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segunda-feira, 12 de março de 2018

Esdras: A História do Retorno dos Judeus à Terra Prometida

"Quando, pois, os edificadores lançaram os alicerces do templo do Senhor, então apresentaram-se os sacerdotes, já vestidos e com trombetas, e os levitas, filhos de Asafe, com címbalos, para louvarem ao Senhor conforme à instituição de Davi, rei de Israel.
E cantavam juntos por grupo, louvando e rendendo graças ao Senhor, dizendo: porque é bom; porque a sua benignidade dura para sempre sobre Israel. E todo o povo jubilou com altas vozes, quando louvaram ao Senhor, pela fundação da casa do Senhor.

Porém muitos dos sacerdotes, e levitas e chefes dos pais, já idosos, que viram a primeira casa, choraram em altas vozes quando à sua vista foram lançados os fundamentos desta casa; mas muitos levantaram as vozes com júbilo e com alegria.

De maneira que não discernia o povo as vozes do júbilo de alegria das vozes do choro do povo; porque o povo jubilava com tão altas vozes, que o som se ouvia de muito longe." Esdras 3:10-13

Esdras começa onde 2 Crônicas parou, com o decreto de Ciro permitindo que os judeus voltassem a Jerusalém. A história relatada neste livro abrange oito décadas, encerrando um pouco mais de 450 anos antes do nascimento de Jesus.

Para entender o livro de Esdras, é preciso um entendimento do contexto histórico.

Os assírios espalharam os hebreus de Israel (o reino do norte) quando destruíram sua capital, Samaria, em 721 a.C. Pouco mais de 100 anos depois, o império da Assíria caiu à Babilônia, e os territórios dominados pelos assírios passaram ao controle dos babilônios. Logo em seguida, a Babilônia começou a atacar Judá (o reino do sul). Levaram judeus de Judá cativos em três etapas:
(1) 605 a.C. – Daniel foi entre os jovens nobres levados à terra dos babilônios;

(2) 597 a.C. – Ezequiel foi levado com este grupo;

(3) 586 a.C. – Neste ano, a cidade de Jerusalém foi destruída junto com o templo dos judeus, muitos dos judeus foram mortos e outros foram levados ao cativeiro na Babilônia. Alguns dos pobres foram deixados na terra, e ao profeta Jeremias foi dado a escolha de ir para a Babilônia ou ficar em Jerusalém. Ele optou por ficar com os pobres em Jerusalém.

A Babilônia, por sua vez, caiu aos medo-persas, conduzidos por Ciro, em 539 a.C. Eles adotaram uma política diferente dos seus antecessores, permitindo que os povos dominados voltassem às suas terras. Especificamente, os judeus receberam autorização e apoio dos medo-persas para voltar para Jerusalém. O livro de Esdras começa com este fato importante.

Este livro pode ser dividido em duas partes principais:

Capítulos 1 a 6 relatam a história da primeira volta a Jerusalém, quando aproximadamente 50.000 pessoas voltaram sob a liderança de Zorobabel. Este retorno aconteceu logo depois de Ciro autorizar a repatriação dos cativos. Os livros de Ageu, Zacarias e Neemias acrescentam informações úteis no estudo deste período. O propósito principal deste primeiro grupo foi a construção do templo. Os planos foram frustrados, porém, e o trabalho demorou muito mais do que esperavam. Esdras trata destas dificuldades da perspectiva política, falando sobre a interferência dos inimigos dos judeus, enquanto Ageu e Zacarias abordam o mesmo problema do lado espiritual, incentivando os próprios judeus a serem mais fieis ao Senhor para completar esta obra. A construção básica do templo foi terminada por volta de 518, uns 20 anos depois da volta de Zorobabel.

Capítulos 7 a 10 falam do trabalho de Esdras, um sacerdote e escriba altamente capacitado para ensinar a Lei de Deus ao povo. Em 458 a.C., Esdras e um grupo de mais de 1.700 pessoas voltaram a Jerusalém. Seus propósitos foram principalmente dois:
(1) Levar materiais preciosos para uso no acabamento do templo, e
(2) Ensinar o povo para que fosse fiel ao Senhor.

Há muitas lições valiosas deste livro, entre elas:

1) Deus é fiel. Ele prometeu consequências graves como guerra e cativeiro se o povo fosse rebelde (Deuteronômio 28:25,32,36,40,49,64-66). Por outro lado, ele prometeu trazer de volta à sua terra o povo arrependido (Deuteronômio 30:1-5). Esdras mostra a fidelidade de Deus em cumprir sua palavra.

2) A obediência, mesmo quando for difícil, é fundamental à comunhão entre o homem e Deus. O ensinamento e a aplicação da Lei na vida dos israelitas foram de suma importância no trabalho de Esdras. A obediência exigia sacrifícios difíceis, até a separação de casamentos condenados por Deus, pois Esdras viu a palavra de Deus como autoridade absoluta na vida do seu povo.

Esdras traz uma mensagem da misericórdia de Deus para com aqueles que voltam para ele!


por Dennis Allan
Aqui eu Aprendi!

sábado, 10 de março de 2018

Dádiva, Privilégios e Responsabilidades na Nova Aliança

"Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água limpa." Hb 10.22

Prezado (a) professor (a), nesta lição veremos os inúmeros privilégios que a Nova Aliança oferece a todos aqueles que creem no sacrifício de Jesus e buscam se achegar a Deus. Mediante a fé em Jesus fomos justificados e regenerados e hoje temos livre acesso a presença do Pai. Com certeza, este é o maior benefício que nos foi concedido pelo Senhor. Todos os benefícios da Nova Aliança só se tornaram possíveis mediante a obra expiatória de Jesus Cristo, pois na Antiga Aliança somente o sumo sacerdote podia entrar no Santo dos Santos uma vez no ano no Dia da Expiação. Hoje por meio do sacrifício perfeito e eterno de Cristo temos livre acesso à presença de Deus. Este é um grande privilégio que conduz a uma grande responsabilidade. Como crentes jamais devemos negligenciar a Nova Aliança menosprezando a graça de Deus.

Leitura Bíblica - Hebreus 10.1- 7, 22 - 25

ESBOÇO DA LIÇÃO

1. Introdução
• Texto Bíblico: Hebreus 10.1-7,22-25

2. l. A Dádiva da Nova Aliança
• 1. Uma única oferta.
• 2. Um único ofertante.
• 3. Uma única vez.

3. II. Os Privilégios da Nova Aliança
• 1. Regeneração.
• 2. Adoração.
• 3. Comunhão.

4. III. As Responsabilidades da Nova Aliança
• 1. Vigilância.
• 2. Confiança.
• 3. Perseverança.

5. Conclusão

Na aula desta semana é importante conhecer o conceito de Expiação, que significa "reparação de culpas". O termo é usado para se referirão cancelamento do pecado humano com base na justiça de Cristo propiciada ao pecador que passou pela experiência de novo nascimento. A bênção da Expiação proporciona o cancelamento de todo pecado.

O conceito de Expiação é importante para compreender o ponto central do capítulo 10. Este capítulo marca o fim de um sólido discurso que teve início em Hebreus 4.17. Por isso, reproduzimos a explicação do teólogo pentecostal J. Wesley Adam acerca da mediação e perfeito sacrifício de Cristo:

• "'A lei' de Moisés (10.1) com seu sistema sacrificai era severamente limitada porque (1) era somente 'a sombra' (skia) e 'não a imagem exata' da realidade (eikon) e (2) não podia 'aperfeiçoar' aqueles que desejavam aproximar-se de Deus como adoradores".

• "A lei serviu, no passado, como 'uma testemunha de uma realidade futura' quando prefigurou 'os bens futuros' (10.1). Estes 'bens' (que sob a perspectiva do Antigo Testamento estavam no futuro) vieram agora (9.11) no ministério do sumo sacerdotal e na morte sacrificai de Cristo".

• "Uma evidência da insuficiência e da imperfeição dos sacrifícios do Antigo Testamento era que aqueles tinham de ser 'continuamente oferecidos a cada ano' [a expiação de Cristo foi única e suficiente]".

A Nova Aliança é uma dádiva divina que traz grandes responsabilidades.


Comentário de Hebreus 10.1-39

Neste capítulo, o autor continua sua exposição para consolidar o  que iniciara nos capítulos anteriores acerca da superioridade do sacerdócio de Cristo em relação ao levítico. Essa argumentação estende-se até 10.18. Neste capítulo, há muitos pontos que atuam como uma espécie de recapitulação do que fora dito anteriormente. Há, todavia, a presença de elementos novos quando o autor introduz no texto o Salmo 40 e faz uma nova aplicação da profecia de Jeremias 31.

"Porque, tendo a lei a sombra dos bens futuros e não a imagem exata das coisas, nunca, pelos mesmos sacrifícios que continuamente se oferecem cada ano, pode aperfeiçoar os que a eles se chegam" (v. 1).
O autor começa esse versículo com uma declaração que deve ter provocado espanto em seus leitores — a Lei é uma sombra da realidade, e não a própria realidade. A palavra grega skian mostra que a Lei é uma sombra ou projeção de um objeto que é a realidade. Em contraste com a sombra, o autor coloca a imagem, do grego eikôn, que é o próprio objeto que projeta a sombra que a Lei representa. A referência, aqui, é ao sacerdócio de Cristo como a realidade da qual a Lei era apenas uma sombra.

“Doutra maneira, teriam deixado de se oferecer, porque, purificados uma vez os ministrantes, nunca mais teriam consciência de pecado" (v. 2).
Se, de fato, o sistema levítico fosse eficaz, não haveria necessidade da repetição contínua de ofertas e sacrifícios. Ele, porém, demonstrava-se ineficaz porque não conseguia penetrar dentro do homem, permanecendo apenas uma limpeza ritual.

“Nesses sacrifícios, porém, cada ano, se faz comemoração dos pecados” (v. 3).
É exatamente isso o que o autor diz que acontecia anualmente no ritual da expiação. Os pecados eram relembrados ou trazidos à mente outra vez em uma espécie de rememoração. Aqui, o termo "comemoração” (ARC) não consegue expressar o sentido do original, anamnesis, que é o de "recordação” e “lembrança”, como traduz a Almeida Revista e Atualizada.

“Porque é impossível que o sangue dos touros e dos bodes tire pecados" (v. 4).
F. F. Bruce, comentando in loco esse versículo, diz:

"A contaminação moral não pode ser removida por meios materiais. O valor espiritual que o ritual sacrificial podia ter tido residida no fato que era uma prefiguração material ou uma lição objetiva de uma realidade moral e espiritual”.1

“Pelo que, entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo me preparaste"(v. 5).
Aqui, o autor cita o Salmo 40.68 e segue a Septuaginta para referir-se à pré-existência de Cristo. Deus não estava satisfeito com o culto apenas formalista na Antiga Aliança e, por isso, mostra aqui a necessidade de um sacrifício superior em tudo. Cristo daria seu corpo em sacrifício a Deus. Artur Weiser observa que

"A rejeição radical de todo o culto sacrificial explica-se, como no caso dos profetas, pela supracitada percepção da falsa atitude fundamental em relação a Deus, que encontra sua expressão no culto sacrificial e, pela sua origem e natureza, nasceu de outra área cultual. O homem não pode, por seus sacrifícios, situar-se no mesmo plano de Deus, nem ‘colocar em ordem’, pelos próprios esforços, o seu relacionamento com Deus’’.2

“Holocaustos e oblações pelo pecado não te agradaram" (v. 6).
As palavras olokautôma ("holocausto", "oferta queimada”) e peri hamartias ("oferta pelo pecado”) são uma referência ao cerimonial levítico.

“Então, disse: Eis aqui venho (no princípio do livro está escrito de mim), para fazer, ó Deus, a tua vontade" (v. 7).
No contexto do Salmo 40, o poeta anseia por uma vida piedosa e autêntica. Inspirado pelo Espírito Santo, o autor de Hebreus vê nas palavras do salmista uma referência clara à pessoa de Cristo. É dEle que as Escrituras fazem referência como aquEle que havia de vir.

"Como acima diz: Sacrifício, e oferta, e holocaustos, e oblações pelo pecado não quiseste, nem te agradaram (os quais se oferecem segundo a lei) (v. 8).
Mesmo sabendo que o sistema sacrificial levítico fora instituído por Deus, uma exigência da Lei, o autor mostra que tal sistema não era a instância final. Se o antigo sistema tinha caráter transitório, isso significa que Deus havia providenciado algo muito melhor — o sacrifício de Cristo.

"Então, disse: Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade. Tira o primeiro, para estabelecer o segundo" (v. 9).
O expositor Fritz Laubach comenta com maestria esse texto:

"A trajetória do Messias a que se alude profeticamente na palavra do Sl 40.7-9, a saber, que o Cristo haveria de entregar a Deus o seu próprio corpo como oferenda para sacrifício, levou Jesus Cristo, de acordo com a vontade de Deus, à cruz. Dessa maneira, a revelação da vontade de Deus no AT, ‘o obedecer é melhor do que o sacrificar’ (1 Sm 15.22), obteve sua potenciação e último aprofundamento. Cristo foi ‘obediente até à morte’ (Fp 2.8) e entregou-se a si próprio como sacrifício. Nessa obediência extrema de Jesus à vontade de seu Pai, explica-se também o mistério de sua autoridade na oração. Somente porque Jesus cumpriu integralmente a vontade de Deus, ele também possui agora plenos poderes ilimitados, a fim de, como nosso eterno Sumo Sacerdote, intervir perante Deus em nosso favor, pela intercessão, sem cessar”.3

"Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (v. 10).
Um dos aspectos da vida de Cristo que o autor de Hebreus põe em relevo é o da sua obediência, como Filho, à vontade de Deus. Esse texto faz eco com Filipenses, onde Paulo diz que a obediência de Cristo levou-o à morte e morte de cruz (Fp 2.6-8). Essa obediência levou-o a sacrificar-se pelo pecador. A palavra grega prosphora, traduzida aqui como oblação, tem o sentido de oferta. Foi por meio da oferta ou sacrifício de Cristo que nós fomos santificados. A palavra egiasmenoi é um particípio perfeito no texto grego, que mostra essa santificação como sendo posicionai. Esse fato é demonstrado pelo uso da palavra ephapaks, que tem o sentido de de uma vez por todas. Em palavras mais simples, Cristo santificou-nos quando cremos nEle e continua santificando-nos ainda hoje quando permanecemos nEle.

“E assim todo sacerdote aparece cada dia, ministrando e oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca podem tirar pecados" (v. 11).
Donald Guthrie comenta esse versículo, pondo em destaque que

"A continuidade interminável dos sacrifícios inadequados segundo a velha ordem está em contraste marcante com a nova ordem. Os aspectos principais de interesse no presente versículo são: (i) a posição dos sacerdotes (todo sacerdote se apresenta — lit. "fica de pé”), (ii) a continuidade dos sacrifícios (a oferecer muitas vezes) e (iii) sua ineficácia de realizar o seu propósito (i.e, para remover pecados). O primeiro aspecto tem contraste marcante no versículo seguinte com a posição de Cristo: assentou-se. Estes sacerdotes nunca poderiam sentar-se porque sua obra nunca era completa. Em segundo lugar, muitas vezes (pollakis) está em direto contraste com uma vez por todas (ephapax). E em terceiro lugar, a incapacidade das antigas ofertas removerem os pecados é contrastada no v. 12 com a única oferta de Cristo pelos pecados. Mais uma vez, a fraqueza da velha ordem fica sendo o pano de fundo para a demonstração da maior glória da nova”.4

“Mas este, havendo oferecido um único sacrifício pelos pecados, está assentado para sempre à destra de Deus" (v. 12).
O antigo sistema sacerdotal levítico chegara ao fim quando Cristo, de uma vez por todas e como Sumo Sacerdote da Nova Aliança, fez a purificação dos pecados.

“Daqui em diante esperando até que os seus inimigos sejam postos por escabelo de seus pés” (v. 13).
O autor volta novamente a citar o Salmo 110.1 para pôr em destaque a obra de Jesus Cristo. F. F. Bruce vê aqui uma advertência do autor a seus leitores para não serem contados entre os inimigos de Cristo, mas, sim, entre aqueles que são seus amigos.5  É possível ver aqui também uma citação de cunho escatológico quando Cristo, na consumação final, porá todos os seus inimigos debaixo de seus pés (1 Co 15.24-28).

“Porque, com uma só oblação, aperfeiçoou para sempre os que são santificados" (v. 14).
Mais uma vez, o autor volta a falar do aspecto definitivo da obra de Cristo e, dessa vez, ele usa o tempo perfeito do verbo teleioô para destacar a natureza desse sacrifício. Cristo completou a obra da salvação no passado, mas seus efeitos sobre os crentes continuam no presente. Fomos santificados nEle e continuamos em processo de santificação diária, também nEle.

“E também o Espírito Santo no-lo testifica, porque, depois de haver dito" (v. 15).
O autor fará uma citação do profeta Jeremias no versículo 16, mas, antes, ele põe em realce que a profecia foi dada por inspiração do Espírito Santo. Com essa observação, o autor consolida sua argumentação de que ele não está falando nada fora da autoridade divina. O que ele argumentou tem o selo do Espírito Santo.

"Este é o concerto que farei com eles depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei as minhas leis em seu coração e as escreverei em seus entendimentos, acrescenta’’ (v. 16).
Como já havia feito anteriormente (Hb 8.8-12), o autor volta a citar a profecia de Jeremias (Jr 31.31-34). É posto em destaque o contraste interno da Nova Aliança com o externo da Antiga.

“E jamais me lembrarei de seus pecados e de suas iniquidades” (v. 17).
Na Antiga Aliança, o antigo sistema de sacrifícios jamais podia tratar de forma definitiva com o pecado. Sempre havia lembrança deles, o que era feito anualmente no dia da expiação. Todavia, na Nova Aliança, o sangue de Cristo tratou de forma definitiva com o problema do pecado, de modo que não há mais necessidade da repetição contínua dos sacrifícios.

“Ora, onde há remissão destes, não há mais oblação pelo pecado’’ (v. 18).
Aqui, o argumento do autor é conclusivo: Cristo tratou do problema do pecado de forma definitiva. Não havia mais necessidade de a sombra representar a realidade porque a realidade havia chegado. O sistema sacerdotal levítico tomara-se obsoleto e chegara a seu fim. A obra de Cristo foi perfeita e conclusiva. Nesse versículo, o autor encerra a longa discussão que havia começado sobre o sacerdócio de Cristo. Agora, ele partirá para as implicações práticas que essa doutrina conduz.

“Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário, pelo sangue de Jesus” (v. 19).
Aqui, o autor tem em mente o santuário interior, o Santo dos Santos, que não era permitido entrada ao povo e nem mesmo aos sacerdotes, mas somente ao sumo sacerdote, de ano em ano, para fazer expiação. O autor mostra que, agora, todos os crentes têm acesso ao Santo dos Santos pelo sacrifício de Jesus. Essa entrada deve ser feita com ousadia e confiança nEle.

“Pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela sua carne” (v. 20).
Jesus Cristo inaugurou um novo caminho para a presença de Deus. Não mais o antigo caminho, já trilhado pelos sumos sacerdotes judeus, mas um novo e vivo caminho. Esse caminho anteriormente desconhecido está agora disponível a todos aqueles que foram chamados. A expressão kata-petasma, traduzida aqui como “véu”, corresponde à segunda cortina, a que separava o santo lugar do Santo dos Santos. É essa cortina que foi rasgada quando Cristo deu o brado na cruz do Calvário (Mt 27.51). Estava aberto, portanto, o acesso à presença de Deus. Os intérpretes entendem que a expressão “pela sua carne” é uma referência à vida humana de Jesus quando Ele apresentou-se a Deus.

“E tendo um grande sacerdote sobre a casa de Deus" (v. 21).
Aqui, a referência ao "grande sacerdote” remete ao texto de Levítico 21.10, onde está em vista o sumo sacerdote. Ele era o grande sacerdote. No entanto, aqui o autor mostra que, no santuário celeste, no qual os crentes agora têm acesso pelo sacrifício de Cristo, Jesus é esse “grande sacerdote” sobre a família de Deus.

“Cheguemo-nos com verdadeiro coração, em inteira certeza de fé; tendo o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água limpa" (v. 22).
O autor tem sempre em mente a purificação interior que o sangue de Jesus proporciona. A referência ao corpo lavado com água limpa pode ser uma alusão a Lv 16.4, onde o texto mostra que, no dia da expiação, o sacerdote “lavava seu corpo com água". Nesse sentido, o autor estaria dizendo que o cristão já está limpo diante de Deus pelo sacrifício de Cristo. Por outro lado, alguns intérpretes acreditam que a referência aqui é ao batismo cristão (1 Pe 3.21).6  De qualquer forma, o que está em destaque aqui é que o crente está interiormente limpo para entrar na presença de Deus.

“Retenhamos firmes a confissão da nossa esperança, porque fiel é o que prometeu" (v. 23).
Aqui, os crentes são exortados a manter firme a confissão ou profissão de fé que haviam feito. A palavra “confissão”, do grego homologia, aparece outras duas vezes nesta carta (Hb 3.1; 4.14). Em 2 Coríntios 9.13, é traduzida como sendo a obediência ao evangelho que os crentes haviam professado. Da mesma forma, em 1 Timóteo 6.12,13, é usada primeiramente em relação a Timóteo, que havia feito a boa confissão diante de várias testemunhas e de Jesus Cristo, que, diante de Pôncio Pilatos, fez a boa confissão.

“E consideremo-nos uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras" (v. 24).
Na caminhada da vida cristã, o autor lembra que os cristãos precisam considerar uns aos outros. Esse "considerar” é tido como uma ponderação ou meditação. É algo no qual se deve pensar. O tempo presente significa que essa deve ser uma prática, um hábito, e não algo esporádico. No que, portanto, devemos considerar quando o assunto for as relações interpessoais? Devemos "estimular” uns aos outros na prática do amor e das boas obras. A palavra "estimular” no texto grego tem o sentido de “incitar”, “provocar”. Quantos cristãos desanimam por falta de estímulos!

“Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia” (v. 25).
A palavra grega episynagogé, traduzida como “congregação”, é a junção da preposição grega epi (sobre, em adição) com a palavra synagogé (Sinagoga). No contexto do Novo Testamento, essa palavra ocorre aqui e em 2 Tessalonicenses 2.1 com o sentido de reunião. O abandono da congregação e o consequente afastamento dos demais irmãos de fé é um sinal de enfraquecimento espiritual. O autor exorta seus leitores porque observou que alguns já estavam com esse mau costume, e isso era extremamente nocivo à comunhão cristã. É um alerta que ecoa forte nestes dias onde aumenta assustadoramente o número de desigrejados.

“Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados” (v. 26).
Nesse versículo, o autor novamente volta à sua exortação sobre o perigo da apostasia sobre a qual ele já advertira nos capítulos 2, 3 e 6. Donald Hegner destaca que “as palavras se voluntariamente continuarmos no pecado não se referem a pecados comuns, mas ao pecado mais grave, o pecado final: apostasia (...) Esse é o pecado que, pela sua natureza, coloca o ofensor fora do alcance do perdão de Deus e, portanto, é pecado do qual não se encontra retorno".7  Aqui, como fizera em Hb 6.4-6, o autor mostra tratar-se de cristãos verdadeiros, pois somente cristãos salvos "receberam o conhecimento da verdade”. Se o cristão verdadeiro não pode abandonar a fé, essas palavras não passariam de uma advertência vazia, totalmente destituída de sentido.8  John Wesley acreditava que, nessa passagem, o autor estaria se referindo não a um pecado qualquer, mas à apostasia, e ele aplicou isso a cristãos. Wesley entendia que o texto estava se referindo a “qualquer um de nós cristãos" que pecamos contra Deus por uma apostasia total e voluntaria. Segundo ele, isso acontecia depois de havermos “recebido o conhecimento experimental da verdade do Evangelho", e, nesse caso, “não resta mais sacrifício pelos pecados”.9

"Mas uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários" (v. 27).
Para o apóstata, que voltou atrás, não resta mais nada a fazer, apenas esperar o juízo (Is 26.11).

"Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas” (v. 28).
O autor tem em mente as testemunhas descritas em Deuteronômio 17.6,7 e 19.15. Em Deuteronômio 13.6-11 e 17.2-7, estão as referências àqueles que se afastavam de Deus por quebrarem a sua Palavra. O expositor C. S. Keener observa que

“os mestres judeus reconheciam que todo mundo pecava de uma forma ou de outra; mas um pecado com o qual uma pessoa declarava: 'eu rejeito parte da palavra de Deus’, se considerava como equivalente rechaçar toda a Lei e se reconhecia como apostasia’’.10

"De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?” (v. 29).
Esse versículo detalha de forma específica o que é o pecado de apostasia. Em primeiro lugar, é um “pisar” no Filho de Deus. O vocábulo katapateô tem o sentido de "pisar”, "pisotear”. É o mesmo termo usado em Mt 5.13 para descrever o sal que foi pisado pelos homens por haver perdido o sabor. Lucas, no terceiro evangelho, usa esse vocábulo para descrever a semente que caiu à beira do caminho e foi pisada (Lc 8.5). Hughes diz que essa palavra indica tratar algo com o maior desprezo. Haubeck traduz como “fazer pouco caso”.11  Semelhantemente, Robertson destaca que se trata de uma “negligência cheia de escárnio, como em Zacarias 12.3. Veja a mesma ideia em Hb 6.6”.12  Em segundo lugar, o apóstata é alguém que "profanou” o sangue da aliança.13  O termo grego usado aqui é koinos, que tem o sentido de “tomar comum” ou "imundo". É a mesma palavra usada por Pedro quando teve a visão dos animais limpos e imundos (koinos) em Atos 10.14. Essa palavra também é usada em Apocalipse 21.27 para afirmar que nada "imundo’ entrará na Nova Jerusalém. O sentido, portanto, é o de alguém que desprezou o sangue de Cristo, não vendo na expiação, como diz Robertson, nada mais do que “uma religião de carnificina’’.14  O comentarista carismático C. S. Keener destaca que o autor tem em mente aqui o sangue de Cristo que santifica os cristãos (Hb 9.19-22) e, por outro lado, a concepção judaica que considerava o corpo de Cristo morto como um cadáver imundo (Dt 21.23).15  Em terceiro lugar, o apóstata é alguém que "ultrajou o Espí­rito da graça”. O verbo grego enybrizo (ultrajou) só ocorre aqui e tem o sentido de “tratar com muito desprezo, insultar arrogantemente".16  Robertson comenta dizendo que “é uma palavra forte para expressar o insulto ao Espírito Santo depois de ter recebido suas bênçãos (Hb 6.4)”.17  De forma semelhante, Adam Clarke comenta:

"O assunto refere-se a um apóstata deliberado — alguém que rejeita completamente a Jesus e seu sacrifício e renuncia a todo o sistema evangélico. Isso nada tem a ver com os desviados no uso comum do nosso termo. Um homem pode cair repentinamente em uma falta ou ainda deliberadamente andar em pecado e, porém, não rejeitar o evangelho nem negar ao Senhor que lhe comprou. Sua situação é temerária e perigosa, mas não sem esperança. O único caso sem esperança é do apóstata deliberado, que rejeita o evangelho, depois de haver sido salvo pela graça ou convencido da verdade do evangelho. Para o tal, já não resta mais sacrifício pelo pecado, porque já houve um, o de Jesus, e ele rejeitou-o por completo’’.18

"Porque bem conhecemos aquele que disse: Minha é a vingança, eu darei a recompensa, diz o Senhor. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo’’ (v. 30).
Esse versículo mostra a severidade do juízo divino para as pessoas descritas no versículo 29.

"Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (v. 31).
Aqui, o autor cita Deuteronômio 32.35,36, onde Deus fala de vingar-se contra seu próprio povo.

"Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições” (v. 32).
Esses crentes, que haviam sido iluminados (Hb 6.4-6), são novamente advertidos a fazer um retrospecto das suas vidas na fé. No início de suas caminhadas, eles suportaram lutas e tribulações por amor a Cristo, e esse fato deveria motivá-los a prosseguir.

"Em parte, fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações e, em parte, fostes participantes com os que assim foram tratados” (v. 33).
Não era possível esquecer a abnegação que demonstraram quando foram submetidos à prova. Eles foram expostos como espetáculo, vituperados e atribulados, mas, mesmo assim, permaneceram fieis. Por que retroceder agora?

“Porque também vos compadecestes dos que estavam nas prisões e com gozo permitistes a espoliação dos vossos bens, sabendo que, em vós mesmos, tendes nos céus uma possessão melhor e permanente” (v. 34).
O autor faz um elogio ao lembrá-los de que, enquanto ele estivera preso, os hebreus demonstraram cuidado com ele. E mais: eles haviam suportado com alegria o espólio de seus bens por acreditarem que possuíam um melhor tesouro no céu. O que estava acontecendo com essa fé que fora ousada?

“Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão” (v. 35).
Toda aquela ousadia, fé e confiança demonstradas no início da carreira cristã não deveriam, de forma alguma, ser abandonadas. Elas seriam recompensadas pelo Senhor.

“Porque necessitais de paciência, para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus, possais alcançar a promessa" (v. 36).
A promessa da Terra Prometida, a Canaã celeste, existe. Ela, porém, só é alcançada por aqueles que estão dispostos a fazer a vontade de Deus, demonstrando ser pacientes. A jornada é longa, e o cansaço e a fadiga podem deixar muitos pelo caminho.

“Porque ainda um poucochinho de tempo, e o que há de vir virá e não tardará” (v. 37).
A expectativa do autor — e também de todo cristão — é que o Senhor retorne logo. O tempo não existe para Deus, pois Ele é o Pai da eternidade; todavia, existe para os homens e, às vezes, devido às circunstâncias desfavoráveis, ele parece demasiadamente longo. Urge aguardar nas promessas de Deus.

“Mas o justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” (v. 38).
Nessa passagem, o autor já sinaliza do que irá tratar daqui para frente — a fé. Ele sabe que a fé é o elemento necessário para permanecermos caminhando na estrada da vida. Deus não demonstra prazer nos que recuam.

“Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que creem para a conservação da alma" (v. 39).
Como havia feito em Hebreus 6.9, o autor traz uma palavra de ânimo e consolação a seus leitores. O perigo de recuar, de cair da fé, é real, e não uma hipótese; ele, todavia, demonstrou como evitar isso. Os que continuam perseverando com ânimo e fé conservarão as suas almas.


Muitos são os privilégios da Nova Aliança, mas o acesso direto à presença de Deus, graças à mediação de Cristo, constitui o maior deles.


Notas
1 BRUCE, F. F. La Epistola a Los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan, EUA.
2 WEISER, Artur. Os Salmos - Grande Comentário Bíblico. Editora Paulus, São Paulo, 1994.
3 LAUBACH, Fritz. Hebreus - comentário bíblico Esperança. Editora Esperança.
4 GUTHRIE, Donald. Hebreus - introdução e comentário. Editora Vida Nova, São Paulo.
5 BRUCE, F. F. La Epistola a Los Hebreos. Libros Desafio, Grand Rapids, Michigan, EUA.
6 BRUCE, F. F. op.cit.
7 HEGNER, Donald. Hebreus - Comentário Bíblico Contemporâneo. Editora Vida, São Paulo.
8 O expositor Donald Hegner tem muita dificuldade em conciliar Hebreus 6.4-6 com Hebreus 10.26-29. Respondendo à pergunta se um cristão verdadeiro pode voltar atrás e perder a salvação, ele responde: "sim” e “não”. Ele admite que o texto de Hebreus 6.4-6 trata de cristãos autênticos ("é certo que as pessoas descritas nos versículos 4-5 são cristãs”, pp 109), mas, mesmo assim, transforma esse assunto num “paradoxo". Comentando Hebreus 6.4-6, ele admite que "os cristãos podem apostatar (cf. 2 Pe 2.20-22)”, mas diz que essas pessoas, as quais ele acabou de admitir serem cristãs, se caírem da fé é porque "nunca foram cristãos autênticos". Mas, novamente, ao comentar Hebreus 10.26, ele sugere que o texto refere-se a cristãos autênticos: "que esse pecado envolve o abandono total da fé, sabemo-lo pelas palavras depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade”. Em outras palavras, os cristãos autênticos, isto é, os que receberam o pleno conhecimento da verdade, podem cair da fé, mas, se caírem da fé, nunca foram cristãos autênticos! Não vejo argumento desse tipo como um paradoxo, mas, antes, como uma aporia. Uma contradição. Uma coisa ou "é” ou "não é", não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.
9 WESLEY, Jonh. Hebrews - Explanatory Notes & Commentary. Bristol Hot-Wells, January, 1754.
10 KEENER, C. S. Comentário dei Contexto Cultural de la Biblia. Editora Mundo Hispano.
11 Veja Chave Linguística do Novo Testamento (Vida Nova) e a Nova Chave Linguística do Novo Testamento Grego (Hagnos)
12 ROBERTSON, A. T. Comentário al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
13 A referência, aqui, é claramente aplicada a pessoas crentes, regeneradas e salvas, pois essas pessoas foram santificadas pelo sangue da aliança. Nenhum pecador é santificado pelo sangue de Jesus.
14 Idem.
15 KEENER, C. S. Comentário dei Contexto Cultural de la Biblia. Editora Mundo Hispano.
16ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento. Vida Nova.
17 ROBERTSON, A. T. Comentário Al Texto Griego Del Nuevo Testamento. Editorial CLIE.
18 CLARKE, Adam. Hebreos - Comentário de la Santa Biblia - Nuevo Testamento, tomo III. Casa Nazarena, Lenexa, EUA.

Fonte:
Livro de Apoio – A Supremacia de Cristo - Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus - José Gonçalves
Lições Bíblicas 1º Trim.2018 - A supremacia de Cristo - Fé, esperança e ânimo na Carta aos Hebreus - Comentarista: José Gonçalves

Aqui eu Aprendi!

quinta-feira, 8 de março de 2018

O Cristo crucificado: está consumado

“E Jesus, clamando outra vez com grande voz, entregou o espírito.” Mt 27.50

A morte de Cristo foi voluntária
Jesus não foi forçado à cruz. Nada fez contra a sua vontade. Submeteu-se à aflição espontaneamente. Humilhou-se até à morte, e morte de cruz. Deixou-se crucificar. Que graça espantosa por parte daquEle que tudo podia fazer para evitar tamanho suplício. Ele tinha o poder de entregar a sua vida e tornar a tomá-la – e de fato fez isso. Sim, eterno Salvador não foi forçado ao Calvário, mas atraído para ele, por amor a Deus e à humanidade perdida.

Sua morte foi vicária e sem dúvida, o profeta Isaías tinha em mente o cordeiro pascal, oferecido em lugar dos israelitas pecadores. Sobre a cabeça do cordeiro sem mancha realizava-se uma transferência dupla. Primeiro, assegurava-se o perdão divino mediante o santo cordeiro, oferecido e morto. Segundo, o animal, sendo assado, servia de alimentação para o povo eleito. O sacrifício de Cristo foi duplo: morreu para nos salvar, e ressuscitou para nossa justificação. Cristo também é o Pão da vida, o nosso ‘alimento diário’.

Sua morte foi cruel. Ele foi levado ao matadouro, esta palavra sugere brutalidade. Não é de admirar que a natureza envolvesse a cruz em um manto de trevas, cobrindo, assim, a maldade dos seres humanos” (SILVA, Severino Pedro da. Teologia Sistemática Pentecostal. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 156).

Depois de muito sofrimento e dor, a morte de Cristo, na cruz, proporciona a justificação de todo aquele que nEle crê.

Texto Bíblico – Mateus 27.32-37, 45-51

INTRODUÇÃO

O capítulo 27 do Evangelho de Mateus descreve o suicídio de Judas, o julgamento de Jesus, a sua crucificação e sepultura.  Mateus retrata com precisão os momentos que antecedem a crucificação, inclusive os horários dos acontecimentos. Tudo aconteceu conforme as Escrituras Sagradas e com a permissão de Deus.

Ao longo de sua viagem para Jerusalém, Jesus por três vezes anunciou a sua crucificação e morte (Mt 16.21; 17.22,23; 20.18). Então, o momento chega como Ele havia predito. Depois de um julgamento forjado e repleto de falsos testemunhos das autoridades religiosas e políticas, Jesus é condenado e conduzido à morte de cruz. Este é o tema que estudaremos na lição de hoje.


ACONTECIMENTOS                                             TEXTOS BÍBLICOS DO A.T.

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém.                  Is 62.11; Zc 9.9

A purificação do Templo.                                                       Is 56.7

Indicação de que haveria um traidor.                                   Sl 41.9

Na última ceia a alusão ao sangue da aliança.                   Êx 24.8

A prisão de Jesus e a fuga dos discípulos.                        Zc 13.7

Condenação à morte pelo Sinédrio.                                  Sl 31.11-13

Traição de Judas.                                                                  Zc 11.12

Flagelos de Jesus.                                                                 Is 50.6


I – CRUCIFICAÇÃO DE JESUS

1. A vida e o sofrimento de Jesus foi previsto nas Escrituras Sagradas.
O relato da vida e da obra de Jesus seguiu um plano previamente estabelecido pelo Senhor e que foi relatado já no Antigo Testamento. Observe o quadro acima:

Como podemos observar, a paixão e a ressurreição de Cristo são os fundamentos do cristianismo. Por isso, podemos encontrar referências a respeito deste assunto tanto no Antigo como no Novo Testamento.

2. Os flagelos e escárnios no caminho do Gólgota.
O caminho para a cruz foi um caminho de dor e tristeza, onde Jesus teve que enfrentar a zombaria e o escárnio. O sarcasmo a respeito da realeza de Jesus começou com os principais líderes religiosos (Mt 26.67; 27.39-44), continuou com os soldados e oficiais romanos, após a condenação à morte por Pilatos (Mt 27.27-31). A caminhada até o monte da crucificação foi marcada por atos de violência e opressão. Diante da fragilidade física de Jesus, devido aos maus tratos, Simão, o Cirineu, é obrigado a ajudar Jesus a carregar a cruz.

Ao chegarem ao lugar da crucificação é oferecido a Jesus vinho misturado com fel; tal mistura tinha um efeito entorpecente, mas, Jesus ao prová-lo, não quis beber. Mateus é o único evangelista que registra que antes de recusar, Jesus o prova.

3. A acusação de Jesus: “Rei dos Judeus”.
Como os demais crucificados, Jesus ficou pendurado até que, lentamente, as dores e a exaustão física os levassem a morte. Se a perda de sangue e as consequências da flagelação não o matassem, a asfixia o faria. A vítima, geralmente, ficava fraca demais e não conseguia levantar o corpo para respirar.

Mateus registra que os soldados repartiram as vestes de Jesus entre eles lançando a sorte (Mt 27.35), uma referência ao Salmo 22.18. Em cima de sua cabeça, na cruz, puseram uma tabuleta com a acusação contra Ele: “ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS”. Mais uma vez, Jesus é escarnecido e desprezado. Mas, no Dia do Senhor, todas as pessoas, de todas as nações, terão que se dobrar diante dEle para serem julgadas (Mt 25.31-34). Afinal, Ele é o Rei dos reis.

Ponto Importante
A partir da crucificação, as relações dos acontecimentos com o Antigo Testamento se intensificam, pois a paixão e a ressurreição são fundamentos da fé cristã.


II – MORTE DE JESUS

1. Morte de cruz.
A morte de cruz era desprezada pelos judeus e pelos romanos. Os judeus a rejeitavam por questões religiosas e os romanos por questões políticas. Para os judeus a morte de cruz era uma maldição (Dt 21.22,23). Por isso, os judeus não esperavam um Messias sofredor e muito menos um condenado à morte na cruz. Paulo afirma, quando escreve aos Gálatas, que Cristo nos resgatou da maldição da Lei, fazendo-se maldição por nós, morrendo na cruz (Gl 3.13). Ele faz uma referência a Deuteronômio 21.23.

Os romanos reservavam a morte de cruz somente para os inimigos políticos, pessoas consideradas rebeldes e subversivas que se recusavam a obedecer as ordens impostas pelas autoridades romanas. Essa morte era tão desprezível que um cidadão romano não poderia ser executado dessa forma.

2. A morte de Cristo foi necessária para a justificação da humanidade.
O primeiro clamor de Jesus na cruz demonstrou um grande desespero, e o texto utilizado por Mateus foi uma referência ao Salmo 22.1, onde o justo, ao enfrentar uma oposição obstinada de seus oponentes, não encontra uma solução aparente e se vê abandonado por Deus. Por isso, clama: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas das palavras do meu bramido e não me auxilias?” Jesus, neste momento, sente a separação de Deus, pois os pecados da humanidade estavam sobre si. Ao ouvir as palavras de Jesus, o povo pensou que Ele estava pedindo socorro a Elias (Mt 27.47). Por isso, mais uma vez zombam dEle. Então, o Salvador deu o seu último brado, ao entregar o espírito ao Pai. As palavras utilizadas por Jesus são uma referência ao Salmo 31.5: “Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade.”

3. A morte de Jesus rasgou o véu do Templo em dois.
Mateus não somente fala a respeito do véu que foi rasgado, mas também menciona o fato de ter havido um terremoto (Mt 27.51). O véu era símbolo da inacessibilidade do ser humano à presença de Deus. Ele tornava o sumo sacerdote o único intermediário entre Deus e o homem. Com a morte de Jesus o véu se rasgou, nos dando livre acesso ao Todo-Poderoso.

Jesus demonstrou que, por meio de sua própria vida e obra, cumpriu toda a Lei e os profetas. A obra de Cristo satisfez a justiça de Deus e conquistou o direito da justiça perfeita que é atribuída a todo o que crê e aceita o sacrifício vicário de Cristo.

Ponto Importante
O sacrifício vicário de Cristo foi perfeito e cumpriu a Lei. Por isso, não é mais necessário oferecer sacrifícios a Deus.

III – O SEPULTAMENTO DE JESUS

1. José de Arimateia.
Ele é apresentado pelos Evangelhos sinóticos como um homem rico, membro do Sinédrio, justo, bom e discípulo secreto de Jesus. Mateus informa que ele rompeu a barreira do anonimato ao pedir o corpo de Jesus a Pilatos. Os discursos de Jesus também alcançaram as pessoas da elite de Israel. João menciona que Nicodemos também foi com José de Arimateia sepultar Jesus.

Enquanto os discípulos mais próximos abandonaram Jesus após sua prisão, surge um discípulo secreto que se expõe e coloca em risco sua posição e a própria vida. Se o corpo não fosse requisitado, como costume, seria sepultado com os criminosos ou deixado para ser consumido por bestas selvagens e pássaros. Assim, dois discípulos secretos acabam por participar de um momento importante do término da missão terrena de Jesus, e para dar cumprimento às Escrituras como veremos a seguir.

2. Jesus é sepultado em túmulo emprestado.
José de Arimateia envolveu o corpo de Jesus em um lençol de linho. Ele e Nicodemos fizeram uma cuidadosa e completa unção do corpo, conforme o costume judaico, e depois o colocaram em um sepulcro novo, uma tumba talhada na rocha. João acrescenta que o sepulcro nunca havia sido usado e ficava em um jardim, próximo ao Gólgota, lugar estratégico devido ao pouco tempo para sepultamento (Jo 19.41). O que José de Arimateia não sabia é que o túmulo novo no domingo pela manhã já estaria vazio. José pode não ter tido coragem durante o ministério de Jesus, mas agora ele se expõe e entra para a história como o homem que emprestou a própria tumba talhada na rocha para sepultar Jesus, o Filho de Deus.

3. A guarda do sepulcro.
Duas mulheres permanecem ali sentadas, Maria Madalena e a outra Maria. Elas dão continuidade ao testemunho da morte e sepultamento de Jesus (Mt 27.55,56).  Os chefes dos sacerdotes também ficaram preocupados com o túmulo de Jesus. Os discípulos se esqueceram da promessa que Jesus havia feito de que ressuscitaria ao terceiro dia, mas estes não se esqueceram. Os chefes dos sacerdotes vão até Pilatos e pedem para que o túmulo seja guardado para evitar que os discípulos roubassem o corpo e testificassem uma suposta ressurreição. Pilatos atende ao pedido deles e envia um destacamento para selar o túmulo e guardá-lo. Indiretamente, eles acabaram por colaborar com a comprovação da ressurreição de Jesus.


SUBSÍDIO
“José de Arimateia, conseguiu permissão de Pilatos para tirar o corpo da cruz. E, com Nicodemos, levando quase cem arráteis dum composto de mirra, aloés, envolveram o corpo do Senhor em lençóis com as especiarias, como era costume dos judeus. Havia no horto daquele lugar um sepulcro em que ainda ninguém havia sido posto. Ali puseram Jesus (Jo 19.38-42). Sepultar os mortos era considerado um ato de piedade. Também era comum que se sepultassem os mortos no mesmo dia de seu falecimento. O corpo de um homem executado não tinha permissão para ficar pendurado na cruz a noite inteira (Dt 21.23), pois isso, para a mente judaica, poluiria a Terra. Às seis horas, começaria o sábado da semana da Páscoa, durante a qual estava proibida qualquer execução” (SILVA, Severino Pedro da. Teologia Sistemática Pentecostal. 1.ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2008, p. 156).


CONCLUSÃO

Nesta lição aprendemos que Mateus demonstra que o sofrimento, o escárnio e a crucificação de Jesus aconteceram segundo o que estava previsto nas Escrituras Sagradas. A morte de cruz, desprezada pelos judeus e romanos, passou a ser motivo de vitória e vida eterna para todos aqueles que creem, mediante a justificação alcançada por Cristo.



Fonte: Lições Bíblicas Jovens - 1º Trimestre de 2018 - Título: Seu Reino não terá fim — Vida e obra de Jesus segundo o Evangelho de Mateus - Comentarista: Natalino das Neves

Leia também:
Aqui eu Aprendi!
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