um estado de fluxo ou de
passagem, isto é, em referência a um objeto que requer muita atenção; perder a
posse de qualquer coisa por não conseguir segurar.4 Essas observações fazem-nos ver que a
apostasia — um ensino que o autor de Hebreus voltará a falar mais adiante — é uma
realidade possível e real. Se decair da fé ou se desviar não fosse uma
possibilidade, essas exortações perderiam o sentido.
“Porque, se a palavra falada
pelos anjos permaneceu firme, e toda transgressão e desobediência recebeu a
justa retribuição” (v. 2). Como já havia assinalado no versículo anterior, o autor refere-se, aqui, à Lei mosaica entregue no Sinai. George Wesley Buchanan destaca que havia uma tradição judaica antiga na qual se afirmava que a Lei fora entregue pelos anjos (Ant. XV. 136; Gl 3.19; Atos 7.53; Targ. Dt 33.2).5 Por haver sido mediada por anjos, a Lei era vista e observada meticulosamente pelos judeus. A conclusão a que o autor quer chegar é simples: ora, se a Lei, que fora entregue por anjos, merecia tanta atenção, então não merecia atenção maior ainda a palavra de Deus, que fora entregue por seu próprio Filho, o qual é infinitamente superior aos anjos? Se a palavra entregue por anjos provocou punição para quem a transgrediu, o que poderá acontecer com quem quebra a palavra falada pelo Filho?
“Como escaparemos nós, se não
atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos, depois, confirmada pelos que a ouviram” (v. 3). Valendo-se de uma pergunta retórica, o autor indaga a seus leitores se haveria alguma chance de escape para quem fosse negligente e não atentasse para essa tão grande salvação. A resposta, evidentemente, é que não haveria chance nenhuma.
A palavra grega amelêsantes, traduzida como “atentar”,
“negligenciar”, é um particípio que ocorre quatro vezes no Novo Testamento grego (Mt 22.5; 1 Tm 4.14; Hb 2.3; 8.9). Em Mateus, é usado no sentido de “não dar atenção”; em 1 Tm 4.14, é usado para exortar Timóteo a não "negligenciar” o dom de Deus; em Hebreus 8.9, é usado para dizer que Deus não “atentou” para os desobedientes.6 A salvação do cristão está condicionada à sua permanência em Cristo. Alguns creem que a salvação é dada por decreto. Nesse sentido, as pessoas eleitas serão salvas sem importar muito o que fazem ou deixam de fazer. No entanto, Richard Taylor destaca:
"A Bíblia mostra que a
prática do pecado e o Filho de Deus são totalmente incompatíveis; e que a
apostasia é uma possibilidade, ainda que não seja normal nem o que se espera na
experiência cristã. O Novo Testamento sublinha que a fé evangélica é como um
tempo presente, uma atitude contínua de confiança e obediência, ‘aquele que crê
no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida’
(Jo 3.36; Tg 2.14-26)".7
"Testificando também Deus
com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas, e dons do Espírito
Santo, distribuídos por sua vontade?" (v. 4). O escritor F. Dattier destaca:
“A insistência sobre os
prodígios, Hb possui em comum com o 4° Evangelho onde tais fatos formam
argumentos essenciais em abono da legitimidade de Jesus de Nazaré: Jo 1.14,51 ;
2.11,23; 3.2; 5.17-20,36; 6.14,26; 7.21,31; 9.3,16; 10.32,37,41; 11.47; 12.18,37;
14.10; 15.24. Com a morte de Jesus, os milagres não desapareceram; os
discípulos fariam maiores ainda (Jo 14.12); maiores se não em qualidade, pelo menos em quantidade, como se vê nos Atos dos
Apóstolos e na variedade imensa de carismas descritos em Rm 12 e 1 Cor
12." 8
A Igreja Primitiva, formada
por crentes tanto da primeira como da segunda geração, estavam familiarizados
com os carismas do Espírito. Para o autor, a Salvação não ocorreu apenas no
plano subjetivo e teórico, mas também no objetivo e prático. O Espírito Santo,
através dos discípulos, deu testemunho dessa salvação. Os termos gregos: semeiois
(sinais), terasin (maravilhas) e dynamesin (poder, prodígios, milagres) são
frequentemente usados nos Atos dos apóstolos (At 4.30,33; 5.12; 14.3,8-10). No
Velho Testamento, o Espírito vinha sobre algumas pessoas especiais: o rei, o
legislador, o profeta e o sacerdote. Todavia, na Nova Aliança, Ele foi
derramado sobre toda a carne (At 2.17). Os crentes Hebreus possuíam consciência
desses fatos, mas, mesmo assim, davam sinais de esquecimento.
Como de costume, o autor mais
uma vez recorre a uma citação de um salmo (8.4-6) de natureza messiânica para
validar sua argumentação. No judaísmo, esse salmo era um cântico que celebrava
a criação, a tradição cristã; no entanto, devido à sua citação na carta aos
Hebreus, associou-o à redenção. "Em vários períodos, o salmo foi usado
para expressar o tema da imago dei no sentido de que a dignidade da humanidade
é concedida e, em seguida, restaurada pela salvação/redenção”.9
C. S. Keener destaca que era
uma crença do judaísmo antigo a de que Deus sujeitaria a seu povo o governo do mundo vindouro.10 O judaísmo dos dias neotestamentários alimentava essa esperança. “Porque não foi aos anjos que
sujeitou o mundo futuro, de que falamos” (v. 5). O fato em destaque pelo autor
é que o mundo será, com efeito, submetido ao governo não angélico, mas humano.
O autor afirma essa crença, porém destacando que essa promessa teve seu fiel
cumprimento no Messias, que era divino e humano. O autor passa a citar o Salmo
8.
"Mas, em certo lugar,
testificou alguém, dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho
do homem, para que o visites?" (v. 6). Valendo-se da expressão “em certo
lugar”, o autor não demonstra imprecisão na sua citação, mas, sim, o uso do
método hebraico de interpretação conhecido como gezerah shavar, muito usado
pelos escribas para unir duas porções das Escrituras.
“Tu o fizeste um pouco menor
do que os anjos, de glória e de honra o coroaste e o constituíste sobre as
obras de tuas mãos" (v. 7). Essa citação não é feita para depreciar o
homem; pelo contrário, é usada para mostrar sua grandeza.11 O autor avança para o desfecho do seu comentário. "Todas as coisas lhe
sujeitaste debaixo dos pés" (v. 8). F. F. Bruce observa que “Quando o homem falha no
cumprimento de seu propósito divino (como em alguma medida, todos o fizeram na
época do Antigo Testamento), Deus levanta outro para que tome o seu lugar. Mas
quem poderia tomar o lugar de Adão? Somente um que foi capaz de desfazer os
efeitos da queda de Adão e, portanto, iniciar uma nova ordem do mundo”.12
“Vemos, porém, coroado de
glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos,
por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte
por todos” (v. 9). A palavra grega brachy, traduzida como “menor”, é usada aqui
em relação ao tempo e significa temporariamente. Portanto, o texto afirma que, devido
à sua humilhação, Jesus temporariamente foi feito menor do que os anjos, e não
que Ele tornou-se menos digno do que os seres angélicos.13 Alguns autores interpretam esse texto no
sentido de que a glória precedeu o sofrimento. Nesse aspecto, Jesus teria uma
glorificação antecipada. Mas, como observa F. F. Bruce, essa não é a leitura
natural do texto. O autor de Hebreus põe a glorificação como um evento que seguiu
a humilhação de Cristo. Pela primeira vez, o autor cita aqui o nome
"Jesus", o que é uma clara demonstração de sua humanização. "O
Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). O autor usa o termo grego
"graça” (gr. Xaris) pela primeira vez, e o seu sentido é de uma salvação
para todos, universal e ilimitada.14 Ele
sacrificou-se por todos e, como resultado de sua paixão e exaltação, sua morte
é extensiva a todos os homens.15 Adam
Clarke (1760-1832), renomado teólogo britânico, vê aqui um paralelo com o
cálice da salvação a qual o Senhor Jesus referiu-se em Mateus 26.39:
"Meu Pai, se és possível,
passa de mim este cálice. Mas, sem bebê-lo, a salvação haveria sido impossível;
portanto, com júbilo o bebeu em lugar de cada alma humana, fazendo desta
maneira sacrifício por todo o pecado da totalidade do mundo; e isto Ele fez por
graça, misericórdia ou infinita bondade de Deus”.16
"Porque convinha que
aquele, para quem são todas as coisas e mediante quem tudo existe, trazendo
muitos filhos à glória, consagrasse, pelas aflições, o Príncipe da salvação
deles" (v. 10). Esse versículo é uma referência à missão salvífica do
Filho e faz um paralelo com 2 Coríntios 5.19. O escritor Neil R. Lightfoot
observa que alguns comentaristas dizem que o texto quer dizer simplesmente que,
através da sua morte, Jesus completou sua obra na terra e que, por isso, teria
Ele superado todas as suas limitações. Todavia, Lightfoot destaca que "a
palavra aperfeiçoar (traduzida aqui como consagrar), que, com seus cognatos, é
característica da epístola, exige mais do que isso. No geral, ela significa
concretização ou inteireza; completar algo, pôr em efeito; acabar, por exemplo,
uma torre ou obra de arte. Mas o significado aqui é determinado pela
Septuaginta, que usa regularmente o termo no Pentateuco para referir-se à
consagração dos sacerdotes (Êx 29.9, 29.33,35, etc.). Da mesma forma que, no
Velho Testamento, os sacerdotes eram aperfeiçoados ou consagrados por vários
rituais, também Cristo, no Novo, foi aperfeiçoado, consagrado ou qualificado. A
ideia é que, em separado do sofrimento, Cristo não poderia ter-se tornado um
Líder inteiramente eficaz, perfeito, do seu povo".17
"Porque, assim o que
santifica com o os que são santificados, são todos de um; por cuja causa não se
envergonha de lhes chamar irmãos” (v. 11). Aqui, o autor mostra a fonte de
santificação do crente: Cristo. É o sangue de Cristo que nos purifica de todo
pecado. Posteriormente, ele vai afirmar que, sem a santificação, ninguém verá o
Senhor.
“Dizendo: Anunciarei o teu
nome a meus irmãos, cantar-te-ei louvores no meio da congregação” (v. 12). O
autor novamente recorre a textos messiânicos para corroborar sua argumentação.
No primeiro texto, ele usa o Salmo 22.22. Os evangelistas relacionaram esse
salmo com os eventos da crucificação (Mc 15.34). A identificação de Cristo com
a raça humana está claramente demonstrada aqui na argumentação do autor de
Hebreus. Jesus identifica-se com seus irmãos.
“E outra vez: Porei nele a
minha confiança. E outra vez: Eis-me aqui a mim e aos filhos que Deus me deu” (v.
13). O versículo 13 é uma citação de Isaías 8.17. No contexto do livro de
Isaías, o profeta demonstra confiança em Deus, mesmo o povo tendo perdido as
esperanças. É exatamente essa mesma confiança que o Filho de Deus demonstra. Por
outro lado, o versículo 14 é usado pelo autor para, de forma contundente, demonstrar
a plena natureza humana de Cristo.
“E, visto como os filhos
participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para
que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (v. 14). Fritz Laubach destaca:
"Cristo se tornou
realmente humano. O Novo Testamento enfatiza: O Filho de Deus não permaneceu na
glória eterna, mas de forma misteriosa unificou-se plenamente com nossa natureza
humana. Cristo assumiu a nossa natureza, para que nós pudéssemos participar de
sua natureza divina (2 Pe 1.4)”.18
A palavra
"aniquilar" não tem o sentido de "destruir” no original grego,
mas, sim, o de “tornar inoperante”, “anular”, "fazer como se não mais
existisse”.19 Através da morte e
ressurreição de Jesus, Satanás foi destronado (cf. Cl 2.15). A consequência
imediata da vitória de Jesus está demonstrada no versículo 15.
“E livrasse todos os que, com
medo da morte, estavam por toda a vida sujeitos à servidão" (v. 15). O
cristão não deve mais temer a morte, embora seja ainda necessário passar por
ela. Não há mais insegurança e incerteza, já que Jesus, através de sua morte e
ressurreição, destronou o poder que ela detinha (1 Co 15.55; 2 Tm 1.10). Cirilo
de Alexandria (378-444 d.C.), em seu comentário de Hebreus, escreveu:
“Existindo essencialmente com vida, o Logos Unigénito de Deus uniu-se Ele mesmo
à carne terrena e mortal, para que a morte, que perseguia o homem como um
animal feroz, soltasse a sua presa”.20
“Porque, na verdade, ele não
tomou os anjos, mas tomou a descendência de Abraão" (v. 16). A morte de
Jesus foi pelos homens, e não pelos anjos caídos.
“Pelo que convinha que, em
tudo, fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo
sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo" (v. 17).
A identificação de Jesus com a humanidade é feita pelo autor através da
expressão “em tudo, fosse semelhante aos irmãos”. Para salvar os homens, era
necessário Jesus tornar-se como eles. Evidentemente, essas palavras do autor
não devem ser tomadas em seu sentido literal, pois Jesus não cometeu pecados
como os demais homens. Aqui, pela primeira vez nessa carta, o autor usa o termo
“sumo sacerdote" em referência à pessoa de Jesus. Trata-se de uma preparação para o que ele tenciona dizer daqui para frente. Ao comentar esse texto, João
Crisóstomo (347-407 d.C.) escreveu:
“Não há nos honrado somente
com a fraternidade, senão também de diversas maneiras; assim quis se fazer sumo
sacerdote ante o Pai, pois acrescenta: 'A fim ser misericordioso e sumo
sacerdote fiel nas coisas que se referem a Deus’. Por isso, afirma — assumiu
nossa carne não somente por benevolência, senão para ter misericórdia de nós.
Certamente, não existe outra causa da redenção; essa somente! Com efeito, nos
vê abatidos na terra, perdidos, tiranizados pela morte, e tem misericórdia”21.
“Porque, naquilo que ele
mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados” (v. 18).
Aqui, o autor mostra Jesus como Sumo Sacerdote. Muito mais do que os sacerdotes
no Antigo Testamento — que representavam os homens diante de Deus, fazendo intercessão
e expiação por seus pecados — Jesus pode socorrer os crentes. Ele conhece
nossas vidas e natureza e, por isso, está pronto a interceder por nós.
SUBSÍDIO TEOLÓGICO
“Jesus, superior aos anjos em sua missão
redentora (Hb 2.5-18)
Esta seção dá continuidade ao pensamento
iniciado em 1.5-14 a respeito da superioridade do Filho em relação aos anjos,
porém sob uma perspectiva diferente. No capítulo 1 a ênfase estava na divindade
da natureza do Filho; aqui o enfoque está em sua humanidade e no sofrimento
como componentes necessários de sua missão redentora. Os anjos, por um lado,
são servos; sua missão para o homem como ‘espíritos ministradores’ é ‘servir a
favor daqueles que hão de herdar a salvação’ (1.14). O Filho, por outro lado, é
o Salvador; sua missão para o homem como ‘o Príncipe da salvação deles’ (2.10)
é ‘salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus’ (7.25). Entretanto,
como Salvador, a missão redentora do Filho envolvia tanto a humilhação como a
glória.
Como o homem perfeito, Jesus se tornou o
verdadeiro representante da raça humana e o cumprimento absoluto do Salmos 8.
Somente Ele poderia cumprir ‘o propósito declarado do Criador quando trouxe a
raça humana à existência’. Mas, assim fazendo, Ele teve de se identificar plenamente
com a condição humana, incluindo o sofrimento humano (cf. Hb 4.15,16; 5.6), a
fim de ‘abrir o caminho da salvação para a humanidade e agir eficazmente como o
Sumo Sacerdote de seu povo na presença de Deus’. Isto significa que Ele não é
apenas aquEle em quem se cumpre a soberania destinada à humanidade, mas também
aquEle que, por causa do pecado humano, deve concretizar esta soberania por
meio do sofrimento e da morte. Portanto, o Filho, que já foi apresentado como
superior aos anjos, teve de ser feito ‘um pouco menor do que os anjos’ (2.7a)
antes de poder ser ‘coroado de glória e de honra’ (2.7b) como Senhor sobre
todas as coisas” (ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário
Bíblico Pentecostal Novo Testamento. 2 Edição. RJ: CPAD, 2004, pp.1551,52).
Salvação
“1. Sõteria (σωτηρία)
denota ‘libertação, preservação, salvação’. O termo ‘salvação’ é usado no Novo
Testamento para se referir a: (a) o livramento material e temporal de perigo e
apreensão: (1) nacional (Lc 1.69,71; At 7.25, ‘liberdade’); (2) pessoal, como
do mar (At 27.34, ‘saúde’); da prisão (Fp 1.19); do dilúvio (Hb 11.7); (b) o
livramento espiritual e eterno concedido imediatamente por Deus aos que aceitam
as condições estabelecidas por Ele referentes ao arrependimento e fé no Senhor
Jesus, somente em quem será obtido (At 4.12), e sob confissão dEle como Senhor
(Rm 10.10); para este propósito o Evangelho é o instrumento de salvação (Rm
1.16; Ef 1.13 [...])”. Para conhecer mais leia Dicionário Vine, CPAD,
p.967.
“[...] Pela graça de Deus, Jesus provou a morte
por todos os homens (Hb 2.9). Três verdades importantes estão sucintamente
incorporadas aqui:
1. A morte de Jesus na cruz, para realizar a
salvação, foi um ato da graça de Deus.
2. Sua morte foi em favor de (byper) cada
pecador; um claro ensino de Hebreus é que sua morte foi uma expiação
substitutiva pelo nosso pecado (cf. 5.1; 7.27).
3. Sua morte não foi uma ‘expiação limitada’ —
isto é, para algumas pessoas seletas, como alguns reivindicam — mas Ele provou
temporariamente a morte por todos os homens. Sua morte é de proveito para todo
aquele que por fé se submete a Ele como Senhor e Cristo.
Para os judeus daqueles dias, a ideia de um
Messias em sofrimento era detestável e a reivindicação cristã de que isto
convinha, deveria ser vista contra este panorama. Qualquer que seja a razão
para a cruz, não há dúvida alguma de que tais fatos revelam a natureza de Deus.
É neste sentido que ‘convinha’ que as coisas ocorressem como de fato ocorreram”
(ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger (Ed.). Comentário Bíblico
Pentecostal Novo Testamento. 2ª Edição. RJ: CPAD, 2004, p.1553).
Notas
1 BAUER, Walter. A Greek-English Lexicon o f the New Testament and Other Early
Christian Literature. The University of Chicago Press. EUA, 1979.
2 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Doubleday &
Company, INC. Garden City, Nova York, EUA, 1972.
3 RIENECKER, Fritz. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Vida Nova.
4 DELITZSCH, Franz. Commentary on the Epistle to the Hebrews. Nova York, 1857.
5 BUCHANAN, George Wesley. To The Hebrews - The Anchor Bible. Op.cit. pp.24,25.
6 HUGO, M. Petter. Concordancia Greco-Espanola del Nuevo Testamento. Editorial
CLIE, Barcelona, Espafta.
7 TAYLOR,
Richards. Diccionario Teológico Beacon. Casa Nazarena de Publicaciones. Lenexa,
Kansas, EUA, 1984. Taylor sublinha que a doutrina da segurança eterna,
"uma vez salvo, salvo para sempre”, originou-se com João Calvino (Aí Institutas
3.21.5). Se a salvação é por decreto, como dizia Calvino, então os eleitos
serão salvos sem importar o que façam ou deixem de fazer. Alguns textos, fora
do contexto, são usados como prova: em João 10.27-29, o contexto deixa claro
que é aplicado às ovelhas, que, de forma contínua e habitual, seguem o Senhor e
são por Ele guardadas. Evidentemente, essa passagem não se aplica aos que, por
vontade própria, desviaram-se; Rm 8.35-39 - nesse texto, é dito que nenhuma
“criatura” pode nos separar do amor de Deus. Evidentemente que Paulo não estava
referindo-se ao pecado, que a Escritura claramente declara que tem o poder de
separar o homem de Deus (Is 59.1-2); Filipenses 1.6 - há dezenas de passagens
que esclarecem o sentido dessas escrituras: (Ez 18.24; Mt 18.21-35; Lc 8.13;
12.42-47; Jo 15.2, 6; At 1.25; Rm 11.20-22; 1 Co 8.10-11; 9.27; 10.12; G1 5.1,
4; Ef 5.5-7; 1 Tm 4.1; Hb 6.4-6; 10.26-29; Tg 1.14-16; 2 Pe 2.18-22; 1 Jn 2.4; 3.8-9;
2 Jo 8-9; Jd 4-6; Ap 3.11; 218; 22.19).
8 DATTLER,
F. A Carta aos Hebreus. Edições Paulinas, São Paulo, 1980.
9 WALTKE, Bruce K. Os Salmos Como Adoração Cristã - um comentário histórico. Shedd
Publicações, São Paulo.
10 KEENER, C. S. Hebreos - Comentário dei Contexto Cultural de la Bíblia. Editora Mundo Hispano, Texas, USA.
11 MILLOS, Samuel Perez. Hebreos - Commentario Exegetico ao Texto Griego dei
Nuevo Testamento. Editorial CLIE, Madrid, Espana.
12 BRUCE, F.F. La Epistola a los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan.
Usa.
13 BOYD, Ricardo Garrett. Hebreos, Santiago, 1 y 2 Pedro, Judas - comentário
bíblico mundo hispano. Editorial CLIE. El Paso, Texas, USA.
14 O escritor John MacArthur, em seu comentário de Hebreus, força o texto a
dizer o que ele evidentemente não está dizendo. Ao comentar o versículo 9, onde
se refere à morte de Cristo, ele diz que esse sacrifício foi somente "por
todos os que creem”. Com isso, ele quer dizer “todos os eleitos".
Continuando, diz: “A morte de Cristo é aplicada eficazmente àqueles que vêm a
Deus, de forma arrependida e com fé, pedindo a graça da salvação e o perdão dos
pecados” (MacArthur, John. Hebreus - Cristo: Sacrifício perfeito, perfeito sacerdote. Editora Cultura Cristã).
MacArthur acredita
que a salvação é limitada, alcançando somente aqueles que são predestinados a
serem salvos. Ninguém mais, mesmo se quisesse, não poderia ser salvo porque já
estaria decretado a sua condenação desde a eternidade! Deus não amou a todos,
mas somente àqueles a quem Ele escolheu, o que contraria as palavras do
Evangelho (Jo 3.16). Ao contrário do que diz MacArthur, o Novo Testamento
afirma que é, sim, a vontade de Deus salvar a todos o que vierem a Cristo
arrependidos e com fé (Jo 1.12; 1 Tm 2.4). É lógico que o texto de Hebreus 2.9
não está dizendo que Cristo provou a morte somente pelos "que creem",
isto é, os eleitos, como afirma MacArthur, mas por "todos” (gr. pantos), ou seja, todos os homens,
numa clara referência à humanidade.
A expressão "que creem” é um artifício criado e acrescentado ao texto. Não faz parte da redação original. Ao dizer que a morte de Cristo é aplicada eficazmente
aos que vêm a Deus, apenas perpetua um artifício criado na teologia pós-reforma
para dizer que a expiação é limitada e a graça é irresistível. Falta, portanto,
responder: Se as pessoas não podem resistir à graça de Deus porque elas foram
salvas por um decreto de Deus ainda na eternidade, então para que serve a morte
de Cristo na cruz? Essas pessoas não estariam salvas da mesma forma desde a eternidade?
Essa é uma aporia insuperável quando se tenta forçar a teologia bíblica se
ajustar a esse tipo de raciocínio.
15 Em seu
comentário de Hebreus, Stuart Olyott, ao comentar Hebreus 2.9, observa que o
autor dessa carta, quando diz que Jesus morreu por todo homem, "não é possível
que esteja dizendo que Ele [Jesus] tenha morrido por cada indivíduo sobre a
face da terra. Isso contraria o ensino claro da Escritura em outros lugares,
significando que os pecados de todas as pessoas já foram expiados, resultando
na salvação de cada ser humano” (OLYOTT, Stuart. A Carta aos Hebreus Bem
Explicadinha. Editora Cultura Cristã, pp. 26,27). Essas palavras de Olyott
evidentemente não refletem a mensagem do Evangelho, mas apenas uma tradição
teológica pós-reforma. Não há nada no Novo Testamento que diga que a salvação
seja apenas para alguns. O testemunho bíblico é que a salvação é para todos. A
graça de Deus é para todos, e a expiação é universal (Tt 2.11; Lc 10.19; Jo
5.24; 3.36). Limitar a salvação a uma meia dúzia de eleitos, como quer Elyott, pelo simples fato de que uma expiação
ilimitada implicaria necessariamente em um universalismo, é um argumento fraco
e sem contexto bíblico. A expiação de Cristo proveu a salvação para todos os
homens, mas isso não significa que todos serão salvos, pelo simples fato de que
nem todos aceitarão ou crerão na mensagem do evangelho. E não crerão, não pelo
fato de já estarem predestinados para isso, mas, sim, pela incredulidade e dureza de seus
corações (At 7.51).
16 (1 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de la Santa Bíblia, tomo III - Nuevo Testamento. Casa Nazarena de Publicaciones, Lenexa, Kansas, USA.
17 LIGHTFOOT, Neil R. Hebreus - Comentário Vida Cristã, Op.cit.
18 LAUBACH, Fritz. Carta aos Hebreus - Comentário Esperança. Editora Esperança.
19 KITTEL, Gherard. Theological Dictionary oj the New Testament. Eerdmans, EUA.
20 ALEXANDRIA, Cirilo. Fragmentos a la Carta a los Hebreosde San Pablo. La Biblia
Comentada por Los Padres de La Iglesia.
21
CRISÓSTOMO, Juan. Sobre la Carta a los Hebreos - La Biblia Comentada por Los
Padres de La Iglesia. Editora Ciudad Nueva.
Fonte:
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves